N2
https://youtu.be/ixrksUEqVCw?is=cuTScERlHgaiNTZg
https://www.instagram.com/reel/DdXK5SkJqRV/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdMRYMBu9uh/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdU1A8kBmRJ/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdXo6piDuYP/?l=1
N2
https://youtu.be/ixrksUEqVCw?is=cuTScERlHgaiNTZg
https://www.instagram.com/reel/DdXK5SkJqRV/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdMRYMBu9uh/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdU1A8kBmRJ/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdXo6piDuYP/?l=1
https://www.instagram.com/reel/DdZ4iEHhjg-/?l=1
https://youtu.be/JYc6Nk0sTc0?is=W9YpxmhbXMDN8MSw
https://youtu.be/Hn5vlMdSUo8?is=lQaAvIPXP8R8yeSL
https://jovempan.com.br/politica/atlas-bloomberg-flavio-tem-472-e-lula-468-no-2o-turno/
https://www.instagram.com/reel/DdSEIwOKTuG/?l=1
Escravidão na Bíblia | Israel Silva 12ª.Parte
| Quem era Escravo na Bíblia e no Novo Testamento
Quem eram os escravos na Bíblia? Como era a escravidão na
Bíblia e por que Deus a permitiu? Há um trecho do livro do Êxodo que o seu
texto é bastante útil para entendermos essas questões.
Quando a porção do Antigo Testamento conhecida como
Mishpatim começa, o temor e a admiração da Revelação, ocorrida no Sinai, ainda
podia ser sentida; as palavras, a visão dos relâmpagos, o som dos trovões,
estavam bem presentes na mente do povo.
Mais do que somente receber a Lei de Deus, os acontecimentos
no monte Sinai foram transformadores em diversos níveis.
A nação Israelita foi formada por meio das experiências
compartilhadas do Êxodo e da Revelação da Palavra de Deus, e da união no
propósito demonstrado aos pés daquele monte.
E apesar de toda aquela experiência com Deus, e da Sua
Revelação, a divisão do texto bíblico que imediatamente vem após os Dez
Mandamentos, muda o foco da narrativa.
Os Estatutos recebidos nesta parte do Êxodo parecem
expressar uma realidade muito menos idealística, e muito mais focada no que
acontecia no “mundo real”, feito por pessoas.
“Estes são os estatutos [מִּשְׁפָּטִ֔ים
mishpatim] que lhes proporás.” Êxodo 21:1
Numa clara referência à debilidade do caráter humano, as
Leis presentes nesta divisão Bíblica, fala e lida com a escravidão, e com o
desentendimento e discórdia entre as pessoas – até ao ponto de haver ódio entre
elas.
O contraste com a porção anterior, a Revelação da Lei de Deus,
é impressionante!
Mesmo se considerarmos que os Dez Mandamentos formavam as
Macro-Categorias da Lei(semelhantes com as leis de Atos 15), enquanto que os
Estatutos discutidos no Êxodo 21-23 (Mishpatim) constituem as Micro-Leis.
Ainda assim não podemos evitar o sentimento de regressão, se
levado em consideração o senso que todo povo teve durante a Revelação no Sinai.
Há pontos nas micro leis, em que o texto fala de inimigos e
de ódio:
“Se encontrares o boi do teu
inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, sem falta lhe reconduzirás.” Êxodo 23:4
“Se vires o jumento, daquele que te odeia, caído debaixo da sua carga,
deixarás, pois de ajudá-lo? Certamente o ajudarás a levantá-lo.” Êxodo 23:5
E quem poderia ter pensado que após uma tão grande e elevada
experiência com Deus e de comunhão com os demais irmãos, o povo de Israel
precisaria de leis para regular o comportamento entre pessoas que odeiam uma as
outras?
Quem poderia imaginar que os membros de uma comunidade que
foi criada em meio a magnífica voz divina, poderiam considerar o seu próximo
como inimigo? Infelizmente isso só ilustra o verdadeiro conteúdo da natureza
humana.
Essas leis refletem de forma realística o mundo em que eles
viviam, e que nós vivemos, e que Deus não se engana, Ele sabe o que há interior
do ser humano.
Por isso o Senhor lança os estatutos que serviriam como guia
para o comportamento humano, “no mundo real”.
Assim, como uma nota errada em meio a sinfonia perfeita da
Revelação, somos chocados aos termos que lidar com uma das mais poderosas e
perturbadoras forças. Como poderia a Bíblia tolerar a escravidão?
Não desejaria Deus, fundamentalmente, que toda a humanidade
fosse livre? Os Israelitas foram libertos da escravidão do Egito para se
tornarem eles mesmos senhores de escravos?
Por diversas vezes a Bíblia enfatiza que a escravidão no
Egito foi algo que deveria sensibilizar os Israelitas para a vulnerabilidade e
o sofrimento dos outros. Como poderia então um judeu ter um escravo?
Os escravos do tempo bíblico
Nós certamente sentiríamos muito mais confortáveis se Deus
tivesse proibido totalmente a escravidão.
Mas como não é esse o caso, nos sentimos obrigados a
confrontar esta informação quando tentamos fazer a correlação entre a abordagem
da Bíblia com a escravidão e os direitos humanos.
Para entendermos o que era a escravidão que o texto Bíblico
se referia, primeiro temos que distinguir entre a instituição do עבד עִבְרִי eved Ivri – o servo Hebreu, e o עבד כנעני eved Cana’ani – o Cananita (o escravo não
Hebreu).
Eved ivri – o servo hebreu
Um “Eved Ivri” não é um escravo no sentido clássico da
palavra. Ele ocupa uma posição muito mais próximo a um servo contratado, um
indivíduo que vende seu trabalho braçal por um período definido de tempo.
E há leis bíblicas, específicas que regem o status de um
“eved ivri”:
“Quando também teu irmão empobrecer,
estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. “Como
diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá;
Então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família
e à possessão de seus pais.” Levítico 25:39-41
1 – Um indivíduo se tornava um “eved ivri” apenas por duas
razões: Ou em caso de estar tão empobrecido, que não tinha mais condições de
sustentar a si mesmo e a sua família, ou ele foi condenado por crime de roubo e
não tem condições de restituir o que roubou.
