Desde a Queda, tudo o que podia deu errado. Inclusive a
religião
Por Paulo Ribeiro
Desde a primeira rebelião da humanidade, todas as esferas da
civilização foram afetadas pela Queda. Famílias se desfizeram. Governos
tornaram-se opressores. Mercados recompensaram a ganância. Universidades, por
vezes, trocaram a busca pela verdade pela ideologia.
A ciência, ocasionalmente, serve à destruição em vez da
sabedoria. A tecnologia amplifica tanto a criatividade quanto a crueldade. A
política dividiu o que prometeu unir. E a religião – a própria instituição
encarregada de proclamar a santidade de Deus – também foi corrompida.
Eventos recentes no Brasil servem como lembretes dolorosos
de que até mesmo pastores e líderes religiosos podem se envolver em fraudes,
exploração financeira, abuso de poder e outros crimes graves. Tais escândalos
naturalmente provocam indignação pública. No entanto, não deveriam surpreender
ninguém que compreenda a doutrina bíblica da Queda.
O cristianismo jamais ensinou que pessoas religiosas sejam
incapazes de praticar o mal. Muito pelo contrário. O próprio Mestre usou a
expressão “sepulcros caiados” para denunciar uma religiosidade exteriormente
respeitável, mas interiormente corrompida.
C. S. Lewis expressou isso com sua franqueza característica:
"De todos os homens maus, os homens religiosos maus são os piores".
Seu argumento não era que a religião é pior do que a irreligião, mas que,
quando o orgulho se reveste de certeza religiosa, a própria consciência se
distorce. Uma pessoa que acredita que Deus aprova suas ambições pode justificar
quase qualquer coisa. O mal torna-se especialmente perigoso quando se veste com
a linguagem da virtude.
A lição vai muito além da religião. O mesmo coração caído
que corrompe o púlpito também corrompe o parlamento, o tribunal, a
universidade, o laboratório, a empresa e o mercado. As instituições não nos
salvam, pois são compostas por pessoas como nós. Inevitavelmente, levamos
nossas virtudes – e nossos vícios – para tudo o que construímos.
Contudo, Lewis insistiria que a corrupção não é uma prova
contra as dádivas de Deus. Dinheiro falso comprova a existência de moeda
verdadeira. Da mesma forma, a hipocrisia religiosa não refuta a existência de
Deus; a ciência corrompida não invalida a verdade; juízes desonestos não anulam
a justiça. O abuso de algo bom jamais invalida o seu uso correto. Ele
simplesmente nos lembra de que o problema humano mais profundo não é
institucional, mas espiritual, e que o remédio definitivo não é meramente a
reforma, mas a redenção.