As ilhas que não perderam
Quando o árbitro soprou o apito final, a Argentina seguia
adiante. Cabo Verde , por que meu Deus? ficava pelo caminho.
Mas há derrotas que mentem.
Porque o futebol, às vezes, escreve sua verdade longe do
marcador. Escreve-se nas ruas de Praia, onde os olhos ainda brilhavam apesar
das lágrimas. Escreve-se nas crianças que descobriram que um país pequeno pode
caber inteiro dentro de uma bola. Escreve-se nas mãos calejadas dos pescadores,
nas mulheres , divas de pés descalços que cantam na voz sublime de Cesária
Evora enquanto esperam o regresso dos barcos, nos velhos que aprenderam que a
esperança é uma embarcação que nunca deixa de procurar porto.
Hoje vi Cabo Verde.
Vi a sua história feita de vento e de sal.
Vi a coragem de um povo acostumado a transformar escassez em
música, distância em saudade, saudade em beleza.
Talvez por isso aprendemos hoje que a alegria nunca foi
ausência de dor; foi sempre a arte de dançar com ela.
Estava, agora há pouco, nas ruas de Praia, chorando,
sorrindo, orgulhosos
“Ainda estamos aqui.”
Lembrei-me de Mia Couto, que tantas vezes parece escrever
para todas as margens africanas quando nos ensina que “o caminho não se encontra;
constrói-se caminhando.”
E que caminho construiu Cabo Verde.
Chegou à Copa do Mundo não como um acidente da história, mas
como um milagre trabalhado todos os dias. Cada treino.
Hoje todos somos Vozinha, todos somos Lopes Cabral que ao
desenhar o gol mais lindo da Copa lembrou- se que o melhor lugar do mundo cabe
no abraço e beijo da mulher amada,ninguém no mundo comemorou um gol dessa
maneira.
Hoje , cabo veríamos, meninos descalços perdemos para uma
gigante.
Mas obrigamos a gigante a respeitar a nossa alma.
Cabo Verde conquistou afetos.
Enquanto muitos disputarão apenas estatísticas, os
cabo-verdianos guardarão algo que não cabe em nenhuma tabela: a memória de
terem feito o mundo inteiro olhar para um pequeno conjunto de ilhas e descobrir
que a grandeza nunca depende do tamanho.
As lágrimas que vi em Praia não eram apenas de tristeza.
Eram lágrimas de quem compreendeu que o sonho, quando é
verdadeiro, não termina no último minuto.
Ele regressa com a maré.
Regressa na próxima criança que chutará uma bola entre casas
coloridas.
Regressa na próxima morna que falará de amor, de ausência e
de regresso.
Porque as ilhas conhecem um segredo que os continentes às
vezes esquecem:
o mar nunca separa quem aprendeu a navegar.
E talvez seja essa a mais bela vitória de Cabo Verde.
Não ter chegado apenas às oitavas de final.
Ter chegado ao coração do mundo.
E, quando o silêncio finalmente cobriu o estádio, parecia
que o próprio Atlântico embalava aquelas ilhas com um canto antigo, repetindo
baixinho:
“Há derrotas que diminuem os homens. E há derrotas que
revelam a sua imensidão.”
Hoje, Cabo Verde pertence definitivamente a essa segunda
categoria.