No primeiro caso, a pessoa vende a si mesmo em עבדות avdut (servidão) para
conseguir as provisões necessárias a sua própria sobrevivência. No segundo, a
corte judicial é quem o vende.
Os recursos advindos do seu trabalho serviam para pagar as
suas dívidas.
Um “eved ivri” não é um objeto possuído por seu dono. Ele
simplesmente vendeu os direitos de seu trabalho braçal até o fim do período de
sua servidão.
E aquele que foi vendido por uma corte judicial, poderia
ficar no máximo seis anos em servidão.
“Se comprares um servo hebreu, seis
anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça.” Êxodo 21:2
Se o יובל
Yovel – Ano Jubileu, caísse em qualquer parte do período de servidão, o “eved
ivri” tinha que ser libertado.
“Então no mês sétimo, aos dez do
mês, farás passar a trombeta do jubileu; no dia da expiação fareis passar a
trombeta por toda a vossa terra, E santificareis o ano quinquagésimo, e
apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos
será” Levítico 25:9-10
Essa era a Lei do shemitah, quando todas as dívidas eram
perdoadas e os escravos eram libertados.
É interessante notar que com o auxílio da ferramenta de
interpretação chamada Gemátria (cada letra do alfabeto hebraico equivale a um
número, semelhante aos algarismos romanos), chegamos ao valor numérico das
palavras:
עבד עִבְרִי eved Ivri “escravo
hebreu” que equivale a 358 – o mesmo valor das palavras נָחָשׁ nachash “serpente” e מָשִׁ֫יחַ mashiach “messias”.
O primeiro pecado do homem foi no jardim do Éden, quando
desobedeceu à voz de Deus e fez a vontade da serpente. Isto resultou na
expulsão do paraíso e na consequente escravidão do pecado.
Mas Deus providenciou o Messias, Jesus, para nos libertar
desta escravidão, e agora somos feitos servos de Deus.
“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade,
em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. João
8:34 Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” João 8:36
Eved canaani – o escravo não hebreu
Aparentemente a Bíblia aceita a existência da “escravidão
clássica”, dentro da sociedade hebraica. Porém, por meio de uma sofisticada
rede de mandamentos, a Lei judaica estabelece de fato uma “escravidão
diferente”.
Quando da aquisição de um escravo não hebreu, o seu senhor
deveria apresentar aquele escravo a possibilidade dele passar por um processo
de conversão, que permitiria que ele entrasse na sociedade hebraica l’shem
avdut – por meio da servidão.
Se o escravo concordasse, então ele seguiria passa a passo
em rumo a conversão total ao judaísmo. Essa conversão elevava o status do
escravo, tornando-o oficialmente um eved canaani.
E um “eved canaani” tinha suas obrigações, mas também gozava
da plena proteção da Lei de Deus, e dos privilégios relativos ao seu status.
Havia diversas recomendações na halachá (o conjunto de Leis
judaicas), com obrigações éticas de tratar um “eved canaani” com bondade e
consideração.
Seus mestres não podiam nem mesmo envergonhá-los em público.
Nas refeições, eles deveriam ser os primeiros a serem servidos. Ninguém podia
insultá-los. Eles possuíam direitos que em outras culturas não teriam jamais.
Mesmo não tendo o total status de um cidadão hebreu, ainda
assim um “eved canaani” fazia parte dessa sociedade, e como membro dela recebia
a possibilidade de conhecer o Deus de Abraão, Isaque e Jacó – e de fazer parte
do pacto e da aliança com Deus.
Não se pode ignorar que o mundo daquela época praticava a
escravidão. Todas as nações em volta de Israel tinham seus escravos. E nessas
nações, os escravos eram tratados como mera mercadoria, com brutalidade e
horror e crueldade.
Permitindo que os Israelitas adquirissem estes escravos,
Deus fazia com que esses homens e mulheres que não possuíam mais a sua própria
vida, agora pudessem ter nova esperança, ao encontrar o Deus de Abraão e entrar
em uma aliança com Ele.
Isso era parte da promessa que Deus havia feito com Abraão:
“Em ti serão benditas todas as
famílias da terra.” Gênesis 12:3
Evitando as práticas brutais das nações vizinhas, os
Israelitas deveriam afetar positivamente o mundo em que estavam inseridos,
mostrando novas práticas de vida.
Eles tinham que encontrar um modo concreto de mitigar,
diminuir o sofrimento humano “no mundo real”.
E a aquisição desses homens e mulheres para dentro da
sociedade Israelita, deveria ser um meio para melhorar a vida deles,
principalmente por meio da conversão, do aprendizado da Lei de Deus e do entrar
no pacto e na aliança com Deus, que era oferecido a esses “escravos”.
Era uma posição que ia para além das origens pagãs desses
homens e mulheres, trazendo-os para uma experiência única de ter comunhão com o
verdadeiro Deus.
A liberdade do eved canaani...
“E quando alguém ferir o olho do seu
servo, ou o olho da sua serva, e o danificar, o deixará ir livre pelo seu olho.
“E “se tirar o dente do seu servo, ou o dente da sua serva, o deixará ir livre
pelo seu dente.” Êxodo 21:26-27
Não menos significante era a forma que um escravo não hebreu
ganhava a sua liberdade. Se ele fosse ferido por seu senhor, em seu olho ou
dente, sairia livre.
Os olhos são a janela da alma, e uma visão errada do mundo
pode nos levar a pior das escravidões que é a do pecado.
E somente quando somos “atingidos” nos olhos, mudando a
nossa visão de vida é que podemos enxergar que a verdadeira liberdade é ser “um
servo” de Deus.
“A candeia do corpo são os olhos; de
sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém,
os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que
em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” Mateus 6:22-23
De forma semelhante, o conteúdo do nosso caráter é
expressado por aquilo que falamos.
Sendo atingidos no “dente”, na nossa boca, significa
experimentar uma mudança de caráter, mudança de vida que só pode ser conseguido
quando nos fazemos servos de Deus.
“O homem bom, do bom tesouro do seu
coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal,
porque da abundância do seu coração fala a boca.” Lucas 6:45
Muitas vezes é necessário que recebamos esse “golpe santo”,
de Deus. Não podemos nos esquecer das nossas origens espirituais, nós somos
“avadim“, servos de Deus. Ele é o nosso Senhor e Mestre, e tem pleno direito de
nos corrigir.
