O ALARME QUE NINGUÉM OUVE
Sobre o analfabetismo intelectual da era da informação
Há uma ironia cruel no coração da nossa época, ironia que os
entusiastas do progresso tecnológico não conseguem, ou não querem, encarar:
nunca o ser humano teve acesso a tanto conhecimento, e nunca foi tão resistente
a pensar. A biblioteca universal que os humanistas do Renascimento sonharam
como utopia está hoje no bolso de cada adolescente, convocável com um toque do
polegar, e no entanto o efeito desta disponibilidade não foi a iluminação das
massas, mas uma espécie de saturnismo cognitivo, uma intoxicação lenta que
paralisa precisamente as faculdades que o acesso à informação prometia
despertar. O mundo está emburrecendo, não apesar da informação, mas por causa
dela, ou antes: por causa da forma específica como a informação, na era
digital, se organiza, se distribui e se consome.
Este é o paradoxo que deveria ocupar os filósofos, os
educadores, os estadistas. Não ocupa. E a razão pela qual não ocupa é ela
própria parte do diagnóstico: a incapacidade de reconhecer um problema exige
precisamente as faculdades interpretativas que o problema corrói. Estamos
diante de uma patologia que destrói os instrumentos necessários ao seu próprio
reconhecimento, o que a torna particularmente insidiosa, particularmente
difícil de nomear, e politicamente muito conveniente para quem governa massas
que já não sabem que foram governadas.
A primeira coisa a dizer é que informação e conhecimento não
são a mesma coisa, e que esta distinção, filosoficamente óbvia desde Platão,
foi silenciosamente apagada do vocabulário cultural dominante. Informação é o
dado bruto: o facto, a cifra, o evento, o nome. Conhecimento é a relação que o
espírito estabelece entre os dados, a hierarquia que lhes confere, a estrutura
em que os insere, o julgamento que deles extrai. Saber que Auschwitz existiu é
informação. Compreender o que Auschwitz significa para a condição humana, para
a teoria do Estado, para a filosofia moral, para a possibilidade ou
impossibilidade de Deus, isso é conhecimento. A diferença não é de grau, mas de
natureza.
Hannah Arendt, num dos diagnósticos mais lúcidos do século
XX, argumentou que o totalitarismo se tornava possível não apenas pela
crueldade dos carrascos, mas pela irreflexão dos executores ordinários, homens
que simplesmente não pensavam no sentido pleno do termo, que executavam ordens
sem jamais submeter essas ordens ao tribunal da consciência moral. A banalidade
do mal era, antes de tudo, uma banalidade do pensamento. O que Arendt não podia
prever é que o capitalismo tardio encontraria uma forma de produzir esta mesma
irreflexão sem necessidade de qualquer aparato totalitário: bastava criar uma
arquitetura de atenção que tornasse o pensamento lento, desconfortável,
socialmente indesejável, e economicamente irrelevante.
A atenção é o recurso escasso do nosso tempo, e há uma
indústria colossal dedicada à sua captura e fragmentação. Não é uma
conspiração, é uma lógica: cada segundo de concentração sustida que uma
plataforma digital consegue subtrair ao pensamento genuíno é tempo convertível
em dado publicitário. O resultado estrutural desta lógica é uma população
treinada para percorrer informação à velocidade do scroll, incapaz de habitar
uma ideia o tempo suficiente para a interrogar, para a virar do avesso, para a
confrontar com a sua contrária. O que se perde não é a informação, que
prolifera. O que se perde é o pensamento sobre a informação, que murchou.
O analfabetismo intelectual contemporâneo não se parece com
o analfabetismo clássico. O analfabeto clássico não sabia ler. O novo
analfabeto lê fluentemente, frequentemente com velocidade impressionante, mas
não compreende no sentido profundo do termo: não retém, não articula, não
contraria, não sintetiza. Lê como quem passa os olhos por uma janela de comboio
em movimento, vendo tudo e retendo nada, incapaz de habitar qualquer paisagem.
É um analfabetismo pós-alfabeto, o que o torna muito mais difícil de
diagnosticar e muito menos vergonhoso aos olhos de quem o sofre.
