O Evangelho é a verdade pública
Depois de ter cruzado oceanos para proclamar Cristo entre
politeístas, muçulmanos e marxistas, em 1970, em sua terra natal, Lesslie
Newbigin escreve: "De repente, descobri que o verdadeiro campo missionário
está aqui".
Por Stephen White
Ao desembarcar do trem em Birmingham, em meados da década de
1970 – pasta na mão, coluna ligeiramente curvada por anos de viagens pastorais
no sul da Índia – Lesslie Newbigin esperava uma vida mais fácil do que a que
encontrara em seu trabalho missionário. Afinal, aquela era a Inglaterra, um
país cristão.
O horizonte de Birmingham, uma cidade que outrora prosperara
com a indústria, agora parecia cansado, sufocando em uma cultura que trocara
catedrais pelo consumismo. As chaminés estavam sendo demolidas. As congregações
estavam diminuindo. As igrejas permaneciam como sítios históricos
negligenciados, frequentadas pelos fiéis, ignoradas pelas massas.
Newbigin ficou atônito. Ele havia cruzado oceanos para
proclamar Cristo entre politeístas, muçulmanos e marxistas – nenhum dos quais
compartilhava sua visão de mundo, mas todos profundamente preocupados com
questões de verdade e salvação. Houveram debates acalorados. Ele prosperou. O
evangelho prosperou. Agora, em sua terra natal, ele se deparava com o fato de
que ninguém fazia essas perguntas. "De repente, descobri", escreveria
ele mais tarde, "que o verdadeiro campo missionário está aqui."
Esta foi uma crise espiritual – uma crise na qual a própria
categoria de “verdade” havia entrado em colapso, e o cristianismo fora
reclassificado de uma afirmação pública para uma opinião privada. O evangelho
não fora rejeitado por ser considerado falso, mas porque deixara de ser visto
como interessante.
Nascido em 1909 no nordeste da Inglaterra, filho de uma
próspera família presbiteriana, Newbigin atingiu a maioridade no longo
crepúsculo da cristandade britânica. As sementes de uma fé vibrante foram
plantadas durante seus estudos em Cambridge, principalmente por meio do
Movimento Estudantil Cristão. Lá, o evangelho o impactou profundamente – não
apenas como um sistema de crenças, mas como um chamado: “A igreja”, escreveria
ele em Foolishness to the Greeks, “não tem o propósito de chamar homens e
mulheres para fora do mundo, para um enclave religioso seguro, mas de
convocá-los para fora, a fim de enviá-los de volta como agentes da realeza de
Deus”.
Após se formar no Westminster College, e recém-casado com
Helen Henderson – uma mulher de notável força e intelecto – Newbigin embarcou
para a Índia em 1936 sob os auspícios da Igreja da Escócia. A Índia que o
aguardava era uma nação volátil e pluralista. O movimento de desobediência
civil de Gandhi estava abalando a ordem colonial. O hinduísmo e o islamismo
definiam o panorama religioso. Embora São Tomé, segundo relatos, tivesse
estabelecido congregações ali no primeiro século, e os cristãos Mar Thoma
tivessem sido uma parte ativa do ramo ortodoxo oriental da igreja desde então,
eles eram comparativamente poucos em número e em grande parte confinados ao
estado de Kerala, no sul do país. O cristianismo, especialmente em sua forma
anglicana, era frequentemente visto com suspeita: seria realmente uma boa
notícia ou apenas mais um instrumento do império?
Newbigin logo descobriu que não havia chegado como um
emissário da verdade politicamente neutro. Ele viera como um estrangeiro, um
homem branco e – ainda que involuntariamente – um agente de uma ordem imperial
em ruínas. Seu sotaque, sua formação, até mesmo sua eclesiologia carregavam um
peso cultural. Os moradores locais faziam questão de que ele soubesse disso.
Um professor hindu perguntou-lhe certa vez, com uma
franqueza desconcertante: "Por que você acha que precisamos do seu Deus se
vivemos há séculos com o nosso?". Em outra aldeia, um recém-convertido ao
cristianismo foi violentamente expulso por sua família.