“Eu repreendo e castigo a todos
quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.” Apocalipse 3:19 “Mas, quando
somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com
o mundo.” 1 Coríntios 11:32
Nós somos servos comprados do mundo, não com o vil metal
perecível, mas com algo muito superior e eterno, com o Seu precioso sangue.
Temos um Mestre, temos um Senhor.
“Sabendo que não foi com coisas
corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de
viver que por tradição recebestes dos vossos pais, Mas com o precioso sangue de
Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” 1 Pedro 1:18-19
Reflexão:
Há uma tendência de olhar para a escravidão como algo do
passado. Entretanto, estima-se que hoje em dia mais de 27 milhões de pessoas
estejam sujeitas à escravidão: trabalho forçado, comércio sexual, propriedade
herdável, etc. Como aqueles que foram redimidos da escravidão do pecado, os
seguidores de Jesus Cristo devem ser os principais defensores do fim da
escravidão humana no mundo de hoje. A pergunta surge, entretanto, por que a
Bíblia não fala fortemente contra a escravidão? Por que a Bíblia, de fato,
parece apoiar a prática da escravidão humana?
A Bíblia não condena especificamente a prática da escravidão.
Ela dá instruções sobre como os escravos devem ser tratados (Deuteronômio
15:12-15; Efésios 6:9; Colossenses 4:1), mas não a declara ilegal. Muitos veem
isto como se a Bíblia permitisse todas as formas de escravidão. O que muitas
pessoas não compreendem é que a escravidão nos tempos bíblicos era muito
diferente da escravidão praticada nos últimos séculos em muitas partes do
mundo. A escravidão na Bíblia não era baseada exclusivamente em raça. As
pessoas não eram escravizadas por causa da sua nacionalidade ou pela cor da sua
pele. Nos tempos bíblicos, a escravidão era mais um status social. As pessoas
vendiam a si mesmas quando não conseguiam pagar os seus débitos ou sustentar a
sua família. No Novo Testamento, às vezes, médicos, advogados e até políticos
eram escravos de outra pessoa. Na verdade, algumas pessoas escolhiam serem
escravas para ter todas as suas necessidades providas pelos seus senhores.
A escravidão dos últimos séculos era frequentemente baseada
exclusivamente na cor da pele. Os negros eram considerados escravos por causa
da sua nacionalidade – muitos donos de escravos realmente acreditavam que os
negros eram “seres humanos inferiores” em relação aos brancos. A Bíblia
definitivamente condena a escravidão baseada na raça porque ensina que todo ser
humano é criado por Deus e feito em Sua imagem (Gênesis 1:27). Ao mesmo tempo,
o Antigo Testamento permitia e regulava a escravidão econômica. A questão-chave
é que a escravidão permitida pela Bíblia não se assemelhava de modo algum à
escravidão racial que tem atormentado nosso mundo nos últimos séculos.
Além disso, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento condenam
a prática do "roubo de homens", que é o que aconteceu na África no
século XIX. Os africanos eram atacados por caçadores de escravos, que os
vendiam aos traficantes de escravos, os quais, por sua vez, os levavam ao Novo
Mundo para trabalhar em plantações e fazendas. Esta prática é abominável para
Deus. De fato, a pena para tal crime na Lei Mosaica era a morte: "O que
raptar alguém e o vender, ou for achado na sua mão, será morto" (Êxodo
21:16). Da mesma forma, no Novo Testamento, os comerciantes de escravos são
listados entre aqueles que são "ímpios e profanos" e estão na mesma
categoria que aqueles que matam seus pais ou mães, homicidas, adúlteros e
pervertidos, e mentirosos e perjuros (1 Timóteo 1:8-10).
Outro ponto crucial é que o propósito da Bíblia é apontar o
caminho para a salvação, não para reformar a sociedade. A Bíblia muitas vezes
aborda questões de dentro para fora. Se uma pessoa experimentar o amor, a
misericórdia e a graça de Deus ao receber a Sua salvação, Deus reformará a sua
alma, mudando o modo como pensa e age. Uma pessoa que experimentou o dom da
salvação de Deus e a libertação da escravidão do pecado, conforme Deus reforma
sua alma, perceberá que escravizar outro ser humano é errado. Ela verá, com
Paulo, que um escravo pode ser "um irmão no Senhor" (Filemon 1:16).
Uma pessoa que verdadeiramente experimentou a graça de Deus será, por sua vez,
graciosa para com os outros. Essa seria a prescrição da Bíblia para acabar com
a escravidão.
PESUISA GOOGLE:
Dionê Leony Machado
A Revolta dos Malês 11ª.Parte
Por Jeanne Abi-Ramia
Organizada por africanos escravos e libertos, a Revolta dos
Malês deixou Salvador frente a frente com o Islã.
“O vulcão da anarquia”: as preocupações de Feijó
A Revolta dos Malês ocorreu em Salvador, em 1835, quando o
Brasil era governado por Diogo Antônio Feijó. Regente entre 1835 e 1837,
administrou o Império enquanto o príncipe herdeiro D. Pedro de Alcântara não
atingia a maioridade. Desde a Abdicação de D. Pedro I, acontecida no dia 7 de
abril de 1831, o Brasil atravessou um período marcado por inúmeras crises
políticas e econômicas. O gesto do primeiro imperador provocou um vazio
político no país, acirrando as disputas pelo poder.
O período conturbado revelou outros problemas, entre eles o
agravamento da situação econômica resultante de um quadro em que o país,
perdendo os espaços na concorrência por mercados econômicos, aumentava a
dependência das potências estrangeiras. As expectativas quanto ao futuro eram
difusas e nubladas. Mesmo diante de tanta instabilidade, a época assistiu à
expansão da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba e o aparecimento dos
chamados “barões do café”.
No contexto em que as atividades agrícolas ocuparam a cena
principal, era fundamental, especialmente para as autoridades e para os grandes
proprietários, manter a escravidão e o tráfico negreiro, apesar da pressão
internacional como aquela promovida pelos ingleses. Registra o historiador
Marcus Rediker, o “grandioso drama do comércio humano”, pois a maioria
esmagadora das pessoas trazidas da África para os diversos cantos do mundo,
“foram tragadas pelo turbilhão em movimento, surreal, do tráfico”.