Nietzsche, com a clarividência que o século XIX ainda
permitia, anteviu em parte este processo quando escreveu, no início de
"Assim Falava Zaratustra", sobre os últimos homens: criaturas que
piscam o olho e dizem ter inventado a felicidade, que evitam toda a
dificuldade, que fazem de cada abismo uma planície transitável. O último homem
de Nietzsche não era estúpido no sentido convencional, era indiferente à
profundidade, satisfeito com o superficial, imune ao chamamento do difícil. O
que Nietzsche descreveu como uma possibilidade filosófica, a nossa época
realizou como condição sociológica média.
Este novo analfabeto tem opiniões sobre tudo. É nisto que
difere do ignorante tradicional, que pelo menos sabia que não sabia. O
analfabeto intelectual da era da informação confunde ter acesso a factos com
ter compreensão dos factos, confunde ter visto um documentário com ter estudado
um problema, confunde a familiaridade superficial com o domínio. É o que
Bertrand Russell chamaria de "a tirania dos incompetentes
confiantes", embora Russell não tivesse podido imaginar a escala e a
velocidade com que as plataformas digitais amplificam e premiam essa confiança,
pois o algoritmo favorece quem fala com assertividade sobre quem fala com
nuance.
Seria demasiado fácil atribuir tudo às plataformas
tecnológicas. A verdade é que os sistemas educativos ocidentais contribuíram,
décadas antes do smartphone, para a preparação deste terreno. Sob a influência
de pedagogias que confundiram a dificuldade com a opressão, e o esforço com o
trauma, muitos sistemas educativos progressistas expurgaram dos seus currículos
exactamente o que a educação deve conter: a exigência, a resistência, o texto
difícil que não cede na primeira leitura, o problema que exige perseverança, a
obra que não entretém mas que transforma.
Pascal escreveu que toda a miséria do homem deriva da sua
incapacidade de ficar quieto num quarto. A educação moderna, em vez de cultivar
essa capacidade, criou currículos pensados para não entediar, para ser
"relevantes", para manter o aluno "motivado", conceito cujo
peso psicológico é inversamente proporcional ao seu rigor intelectual. O
resultado é uma geração que desenvolveu uma intolerância aguda ao aborrecimento
produtivo, que é precisamente o estado mental em que a maior parte do
pensamento genuíno ocorre: aquele momento de vazio incómodo, anterior à ideia,
em que a mente, não encontrando distração imediata, começa a trabalhar sobre si
própria.
Nietzsche escreveu também, nos seus aforismos sobre o
estilo, que há pensamentos que chegam apenas quando se caminha, e que muitos
dos seus pensamentos nasceram na solidão e no silêncio. A arquitectura
cognitiva que a nossa época oferece é exactamente o oposto desta condição: um
ruído contínuo, uma interrupção permanente, uma oferta ilimitada de estímulos
que torna a solidão pensante não apenas rara, mas quase clinicamente insuportável
para quem foi criado na anestesia digital.
Tudo o que foi dito até aqui tem consequências políticas que
deveriam perturbar qualquer cidadão com alguma memória histórica. A democracia,
como forma de governo, pressupõe uma cidadania capaz de deliberação, de
julgamento, de avaliação crítica de argumentos e de interesses contrapostos.
Não pressupõe que todos os cidadãos sejam filósofos, mas pressupõe que exista
uma massa crítica de pessoas capazes de resistir à manipulação, de distinguir o
demagogo do estadista, de avaliar a substância para além da forma. Quando esta
massa crítica se dissolve, a democracia conserva a sua forma, as eleições, os
partidos, os discursos, os parlamentos, mas perde a sua substância.
Alexis de Tocqueville, num dos diagnósticos mais prescientes
da história do pensamento político, advertiu que o despotismo democrático não
precisaria de chains and dungeons como o despotismo clássico: seria um
despotismo suave, que se contentaria com infantilizar os cidadãos, mantendo-os
num estado de dependência agradável, sem os oprimir de forma visível.