Isso mudou completamente sua abordagem. “Temos que pregar o
evangelho”, disse ele, “não como uma proposição, não como um argumento, mas
como a história do mundo.” O cristianismo não é algo que uma cultura iluminada
deve dar a uma cultura ainda não iluminada. É um drama para o qual todas as
culturas são convidadas, mas que também desafia todas as culturas, inclusive
aquela que o carrega.
Newbigin veio para mudar a Índia. Mas a Índia o mudou: de um
portador da cristandade a uma testemunha de Cristo, de alguém que ensinava o
evangelho como sabedoria ocidental a alguém que aprendeu a deixar o evangelho
falar por si mesmo em outra língua.
Essa recalibração radical atingiu sua plena expressão em
1947 – o ano em que a Índia conquistou sua independência e em que Newbigin foi
consagrado bispo na recém-formada Igreja do Sul da Índia. Enquanto as
estruturas coloniais eram desmanteladas, a igreja passava por uma reforma
paralela. A Igreja do Sul da Índia foi uma declaração de que as divisões
denominacionais importadas do Ocidente não eram mais toleráveis.
Anglicanos, metodistas, presbiterianos e congregacionalistas
formavam um único corpo. E Newbigin, agora bispo da Diocese de Madurai Ramnad,
dedicou-se a pastorear um mosaico de congregações que se estendia por centenas
de aldeias. Viajou de trem, de carroça e a pé. Sentou-se em pisos de barro e
comeu em folhas de bananeira. Sua teologia não foi forjada em salas de aula,
mas em reuniões de oração, batismos ao ar livre e visitas pastorais. Segundo
Newbigin, o evangelho não funciona como uma força externa imposta à sociedade,
mas sim opera organicamente de dentro para fora, enraizando-se na cultura para
promover a transformação.
Foi nesse contexto que surgiu uma de suas percepções mais
duradouras: a própria igreja é a hermenêutica do evangelho. Isso significa que
a igreja é o sinal, o instrumento e o antegosto do reino.
Quando Lesslie Newbigin retornou à Grã-Bretanha após quatro
décadas no sul da Índia, sentiu-se como um missionário entrando em uma nova
cultura – uma cultura estranhamente mais resistente ao evangelho do que a Índia
politeísta e politicamente instável que havia deixado para trás. Ele assumiu um
cargo na Winson Green United Reformed Church, em Birmingham, um bairro operário
e multiétnico que sofria com o declínio econômico. Newbigin pregava para
congregações cada vez menores, visitava os enfermos, orava com os
marginalizados e se dedicava a um árduo trabalho pastoral.
A apatia que ele encontrou não era benigna. Era, em suas
palavras, “muito mais corrosiva para a fé do que a oposição”. A atmosfera
predominante era de um horizonte fechado, no qual as reivindicações religiosas
não eram tanto debatidas, mas sim descartadas.
Ele começou a escrever e a dar palestras com renovada
urgência. Em O Evangelho em uma Sociedade Pluralista (Ultimato, 2016), ele
convocou a igreja no Ocidente a resgatar sua identidade como uma comunidade
missionária dentro de sua própria cultura. Segundo Newbigin, a vocação da
igreja não é apresentar-se como uma alternativa atraente entre inúmeras
possibilidades. Em vez disso, seu propósito é dar testemunho da verdade
encarnada em Jesus Cristo.
O Ocidente, afirmava ele, não se tornara menos religioso,
mas adotara um novo conjunto de doutrinas, autoridades e códigos morais. O
Iluminismo, apesar de todos os seus avanços, impusera um novo tipo de ortodoxia
– uma em que a verdade devia ser científica, o valor devia ser subjetivo e a fé
devia ser mantida em privado. Isso não era neutralidade religiosa. Era uma
visão de mundo com suas próprias afirmações absolutas – só que essas afirmações
se disfarçavam como razão.
Newbigin se referiu a isso como a “cultura da descrença”.
Não que o cristianismo tivesse sido racionalmente desacreditado. Em vez disso,
as estruturas de plausibilidade da sociedade haviam mudado, de modo que a
crença no evangelho agora parecia implausível.
