domingo, 5 de julho de 2026

REFLEXÃO...02

 

As ilhas que não perderam

 

Quando o árbitro soprou o apito final, a Argentina seguia adiante. Cabo Verde , por que meu Deus? ficava pelo caminho.

 

Mas há derrotas que mentem.

 

Porque o futebol, às vezes, escreve sua verdade longe do marcador. Escreve-se nas ruas de Praia, onde os olhos ainda brilhavam apesar das lágrimas. Escreve-se nas crianças que descobriram que um país pequeno pode caber inteiro dentro de uma bola. Escreve-se nas mãos calejadas dos pescadores, nas mulheres , divas de pés descalços que cantam na voz sublime de Cesária Evora enquanto esperam o regresso dos barcos, nos velhos que aprenderam que a esperança é uma embarcação que nunca deixa de procurar porto.

 

Hoje vi Cabo Verde.

 

Vi a sua história feita de vento e de sal.

Vi a coragem de um povo acostumado a transformar escassez em música, distância em saudade, saudade em beleza.

 

Talvez por isso aprendemos hoje que a alegria nunca foi ausência de dor; foi sempre a arte de dançar com ela.

 

Estava, agora há pouco, nas ruas de Praia, chorando, sorrindo, orgulhosos

“Ainda estamos aqui.”

 

Lembrei-me de Mia Couto, que tantas vezes parece escrever para todas as margens africanas quando nos ensina que “o caminho não se encontra; constrói-se caminhando.”

 

E que caminho construiu Cabo Verde.

 

Chegou à Copa do Mundo não como um acidente da história, mas como um milagre trabalhado todos os dias. Cada treino.

Hoje todos somos Vozinha, todos somos Lopes Cabral que ao desenhar o gol mais lindo da Copa lembrou- se que o melhor lugar do mundo cabe no abraço e beijo da mulher amada,ninguém no mundo comemorou um gol dessa maneira.

 

Hoje , cabo veríamos, meninos descalços perdemos para uma gigante.

 

Mas obrigamos a gigante a respeitar a nossa alma.

 

 

Cabo Verde conquistou afetos.

 

Enquanto muitos disputarão apenas estatísticas, os cabo-verdianos guardarão algo que não cabe em nenhuma tabela: a memória de terem feito o mundo inteiro olhar para um pequeno conjunto de ilhas e descobrir que a grandeza nunca depende do tamanho.

 

As lágrimas que vi em Praia não eram apenas de tristeza.

 

Eram lágrimas de quem compreendeu que o sonho, quando é verdadeiro, não termina no último minuto.

 

Ele regressa com a maré.

 

Regressa na próxima criança que chutará uma bola entre casas coloridas.

 

Regressa na próxima morna que falará de amor, de ausência e de regresso.

 

Porque as ilhas conhecem um segredo que os continentes às vezes esquecem:

 

o mar nunca separa quem aprendeu a navegar.

 

E talvez seja essa a mais bela vitória de Cabo Verde.

 

Não ter chegado apenas às oitavas de final.

 

Ter chegado ao coração do mundo.

 

E, quando o silêncio finalmente cobriu o estádio, parecia que o próprio Atlântico embalava aquelas ilhas com um canto antigo, repetindo baixinho:

 

“Há derrotas que diminuem os homens. E há derrotas que revelam a sua imensidão.”

 

Hoje, Cabo Verde pertence definitivamente a essa segunda categoria.

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