O cristianismo está encolhendo ou deslocando-se?
Por Gina A. Zurlo e Todd M. Johnson
Uma das principais manchetes relacionadas à religião gira em torno do declínio
do cristianismo na América do Norte. Hoje, a Europa ocidental é classificada
como pós-cristã e as pesquisas reportam constantes declínios na crença, na
membresia e na identificação religiosa. Ao longo do último século, contudo, o
cristianismo deslocou-se de forma acentuada do Norte Global para o Sul Global,
com um crescimento dramático das populações cristãs em locais como a África
Subsaariana e o Leste Asiático1 – fenômeno que parece persistir no
século 21. Este artigo oferece uma análise diferenciada para a grande indagação
mundial a respeito da maior religião do mundo: está encolhendo ou
deslocando-se?
A 3ª edição da Enciclopédia Cristã Mundial [World Christian Encyclopedia]2
ajuda a responder a essa pergunta apresentando um retrato verdadeiramente
global do cristianismo. Entenda-se por “verdadeiramente global” a dimensão da
presença do cristianismo em todos os países e entre muitos povos, mas de forma
mais fundamental, em sua contextualização nas culturas do mundo e seu
envolvimento com o restante da humanidade. Em 2018, a África tornou-se o
continente com o maior número de cristãos, superando a América Latina (que
havia superado a Europa em 2014). É um marco para o cristianismo africano, que
dá origem a vários questionamentos importantes relacionados ao deslocamento do
cristianismo para o Sul Global. Os recursos cristãos também estão se
deslocando? Os textos teológicos estão mudando? Os relatos globais do
cristianismo estão sendo escritos? O Sul Global é a sede dos novos “centros” do
cristianismo global, enquanto o declínio gradual do cristianismo no Ocidente
ainda persiste. Todas essas tendências contribuem na avaliação da condição do
cristianismo no século 21.
Enciclopédia Cristã Mundial, 3ª edição
A Enciclopédia Cristã Mundial representa a mais abrangente tentativa de
quantificar os adeptos do cristianismo e de outras religiões do mundo. O
esforço contínuo ao longo de 50 anos já documentou a afiliação a 18 tradições
religiosas/não religiosas no passado, no presente e no futuro, bem como detalhes
sobre o cristianismo até o nível denominacional de cada um dos 234 países do
mundo. A abrangência e a profundidade de seu conteúdo tornam essa enciclopédia
um dos livros mais citados no cristianismo mundial e nos estudos missionários.
Desde a publicação da primeira edição, em 1982, nenhuma outra obra de
referência sobre o cristianismo mundial equipara-se à sua abrangência global.
Para a terceira edição, os pesquisadores contataram todas as denominações
conhecidas em todos os países do mundo a fim de obter informações atualizadas
sobre seus adeptos. Especialistas e líderes religiosos locais ajudaram na
verificação dos números e na revisão dos dados, especialmente em países de
difícil acesso. Nesse sentido, a base da Enciclopédia permanece a mesma,
com dados quantitativos confiáveis e bem pesquisados sobre o cristianismo
global e outras religiões. Essa edição também aprimora sua apresentação do
cristianismo em todo o mundo, superando a categorização padrão das duas edições
anteriores. A descrição de cada país inclui informações sobre as
especificidades do cristianismo nesse contexto, como: educação teológica,
gênero, saúde, mudanças climáticas, violência, política ou outras tendências
contemporâneas. Como resultado, a terceira edição é mais contextualizada para
as experiências vividas por cristãos em todo o mundo.
Muitas mudanças na natureza do cristianismo mundial dificultam esse tipo de
pesquisa demográfica. As estruturas denominacionais tradicionais estão muito
mais flexíveis do que costumavam ser, com uma quantidade significativa de dupla
afiliação entre tradições (por exemplo, muitos católicos batizados são, hoje,
pentecostais) e linhas menos definidas no que se refere à membresia da igreja.
