A CONVERSÃO DE UM ETÍOPE...
Dionê Leony Machado
Ano: 2023
Atos: A Conversão de um Etíope e o Primeiro Missionário
Africano (Atos 8.25-40) -
A cópia mais antiga
ilustrada da Bíblia é conhecida como os “Evangelhos de Garima”,
em um mosteiro no norte da Etiópia (aprox. 330 e 650 d.C.).
O conhecimento que recebemos da História do Cristianismo é
extremamente limitado e restritivo à perspectiva Ocidental e pouco sabe sobre o
Cristianismo Oriental, visto que houve a grande ruptura eclesiástica (1054
d.C). Mais lamentável ainda é a nossa total ignorância histórica do
Cristianismo Africano, agravado pelo fato de que muitos dos grandes expoentes
da ortodoxia cristã tem suas origens neste Continente (Orígenes, o alexandrino;
Tertuliano, o norte africano, sem falar de Agostinho e Atanásio dois pilares do
pensamento cristão) e onde nos dias atuais é simultaneamente a região global
que mais cresce e que mais sofre o cristiani(cídio) cínica e covardemente
ignorado pela mídia ideológica e convenientemente abandonado à própria sorte
pelas lideranças cristãs do Ocidente e Oriente.
O motivo da escassez de informações históricas canônicas e
também seculares desta imensa região do globo terrestre não é indicado com
clareza, como tão bem sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as
notícias sobre a época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são
tão escassas, enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia,
ainda que incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988,
pp. 742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o
florescimento do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os
cristãos-helenísticos e os cristãos-coptas (egípcios).
Percebe-se que há um esforço muito grande para se esconder a
rica história da vertente cristã africana. Os grandes personagens mencionados
acima são normalmente citados sem se fazer um link com suas etnias africanas,
de maneira que se passa a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.
Nas páginas do livro de Atos composto pelo
evangelista Lucas como a segunda parte do seu volume inicial, encontraram um
registro peculiar – a evangelização e subsequente batismo de um oficial etíope
(At 8.26-39). Todavia, no que tange a interpretação e estudos neotestamentário,
o registro lucano do encontro de Filipe com esse graduado oficial etíope é um
dos relatos mais esquecidos. Estudos focados diretamente nesta passagem são
escassos, de modo que, precisa ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos
que nenhum registro nas Escrituras é destituído de valor.
A
narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do
debate do diácono Estevão com as autoridades máximas do judaísmo e que
produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro
êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas,
mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.
Na sequência o historiador evangélico passa a relatar o
primeiro grande avivamento evangelístico que está ocorrendo na região vizinha
Samaria pela instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que
Lucas está seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra
(1.8). Mas na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao
registro do envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em
direção a Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no
período da regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande
alegria “ continuou o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas
agora sendo portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem
chamados “cristãos” os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto,
esse homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia,
que naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no
Continente Africano.
A ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que
a cena seguinte é a conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco
para prender cristãos, e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o
missionário para os povos gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das
fronteiras do Império Romano, todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus
missionários e os enviando à todas as nações, incluindo a Etiópia e por
consequente o Continente africano; o Espírito Santo é quem estabelece a agenda
missionária mundial de maneira que o Etíope e Paulo são igualmente seus
instrumentos.
Desta forma textualmente é possível afirmarmos que o
contexto mais amplo (6.1-11.9) se constituiu em um bloco literário, uma vez que
as narrativas se comunicam entre si estabelecendo uma inter-relação textual,
oferecendo aos leitores uma perspectiva além dos fatos compartilhados
unitariamente. O que também nos faz rejeitar as propostas daqueles que
transformam esse livro e todas os demais literaturas bíblicas, em cochas de
retalhos coladas e remendadas ao bel prazer dos escribas e amanuenses no
tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma proposta muito clara esboçada no
início de sua obra e a segue com afinco, conectando os fatos históricos por ele
selecionados, e assim, constituindo um texto único bem elaborado.
O fato de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma
inconclusiva tem estimulado alguns comentaristas a pensar que ele pretendia
escrever um terceiro volume, onde haveria de continuar o seu registro da
expansão do cristianismo além fronteiras do Império Romano, o que poderia incluir
a Etiópia e demais nações africanas. A expressão com que Lucas conclui a
narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu caminho” possibilita a interpretação
de que ele tem a expectativa e/ou conhecimento de que o Evangelho chegara ou
chegou efetivamente àquela região africana. Uma vez que ele conclui esse
segundo volume entre cinco ou mais anos depois dos fatos registrados é
plausível supor que ele tenha obtido informações orais e até mesmo documentais
dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados em Atos.
Qual a
razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e
peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do
Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no
desenvolvimento do cristianismo africano?
