quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NOTÍCIAS...02

 

N02

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NOTÍCIAS...01

 

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NOTAS 01

 







INÍCIO MUNDO... 04 B

 

4ª. Parte INÍCIO  MUNDO //4B

"Foram os europeus, e não os africanos ou asiáticos, que aboliram a escravatura"

Entrevista ao historiador João Pedro Marques, que acaba de publicar Combates pela Verdade - Portugal e os Escravos (Guerra&Paz), livro que reúne crónicas publicadas em vários jornais, incluindo o DN. Explica como a escravatura foi um terrível fenómeno global.

Europa

Afirma no seu livro que Portugal não foi a maior potência escravagista, como é muitas vezes repetido. Qual foi então?

No mundo ocidental foram os Estados Unidos da América. Por altura da guerra civil, em meados do século XIX, os Estados Unidos da América tinham cerca de 04 milhões de escravos negros. O Brasil português de inícios do século XIX teria pouco mais de 1 milhão e as colónias portuguesas em África e na Ásia teriam nessa época apenas algumas dezenas de milhar. Mas convém não esquecer que no resto do mundo houve potentados com muito mais escravos do que os Estados Unidos da América e mesmo em África é possível que no século XIX o Califado de Sokoto, no norte da Nigéria, tenha tido perto de 4 milhões de escravos.

Escravatura. "Foram os árabes muçulmanos que começaram o tráfico de escravos em grande escala"

 O barão negro que teve mil escravos

A escravatura é associada a um fenómeno de opressão de europeus brancos sobre africanos negros, mas antes e depois do tráfico transatlântico houve outras lógicas, certo?

Claro que sim. É um erro limitar a escravatura à relação europeu-africano. A escravidão e o tráfico de pessoas são práticas muito antigas, muito anteriores aos Descobrimentos e à expansão europeia para África e para as Américas. Basta pensar, por exemplo, na dimensão e importância que tiveram durante o Império Romano, onde os escravos negros eram, aliás, relativamente raros. Há que dizer também que depois do fim do tráfico transatlântico e da abolição da escravidão, no século XIX, surgiram outras formas de exploração humana geralmente designada por trabalho forçado, formas essas que infelizmente ainda existem em várias partes do mundo.

 

De que modo houve africanos cúmplices dos europeus no tráfico negreiro?

Com raras exceções eram os africanos que escravizavam outros africanos e muitos chefes e negociantes africanos foram parceiros de negócio dos europeus no envio dessas pessoas escravizadas para as colónias americanas. Em troca do fornecimento de escravizados obtinham produtos (panos, armas, bebidas alcoólicas, etc.) que tinham para eles um altíssimo valor político e social, pois permitiam obter dependentes, isto é, subordinados, mulheres e, sobretudo, escravos. Em África, quantos mais dependentes maior era o poder de uma pessoa.

Houve vozes entre os europeus da era das Descobertas verdadeiramente contra a escravatura?

Houve algumas vozes - poucas -, que se insurgiram contra certas práticas e modalidades da escravatura mas não contra a escravatura em si mesma. O princípio da escravidão resultante, por exemplo, de guerra justa era aceite, e a sua legitimidade não era posta em causa. A compra e venda de negros era considerada em si lícita e justa, desde que certos princípios fossem observados e respeitados.

Atacar figuras como o Padre António Vieira por cumplicidade com o colonialismo é adotar uma visão simplista da história?

Sim, sem dúvida. António Vieira é uma figura complexa, um pensador do século XVII e no século XVII as pessoas não concebiam a escravatura nem a história do mundo colonial como nós o fazemos no século XXI. Os ataques ao Padre Vieira e a outras figuras do passado são geralmente feitos por "presentistas", isto é, pessoas que têm uma abordagem ética, mas não uma abordagem histórica das realidades passadas. Pensam como se o passado fosse presente e se regesse pelas regras e princípios de agora, o que é obviamente um erro.

 

O marquês de Pombal foi mesmo pioneiro na abolição da escravatura na Europa?

Foi. O seu alvará de 16 de Janeiro de 1773 emancipou gradualmente os escravos existentes no território metropolitano de Portugal e em duas colónias: os Açores e a Madeira, o que nenhum país fizera até então. Pombal foi, portanto, um pioneiro da abolição, ainda que, depois, tenha havido um grande protelamento político, por diversas razões, e o processo abolicionista português que pôs fim à escravidão nas restantes colónias só tenha sido concluído cerca de um século depois.