A esse quadro somavam-se os anseios das camadas populares
por melhores condições de vida, e das camadas médias, que almejavam maior
participação política. A junção de tantas circunstâncias favoreceu o surgimento
de contestações espalhadas pelo país, sempre esmagadas com rigor pelas forças
governistas. As autoridades constituídas interpretavam que a eclosão de
revoltas ameaçava a ordem e a unidade territorial do jovem Império. Ensina o
historiador Ilmar Rohloff de Mattos que “esses conflitos representavam também o
protesto contra a centralização do governo em torno das províncias do Rio de
Janeiro, de São Paulo e Minas Gerais”.
As reivindicações populares avolumadas desdobravam-se em
contendas espalhadas por diversas regiões do Brasil. Entendia o regente Feijó
ser preciso conter “o vulcão da anarquia que ameaçava devorar o império”. Eram
tempos complexos, em que a urgência de ações frequentemente mostrava sua face.
No intrincado quadro envolvendo situações econômicas,
políticas e sociais, que tanto preocuparam o padre Feijó, a mobilização malê,
contudo, não deve ser classificada como mais um movimento daquela época. Mesmo
estando inserida no conjunto de dezenas de revoltas escravas tradicionais,
ocorridas na Bahia, durante a primeira metade do século XIX, apresentava
aspectos particulares. Foi a mais grave, a derradeira e ousada, por ter
acontecido no âmago de uma importante cidade do Império: Salvador. Além dessas
singularidades, distingue-se das demais pelo envolvimento predominante de
africanos e de africanas que professavam a religião muçulmana.
“O sonho da Bahia muçulmana”
A frase do historiador João José Reis aponta intenções ao
referir-se especificamente a um movimento conduzido predominantemente por
africanos escravos e libertos na Bahia, durante o governo do regente padre
Diogo Antonio Feijó. Conflitos semelhantes aconteceram naquela província nas
décadas iniciais do século XIX. Porém, o que é entendido por estudiosos como o
mais significativo foi o dos Malês, que se espalhou rapidamente por Salvador,
no alvorecer do dia 25 de janeiro de 1835. Seus participantes, mesmo que por
apenas poucas horas, tornaram-se “senhores das ruas” da cidade.
Malê deriva da expressão imalê, que em iorubá designa negros
muçulmanos, que sabiam ler, escrever e falar o árabe, língua desconhecida no
Brasil – embora não seja possível precisar o número dos participantes que
dominavam tal conhecimento quando a revolta eclodiu. A escrita em árabe, no
entendimento da historiadora Luciana da Cruz Brito, ocupa “lugar central na
interpretação do levante”. Naquela época, a religião muçulmana, em um país
extremamente católico, expandia-se entre os africanos que viviam na Bahia, e
seus devotos deveriam ler o Alcorão.
Inúmeros historiadores não afirmam, com precisão, o que os
participantes pretendiam se fossem vitoriosos. Admitem que eram motivados por
razões heterogêneas. Entre elas, estavam as lutas contra a escravidão (e suas
formas de expressão) e contra a imposição da religião católica de Roma, bem
diversa daquela que a maioria dos envolvidos professava: a muçulmana.
Entretanto, acredita João José Reis que de “toda a maneira,
não foi um levante sem direção, um espasmo social produto do desespero, mas um
movimento dirigido à tomada do poder”. Mesmo sem ter detalhes, é certo “que a
Bahia malê seria uma nação controlada pelos africanos, tendo à frente os
muçulmanos”.
Salvador: uma “capital africana”?
Documentos informam que a maioria esmagadora dos envolvidos
na Revolta dos Malês, que tomaram as ruas e as vielas de Salvador, era
constituída por africanos escravos ou livres. A cidade nesse período, segundo a
historiadora Luciana da Cruz Brito, chegou a ser comparada a uma “capital
africana” devido à presença cotidiana e marcante de africanos. Vale observar
que historiadores registram também a presença no movimento, embora em número
bastante reduzido, de homens brancos livres, pobres, mulatos, mestiços, pardos
e negros forros nascidos no Brasil.
Fontes indicam que, naquela época, a capital da província da
Bahia possuía em torno de 65 mil habitantes, dos quais aproximadamente 40% eram
cativos. Por outro lado, a maioria não escrava era composta por africanos e
seus descendentes (pardos e mulatos). Considera o historiador João José Reis
que, somando “os negros e mestiços escravos e livres, os afrodescendentes
representavam 78% da população. Os brancos não passavam de 22%. Entre os escravos,
a grande maioria (63%) era nascida na África, chegando a 80% na região dos
engenhos de açúcar localizados no Recôncavo”.
Negros libertos, nas sociedades hierarquizadas escravistas,
eram vistos com desconfiança e pouca aceitação. Assim, enquanto minoria
necessitava conservar boas relações com os “brancos”. Para tal respeitavam e
obedeciam as práticas codificadas de subserviência. Também se filiavam às
ordens religiosas induzindo o pensamento à aceitação dos valores cristãos. Eram
caminhos que utilizavam para se distanciarem de conflitos que envolvessem a
justiça ou as autoridades policiais.
Porém, tais estratégias nem sempre garantiam algum tipo de
ascensão social e muito menos asseguravam a posse de bens que, muito
eventualmente, tivessem adquirido. Diante de tal situação, os “libertos” na
Bahia oitocentista procuravam deixar testamentos objetivando garantir, no
post-mortem, que seus recursos fossem repassados para herdeiros, legítimos ou
não. Para a historiadora Mary Karash, o escravo, mesmo “liberto, carregava
pesado estigma, que o marcava até a morte, principalmente se fosse africano”.
Tal estigma era uma forma de recordá-los de que não seriam cidadãos plenos como
os “brancos”. Os africanos libertos eram sempre associados com a escravidão e,
além disso, vistos como estrangeiros. Tinham “direitos políticos e de cidadania
mais restritos que os libertos nascidos no Brasil”, informa a historiadora
Maria Inês Côrtes de Oliveira.
Contudo, sob a perspectiva do Estado, e a imprensa da época
em que a Revolta dos Malês aconteceu reforçava a ideia, existia um paradoxo
quanto à presença dos africanos livres ou libertos nas diversas províncias do
Brasil imperial. Se percebidos pelas classes dominantes sob a crença da
periculosidade e sob a sombra do medo que inspiravam, eram indesejáveis. Mas
tolerados, se observados quanto à importância econômica e à força de trabalho
escravo, não remunerado, que reconhecidamente possuíam.