Análise da Narrativa Lucana
O livro de
Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário de cunho
histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que seu
propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras a respeito
do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e ressurreição de
Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro volume
evangélico.
Ele define
seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando o
Espírito Santo descer sobre vocês, então receberá poder para testemunhar com
grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia, de Samaria, e até aos
confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição" (Atos 1.8
Bíblia Viva – sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão
dentro desta proposta conforme esboço simples abaixo:
- Propagação em Jerusalém (1-7)
- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)
- Propagação aos extremos do Império (13-28).
A perícope
do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa lucana,
mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta “aos
confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia escrever um
terceiro volume.
Nesta
passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo
“Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35),
mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de
moldura desta perícope.
Ao destacar que Felipe foi comunicado por um anjo para ir
especificamente a um local “vai para a banda do sul, no caminho que desce de
Jerusalém a Gaza”,[1] o historiador tem plena consciência de que este é o
caminho[2] que conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos
geográficos estava na Grécia:
Na antiguidade clássica, a terra habitada era retratada como
um disco rodeado pelo "Mar Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra”
(τά œσχατα τής γής) referidos, como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais
distantes na borda do disco, por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste,
Etiópia a sul e Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da
frase no Thesaurus Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van
Unnik. A expressão tem esse significado na Septuaginta e nos escritores
patrísticos (muitas vezes citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais
frequência na literatura grega. Foi usado da mesma forma nos escritores
clássicos e, aparentemente, mantiveram esse significado geográfico do século V
aC até o sexto século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor
da citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas neste texto
especifico de Atos defendo a Etiópia como a referência aos “confins da terra”,
pela utilização na perícope da figura central do Etíope).
Outro
aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três
acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope
antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope
posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o
ponto de convergência. Deste modo,
podemos concluir que a narrativa do Etíope não é apenas uma nota de rodapé,
como é tratado pela maioria dos comentaristas, ou incidental, mas um fato
relevante para o historiador Lucas. O avivamento evangelístico dos samaritanos
e a conversão de Paulo são dois rios cujas correntezas chegam à cidade de
Antioquia, que se constitui na maior base missionária do cristianismo aos povos
não judeus dentro do Império Romano.
Mas dentro da providência divina, e o livro de Atos é
denominado por alguns comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver
59 referências à Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para
levar a mensagem do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo
(Messias) morto e ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais
distantes como o Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do
planeta. Essas ações do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a
todos os seus discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a
todas as nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento
literal da profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]
O Etíope e as Origens do Cristianismo no Continente Africano
O texto didaticamente nos traz as informações básicas de
quem é esse Etíope eunuco,[4] o que ele estava fazendo em Jerusalém e o que
estava lendo.[5]
O texto deixa claro também que não se tratava de um viajante
comum e corriqueiro, mas de um alto funcionário[6] de Candace[7] da Etiópia, um
reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este Etíope
tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura
profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos)
deste profeta,[8] que somado à informação de que viajava em uma carruagem
indica que era um homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para
adorar, indica que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou um temente
a Deus.[10]
Então a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no
imperativo, que se aproxime e acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira
que pudesse ter acesso ao viajante e este a ele, possibilitando o início de um
diálogo. A proximidade permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível
era muito comum naqueles tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do
profeta Isaias, o que proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que
produzira o diálogo: “você está compreendendo o que lê?” A simples leitura de
textos bíblicos não implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a
mensagem neles contidas.
A resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe
possa expor-lhe as escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo
com tudo que tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia
sido morto, mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as
prerrogativas do Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11]
Esse é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir dos sujeitos
que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe anuncia Cristo ao
Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou através das Escrituras
aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12]. Filipe já não lhe fala do Messias, mas
de Jesus; como uma alusão ao destino do “Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc
8,3).
Os versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez
entendido e declarado a fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13],
pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de
Jesus Cristo.
No verso 39 ambos retomam suas atividades, Felipe retoma sua
missão evangelística em Azoto e arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope
retoma seu caminho de volta à sua nação, mas além de suas atividades oficiais,
agora ele também tem as “boas novas” para compartilhar à sua rainha e todos os
moradores da Etiópia.
A Igreja Cristã na Etiópia
Esse
artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão
abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma
melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das
fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das literaturas
neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a relevância do
cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas vertentes
cristãs Ocidentais.
Início com a opinião abalizada de Maguckin:
O cristianismo no continente africano começa sua história,
principalmente, em quatro locais distintos: Alexandria e Copta Egito, a região
norte da África em torno da cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia
(p. 30, 2011).