Como explica o silêncio que existe não apenas sobre o tráfico negreiro transariano feito pelos árabes como também sobre os mercados de escravos europeus no Norte de África nos séculos XVIII e XIX?

Esse silêncio é uma consequência do ativismo político que só se interessa pelo tráfico transatlântico de escravos e pela escravatura desenvolvida pelos ocidentais. O objetivo é a diabolização dos ocidentais. Nessa ótica, não convém a esse ativismo reconhecer que houve outras formas tão ou mais violentas de escravatura, nem que terá havido mais de um milhão de europeus capturados e escravizados pelos reinos do Norte de África. Isto para não falar de outros milhões de europeus escravizados noutras partes do mundo muçulmano.

Faz sentido um pedido de desculpas dos europeus aos países africanos?

Não. Seria bom que os estados reparassem as barbaridades e injustiças atuais, aquelas que estão ao alcance da sua mão corrigir, mas pedir desculpa por coisas ocorridas há séculos, como o tráfico de escravos, por exemplo, não faz sentido. Por cinco razões. Em primeiro lugar porque esse tráfico surgiu e manteve-se por vontade convergente de europeus e africanos; de um ponto de vista histórico não faz sentido que os europeus peçam unilateralmente desculpa por uma relação que não obstante a sua desumanidade foi mutuamente assumida. Em segundo lugar porque aquela prática, ainda que chocante e intolerável aos nossos olhos, não era, então, considerada crime em nenhuma parte do mundo. Em terceiro lugar porque sendo a história feita de muita atrocidade seria necessário pedir desculpa por quase tudo o que aconteceu no passado, o que é absurdo. Em quarto lugar porque a exigência de um pedido de desculpas é um mero primeiro passo e estratagema político para obter indemnizações. Por último porque, no século XIX, numa época em que os ocidentais julgavam erradamente que eram os únicos responsáveis pela existência da escravatura negra, esses mesmos ocidentais tiveram a coragem de reconhecer a injustiça de tal prática e de emendar a mão, abolindo a escravatura. Foram os primeiros a fazê-lo e foi a primeira vez que tal coisa aconteceu na história da humanidade. Foram os europeus, e não os africanos ou asiáticos, que aboliram a escravatura e esse é um aspeto que deve ser realçado e enaltecido. O mundo deve agradecer às nações abolicionistas e não exigir-lhes pedidos de desculpa.

O racismo de hoje em sociedade como a norte-americana pode ser considerado subproduto da escravatura que durou até à guerra civil?

Sim. O racismo foi, a partir de certo ponto, uma consequência das relações que se estabeleceram entre senhores e escravos nas sociedades escravistas americanas. Negro começou, aí, a ser sinónimo de escravo, isto é, de inferior, e começou a ser associado a formas de labuta e de vida desvalorizadas e degradantes. Depois, essa conceção errada foi incorporada numa teorização que estabeleceu uma hierarquia entre as raças humanas e tudo isso teve grande eco e acolhimento no sul dos Estados Unidos da América.

 

O que lhe vem à cabeça quando pensa numa figura intelectual como Thomas Jefferson como dono de escravos e a viver dos seus rendimentos?

Penso que era um homem do seu tempo e da sua sociedade, uma sociedade que, por defender a liberdade e estar assente na escravatura, estava cheia de contradições, às qual Jefferson não escapou. Como outros não escaparam. Pouca gente saberá, julgo eu, que em 1802 Napoleão Bonaparte, por exemplo, restabeleceu o tráfico de escravos e a escravidão, que haviam sido abolidos em França e nas colónias francesas oito anos antes.

 

Em Lisboa faz sentido um museu das descobertas ao lado de um memorial da escravatura como forma de sarar feridas da nossa história?

Faz todo o sentido um museu das descobertas em Lisboa, não para sarar feridas, mas para mostrar o que foi um dos acontecimentos mais importantes da história humana e para esclarecer dúvidas que possam existir a respeito dele. Eu defendi e defendo que a escravatura deve fazer parte integrante desse museu, o que não exclui a existência de um memorial. Podem perfeitamente coexistir e espero que isso venha a acontecer.

Dionê Leony Machado

A CONVERSÃO DE UM ETÍOPE 04 A

 

A CONVERSÃO DE UM ETÍOPE...