As autoridades imperiais chegaram inclusive a admitir que
essa fatia da população precisasse de um “código de leis específico, mais
rígido, que correspondesse à necessidade de segurança desta sociedade, que
acreditava estar ameaçada por estes negros ‘estrangeiros’”, segundo registra a
historiadora Luciana da Cruz Brito.
Para o professor Rainer Sousa, a Revolta dos Malês pode ser
entendida “como um conflito que deflagrou oposição contra duas práticas comuns
herdadas do sistema colonial português: a escravidão e a intolerância
religiosa”. A esses dois aspectos João José Reis acrescenta a questão da etnia.
“Viva nagô, morra branco”- a questão da etnia...
Quanto a etnia, a grande maioria dos envolvidos na Revolta
dos Malês, incluindo a liderança do movimento, tinha origem iorubana (grupo
étnico-linguístico africano), sendo majoritariamente nagôs.
A superioridade numérica dos nagôs acabou transformando a
língua que falavam naquela utilizada frequentemente pelos negros escravos e
libertos, das diferentes etnias. Segundo o sociólogo José Reginaldo Prandi, era
a “língua geral de comunicação dos africanos de todas as origens que viviam em
Salvador pelo menos no século XIX”.
Aliás, falar a mesma língua, para a historiadora Maria Inês
Cortês de Oliveira, representou um papel importante “na reconstrução das
identidades de ‘nação’ e na realização das alianças interétnicas na Bahia”.
Observa, ainda, que nem todos os grupos que “podiam se comunicar fundiram-se ou
aliaram-se. Todavia, os que o fizeram tiveram na língua um dos fatores mais
importantes do processo de identificação, que possibilitava a ultrapassagem dos
limites de adscrição étnica e permitia que as ‘nações’ africanas na Bahia se
reconstruíssem sobre novas bases”.
Muçulmano de etnia mandinga (Fonte: P. David Boilat/ As
imagens. Olhares sobre o tráfico e a escravidão/UFPR)
Minoritariamente, também participaram do movimento: os
haussas (originários principalmente do norte da Nigéria e do sudeste do Niger)
e outros grupos étnicos provenientes de Angola ou da Costa do Ouro (região
atualmente pertencente a Gana). Para o historiador João José Reis, em termos quantitativos,
justifica-se a “participação discreta daqueles haussas”, que já haviam
protagonizados movimentos como o que ocorrera em fevereiro de 1814 em Salvador.
Apesar de muitos serem adeptos do Islã, entendiam que tal condição não era
suficiente a ponto de justificar uma união com os nagôs com os quais tinham
diferenças, possivelmente não esquecidas, desde a África. Além disso, a maioria
tinha “a essa altura deposto suas armas”.
Então, mesmo sendo entendido como um movimento multiétnico,
foi liderado por africanos nagôs. Segundo historiadores, o grito ouvido, como
protesto no desenrolar dos fatos, “viva nagô, morra branco”, conduz a tal
entendimento.
Religião e escravidão -
Naquela época, e é importante registrar, não existiam bem
definidas uma identidade étnica e outra religiosa entre os africanos que viviam
no Brasil. Porém, particularmente na Bahia, o islamismo estava mais difundido
em determinadas etnias, como a dos os nagôs e a dos haussas.
Analisando o movimento, sobre o prisma religioso e investigando
documentos oficiais da época, há indícios de que os envolvidos na Revolta dos
Malês buscavam proteção da sua crença no dia a dia e, por isso, se insurgiram.
A presença da questão religiosa apresenta-se por meio do nome da revolta.
Afinal, malê era como os negros mulçumanos eram chamados na Bahia.
Entretanto, nos incontáveis interrogatórios, assentados em
extensa documentação oficial que reúne manuscritos e impressos referentes à
“insurreição de escravos malês” custodiados pela Fundação Pedro Calmon
(Salvador), faltam pistas que caracterizem o movimento posicionado contra o
cristianismo, contra os cultos de outras etnias africanas ou objetivando o
estabelecimento da religião muçulmana.
Diversos pesquisadores, examinando registros governamentais
frequentemente produzidos sob tortura ou sob pressão policial, consideram
inexistir tal indicativo. Observam que os prisioneiros nas inquirições não
transitaram pelo viés de “guerra religiosa”. A participação de africanos não
muçulmanos é mais um dado que pode conduzir à interpretação de que a revolta
não era estritamente religiosa.
Contudo, tal linha de pesquisa não é unânime. Nesse sentido,
outra opinião consta no primeiro texto de que se tem notícia sobre a Revolta
dos Malês, publicado, no ano de 1907, na Revista do Instituto Histórico e
Geográfico da Bahia, pelo religioso Etienne Ignace. Citado pela historiadora
Priscilla Leal Mello, o padre Ignace demarca o seu entendimento dos fatos
quando registra que o movimento não possuía "tão somente um caráter
político e social; não era um esforço para a conquista da liberdade; revisita,
ao contrário, um caráter sobremaneira religioso: era, em uma palavra, uma
guerra santa”.
Além da questão da etnia e da religiosidade, as consultas
nos mais de seis mil documentos processuais judiciais e policiais indicam que
os envolvidos em declarações tratam de outro importante aspecto. Referem-se à
situação degradante em que viviam, ao sentimento negativo dirigido a inúmeros
“brancos e mestiços”, ao fato de não terem direito algum e ao desejo de não
serem mais escravos. Novamente vale ressaltar que a maioria dos implicados, na
qual se incluiu preponderantemente a liderança malê, era de indivíduos
escravizados. Então, apesar de, nas inúmeras consultas realizadas na
documentação produzida pelas autoridades policiais não ficarem definidas as
exatas intenções dos participantes, é possível deduzir, diante da situação do
cativeiro, que intencionavam por meio do movimento alcançar a liberdade.
Nessa direção, o historiador João José Reis considera que a
revolta “teria tido também uma orientação de classe por ter sido feita e
dirigida majoritariamente por escravos e porque a linguagem antissenhorial dos
presos revela sua face antiescravista. Foi também assim considerada pelo Estado
escravocrata, que definiu, reprimiu e castigou os rebeldes, acionando uma
linguagem e uma legislação especificamente antiescrava”.