Tocqueville chamou a este processo "servilidade doce". O que o
pensador francês não previu é que esta servilidade não seria imposta de fora,
mas desejada de dentro, abraçada voluntariamente por populações que preferem a
anestesia ao pensamento, e que encontraram nos ecrãs uma forma de despotismo
voluntário, confortável, colorido, e permanentemente disponível.
O emburrecimento do mundo não é apenas uma tragédia
cultural, é uma catástrofe política em câmara lenta. As populações que não
sabem pensar são populações que não sabem resistir. E as populações que não
sabem resistir são populações que serão governadas, com ou sem o seu
consentimento informado, frequentemente com o seu consentimento entusiasmado,
por quem souber explorar com suficiente destreza os mecanismos do medo, do
ressentimento e da simplificação.
Contra tudo isto, é necessário reafirmar, ainda que sem
ilusões sobre a audiência desta reafirmação, o que significa pensar. Pensar não
é acumular informações. Pensar não é ter opiniões. Pensar não é saber
argumentar em favor de uma posição previamente escolhida, o que é antes
advocacia do que filosofia. Pensar é a disposição para habitar a dificuldade
sem a resolver prematuramente, para manter a tensão entre ideias contraditórias
sem colapsar numa solução cómoda, para revisar as próprias convicções à luz de
evidências e argumentos, para distinguir o que se sabe do que se supõe, e para
reconhecer, com honestidade intelectual que custa, os limites do próprio
entendimento.
Sócrates disse que o reconhecimento da própria ignorância
era o princípio da sabedoria. Esta afirmação, repetida até à banalidade nos
manuais de filosofia, é na prática profundamente subversiva: numa cultura que
recompensa a confiança assertiva e pune a dúvida pública, a disposição
socrática é uma forma de resistência. O homem que diz "não sei", que
hesita antes de opinar, que exige tempo para pensar sobre o que lhe perguntam,
é hoje lido como fraco, evasivo, ou suspeito. O homem que responde
imediatamente, com firmeza e sem nuance, é lido como competente, seguro, e
digno de confiança.
Esta inversão axiológica, em que a velocidade substitui a
profundidade e a assertividade substitui a sabedoria, é um dos sintomas mais
claros do emburrecimento colectivo. E é tanto mais perigosa quanto menos
consciente é: não é o resultado de uma decisão, mas de uma acumulação de
pequenos hábitos cognitivos, cada um aparentemente razoável, que em conjunto
constroem uma arquitectura mental refratária ao pensamento genuíno.
O mundo soa um alarme. Soa-o em cada eleição em que a
demagogia derrota a complexidade, em cada debate público em que o slogan vence
o argumento, em cada sala de aula em que o professor sente que não pode ser
exigente sem ser denunciado, em cada redacção em que a profundidade é
sacrificada ao click, em cada conversa em que a discordância é lida como
agressão e a nuance como traição.
Muito poucos ouvem este alarme. E a razão pela qual muito
poucos o ouvem não é que sejam malvados, ou que não se importem, mas que o
próprio processo de emburrecimento colectivo atrofia precisamente as faculdades
necessárias para reconhecer o emburrecimento. É uma armadilha perfeita: quanto
mais efectiva a anestesia cognitiva, mais improvável o despertar.
Camus escreveu que é necessário imaginar Sísifo feliz. É
talvez necessário, no nosso tempo, imaginar um punhado de pessoas que continuam
a pensar, a ler, a hesitar, a duvidar, a exigir de si próprias a dificuldade,
sabendo que fazem parte de uma minoria que encolhe, e fazendo-o assim mesmo,
não por heroísmo, mas por uma espécie de recusa fundamental a abdicar da
faculdade que, mais do que qualquer outra, define o que é ser humano: a
capacidade de interrogar o mundo e a si próprio, sem garantias de resposta e
sem o conforto da certeza fácil.
O alarme soa. A questão não é se alguém o ouvirá. A questão
é se os que o ouvirem terão ainda a energia moral para não apertar o botão do
sonhar mais um pouco.
Oliver Harden
Textão pra ler, pra você que é homem da filosofia!😉
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