4ª. Parte INÍCIO
MUNDO //4B
"Foram os europeus, e não os africanos ou asiáticos,
que aboliram a escravatura"
Entrevista ao historiador João Pedro Marques, que acaba de
publicar Combates pela Verdade - Portugal e os Escravos (Guerra&Paz), livro
que reúne crónicas publicadas em vários jornais, incluindo o DN. Explica como a
escravatura foi um terrível fenómeno global.
Europa
Afirma no seu livro que Portugal não foi a maior potência
escravagista, como é muitas vezes repetido. Qual foi então?
No mundo ocidental foram os Estados Unidos da América. Por
altura da guerra civil, em meados do século XIX, os Estados Unidos da América
tinham cerca de 04 milhões de escravos negros. O Brasil português de inícios do
século XIX teria pouco mais de 1 milhão e as colónias portuguesas em África e
na Ásia teriam nessa época apenas algumas dezenas de milhar. Mas convém não
esquecer que no resto do mundo houve potentados com muito mais escravos do que
os Estados Unidos da América e mesmo em África é possível que no século XIX o Califado
de Sokoto, no norte da Nigéria, tenha tido perto de 4 milhões de escravos.
Escravatura. "Foram os árabes muçulmanos que começaram
o tráfico de escravos em grande escala"
O barão negro que
teve mil escravos
A escravatura é associada a um fenómeno de opressão de
europeus brancos sobre africanos negros, mas antes e depois do tráfico
transatlântico houve outras lógicas, certo?
Claro que sim. É um erro limitar a escravatura à relação
europeu-africano. A escravidão e o tráfico de pessoas são práticas muito
antigas, muito anteriores aos Descobrimentos e à expansão europeia para África
e para as Américas. Basta pensar, por exemplo, na dimensão e importância que
tiveram durante o Império Romano, onde os escravos negros eram, aliás,
relativamente raros. Há que dizer também que depois do fim do tráfico
transatlântico e da abolição da escravidão, no século XIX, surgiram outras
formas de exploração humana geralmente designada por trabalho forçado, formas
essas que infelizmente ainda existem em várias partes do mundo.
De que modo houve africanos cúmplices dos europeus no
tráfico negreiro?
Com raras exceções eram os africanos que escravizavam outros
africanos e muitos chefes e negociantes africanos foram parceiros de negócio
dos europeus no envio dessas pessoas escravizadas para as colónias americanas.
Em troca do fornecimento de escravizados obtinham produtos (panos, armas,
bebidas alcoólicas, etc.) que tinham para eles um altíssimo valor político e
social, pois permitiam obter dependentes, isto é, subordinados, mulheres e,
sobretudo, escravos. Em África, quantos mais dependentes maior era o poder de
uma pessoa.
Houve vozes entre os europeus da era das Descobertas
verdadeiramente contra a escravatura?
Houve algumas vozes - poucas -, que se insurgiram contra
certas práticas e modalidades da escravatura mas não contra a escravatura em si
mesma. O princípio da escravidão resultante, por exemplo, de guerra justa era
aceite, e a sua legitimidade não era posta em causa. A compra e venda de negros
era considerada em si lícita e justa, desde que certos princípios fossem
observados e respeitados.
Atacar figuras como o Padre António Vieira por cumplicidade
com o colonialismo é adotar uma visão simplista da história?
Sim, sem dúvida. António Vieira é uma figura complexa, um
pensador do século XVII e no século XVII as pessoas não concebiam a escravatura
nem a história do mundo colonial como nós o fazemos no século XXI. Os ataques
ao Padre Vieira e a outras figuras do passado são geralmente feitos por
"presentistas", isto é, pessoas que têm uma abordagem ética, mas não
uma abordagem histórica das realidades passadas. Pensam como se o passado fosse
presente e se regesse pelas regras e princípios de agora, o que é obviamente um
erro.
O marquês de Pombal foi mesmo pioneiro na abolição da
escravatura na Europa?
Foi. O seu alvará de 16 de Janeiro de 1773 emancipou
gradualmente os escravos existentes no território metropolitano de Portugal e
em duas colónias: os Açores e a Madeira, o que nenhum país fizera até então.
Pombal foi, portanto, um pioneiro da abolição, ainda que, depois, tenha havido
um grande protelamento político, por diversas razões, e o processo
abolicionista português que pôs fim à escravidão nas restantes colónias só
tenha sido concluído cerca de um século depois.