Dionê Leony Machado

Ano: 2023

Atos: A Conversão de um Etíope e o Primeiro Missionário Africano (Atos 8.25-40) -

 

 A cópia mais antiga ilustrada da Bíblia é conhecida como os “Evangelhos de Garima”,

em um mosteiro no norte da Etiópia (aprox. 330 e 650 d.C.).

 

O conhecimento que recebemos da História do Cristianismo é extremamente limitado e restritivo à perspectiva Ocidental e pouco sabe sobre o Cristianismo Oriental, visto que houve a grande ruptura eclesiástica (1054 d.C). Mais lamentável ainda é a nossa total ignorância histórica do Cristianismo Africano, agravado pelo fato de que muitos dos grandes expoentes da ortodoxia cristã tem suas origens neste Continente (Orígenes, o alexandrino; Tertuliano, o norte africano, sem falar de Agostinho e Atanásio dois pilares do pensamento cristão) e onde nos dias atuais é simultaneamente a região global que mais cresce e que mais sofre o cristiani(cídio) cínica e covardemente ignorado pela mídia ideológica e convenientemente abandonado à própria sorte pelas lideranças cristãs do Ocidente e Oriente.

O motivo da escassez de informações históricas canônicas e também seculares desta imensa região do globo terrestre não é indicado com clareza, como tão bem sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as notícias sobre a época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são tão escassas, enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia, ainda que incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988, pp. 742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o florescimento do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os cristãos-helenísticos e os cristãos-coptas (egípcios).

Percebe-se que há um esforço muito grande para se esconder a rica história da vertente cristã africana. Os grandes personagens mencionados acima são normalmente citados sem se fazer um link com suas etnias africanas, de maneira que se passa a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.

            Nas páginas do livro de Atos composto pelo evangelista Lucas como a segunda parte do seu volume inicial, encontraram um registro peculiar – a evangelização e subsequente batismo de um oficial etíope (At 8.26-39). Todavia, no que tange a interpretação e estudos neotestamentário, o registro lucano do encontro de Filipe com esse graduado oficial etíope é um dos relatos mais esquecidos. Estudos focados diretamente nesta passagem são escassos, de modo que, precisa ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos que nenhum registro nas Escrituras é destituído de valor.

            A narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do debate do diácono Estevão com as autoridades máximas do judaísmo e que produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas, mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.

Na sequência o historiador evangélico passa a relatar o primeiro grande avivamento evangelístico que está ocorrendo na região vizinha Samaria pela instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que Lucas está seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra (1.8). Mas na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao registro do envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em direção a Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no período da regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande alegria “ continuou o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas agora sendo portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem chamados “cristãos” os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto, esse homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia, que naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no Continente Africano.

A ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que a cena seguinte é a conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco para prender cristãos, e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o missionário para os povos gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das fronteiras do Império Romano, todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus missionários e os enviando à todas as nações, incluindo a Etiópia e por consequente o Continente africano; o Espírito Santo é quem estabelece a agenda missionária mundial de maneira que o Etíope e Paulo são igualmente seus instrumentos.

Desta forma textualmente é possível afirmarmos que o contexto mais amplo (6.1-11.9) se constituiu em um bloco literário, uma vez que as narrativas se comunicam entre si estabelecendo uma inter-relação textual, oferecendo aos leitores uma perspectiva além dos fatos compartilhados unitariamente. O que também nos faz rejeitar as propostas daqueles que transformam esse livro e todas os demais literaturas bíblicas, em cochas de retalhos coladas e remendadas ao bel prazer dos escribas e amanuenses no tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma proposta muito clara esboçada no início de sua obra e a segue com afinco, conectando os fatos históricos por ele selecionados, e assim, constituindo um texto único bem elaborado.

O fato de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma inconclusiva tem estimulado alguns comentaristas a pensar que ele pretendia escrever um terceiro volume, onde haveria de continuar o seu registro da expansão do cristianismo além fronteiras do Império Romano, o que poderia incluir a Etiópia e demais nações africanas. A expressão com que Lucas conclui a narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu caminho” possibilita a interpretação de que ele tem a expectativa e/ou conhecimento de que o Evangelho chegara ou chegou efetivamente àquela região africana. Uma vez que ele conclui esse segundo volume entre cinco ou mais anos depois dos fatos registrados é plausível supor que ele tenha obtido informações orais e até mesmo documentais dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados em Atos.