As denominações protestantes históricas estão perdendo membros para igrejas
independentes, desconectadas de qualquer tipo de estrutura ou rede, que são
muito mais difíceis de investigar. Também é um desafio tentar acompanhar o
acentuado crescimento em comunidades cristãs clandestinas na Ásia. O
cristianismo pentecostal/carismático está experimentando o crescimento mais
rápido, mas, por diversas razões, o contato com essas igrejas, especialmente na
África, pode ser complicado. Mesmo assim, a Enciclopédia representa
nossos melhores esforços para oferecer uma resposta a uma questão urgente
relacionada ao cristianismo em todo o mundo: está encolhendo ou deslocando-se?
A resposta, talvez, não surpreenda: as duas coisas.
O deslocamento do cristianismo do Norte Global para o Sul Global
Nos últimos 120 anos, houve muito pouca variação na porcentagem do mundo que é
cristã. Em 1900, o cristianismo correspondia a 34,5% da população mundial; em
2020, o número era de 32,3%. Essa relativa estabilidade, no entanto, encobre
mudanças dramáticas na demografia do cristianismo. O gráfico abaixo demonstra
que, em 1900, 82% de todos os cristãos viviam na Europa e na América do Norte;
em 2020, esse número caiu drasticamente para 33%.
O encolhimento do cristianismo no Norte Global e seu deslocamento para o Sul Global representam as características essenciais que definem o cristianismo mundial no início do século 21. Como acontece no restante do mundo, o cristianismo também tem se tornado cada vez mais urbano, com o surgimento de cidades no Sul Global com grandes populações cristãs, como Lagos e Kinshasa. O cristianismo é visto em todo mundo como uma religião branca. Trata-se de uma percepção razoável, pois tem sido assim nos últimos mil anos ou mais. O cristianismo exportado para todo o mundo durante séculos envolveu predominância da raça branca, história ocidental, teologia e treinamento ocidentais. No entanto, apesar dessa percepção, a realidade é que o cristianismo se tornou uma religião majoritariamente não branca. A mudança do cristianismo também é evidente nas línguas maternas dos cristãos: a língua com mais falantes cristãos é o espanhol (cristãos da América Latina, não da Espanha), seguido por inglês, português (cristãos do Brasil, não de Portugal), russo (por causa dos cristãos ortodoxos) e chinês mandarim.
No entanto, somente uma abordagem continental é capaz de esclarecer a questão do encolhimento versus deslocamento. Em muitos aspectos, a África é aclamada como uma “história de sucesso” do cristianismo mundial, com um crescimento na porcentagem de cristãos de 9%, em 1900, para 49% em 2020. A República Democrática do Congo tem o crescimento mais significativo, subindo de 1% a 95% no mesmo período. A narrativa do crescimento, contudo, esconde o fato de que os cristãos na África têm menos acesso a médicos, taxas mais altas de mortalidade infantil, HIV e malária, menor expectativa de vida, bem como menos acesso à água potável. A RDC também é frequentemente chamada de “capital mundial do estupro”. A Ásia é conhecida por sua diversidade religiosa e, nesse gigantesco continente, o cristianismo cresceu de 2% em 1900 para 8% em 2020. O crescimento mais rápido ocorreu entre as igrejas domésticas na China, que hoje corresponde a 56 milhões de cristãos. O último caso de deslocamento está na Oceania. Austrália e Nova Zelândia, por causa de suas dimensões, dominam a demografia (com declínio em suas porcentagens de cristãos), mas mudanças religiosas profundas ocorreram na Melanésia, Micronésia e Polinésia ao longo do século 20, hoje regiões majoritariamente cristãs.
Vejamos agora o encolhimento. A Europa tem se tornado menos cristã nos últimos
120 anos, decrescendo de 95% para 76%, embora seja amplamente conhecido que a
maioria dos cristãos formalmente filiados a igrejas na Europa não são
participantes ou praticantes ativos. A América do Norte também experimentou um
declínio (de 97% para 72%), mas é o continente onde está o país com o maior
número de cristãos, os Estados Unidos. O declínio do cristianismo branco nos
EUA foi de alguma forma compensado pelo aumento de cristãos imigrantes –
legalizados ou não – em sua maioria da América Latina. A América Latina
complica de muitas maneiras a questão do “encolhimento versus deslocamento”.
