Lamento.
Valter Graciano Martins (1939-2026)
Por
Cláudio Marra
A fé
cristã é clara: a morte física é provisória. O crente sabe que há um reencontro
à espera, e essa certeza da eternidade ameniza o peso da despedida. “Vamos nos
rever” não é apenas consolo; é esperança firme diante do inevitável.
No dia
30 de janeiro de 2026, partiu o Reverendo Valter Graciano Martins. Partiu
sabendo para onde ia. Seus irmãos na fé sabem que o verão novamente. Ainda
assim, a dor permanece. Porque a saudade é real. Porque o silêncio que fica é
ruidoso. Porque as mãos que por décadas traduziram comentários bíblicos com
paciência e rigor agora descansam.
Valter
nasceu em Tupaciguara, MG, filho de família simples ligada à terra. Conheceu o
evangelho aos 19 anos, foi batizado em 1959, casou-se com Cremilda, teve cinco
filhos e pastoreou igrejas pequenas no interior de Minas e Goiás. Poderia ter
sido apenas mais um pastor fiel. Mas Deus tinha outro plano.
Entre
1987 e 1994, serviu na Casa Editora Presbiteriana. Ali, entre páginas e
traduções, começou a construir um monumento não de pedra, mas de palavras:
fidelidade bíblica colocada a serviço da igreja. Apaixonou-se pela missão de
tornar João Calvino mais acessível em português. Traduziu a maior parte dos
comentários bíblicos do Reformador, fundou a Edições Parakletos em 1995 e,
depois, uniu esforços com a Editora Fiel para avançar no projeto das obras
completas. Também traduziu a monumental Teologia Apologética de François
Turretini e numerosos comentários publicados pela Cultura Cristã.
Especialista
em Calvino, o Rev. Hermisten Costa observa que é difícil exagerar a importância
de Valter para a difusão do pensamento calvinista no Brasil. Grande parte do
que temos de Calvino em português passou por suas mãos. Gerações de pastores,
teólogos e leitores comuns beberam da fonte reformada graças ao trabalho
silencioso de um homem do interior de Minas.
Jubilado
em 2010, jamais parou. Continuou traduzindo até o fim. Em 2018 escreveu: “Ver
João Calvino lido em todos os países de língua portuguesa é para mim profundo
regozijo. Essa é a tarefa que o Eterno me deu”. Não era vaidade, era vocação.
Valter
não buscava aplausos. Para muitos leitores, permaneceu invisível – e assim
preferia. Seu desejo não era reconhecimento, mas edificar a igreja, para que
bons comentários bíblicos alcançassem muitas denominações e abençoassem o povo
de Deus.
Ficaram
Cremilda, os filhos – Sóstenes, Wânia, Simonton, Eline e Wander –, os netos e
um legado que não se apaga: dezenas de obras que continuarão falando quando
todos nós já tivermos partido.
Vamos
nos rever, Reverendo Valter. Disso não temos dúvida. Mas hoje ainda estamos
tristes. Essa tristeza não é falta de fé. É saudade. É reconhecimento da perda
real que a morte impõe, ainda que temporária. Sim, porque, a ressurreição que
você aguarda na glória nós continuamos esperando confiantes por aqui,
inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o
nosso trabalho não é vão, como o seu não foi.
Seu bom
combate foi travado, dedicado tradutor. E muitos que ficaram continuarão
crescendo com o fruto de sua dedicação.
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