Família, conservas e o desafio de ser sal
A maturidade cristã se mede não pela capacidade de se
isolar, mas pela de conviver
Por Paulo Ribeiro
A recente controvérsia em torno do desfile de uma escola de
samba no Rio de Janeiro – que representou diferentes configurações familiares
por meio de latas de conserva – provocou reações fortes, especialmente entre
grupos evangélicos, que interpretaram a encenação como uma afronta aos valores
da família.
Confesso que não compartilho dessa leitura. Ao assistir ao
desfile, não vi ali um ataque deliberado à família cristã, mas uma representação
simbólica de uma realidade concreta: vivemos em um mundo secular, plural, onde
coexistem modelos familiares distintos, com suas virtudes, e fragilidades.
Ignorar essa realidade não a faz desaparecer.
Sou cristão e defensor da família tradicional. Creio em seus
valores, em sua força estruturante e em seu papel fundamental na formação
humana. Mas também entendo que a sociedade em que vivemos não é confessional,
nem homogênea. Convivemos com diferenças – e a maturidade cristã se mede não
pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver com humanidade, respeito e
verdade.
É legítimo que os evangélicos defendam os valores da
família. Isso é bom. O que causa estranhamento é quando essa defesa assume um
tom moralizante e seletivo, esquecendo que os desafios enfrentados pelas
famílias “de dentro” não são menores. Os índices de divórcio entre evangélicos
são tão altos – e em alguns contextos até mais altos – do que os da sociedade
em geral. Isso deveria nos convidar menos ao protesto simbólico e mais à
humildade, ao exame de consciência e ao cuidado real das relações.
Como resposta ao desfile, começaram a circular imagens de
famílias evangélicas dentro de latas de conserva, como forma de protesto. Foi
então que uma observação simples, feita por um amigo – trouxe uma imagem ainda
mais poderosa: alimentos em conserva têm prazo de validade. Quando o tempo
passa e as bactérias vencem, o que parecia preservado torna-se tóxico. A
metáfora é inevitável.
A família cristã não foi chamada a viver em conserva,
isolada, fechada, protegida do mundo por paredes simbólicas. Foi chamada a
estar no mundo, como sal — presente, discreta, transformadora. O sal não
preserva afastando-se; ele cumpre sua função ao entrar em contato.
Talvez o verdadeiro desafio não seja reagir ao desfile, mas
perguntar se não estamos, muitas vezes, tentando conservar aquilo que só
permanece vivo quando é vivido com graça, verdade e amor.
Imagem: Unsplash.
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