Seus mais de 500 anos de história católica somados à sua localização geográfica
no Sul Global a tornam uma espécie de anomalia. A região experimentou um
ligeiro declínio, de 95% para 92%, mas esse declínio esconde a tremenda
ascensão do cristianismo pentecostal/carismático, que subiu de 0% da população
em 1900 para quase 30% em 2020. O caso mais significativo de encolhimento do
cristianismo é a região Norte da África-Ásia Ocidental, que inclui Iraque,
Síria, Israel, Palestina e Turquia. Essa região esteve sob enorme pressão nos
séculos 20 e 21 e testemunhou uma queda vertiginosa em sua população cristã, de
12,7% para 4,2% em 2020. A Turquia, em particular, era 22% cristã em 1900 e sua
porcentagem de cristãos hoje é de apenas 0,2%.
Retornando
às perguntas feitas anteriormente: Os recursos cristãos também estão se
deslocando? Os textos teológicos estão mudando? Os relatos globais do
cristianismo estão sendo escritos? Novamente, a resposta é sim e não. Há
enormes disparidades na distribuição de recursos entre os cristãos do Norte
Global e aqueles do Sul Global: o Norte detém a maior parte dos recursos, mas o
Sul tem mais cristãos. Embora muitos cristãos no Sul Global vivam no limite da
sobrevivência, a maioria dos cristãos no Norte vive em relativo conforto e
segurança. Suprir as necessidades sociais é parte integrante do testemunho, da
teologia e do ministério cristãos no pobre Sul Global. Para as igrejas do Norte
Global e seus missionários, a pobreza e a AIDS presentes no Sul não podem ser
ignoradas, tampouco a assistência pode ser prestada a partir de uma atitude de
superioridade, mas somente com humildade e em reconhecimento da crise de
desigualdade existente no cristianismo global.3
Reflexão: uma família cristã verdadeiramente global
Como cristãos, pertencemos a duas famílias globais, no mínimo. Primeiro, nascemos na raça humana – esse belo mosaico de povos, línguas, etnias, religiões e culturas. Enquanto celebramos as alegrias de fazer parte dessa rica tapeçaria, nos conscientizamos cada vez mais dos desafios de estarmos tecidos nela. Tendo o conhecimento e os recursos para vivermos bem, ainda falhamos quando tentamos trabalhar juntos para “salvar” nosso planeta. Os líderes mundiais discordam de forma veemente sobre comércio, aquecimento global, armas nucleares e uma série de outras questões. E, no entanto, apesar dessas diferenças, a família humana esbanja criatividade, produzindo maravilhas tecnológicas, estruturas fantásticas, obras de arte deslumbrantes, filmes comoventes, bela música e impressionantes obras de literatura. Nossa família é caótica e engenhosa, e nos alegramos por fazer parte dela.
Em segundo lugar, pertencemos a uma família cristã global composta por 2,5 bilhões de pessoas (cerca de um terço da família humana). Com cristãos presentes em todos os países do mundo, não somos homogêneos ou monolíticos, mas uma assembleia diversa que representa milhares de povos e línguas. Somos católicos, ortodoxos, protestantes e independentes, todos seguindo a tradição cristã central; alguns de nós são evangélicos, pentecostais ou carismáticos, ou uma combinação destes. Além disso, é provável que existam cerca de 45 mil denominações! Talvez falemos o idioma local, mas todos estamos conectados uns aos outros por nossa fé global.
A unidade
é uma meta digna para nossa família cristã global. Afinal, seguimos Jesus, para
quem a família não apenas designava os parentes biológicos imediatos, mas
incluía todos os que estavam unidos pela fé. Nossa família cristã global é
definida pela interação e pelo compartilhamento entre diferentes expressões
locais de cristianismo. Enquanto trabalhamos essa fé em nossos contextos
locais, partilhamos de uma consciência global de nossa fé comum e de nossa
identidade familiar global.
Este artigo foi originalmente
publicado no site do Movimento de Lausanne. Reproduzido com permissão.
Gina A. Zurlo é PhD em História e Hermenêutica pela Escola de Teologia
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