Como explica o silêncio que existe não apenas sobre o
tráfico negreiro transariano feito pelos árabes como também sobre os mercados
de escravos europeus no Norte de África nos séculos XVIII e XIX?
Esse silêncio é uma consequência do ativismo político que só
se interessa pelo tráfico transatlântico de escravos e pela escravatura
desenvolvida pelos ocidentais. O objetivo é a diabolização dos ocidentais.
Nessa ótica, não convém a esse ativismo reconhecer que houve outras formas tão
ou mais violentas de escravatura, nem que terá havido mais de um milhão de
europeus capturados e escravizados pelos reinos do Norte de África. Isto para
não falar de outros milhões de europeus escravizados noutras partes do mundo
muçulmano.
Faz sentido um pedido de desculpas dos europeus aos países
africanos?
Não. Seria bom que os estados reparassem as barbaridades e
injustiças atuais, aquelas que estão ao alcance da sua mão corrigir, mas pedir
desculpa por coisas ocorridas há séculos, como o tráfico de escravos, por
exemplo, não faz sentido. Por cinco razões. Em primeiro lugar porque esse
tráfico surgiu e manteve-se por vontade convergente de europeus e africanos; de
um ponto de vista histórico não faz sentido que os europeus peçam
unilateralmente desculpa por uma relação que não obstante a sua desumanidade
foi mutuamente assumida. Em segundo lugar porque aquela prática, ainda que
chocante e intolerável aos nossos olhos, não era, então, considerada crime em
nenhuma parte do mundo. Em terceiro lugar porque sendo a história feita de
muita atrocidade seria necessário pedir desculpa por quase tudo o que aconteceu
no passado, o que é absurdo. Em quarto lugar porque a exigência de um pedido de
desculpas é um mero primeiro passo e estratagema político para obter
indemnizações. Por último porque, no século XIX, numa época em que os
ocidentais julgavam erradamente que eram os únicos responsáveis pela existência
da escravatura negra, esses mesmos ocidentais tiveram a coragem de reconhecer a
injustiça de tal prática e de emendar a mão, abolindo a escravatura. Foram os
primeiros a fazê-lo e foi a primeira vez que tal coisa aconteceu na história da
humanidade. Foram os europeus, e não os africanos ou asiáticos, que aboliram a
escravatura e esse é um aspeto que deve ser realçado e enaltecido. O mundo deve
agradecer às nações abolicionistas e não exigir-lhes pedidos de desculpa.
O racismo de hoje em sociedade como a norte-americana pode
ser considerado subproduto da escravatura que durou até à guerra civil?
Sim. O racismo foi, a partir de certo ponto, uma consequência
das relações que se estabeleceram entre senhores e escravos nas sociedades
escravistas americanas. Negro começou, aí, a ser sinónimo de escravo, isto é,
de inferior, e começou a ser associado a formas de labuta e de vida
desvalorizadas e degradantes. Depois, essa conceção errada foi incorporada numa
teorização que estabeleceu uma hierarquia entre as raças humanas e tudo isso
teve grande eco e acolhimento no sul dos Estados Unidos da América.
O que lhe vem à cabeça quando pensa numa figura intelectual
como Thomas Jefferson como dono de escravos e a viver dos seus rendimentos?
Penso que era um homem do seu tempo e da sua sociedade, uma
sociedade que, por defender a liberdade e estar assente na escravatura, estava
cheia de contradições, às qual Jefferson não escapou. Como outros não
escaparam. Pouca gente saberá, julgo eu, que em 1802 Napoleão Bonaparte, por
exemplo, restabeleceu o tráfico de escravos e a escravidão, que haviam sido
abolidos em França e nas colónias francesas oito anos antes.
Em Lisboa faz sentido um museu das descobertas ao lado de um
memorial da escravatura como forma de sarar feridas da nossa história?
Faz todo o sentido um museu das descobertas em Lisboa, não
para sarar feridas, mas para mostrar o que foi um dos acontecimentos mais importantes
da história humana e para esclarecer dúvidas que possam existir a respeito
dele. Eu defendi e defendo que a escravatura deve fazer parte integrante desse
museu, o que não exclui a existência de um memorial. Podem perfeitamente
coexistir e espero que isso venha a acontecer.
Dionê Leony Machado
Sem comentários:
Enviar um comentário