quarta-feira, 17 de novembro de 2021

FICÇÃO E REALIDADE

 

 

A Geraldo Dias Machado, meu pai, in memoriam.

 

FICÇÃO E REALIDADE 


Sonhava um sonho estranho, uma realidade desconhecida que o levava a ver sem seus olhos, a falar sem suas palavras,  a ter a pele  eriçada e a mente convulsa. Via-se numa ladeira, em descidas e subidas intermitentes. Às vezes, ao cair, rolava até encontrar algo que o amparasse. E aí voltava a subir. 

 

A última vez que assim procedera, descortinara longo caminho Uma estrada de barro, longa, interminável e, ao longe, o mar lançando-se na praia em  busca de  contato e de vida, em ação contínua e exaustiva. A estrada de barro, sem sinais. No mar, um farol cintilava mostrando o caminho. Nele, um navio cuja bússola fixava o  norte, sem dia de retorno. Múltiplas foram as visões entremeadas:

 

1.  1973...O jovem e inexperiente oficial, no tijupá da Corveta, deixava-se molhar por gigantescas ondas. A embarcação flutuava, ao descer mergulhava nas águas oceânicas. Aprendera que o navio poderia partir-se ao meio, sob duas possibilidades de rompimento: 

 

a. Para fora, se o seu centro fosse alçado por única onda; b. Para dentro, se elevado em suas extremidades por ondas distintas. 

 

A consciência infunde temor.

 

Noite escura, chuvosa, sem lua, fria. O marinheiro de serviço, ao seu lado, silencioso.  Ambos cumpriam a função de olhar para a frente prevenindo abalroação. O Imediato, em posto de comando acima do convés principal, atento, observava o rumo, o cumprimento da derrota. Por cautela, o experiente comandante fizera diminuir a velocidade da embarcação socorrista. A tormenta se agigantava. 

 

A angústia, a solidão, o medo controlado.  O tenente em busca de sinais elevou seu olhar, o céu escuro e impenetrável não permitia alcance.  A Corveta estremeceu com o impacto de mais uma onda, o convés ficara alagado com águas que escorriam por escotilhas na amurada que o limitava. O jovem oficial sentiu o ânimo fraquejar. Entregou a alma ao Criador. 

 

2. O sonho profundo continuava. Escutou o toque do apito marinheiro chamando para reunir-se em parada, depois exigindo silêncio. Um som, um gemido, toque lúgubre penetrante, anunciando fato importante e derradeiro. Lembrou-se do filme há muito assistido, em companhia de seu pai, Beau Gest.

 

3. 1965...Quatro filhos. Viajante, com representação importante. Iria a uma terra seca, onde o sol ávido, sugava até as lágrimas que fazia derramar. Ali notavam-se choros abafados, em luta silenciosa, para, quem sabe, nada fornecer àquele ser implacável, que ressecava e que matava toda gente, todo animal, num espetáculo de força e de impiedade.

 

4. Os fatos se alternavam. Os palcos moviam-se. Surgiam. Desapareciam.  Estrada e mar assumiam configuração própria projetando cenas que, embora diferentes, pareciam únicas na psique do jovem oficial. 

 

5. A embarcação, naquele instante, transformara-se em veículo trafegando em estrada poeirenta. 

 

6. O desejo de retornar para casa era febril, a ponto de desprezar  qualquer outro meio confortável que não lhe diminuísse o tempo de chegada. Abraçar a mulher e filhos, cantar vitória, saborear a vida, dia a dia, viver sem pressa e intensamente. Tivesse ponderação evitaria, talvez,  a tragédia.

 

7. O carro derrapou um quase nada. Virou, descambou devido a uma valeta. E ele, o guerreiro, atingido pela longarina da capota da camioneta, prostrou-se abatido na terra ressequida, onde não havia conhecidos. Os que se achegavam falavam língua que lhe era desconexa e estranha. Vislumbrou uma planície para aonde muitos se dirigiam. 

 

Outro acidentado  tirara-lhe o relógio de ouro  e o anel de diamantes. Uma vaidade inexplicável. Uso inconsequente naquelas paragens. Deitado no chão batido, seu espírito pairou assustado, inconformado. Gemidos inaudíveis. Respiração ofegante. A caridade de um lençol que o cobriu. A compaixão de comerciante local. Aquele homem forte, bonito, jovem, calvo, imóvel “despedia-se”.  

 

8. O apito marinheiro, reverberava nos espíritos, curvados em oração silenciosa. O jovem oficial escutava o som vindo do passado, contrito. O presente projetava o pretérito dorido, inacreditável. Passado e presente que não passam, dor que não termina. Só o tempo é testemunha leniente, imparcial. 

 

9. A fúria da tempestade o alcançara em cheio, forte onda o derruba e o lança numa amurada lateral cujo “portaló” não fora fechado. O mar reclama-lhe a vida. Ele, o jovem oficial, por ato reflexo, agarra o corrimão existente na parede da embarcação para não atender ao chamado. Acaso despencasse sequer teria os curiosos da estrada para vê-lo. O mar estenderia seus braços em oferenda e escravidão, depois, no dia seguinte, o devolveria para ser achado através das rotinas de buscas.    

