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Saudade
A
saudade não é exclusividade do português.
Repetida
durante séculos, esta lenda ignora as formas que outras línguas têm para
expressar um sentimento universal. Confira um glossário de como se diz
“saudade” em outros idiomas
Mariana
Payno
@GAMAREVISTACULTURAHISTÓRIALITERATURA
Qual é
o brasileiro que nunca sentiu uma pontinha de orgulho patriota quando se afirma
que a palavra “saudade” só existe em língua portuguesa? O sentimento é tão caro
à nossa cultura — bastam alguns segundos para lembrarmos cinco ou seis músicas
com esse tema — que acabamos esquecendo que ele é compartilhado. Para começar,
com quem lhe chama pelo mesmo nome: os portugueses. Afinal, a palavra chegou
por aqui imposta pelos colonizadores, e eles também a reivindicam. “O discurso
sobre a saudade é tradicional na nossa cultura, ou seja, a crença de que a
saudade é algo muito português”, diz Gama o tradutor e professor da Universidade
Nova de Lisboa Marco Neves. “Essa crença é tão forte que leva alguns a querer a
palavra só para eles, sem a emprestarem sequer aos brasileiros.”
Bem,
isso já foi feito há mais de 500 anos. Mas o apego dos portugueses tem base: de
fato, não faltam símbolos da saudade naquela cultura. Se nós temos os sambas,
bossas e sertanejos que lamentam a sensação tão particular de falta, eles têm o
fado, ritmo saudosista por excelência. Em terras lusitanas, o sentimento
enraizou-se há muito tempo, fortalecido por uma história de adeuses e
navegações sem volta e recontado século após século na tradição literária.
Em
terras lusitanas, o sentimento enraizou-se há muito tempo, fortalecido por uma
história de adeuses e navegações sem volta.
E a
noção de que, por tudo isso, apenas a língua portuguesa seria capaz de
expressar a saudade em palavra também não é de hoje. Quem primeiro registrou
essa ideia foi o gramático, historiador e jurista lusitano Duarte Nunes de
Leão, no livro “A Origem da Língua Portuguesa”, de 1601. Ele descreve a saudade
como um “aspecto próprio dos portugueses” e afirma que “não há língua em que da
mesma maneira se possa explicar [a saudade], nem ainda por muitas palavras”. A
partir desse registro, a teoria foi sendo repetida e ecoada ao longo dos
séculos, como conta Vanessa do Monte, professora e pesquisadora do Departamento
de Letras Clássicas e Vernáculas da USP. “Era uma ideia que circulava em
Portugal naquela época +, que o Nunes de Leão registrou e que serviu muito bem
para dizer que havia algo tipicamente português.”
Saudade
é intraduzível?
Por
trás dessa lenda que sobreviveu ao tempo se esconde o debate, não tão antigo
quanto ela, mas já velho conhecido dos linguistas, sobre as intersecções entre
língua e cultura. “Dizer que a palavra é própria de uma língua implica dizer
que o sentimento é próprio de um povo, o que não corresponde exatamente à
realidade”, diz Do Monte. Ainda assim, alguns estudiosos baseiam nisso o
conceito de palavras intraduzíveis, que seria o caso de “saudade”. “Essas
palavras frequentemente representam valores, prioridades e tradições
particularmente associadas a uma cultura, mas não a outra”, diz a Gama Tim
Lomas, pesquisador em psicologia da Universidade de Londres e criador do
projeto The Positive Lexicography.
Muitos
linguistas, porém, discordam e questionam tanto a relação “direta e simplista”
entre língua e cultura quanto a própria noção de que existiriam palavras
impossíveis de traduzir. “É difícil comunicar certos sentimentos ou ideias. Mas
se conseguirmos dizer alguma coisa numa língua, haverá certamente um tradutor
que conseguirá, pelo menos, explicar por outras palavras o que queríamos
dizer”, afirma Marco Neves. “A não ser que estejamos convencidos de que a
tradução é uma mera substituição palavra por palavra.”
Dizer
que a palavra é própria de uma língua implica dizer que o sentimento é próprio
de um povo
O que
não parece ser o caso, já que um mesmo conceito pode ser representado em
diferentes construções ou classes gramaticais a depender de cada língua, como
explica Paulo Chagas, professor do Departamento de Linguística da USP. “Você
colocar um sentimento ou sensação como substantivo, verbo, adjetivo são formas
de apresentar. Não é que você não consegue dizer aquilo em determinada língua”,
diz. Em inglês, francês e italiano, por exemplo, não há um substantivo como
“saudade”, mas esse sentimento aparece em expressões verbais: “I miss you”, “tu
me manques” e “mi manchi”. Outras línguas têm adjetivos ou mesmo substantivos
correspondentes a nossa “saudade” que, afinal, não parece ser um sentimento tão
intraduzível para outros povos e nem uma exclusividade da língua portuguesa.
Eis alguns exemplos:
Galego:
SAUDADE
É isso
mesmo. Basta um dicionário de galego para derrubar a tese de que “saudade” só
existe em língua portuguesa. Nessa língua (bem parecida com a nossa, é
verdade), se usa exatamente a mesma palavra para expressar o “sentimento
profundo de perda ou aguda nostalgia de algo já vivido e que se considera
desejável”.