Os “escravos de ganho”
Observando a condição social e de trabalho dos envolvidos no
movimento dos malês, percebe-se que a maior parte era composta por africanos
escravizados, embora existissem também libertos. Dos libertos, uns poucos
detinham melhor condição financeira, diferenciando-se dos demais. Mas, como um
todo, pertenciam ao que historiadores nomeiam como “os miseráveis da
sociedade”.
No compasso do crescimento das cidades, especialmente as
litorâneas, no alvorecer do século XIX avolumou-se o mercado de serviços
urbanos em que os escravos também eram ocupados. Isso significava mais uma
forma de espoliação das suas capacidades e aptidões. Cultivavam gêneros e
atuavam como pequenos mercadores; podiam ser pescadores, marinheiros ou
estivadores. Prestavam serviços públicos e produziam algum artesanato. Recebiam
pagamento em espécie, destinado ao senhor, no todo ou na maior parte. Eram os
chamados “escravos de ganho” (ou “negros de ganho”) que, de algum modo, mesmo
tratados sem nenhuma distinção, possuíam a inegável liberdade de circular por
Salvador, onde tinham forte presença. Essa oportunidade de movimentação
favorecia contatos possibilitando o surgimento de revoltas. Após acumularem
poucos rendimentos, que os senhores eventualmente lhes deixavam, alguns
conseguiam comprar suas alforrias. Mas, quando isso acontecia, era o resultado
de longos anos de trabalho duro e extenuante.
Os “escravos de ganho” espalharam-se pelas freguesias da cidade
morando ou não nas casas senhoriais e, muitas vezes, sob o mesmo teto. Naquela
época, a capital da província da Bahia se caracterizava pela ausência de áreas
residenciais privativas a determinados segmentos sociais. O fato de muitos dos
que compunham a população de africanos e africanas residirem no mesmo espaço ou
próximos estabeleceu um conjunto de relações de vizinhança e de solidariedade.
Tal proximidade favoreceu o surgimento de laços que, vez ou outra, se
desdobraram em ações de cooperação ou até mesmo de discórdia.
O entra e sai de conhecidos ou de “parentes de nação” (uma
espécie de família simbólica, já que a de origem fora desfeita pelo tráfico
intercontinental de escravos) acontecia diuturnamente nessas moradias. Tal
movimentação, que antes quase não chamava a atenção, passou a ser observada e
acompanhada, com especial cautela, pelas autoridades – especialmente após a
Revolta dos Malês.
Num dia santo ou festivo.
Em geral, segundo o historiador Sérgio Figueiredo Ferretti,
as revoltas de escravos que ocorreram na Bahia na primeira metade do século XIX
eram arquitetadas, intencionalmente, para acontecer “num dia santo importante,
como o Natal, a festa do Bonfim, a procissão de Corpus Christi ou as festas
juninas, em que a cidade estivesse relativamente deserta e a população
concentrada no lugar principal da festa. (...) Os levantes na cidade visavam
conseguir armas e munições, atacar guarnições policiais menores com o mesmo fim
e libertar outros escravos presos ou em depósito, e contar com o apoio de
escravos urbanos. Visavam igualmente apoderar-se de embarcações para retornar à
África ou mesmo matar os brancos para dominar o local, aclamando chefes
negros”.
O movimento malê foi desenhado para eclodir na madrugada do
dia 25 de janeiro de 1835, domingo, quando na região do Bonfim, em Salvador,
aconteceria uma festa católica celebrando Nossa Senhora da Guia. Romperia
quando os escravos urbanos saíssem para cumprir tarefas cotidianas como buscar
água nos chafarizes. Segundo registros escritos em árabe, encontrados e
traduzidos, o planejamento incluía provocar, em diversos pontos da cidade,
incêndios simultâneos que distraíssem a atenção das autoridades.
Contudo havia tensões e conflitos entre a população africana
escravizada ou liberta. Documentos policiais da época informam casos de
disputas entre parceiros e vizinhos. Delações, aos senhores ou às autoridades
governamentais, aconteciam. Os autos da devassa (produzidos no decorrer do
processo judicial) registram que na véspera do dia 25 informações sob a trama
foram reveladas a um juiz de paz, acredita-se que por escravas libertas. A
partir daí, precipitaram-se os acontecimentos.
O presidente da província, Francisco de Sousa Martins,
alertado, tomou providências mobilizando as forças policiais, que iniciaram
buscas. Guardas circularam pela cidade. Suspeitaram de uma casa onde,
efetivamente, se reuniam participantes da revolta. Ao invadirem a moradia,
foram surpreendidos com a imediata ação daqueles que, atacados, reagiram
portando facas, facões e algumas armas de fogo. Apesar das informações e dos
dados oriundos dos setores que comandaram a repressão não serem coesos, fontes
avaliam que desse enfrentamento inicial resultaram mortos e feridos.
Relatos esclarecem que o caos se espalhou por Salvador. A
Câmara Municipal foi atacada. Os revoltosos, segundo o historiador Ilmar
Rohloff de Mattos, “liderados pelos muçulmanos Manuel Calafate, Aprígio, Pai
Inácio, dentre outros” pretendiam tomar a prisão existente no subsolo daquele
prédio público. Intencionavam libertar “um dos líderes malês mais estimados, o
idoso Pacifico Licutan, cujo nome muçulmano era Bilal”, segundo registra o
historiador João José Reis. Tal investida não alcançou o sucesso pretendido; os
carcereiros e a guarda do palácio do governo (localizado na proximidade)
responderam com violência.
O movimento seguiu em frente. Alastrou-se pelas ruas da
cidade e seus participantes prosseguiram enfrentando as forças policiais. Com a
manhã já avançada, outros envolvidos rumaram no sentido da região da Água de
Meninos (bairro histórico de Salvador, localizado entre o Pilar e São Joaquim,
dentro da Baía de Todos os Santos), onde havia um quartel de cavalaria.
Combates renhidos e decisivos aconteceram, com a vitória pendendo para o corpo
oficial – mais numeroso, bem armado, e que contara com o reforço de outras
guarnições.
