9ª.Parte CRENDICES DOS INDÍGENAS...
A Jurema sagrada – Resiliente religião de matriz indígena do
Nordeste do Brasil
Alexandre L’Omi L’Odò
Classificar a Jurema não é tarefa fácil. Para explica-la de
forma detalhada, seria necessário um texto de muitas laudas. Aqui, de forma
muito resumida, introduzirei este tema. A Jurema Sagrada é uma religião de
matriz indígena do Nordeste do Brasil. Sua prática já existia em nossas terras
antes da chegada dos colonizadores portugueses e dos escravizados africanos no século
XVI, pois os indígenas aqui já estavam.
A pouca documentação histórica que relate as práticas
religiosas destes índios nos séculos XVI a XX nos deixaram uma lacuna difícil
de ser preenchida por completo no campo comum da história.
Por outro lado, a permanência da forma de ser indígena na
nossa língua, comida, imaginário e religiosidade, comprova o que os documentos
não registraram — afinal eram escritos pelos colonizadores opressores brancos.
Os terreiros de Jurema, maior livro oral acerca da cultura indígena e, de certo
modo, africana, demonstram a tradição em seus traços culturais e filosóficos,
nos limites da antropologia, sociologia e da história.
Os cânticos sagrados dos terreiros são um dos elementos mais
fortes de preservação do “ser da matriz indígena”, na Religião da Jurema. Neles
podemos ver a história desse povo cantada sistematicamente, em linhas melódicas
que revelam a sua filosofia e imaginário.
Conhecida nas décadas de 1930 a 1970 pelos antropólogos
também como Catimbó, esta prática religiosa se manteve viva, mesmo após todo o
holocausto indígena que dizimou quase por completo as diversas
etnias/civilizações deste país. Contudo, sua presença e força no mundo urbano
das cidades do Nordeste, sobretudo, em Recife e Região Metropolitana, é muito
forte.
Essa potência nos revela a sua presença resiliente e que
resiste aos séculos, se resinificando e se imbricando em outras religiões.
Tudo isso, para desenvolver a complexa dinâmica de sobrevivência de suas
práticas neste ocidental, capitalista, judaico-cristão, racista e
embranquecido.
A religiosidade da Jurema tem como tronco central
juremológico uma árvore sagrada: a Jurema Preta (mimosa hostiles ou mimosa
tenuiflora). Esta árvore, que ao mesmo tempo é elemento essencial para o
preparo da bebida sagrada de feitos transcendentais psicoativos de mesmo nome,
também é elemento mitológico que compõe o centro do mundo encantado das Cidades
da Jurema (que seriam sete, quatorze ou vinte e um reinos e cidades
encantadas/espirituais).
Composta de um largo cabedal de saber medicinal, a Jurema
tem em seus sacerdotes (juremeiros e juremeiras) o hospital dos pobres, afinal,
onde o Estado não chega com políticas públicas de saúde, lá esta a Jurema para
curar nas comunidades marginalizadas onde ela resiste até hoje. O cachimbo e o
maracá são os elementos identitários mais visíveis materialmente da presença
indígena nesta religião.
Com forma e metodologia própria, os juremeiros e juremeiras
se utilizam destes elementos de poder e “ciência” para manipular magicamente o
seu mundo. A fumaça é teologicamente uma das forças mais importantes desta
tradição. Ela é a responsável pelo contato com o mundo espiritual e por ser a
forma de poder mais eficaz da tradição, utilizada para todos os fins e desejos.
A Jurema não é Umbanda. Muitas pessoas as confundem, mas
elas não podem ser confundidas. A Umbanda tem 109 anos de existência no Brasil,
a Jurema já estava aqui séculos antes. Esta é a primeira diferença. As demais
são que a Jurema se utiliza de elementos próprios que não são ligados às
práticas umbandistas, como o cachimbo, o tronco da jurema, os mestres e
encantados etc. Portanto, não devemos confundi-las. Creio que o que os
pesquisadores queiram dizer sobre a Umbanda no Nordeste, careça de maior
observação. Cabendo, talvez, a possibilidade de que não haja uma umbanda nesta
região, mas sim uma Jurema umbandizada, a partir provavelmente da década de
1950.
A Jurema tem forte presença hoje em PE, PB, e RN. Sendo
encontrada também em AL, SE e CE. Em Pernambuco, segundo os dados do último
mapeamento dos terreiros (2010), a Jurema é mais de 70% dos 1.261 terreiros
entrevistados. A partir daí podemos perceber que ela embora “desconhecida”, é
pujante e predominantemente forte em Recife e RM, ocupando seu espaço e
dialogando com o mundo contemporâneo como qualquer outra religião, de forma
dinâmica e não estática. Muito temos para falar sobre a Jurema, em minha
dissertação de mestrado intitulada Juremologia: uma busca etnográfica para
sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada, pude escrever
mais sobre o tema em 300 páginas de estudos no campo da história e ciências da
religião.
“Jurema Preta senhora rainha, és dona da Cidade, mas a chave
é minha. É tupereneguê, é tuperenaguá, salve o povo da Jurema, deixa os mestres
trabalhar”.
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