Babás Negras 4ª.Parte
Presente em todos os momentos da história do país, a babá
negra é uma importante personagem para entender as relações de desigualdade que
perturbam e atrasam o desenvolvimento do país
O trabalho de babá (cuidadora) e servidora doméstica é,
ainda hoje, uma das formas mais recorrentes de inserção da mulher negra no
mercado de trabalho. Segundo o IPEA, essas funções são responsáveis pelo
emprego de aproximadamente 22% das mulheres de cor negra.
A quantidade significativa de negras nessa área não é
coincidência, mas, sim, resultado de um processo histórico de formação nacional
ligado ao escravismo e ao funcionamento desse sistema.
As babás eram conhecidas no período colonial como Amas de
Leite. Mulheres escravizadas eram levadas para amamentar os filhos brancos dos
donos de engenhos e fazendeiros. Muitas vezes, esse trabalho era comercializado
para outras fazendas, o que estafava os seios dessas mulheres e secava suas
glândulas, fazendo com que não sobrasse um único pingo de leite para os
próprios filhos.
Durante o período da escravidão, a maioria dessas mulheres
teve a ingrata missão de criar os filhos brancos da elite do país, muitas
vezes, perdendo seus próprios filhos, os quais eram vendidos, e ficavam sem ter
direito à própria mãe e a uma infância minimamente decente.
Com a abolição da escravidão, o mercado de trabalho
continuou atribuindo essa função às mulheres negras, só que, ao invés da
senzala, elas foram habitar as periferias das cidades e passaram a se locomover
até a casa do patrão através dos veículos precários e superlotados do
transporte público.
Mudaram os trapos cedidos pelos senhores de engenho pelo
uniforme branco, item com a função perversa de distinguir sua posição social
subalterna em lugares de prestígio que as elites brancas frequentam, como
clubes, haras e praias do Leblon. Nesses mais de 100 anos do fim legal da
escravidão, a mulher negra continuou criando filhos brancos sem pertencer à
família que a emprega, continuou, por falta de condições, deixando seus filhos
nas periferias das pequenas e grandes cidades para olhar e educar os meninos
brancos das áreas nobres da cidade.
Por toda essa trajetória, de grande sofrimento e
persistência, em condições muitas vezes humilhantes de trabalho, com o
agravante de abdicar de parte da educação e vida dos filhos para ver crianças
de outra cor e origem crescerem, tendo as oportunidades que seus rebentos nunca
terão, é que as babás negras fazem parte da construção social do nosso país, e
merecem toda nossa atenção e o singelo, mas saudoso adjetivo de guerreiras.
Salve todas as babás, salve todas as negras!
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Dionê Leony Machado