Newbigin respondeu insistindo no que chamou de “o evangelho
como verdade pública”. A afirmação cristã não é apenas uma consolação privada
ou uma história tribal é uma afirmação sobre o mundo real – que em Jesus
Cristo, Deus agiu decisivamente na história para redimir a criação. Se isso é
verdade, deve ser proclamado e vivido publicamente – não imposto, mas oferecido
com coragem, humildade e alegria.
Newbigin não tinha interesse em estabelecer uma teocracia.
Ele havia visto em primeira mão na Índia o que acontece quando a religião se
entrelaça com o poder político. O que ele queria, em vez disso, era uma
confiança moldada pela ressurreição. A igreja deve viver de tal forma que as
pessoas de fora comecem a se perguntar: "Em que tipo de história essas
pessoas estão vivendo?"
No cerne da epistemologia de Newbigin estava a ressurreição.
Não se tratava apenas de um evento sobrenatural; era o apocalipse – a revelação
da realidade, a proclamação de uma vitória.
Jesus estava vivo. A história havia mudado fundamentalmente.
César não detinha mais a palavra final. A morte não estava mais no controle. O
túmulo estava vazio, e o mundo nunca mais seria o mesmo.
Perto do fim de sua vida, Newbigin levantou uma questão que
ainda persiste: o Ocidente pode ser convertido? A resposta não era garantida. A
cultura ocidental havia se tornado confortável, autossuficiente e moralmente
confusa. No entanto, ele também acreditava em um Deus que ressuscita os mortos.
Ele argumentava que a conversão não aconteceria por meio de
coerção, marketing inteligente ou nostalgia. Aconteceria por meio do amor
cruciforme – o amor que sofre, o amor que perdoa, o amor que convida.
Aconteceria quando a igreja parasse de tentar impressionar e, em vez disso,
começasse a ser fiel.
A igreja não precisa vencer. Ela precisa testemunhar –
demonstrar por meio de sua vida, sua alegria, seu sofrimento, sua esperança –
que Jesus Cristo é o Senhor.
Esse testemunho nem sempre será compreendido pela cultura
circundante. Pode provocar hostilidade ou indiferença. Mas se for genuíno – se
tiver a forma de uma ressurreição – não poderá ser ignorado para sempre.
Newbigin faleceu em 1998, justamente quando a igreja
ocidental começava a perceber a gravidade da crise que ele havia identificado
décadas antes. Sua influência só cresce. Teólogos de diversas tradições –
reformada, anglicana, anabatista, católica e ortodoxa – foram influenciados por
sua obra. Pensadores como N.T. Wright, Timothy Keller e Stanley Hauerwas foram
moldados pelas ideias de Newbigin. Contudo, seu impacto mais significativo
talvez seja sentido não no meio acadêmico, mas em pequenas congregações que optaram
por resgatar sua essência como igreja: não glamorosa ou poderosa, mas fiel.
Seguir o exemplo de Newbigin é confiar naquilo em que ele
confiava: que o evangelho é verdadeiro, que a igreja é o instrumento escolhido
por Deus e que o Espírito ainda está agindo. É crer que o túmulo está realmente
vazio e que nenhuma cultura – por mais desencantada que seja – está além do
alcance da graça.
Michael Goheen resumiu a descrição de Newbigin sobre a
igreja como uma comunidade de louvor em um mundo de dúvidas, uma comunidade de
verdade em um mundo de ideologia, uma comunidade de esperança em um mundo de
desespero. Essa, certamente, é a igreja de que o mundo ainda precisa hoje.
Não é uma igreja perfeita. Não é uma igreja poderosa. Mas é
uma igreja em que vale a pena acreditar.
Porque Cristo ressuscitou, e o mundo, mesmo agora, está
sendo renovado.
Stephen White é um pastor aposentado, ex-superintendente de
escola cristã e vice-presidente de um ministério urbano em San Jose,
Califórnia.
Artigo publicado originalmente no site Plough. Reproduzido
com permissão.
Tradução: Ana Laura Morais
Imagem: Unsplash