As tropas igualmente contiveram ataques de alguns
integrantes da revolta, que fugiram pelo Recôncavo Baiano (região geograficamente
situada em torno da Baía de Todos os Santos), onde se localizava parte
importante dos engenhos que utilizavam a mão de obra escrava. Acabaram
massacrados pelas fileiras da Guarda Nacional, pela polícia e por civis armados
que estavam apavorados ante a possibilidade do sucesso da revolta negra.
A repressão, as prisões e as sentenças
A partir daí, a repressão avançou vasculhando moradias. O
resultado foi a apreensão de vestimentas (túnicas brancas) e escritos
(fragmentos de orações). Foram recolhidos objetos como tábuas para ensinar a
ler e a escrever em árabe, pequenas bolsas feitas em couro contendo frases do
Alcorão e usadas como proteção contra “todos os perigos”. Tais descobertas
incriminaram seus proprietários, provocando detenções de centenas de escravos e
libertos no Forte de São Marcelo (conhecido como Forte do Mar). Os aprisionados
foram conduzidos posteriormente aos tribunais onde aconteceram os julgamentos e
as sentenças.
Cálculos efetivados por estudiosos do tema, apoiados em
documentos oficiais, estimam que estiveram envolvidos no conflito de 600 até
1500 africanos. Contudo, é necessário pontuar que do total dos africanos
muçulmanos que viviam na Bahia naquela época, nem todos participaram do
movimento. Entretanto, as autoridades constituídas poucas vezes fizeram tal
distinção.
Interligada à complexidade da situação, destaca-se a questão
da língua árabe, geralmente desconhecida pelas autoridades estabelecidas e pela
população. Nos autos do processo, muitos dos suspeitos e dos aprisionados, possivelmente
tentando escapar das acusações e das penas que aconteceriam (e aconteceram), ou
desejando ocultar os planos da revolta, negavam saber ler e escrever em árabe.
Assim, os inquisidores tinham enormes dificuldades na tradução dos papéis ou
dos depoimentos que seriam provas de incriminação dos envolvidos. A transcrição
do que era declarado pelos envolvidos, incontáveis vezes, podia ser uma
aproximação do que fora realmente dito; ou do que o escrivão policial entendera
ou pensara que entendera.
Frequentemente, sem prova definitiva, inúmeros foram presos,
julgados e sentenciados. Muitos foram mortos e outros deportados. Torturas
também foram aplicadas, como condenação, especialmente aos libertos, já que os
cativos permaneciam com as suas atribuições na sociedade hierarquizada e
escravista daquela época. Apesar de massacrada e da breve duração, a Revolta
dos Malês demonstrou às autoridades e às elites o potencial de contestação e
rebelião que envolvia a manutenção do regime escravocrata. Essa ameaça esteve
sempre presente durante todo o Período Regencial e se estendeu pelo governo
pessoal de D. Pedro II.
Breve duração e longa repercussão
Se a breve duração do movimento malê, ocorrido em poucas
horas do dia 25 de janeiro de 1835, é um lado da questão, o outro envolve a
repercussão que ganhou adiante. A presença de escravos nas cidades do Império
(e na Corte) sempre inquietou a população “branca”. Ainda mais quando notícias
de insurreições negras (reais ou imaginárias) chegavam de pontos do Império,
como essa revolta urbana de 1835. Outra imensa preocupação era a difusão do
“haitianismo”, movimento iniciado em 1790 por escravos e que culminou com a
independência do Haiti, em 1804.
Medos, receios e intranquilidades passeavam pelos quatro
cantos do Império brasileiro, passando a compor o dia a dia das “pessoas de
bem”, observa o historiador Ilmar Rohloff de Mattos. Exemplo disso pode ser
notado pelo edital da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de 1831, determinando
que: "os escravos que forem encontrados fazendo desordens serão conduzidos
ao calabouço, dando-se imediatamente parte aos senhores para estes mandarem dar
nos motores cem açoites, conforme a lei, e, se recusarem a fazê-lo, sofrerão a
multa de 30$000 e 8 dias de pena, bem como os senhores que deixarem de
castigá-los”.
No caso da Revolta dos Malês, que deixou a cidade de
Salvador em pânico por várias horas, após o movimento ter sido sufocado pelas
autoridades responsáveis os participantes que sobreviveram foram aprisionados.
Porém, mesmo depois das sentenças, envolvendo penas como açoite e degredo,
significativos desdobramentos prosseguiram ao longo do tempo.
Segundo a historiadora Luciana da Cruz Brito, espalhou-se um
sentimento antiescravista pela Bahia. Viver naquela província “após 1835
tornou-se uma tarefa ainda mais difícil para os africanos”. Isso porque eles
foram considerados responsáveis pelo movimento malê e vistos pelas autoridades
imperiais constituídas “como inimigos da nação, da civilidade e da segurança”.
Até mesmo para os proprietários de escravos e de terras,
interessados na manutenção do sistema vigente, inúmeros receios ocuparam seus
pensamentos, resultando em leis que objetivaram responder à demanda de controle
e de repressão da população africana.
O clima antiafricano, após o movimento malê, alcançou
tamanha gravidade que, no dia 30 de abril de 1835, um deputado apresentou à
Assembleia Legislativa da província da Bahia uma proposta sugerindo que “o
governo provincial expulsasse para fora do Império, com maior brevidade
possível, e ainda à custa da Fazenda Pública, os africanos forros de um e outro
sexo, que se fizerem suspeitos de promover a insurreição de escravos”. É
importante observar que, ainda segundo a historiadora Luciana da Cruz Brito, a
intenção de “deportar os africanos, naquele momento, não viria associada a
nenhuma intenção de abolição da escravidão, sobretudo imediata ou
incondicional”.
As apreensões e os temores de que outros levantes dessa
natureza se alastrassem pelas províncias fez com que as autoridades tomassem
medidas e atitudes que impediram outras revoltas.
Na capital do Império, por exemplo, africanos libertos
oriundos da Bahia não eram bem-vindos e estavam proibidos de desembarcar na
cidade; sobretudo após a revolta de 1835.
Aqueles que já viviam na região voltam e meiam sofriam
perseguições por parte da força policial. A grande preocupação era quanto à
proliferação de reuniões que poderiam se desdobrar em outras tantas revoltas.