Etiópia o Segundo Éden
Uma das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios
da igreja na Etiópia está na própria localização desta nação que em períodos
tardios chegou a ser confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no
imaginário greco-romano era os “confins da terra”, o último bastião da civilização,
antes da barbaria.
Foram os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia”
que significa “rostos queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura
expressa a beleza e o encanto de sua geografia, de maneira que se tornou
conhecida como “uma terra de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem
razão visto que juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os
pés da primeira geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre
se constituíram em um extraordinário mosaico humano.
Uma grande maioria de estudiosos explicam as origens da
civilização etíope partindo da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que
inicialmente se estabelecem na cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na
cidade de Aksum (Axum) ao norte em busca de comércio no século 5 a.C.,
entretanto a civilização etíope já era muito mais antiga e muito mais
estabelecida do que antes destes colonizadores a invadirem (como no caso do
Brasil que os portugueses “descobriram” e das civilizações Incas e outras que foram
dizimadas pelos invasores espanhóis em toda América Latina).
Outro aspecto
relevante é que seu idioma comum é chamado “cuxítica”,[14] de maneira que
encontra uma ligação forte com o personagem bíblico Cuxe em Gênesis.[15] É
possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras
igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas
religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem
raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.
Na História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas
referências a Etiópia na Torá (Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo
livro, Gênesis (2.13), é colocada em um contexto geográfico a partir do Éden;
José se casou com uma mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos
(Manassés e Efraim, dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos
judaicas. Moisés se casou com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela
Jetro, um etíope, foi um conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente
dos povos canaanitas, aos israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres
cuxitas/etíopes (Êxodo 34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na
corte do rei durante o tempo de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia
(36.14, 21, 23). O nome do avô de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro”
se refere a uma pessoa de descendência africana. O profeta Sofonias também
possuía descendência cuxita (1.1).
A Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados
judeus foram espalhados após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de
serem trazidos de volta (Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que
este oficial etíope tenha tido contato com pessoas de cultura e religião
judaicas na sua região, ou talvez no Egito, onde havia se formado as maiores
colônias fora da Palestina. Partindo destas primícias sua cópia do rolo de
Isaías provavelmente era da Septuaginta grega, originalmente feita em
Alexandria, no Egito. Visto que o reino etíope ficara parcialmente helenizado,
a partir do tempo de Ptolomeu II (308-246 AEC), não era incomum que este
oficial soubesse ler a língua grega. Vindo a ser um prosélito ou um temente a
Deus, e sua subsequente conversão ao cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras
do Salmo 68.31, cujo contexto é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da
terra.
Esta ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas
neotestamentária. Por inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto,
descendente de Cam (Mateus 10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de
Cirene, uma cidade que ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a
carregar a cruz (Mateus 15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no
dia de Pentecostes, que chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho
aos de língua grega (Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi
tutelado pelo casal judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo,
tendo pregado nas comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o
Negro) e Lúcio de Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da
Síria (Atos 13.1),[16] onde os discípulos foram, pela primeira vez, chamados
cristãos. (Atos 11.26). Os Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da
Síria que Lúcio e Simeão ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o
ministério do evangelho (Atos 13.2,3).
As relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das
rotas mais antigas conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um dos
primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18]
na mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se
estabelecendo.
Na história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas
em seus registros como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de
Homero (800 a.C.) Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da
história (europeia) cita com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox.
440 a.C.); no período romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser
relacionado em termos raciais englobando todos que tinham pele negra e cabelos
grossos e enrolados (Cláudio Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o
Quadrapartitium (latim) que significa “Quatro Livros”).
O ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua
semítica que se desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no
Chifre da África, como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez
veio a se tornar a língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da
Etiópia. Ainda nos dias atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da
Igreja Ortodoxa Tewahido da Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia,
da Igreja Católica Etíope, da Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel
(judeus etíopes).
Considerações Finais
A história de fundação do cristianismo na Etiópia mais
historicamente substancial é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no
século IV d.C., pois foram os primeiros a cristianizar uma corte real da
Etiópia. Uma estratégia que teve sucesso em muitos lugares, todavia, ao não
constituírem um cristianismo autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas
diversas camadas sociais, depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao
sul, praticamente desapareceu quando a corte real substituiu o cristianismo
pelo islamismo como religião oficial.
Entretanto, à margem do registro histórico-arqueológico, os
fiéis cristãos ortodoxos etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação”
próprias, sendo a mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por
Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico
lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus”
etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de
Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao
Messias eram conhecidas por essas pessoas.
O sucinto levantamento aqui apresentando corrobora ao menos
em tese de que existe fortes indícios e embasamentos para se buscar uma origem
primária para o desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope,
evidentemente não dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas
comunidades estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão
pela qual tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas
das vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes
embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se
estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.