Romeno:
DOR
“Forte
desejo de rever alguém ou algo querido” ou “sofrimento causado pelo amor por
alguém que está longe”. Essas são as definições do Dicionário Explicativo da
Língua Romena para a palavra “dor”, substantivo que parece uma tradução exata
de “saudade” e ainda soa um tanto dramático para os falantes de português. Não
nos enganemos: apesar de grafadas da mesma forma e da origem em uma língua
comum, a “dor” do romeno e a “dor” do português vêm de palavras diferentes do
latim.
Tcheco:
STESK
No
livro “A Ignorância”, o escritor tcheco Milan Kundera fala da saudade em sua
língua: “Os tchecos (…) têm para a noção seu próprio substantivo, ‘stesk’, e
seu próprio verbo; a frase de amor mais comovente em tcheco: ‘styska se mi po
tobe’: sinto nostalgia de você”. Segundo o professor Paulo Chagas, essas
palavras em tcheco estão relacionadas a uma noção de “apertar em mim”. “Sinto
nostalgia de você” não seria aquele aperto no peito que a saudade dá?
Japonês:
NATSUKASHII
Curiosamente,
o mesmo The Positive Lexocography que lista “saudade” como uma palavra
intraduzível do português traz o adjetivo japonês “natsukashii” como outra
noção difícil de traduzir. A definição, porém, é bem próxima do que entendemos
por “saudade”: “um anseio nostálgico pelo passado, com felicidade pela
lembrança, mas tristeza por não ser mais”.
Espanhol:
AÑORANZA
O
espanhol tem três expressões verbais para exprimir o sentimento despertado pela
falta de algo ou alguém. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, tanto
a locução “echar de menos” quanto os verbos “extrañar” e “añorar” carregam esse
sentido. O último, embora seja uma forma mais erudita, dá origem ao substantivo
“añoranza”, cuja definição parece muito a da nossa “saudade”: a ação de
recordar com pesar a ausência, privação ou perda de alguém ou algo muito
querido.
Alemão:
SEHNSUCHT
Os
alemães têm o substantivo “Sehnsucht”, traduzido pelo dicionário Pons justamente
como “saudade”. No início do século 20, a filóloga portuguesa Carolina
Michaëlis de Vasconcelos já havia notado a correspondência entre as duas
palavras: “em ambas vibra maviosamente a mágoa complexa da saudade; a lembrança
de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar
no presente, ou só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro
tornar ao estado antigo de felicidade”.
Guaná
ou Chané: INANGUÔRÓ
Aparentemente
não são só os brasileiros falantes de português que têm o privilégio da palavra
“saudade”. Um vocabulário da língua indígena Guaná ou Chané disponibilizado
pela Biblioteca Digital Curt Nimuendaju lista a palavra “inanguôró” como
equivalente à portuguesa.
Islandês:
SÖKNUDUR
A
canção “Söknudur” (1977), do compositor islandês Jóhann Helgason, ficou
conhecida por ser uma das mais tocadas em funerais no país. Isso porque a
palavra que lhe dá título é a “saudade” da Islândia — o substantivo que os
islandeses usam para expressar um sentimento de perda e nostalgia. A raiz é a
mesma do verbo “sakna”, que significa “sentir falta”.
Catalão:
ENYORANÇA
O
substantivo “enyorança”, de acordo com o dicionário do Instituto de Estudos
Catalães, é a tristeza ou dor pela ausência ou pela perda de algo ou alguém.
Milan Kundera bem observa que essa palavra deriva do latim “ignorare”
(ignorar). A saudade catalã surge, então, “como o sofrimento da ignorância:
você está longe e não sei o que se passa com você”, escreve o autor.
Árabe:
HANÎN
Em
árabe, os substantivos “ishtiyâq” e “hanîn” são palavras que expressam o mesmo
sentido de “saudade” em português, de acordo com o professor Felipe Benjamin,
da Faculdade de Letras da UFRJ. Com a mesma raiz de “hanîn”, ele lembra do
verbo “yahinnu”, consagrado num dos versos do poeta palestino Mahmoud Darwish,
que escreveu muito sobre a saudade de sua terra natal: “‘Ahinnu ‘ila khubzi
‘ummi wa ‘ila qahwati ‘ummi” (“sinto falta do pão de minha mãe e do café de
minha mãe”).
Galês:
HIRAETH
O
dicionário de galês da Universidade de Wales explica a palavra “hiraeth” com
várias expressões em inglês que também são comumente usadas para traduzir
“saudade” (“longing”, “yearning”, “nostalgia”) e define seu significado como
“pesar ou tristeza depois de uma perda ou partida”.
SAUDADE
DE CASA, NÉ MINHA FILHA?
Muitas
línguas têm palavras para expressar um tipo bem específico de saudade: a de
casa, do país ou da terra natal. Em galego, por exemplo, se diz “morriña”; em
francês, “mal du pays”; em inglês, “homesickness”; e em basco, “herri-mina”. Em
alemão, holandês e islandês, o termo é parecido: “Heimweh”, “heimwee” e
“heimfra”, respectivamente. Essa noção de saudade também está na origem grega
da palavra “nostalgia”, que foi herdada por vários idiomas: “nóstos” quer dizer
“retorno” e “álgos”, sofrimento. A nostalgia seria, então, o sofrimento pelo
desejo de retornar a algum lugar, de preferência àquele que chamamos lar.