quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO...01

 

Família, conservas e o desafio de ser sal

 

A maturidade cristã se mede não pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver

 

Por Paulo Ribeiro

 

A recente controvérsia em torno do desfile de uma escola de samba no Rio de Janeiro – que representou diferentes configurações familiares por meio de latas de conserva – provocou reações fortes, especialmente entre grupos evangélicos, que interpretaram a encenação como uma afronta aos valores da família.

 

Confesso que não compartilho dessa leitura. Ao assistir ao desfile, não vi ali um ataque deliberado à família cristã, mas uma representação simbólica de uma realidade concreta: vivemos em um mundo secular, plural, onde coexistem modelos familiares distintos, com suas virtudes, e fragilidades. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer.

 

Sou cristão e defensor da família tradicional. Creio em seus valores, em sua força estruturante e em seu papel fundamental na formação humana. Mas também entendo que a sociedade em que vivemos não é confessional, nem homogênea. Convivemos com diferenças – e a maturidade cristã se mede não pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver com humanidade, respeito e verdade.

 

É legítimo que os evangélicos defendam os valores da família. Isso é bom. O que causa estranhamento é quando essa defesa assume um tom moralizante e seletivo, esquecendo que os desafios enfrentados pelas famílias “de dentro” não são menores. Os índices de divórcio entre evangélicos são tão altos – e em alguns contextos até mais altos – do que os da sociedade em geral. Isso deveria nos convidar menos ao protesto simbólico e mais à humildade, ao exame de consciência e ao cuidado real das relações.

 

Como resposta ao desfile, começaram a circular imagens de famílias evangélicas dentro de latas de conserva, como forma de protesto. Foi então que uma observação simples, feita por um amigo – trouxe uma imagem ainda mais poderosa: alimentos em conserva têm prazo de validade. Quando o tempo passa e as bactérias vencem, o que parecia preservado torna-se tóxico. A metáfora é inevitável.

 

A família cristã não foi chamada a viver em conserva, isolada, fechada, protegida do mundo por paredes simbólicas. Foi chamada a estar no mundo, como sal — presente, discreta, transformadora. O sal não preserva afastando-se; ele cumpre sua função ao entrar em contato.

 

Talvez o verdadeiro desafio não seja reagir ao desfile, mas perguntar se não estamos, muitas vezes, tentando conservar aquilo que só permanece vivo quando é vivido com graça, verdade e amor.

 

Imagem: Unsplash.

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