sábado, 14 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO ...02

 

Lamento. Valter Graciano Martins (1939-2026)

 

Por Cláudio Marra

 

A fé cristã é clara: a morte física é provisória. O crente sabe que há um reencontro à espera, e essa certeza da eternidade ameniza o peso da despedida. “Vamos nos rever” não é apenas consolo; é esperança firme diante do inevitável.

 

No dia 30 de janeiro de 2026, partiu o Reverendo Valter Graciano Martins. Partiu sabendo para onde ia. Seus irmãos na fé sabem que o verão novamente. Ainda assim, a dor permanece. Porque a saudade é real. Porque o silêncio que fica é ruidoso. Porque as mãos que por décadas traduziram comentários bíblicos com paciência e rigor agora descansam.

 

Valter nasceu em Tupaciguara, MG, filho de família simples ligada à terra. Conheceu o evangelho aos 19 anos, foi batizado em 1959, casou-se com Cremilda, teve cinco filhos e pastoreou igrejas pequenas no interior de Minas e Goiás. Poderia ter sido apenas mais um pastor fiel. Mas Deus tinha outro plano.

 

Entre 1987 e 1994, serviu na Casa Editora Presbiteriana. Ali, entre páginas e traduções, começou a construir um monumento não de pedra, mas de palavras: fidelidade bíblica colocada a serviço da igreja. Apaixonou-se pela missão de tornar João Calvino mais acessível em português. Traduziu a maior parte dos comentários bíblicos do Reformador, fundou a Edições Parakletos em 1995 e, depois, uniu esforços com a Editora Fiel para avançar no projeto das obras completas. Também traduziu a monumental Teologia Apologética de François Turretini e numerosos comentários publicados pela Cultura Cristã.

 

Especialista em Calvino, o Rev. Hermisten Costa observa que é difícil exagerar a importância de Valter para a difusão do pensamento calvinista no Brasil. Grande parte do que temos de Calvino em português passou por suas mãos. Gerações de pastores, teólogos e leitores comuns beberam da fonte reformada graças ao trabalho silencioso de um homem do interior de Minas.

 

Jubilado em 2010, jamais parou. Continuou traduzindo até o fim. Em 2018 escreveu: “Ver João Calvino lido em todos os países de língua portuguesa é para mim profundo regozijo. Essa é a tarefa que o Eterno me deu”. Não era vaidade, era vocação.

 

Valter não buscava aplausos. Para muitos leitores, permaneceu invisível – e assim preferia. Seu desejo não era reconhecimento, mas edificar a igreja, para que bons comentários bíblicos alcançassem muitas denominações e abençoassem o povo de Deus.

 

Ficaram Cremilda, os filhos – Sóstenes, Wânia, Simonton, Eline e Wander –, os netos e um legado que não se apaga: dezenas de obras que continuarão falando quando todos nós já tivermos partido.

 

Vamos nos rever, Reverendo Valter. Disso não temos dúvida. Mas hoje ainda estamos tristes. Essa tristeza não é falta de fé. É saudade. É reconhecimento da perda real que a morte impõe, ainda que temporária. Sim, porque, a ressurreição que você aguarda na glória nós continuamos esperando confiantes por aqui, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o nosso trabalho não é vão, como o seu não foi.

 

Seu bom combate foi travado, dedicado tradutor. E muitos que ficaram continuarão crescendo com o fruto de sua dedicação.

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