            Qual a razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no desenvolvimento do cristianismo africano?

Análise da Narrativa Lucana 

            O livro de Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário de cunho histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que seu propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras a respeito do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e ressurreição de Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro volume evangélico.

            Ele define seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberá poder para testemunhar com grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia, de Samaria, e até aos confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição" (Atos 1.8 Bíblia Viva – sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão dentro desta proposta conforme esboço simples abaixo:

- Propagação em Jerusalém (1-7)

- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)

- Propagação aos extremos do Império (13-28).

            A perícope do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa lucana, mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta “aos confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia escrever um terceiro volume.

            Nesta passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo “Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35), mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de moldura desta perícope.

Ao destacar que Felipe foi comunicado por um anjo para ir especificamente a um local “vai para a banda do sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza”,[1] o historiador tem plena consciência de que este é o caminho[2] que conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos geográficos estava na Grécia:

Na antiguidade clássica, a terra habitada era retratada como um disco rodeado pelo "Mar Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra” (τά œσχατα τής γής) referidos, como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais distantes na borda do disco, por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste, Etiópia a sul e Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da frase no Thesaurus Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van Unnik. A expressão tem esse significado na Septuaginta e nos escritores patrísticos (muitas vezes citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais frequência na literatura grega. Foi usado da mesma forma nos escritores clássicos e, aparentemente, mantiveram esse significado geográfico do século V aC até o sexto século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor da citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas neste texto especifico de Atos defendo a Etiópia como a referência aos “confins da terra”, pela utilização na perícope da figura central do Etíope).

            Outro aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o ponto de convergência.  Deste modo, podemos concluir que a narrativa do Etíope não é apenas uma nota de rodapé, como é tratado pela maioria dos comentaristas, ou incidental, mas um fato relevante para o historiador Lucas. O avivamento evangelístico dos samaritanos e a conversão de Paulo são dois rios cujas correntezas chegam à cidade de Antioquia, que se constitui na maior base missionária do cristianismo aos povos não judeus dentro do Império Romano.

Mas dentro da providência divina, e o livro de Atos é denominado por alguns comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver 59 referências à Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para levar a mensagem do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo (Messias) morto e ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais distantes como o Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do planeta. Essas ações do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a todos os seus discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a todas as nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento literal da profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]

O Etíope e as Origens do Cristianismo no Continente Africano

O texto didaticamente nos traz as informações básicas de quem é esse Etíope eunuco,[4] o que ele estava fazendo em Jerusalém e o que estava lendo.[5]

O texto deixa claro também que não se tratava de um viajante comum e corriqueiro, mas de um alto funcionário[6] de Candace[7] da Etiópia, um reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este Etíope tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos) deste profeta,[8] que somado à informação de que viajava em uma carruagem indica que era um homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para adorar, indica que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou um temente a Deus.[10]

Então a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no imperativo, que se aproxime e acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira que pudesse ter acesso ao viajante e este a ele, possibilitando o início de um diálogo. A proximidade permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível era muito comum naqueles tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do profeta Isaias, o que proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que produzira o diálogo: “você está compreendendo o que lê?” A simples leitura de textos bíblicos não implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a mensagem neles contidas. 

A resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe possa expor-lhe as escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo com tudo que tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia sido morto, mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as prerrogativas do Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11] Esse é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir dos sujeitos que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe anuncia Cristo ao Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou através das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12]. Filipe já não lhe fala do Messias, mas de Jesus; como uma alusão ao destino do “Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc 8,3).

Os versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez entendido e declarado a fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13], pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de Jesus Cristo. 

No verso 39 ambos retomam suas atividades, Felipe retoma sua missão evangelística em Azoto e arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope retoma seu caminho de volta à sua nação, mas além de suas atividades oficiais, agora ele também tem as “boas novas” para compartilhar à sua rainha e todos os moradores da Etiópia.

A Igreja Cristã na Etiópia

            Esse artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das literaturas neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a relevância do cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas vertentes cristãs Ocidentais.

Início com a opinião abalizada de Maguckin:

O cristianismo no continente africano começa sua história, principalmente, em quatro locais distintos: Alexandria e Copta Egito, a região norte da África em torno da cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia (p. 30, 2011).