 

10. O pensamento retorna para a estrada poeirenta, ressequida pelo Sol cumprindo seu dever de clarear e de infundir calor e fogo abrasador. As árvores raquíticas, pacientes, esperavam as chuvas que não vinham.  Com água tudo seria vida e beleza explodindo em cores, em abundância sonhada. Rezas, choros e pedidos  eram apenas atendidos  de quando em vez  de forma mitigada. 

 

Mas, ali havia chão onde assentar os pés, embora sofridos, rachados, empoeirados. A estrada, sempre a mesma, firme,  mantinha-se adormecida, alongada, sem voz ou emoção. Deixava-se possuir. Bela ou não, existia para servir a quem dela precisasse ou nela penetrasse.

 

O mar, não. Voluntarioso, preexistente, de voz que se fazia estrondosa não conhecia respeito. Tolerante até o momento em que entrava em embate com o vento, que o açoitava, sem trégua. Então, se fazia monstruoso engolidor de coisas e de homens. 

 

11. O sepultamento ocorrera, em cova no chão, em cemitério público, ao lado de tantos desconhecidos, sem a presença do jovem que ainda não era oficial. O tempo e a distância não o permitiram. A notícia lá dos confins chegara tarde inviabilizando providências. 

 

Seus estranhos acompanhantes trataram dos aspectos legais. O lençol custara CR$ 27,00, depois ressarcido – sem necessidade, não houve exigência - por via bancária. O Jovem orgulhoso assim impusera.

 

12. O tempo célere levara o Tenente a conhecer as fileiras infantes. Caminhava na lente do futuro num amálgama que desconhecia épocas. Passado, presente e futuro eram percorridos pelo pensamento de modo fácil e personal, como se estivesse numa estrada que a tudo ou a nada levasse. Difícil explicar: o tempo se alonga ou se contrai dependente do pensamento. Tudo é agora ou nunca foi. Na verdade, o oficial pensava só existir o presente porque logo o instante passa, o presente domina e permanece e o futuro é o presente que está acontecendo ou que irá ocorrer. A percepção delimita as épocas para necessária referência. Só isso.       

 

13. O jovem oficial no portaló principal da Corveta perfila-se em continência à sua bandeira. É o adeus às armas.  Seu pensamento está no caminho  que deverá percorrer: a estrada de terra batida, onde jamais gostaria de estar. 

 

O toque de silêncio do apito marinheiro, em respeito e reverência, reverberava em sua mente. As vestes alvas foram-se. Agora, cabelos crescidos, ténis, jeans, camisa branca e boné – o mesmo homem, não obstante. As coisas não vão por terem passado, há permanência silente direcionando. 

 

14. Novamente, seu pensamento leva-o às secas terras, à estrada poeirenta de suas visões. Recorda pequeno cemitério, covas rasas no chão. Onde estaria aquele para quem o toque marinheiro permanecia ativo? 

 

15. A realidade nele apresentava-se dual. Situações mal resolvidas, impostas, violentas, moldam espectro, num transtorno com sintomas vários. Então o jovem oficial – ainda que não mais o fosse – vivia sob dois prismas desde a perda sofrida.

 

Perda sem volta, perda ditada pelo destino ou pela fatalidade. O certo é que seu íntimo vomitava continuadamente  excrescências, uma superfluidade  desequilibrando a harmonia do todo.

 

16. Transtornado o jovem oficial empertigou-se, comandou o cerimonial: oito (8) marinheiros perfilados, o sargento que faria o apito soar em honraria ao Comandante “presente”. Põe-se em posição militar de sentido. Com energia, ordena: em continência, oficial general, abre o toque.  

 

O apito longo e melancólico cortou o ar, penetrou na caatinga. Não havia pássaros, apenas o seu som. Reverberou, como antes, na alma do jovem oficial, que Imaginou o encontro entre o mar e a estrada poeirenta. Dois homens em um. Pai e filho. Sua personalidade desdobrou-se.  O navio e o veículo acidentado. 

 

Lágrimas molham a poeira  seca, o chão de barro, penetraram até encontrar destino, fazer-se em oração. Seguiu-se silêncio profundo, e a resposta íntima: Não estamos sós. Um nome Emmanuel, עמנוא, Deus conosco. Um necessário e novo começo. 

 

De volta à realidade palpável, ainda sob o impacto da viagem e suas ilações, deixa a Corveta para conhecer sua filha, recém-nascida. 

 

SSA, 05.07.2021  

 

Geraldo Leony Machado

Um contista da Bahia, 

preocupado com o destino do povo brasileiro.

 

P.S. – Gratidão à Elise, minha filha, nascida no HN/Sa, num dia 05.07. Hoje, casada, 03 filhos, servidora da J. Federal, pelo competente incentivo.

 https://www.facebook.com/groups/188738484539336/permalink/4306437159436094/?sfnsn=wiwspmo&ref=share (Situação vivida).

 




 


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