Nesse contexto, onde a tensão e a desconfiança dialogavam latentes, domicílios
eram invadidos, festas e encontros religiosos proibidos “quase sempre
pressentidos com horror pelos senhores”, segundo a historiadora Mary C.
Karasch.
Diante dos levantes de escravos ocorridos no Império na
primeira metade do século XIX, como o malê, não se pode concordar, segundo o
historiador Sérgio Figueiredo Ferretti, “com os defensores do mito da
democracia racial” e nem com a ideia da “benignidade da escravidão brasileira”.
Mãos letradas: saberes e liberdade enquanto projeto
Ainda sem resposta, uma questão se apresenta: como esses
escravos envolvidos no movimento malê chegaram a Salvador, já que pesquisas
indicam que, segundo o livro sagrado do Alcorão, não era permitida a escravidão
de um muçulmano. Historiadores, a partir desse preceito, se interrogam, indo
além: de que forma iniciados na religião foram negociados como cativos para o
Brasil, por exemplo? Teorias consideram que talvez não fossem escravos na
região de onde vieram. Teriam, sim, sido capturados por portugueses ou por
espanhóis que traficavam, comercializando esse tipo de “mercadoria”.
De todo o modo, estudiosos que se aprofundam nos fatos que
envolveram, por exemplo, a Revolta dos Malês, entendem que é simplificar em
demasia observar que a África trouxe para as terras americanas apenas, e tão
somente, a força de trabalho escravo que abasteceu as propriedades agrícolas,
além das incontáveis tarefas no mundo urbano.
Segundo a historiadora Priscilla Leal Mello, aquele
continente trouxe “mãos letradas na linguagem poética e abstrata do árabe. Não
trouxe apenar saberes orais. Trouxe saberes escritos em uma língua de
sofisticado alfabeto que, na época, a quase ninguém era cabível decifrar. Não
trouxe conhecimento apenas de conteúdo prático. (...) Não trouxe mentes vazias
que precisassem aprender na América escravista, e somente aqui, o sentido de
liberdade. Trouxe esse sentimento de liberdade (e de escravidão) não somente de
sua própria experiência, mas também de suas reflexões mentais mais profundas”.
Bem mais importante do que analisar o fato desses africanos
serem letrados é entender e refletir sobre o uso político que fizeram com tal
aprendizado ao se rebelarem, como fizeram os malês. Quando esses protagonistas,
reunidos no interior de casebres espalhados pelas ruas e vielas de Salvador,
planejaram ações que aconteceriam em janeiro de 1835, saíram da sombra.
Anônimos, pretenderam deixar claro as suas trajetórias.
Lutaram desejando preservar, nas palavras da historiadora
Maria Inês Cortes de Oliveira, as “raízes longínquas de suas culturas. Sua
vitória pode ser comprovada por tudo aquilo que conseguiram fazer chegar até
nós. A Bahia, melhor do que ninguém, é testemunha desse fato”.
Histórias recontadas e caminhos cruzados
“Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba
pelo menos de onde vens”. O provérbio africano que transita pela memória
coletiva da história afro-brasileira, retoma a trajetória de duas personagens
interligadas por laços familiares. De forma particular e singular, ambas
marcaram a presença das populações negras, mesmo que no caso de uma delas não
se tenha a certeza da existência. Trata-se de Luisa Mahin, que teria vindo para
o Brasil como escrava e a quem se atribui um importante papel no movimento
malê. Diversos pesquisadores avaliam ser uma figura idealizada, um arquétipo
construído, hoje reverenciado como símbolo da luta da mulher negra por diversos
setores da sociedade brasileira.
Luiza Mahin entrou para a História por meio de relatos do
seu filho, reconhecido como um dos precursores do movimento abolicionista no
Brasil, o poeta Luiz Gama, nascido em Salvador no dia 21 de junho de 1830.
Mesmo sem contar com documentação ou registros materiais que possam comprovar
efetivamente a sua existência, de acordo com a historiadora Aline Najara da
Silva Gonçalves, Gama revelou o “nome da mãe em uma carta autobiográfica
enviada em 1880 ao amigo Lucio de Mendonça e, antes disso, dedicou-lhe os
versos do poema Minha Mãe, escrito em 1861”. Alguns estudiosos alegam que Luiza
teria sido uma criação literária do escritor. De todo o modo, ficção ou não,
alimentou o desenvolvimento do mito.
No documento, escrito para Mendonça dois anos antes da sua
morte em São Paulo, informa ser filho natural “de uma negra, africana livre, da
Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luiza Mahin, pagã que sempre recusou o
batismo e a doutrina cristã. (...) Dava-se ao comércio – era quitandeira muito
laboriosa e, mais de uma vez, foi presa como suspeita de envolver-se em planos
de insurreições de escravos que não tiveram efeito”. Conduzida pelos caminhos
da fantasia ou da realidade por Luiz Gama, Luiza Mahin alcança a cena principal
do movimento dos malês.
Evidentemente não é possível, para os que não viveram os
mesmos tempos, resgatar com precisão os pensamentos mais profundos daqueles
protagonistas diante da escravidão. A violência e o terror impostos aos
africanos foram cruciais na própria formação da economia atlântica e de seus
múltiplos sistemas de trabalho, no decorrer do tempo em que a escravidão
vigorou mundo afora.
Segundo palavras dos historiadores João José Reis e Elciene
Azevedo, as histórias de liberdade vivenciadas nos tempos em que existiu o
cativeiro “pertencem ao território das sombras“. Mas não para sempre. Afinal o
sempre é todo o dia?
Resgatar tantas memórias, trazendo-as para a cena principal,
é considerar que a resistência fez parte do cotidiano dos envolvidos e que a
concepção de liberdade, para eles, não representava uma idealização afastada do
tangível: era um projeto e um objetivo a serem alcançados. E o legado
permanecerá vivo toda a vez que alguém escrever sobre o assunto, buscando
despertar o interesse e a reflexão sobre a Revolta dos Malês.
Jeanne Abi-Ramia é professora de História e consultora da
série de TV O Mochileiro do Futuro.
PESQUISA GOOGLE:
Dionê Leony Machado
N2 https://youtu.be/ixrksUEqVCw?is=cuTScERlHgaiNTZg https://www.instagram.com/reel/DdXK5SkJqRV/?l=1 https://www.inst...