Etiópia o Segundo Éden

Uma das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios da igreja na Etiópia está na própria localização desta nação que em períodos tardios chegou a ser confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no imaginário greco-romano era os “confins da terra”, o último bastião da civilização, antes da barbaria.

Foram os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia” que significa “rostos queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura expressa a beleza e o encanto de sua geografia, de maneira que se tornou conhecida como “uma terra de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem razão visto que juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os pés da primeira geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre se constituíram em um extraordinário mosaico humano.

Uma grande maioria de estudiosos explicam as origens da civilização etíope partindo da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que inicialmente se estabelecem na cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na cidade de Aksum (Axum) ao norte em busca de comércio no século 5 a.C., entretanto a civilização etíope já era muito mais antiga e muito mais estabelecida do que antes destes colonizadores a invadirem (como no caso do Brasil que os portugueses “descobriram” e das civilizações Incas e outras que foram dizimadas pelos invasores espanhóis em toda América Latina).

        Outro aspecto relevante é que seu idioma comum é chamado “cuxítica”,[14] de maneira que encontra uma ligação forte com o personagem bíblico Cuxe em Gênesis.[15] É possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.

Na História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas referências a Etiópia na Torá (Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo livro, Gênesis (2.13), é colocada em um contexto geográfico a partir do Éden; José se casou com uma mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos (Manassés e Efraim, dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos judaicas. Moisés se casou com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela Jetro, um etíope, foi um conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente dos povos canaanitas, aos israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres cuxitas/etíopes (Êxodo 34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na corte do rei durante o tempo de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia (36.14, 21, 23). O nome do avô de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro” se refere a uma pessoa de descendência africana. O profeta Sofonias também possuía descendência cuxita (1.1).

A Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados judeus foram espalhados após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de serem trazidos de volta (Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que este oficial etíope tenha tido contato com pessoas de cultura e religião judaicas na sua região, ou talvez no Egito, onde havia se formado as maiores colônias fora da Palestina. Partindo destas primícias sua cópia do rolo de Isaías provavelmente era da Septuaginta grega, originalmente feita em Alexandria, no Egito. Visto que o reino etíope ficara parcialmente helenizado, a partir do tempo de Ptolomeu II (308-246 AEC), não era incomum que este oficial soubesse ler a língua grega. Vindo a ser um prosélito ou um temente a Deus, e sua subsequente conversão ao cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras do Salmo 68.31, cujo contexto é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da terra.

Esta ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas neotestamentária. Por inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto, descendente de Cam (Mateus 10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de Cirene, uma cidade que ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a carregar a cruz (Mateus 15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no dia de Pentecostes, que chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho aos de língua grega (Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi tutelado pelo casal judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo, tendo pregado nas comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o Negro) e Lúcio de Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da Síria (Atos 13.1),[16] onde os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11.26). Os Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da Síria que Lúcio e Simeão ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o ministério do evangelho (Atos 13.2,3).

As relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das rotas mais antigas conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um dos primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18] na mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se estabelecendo.

Na história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas em seus registros como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de Homero (800 a.C.) Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da história (europeia) cita com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox. 440 a.C.); no período romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser relacionado em termos raciais englobando todos que tinham pele negra e cabelos grossos e enrolados (Cláudio Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o Quadrapartitium (latim) que significa “Quatro Livros”).  

O ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua semítica que se desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no Chifre da África, como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez veio a se tornar a língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da Etiópia. Ainda nos dias atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Tewahido da Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia, da Igreja Católica Etíope, da Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel (judeus etíopes).

Considerações Finais

A história de fundação do cristianismo na Etiópia mais historicamente substancial é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no século IV d.C., pois foram os primeiros a cristianizar uma corte real da Etiópia. Uma estratégia que teve sucesso em muitos lugares, todavia, ao não constituírem um cristianismo autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas diversas camadas sociais, depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao sul, praticamente desapareceu quando a corte real substituiu o cristianismo pelo islamismo como religião oficial.

Entretanto, à margem do registro histórico-arqueológico, os fiéis cristãos ortodoxos etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação” próprias, sendo a mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus” etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao Messias eram conhecidas por essas pessoas.

O sucinto levantamento aqui apresentando corrobora ao menos em tese de que existe fortes indícios e embasamentos para se buscar uma origem primária para o desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope, evidentemente não dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas comunidades estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão pela qual tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas das vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

 

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