Olhar a morte nos olhos – reflexões de um médico cristão
Por Jorge Cruz
A
morte é um mistério infinito. São poucos os que podem falar dela na
primeira pessoa e escassos os relatos de quem se recuperou de um
diagnóstico confirmado de morte clínica. Para o evangelista Billy
Graham, “ninguém está verdadeiramente preparado para viver enquanto não
estiver preparado para morrer”.A minha reflexão
pessoal acerca da morte começou durante a adolescência, após a morte
súbita de pessoas que me eram próximas. Prosseguiu durante o curso de
medicina, especialização em cirurgia vascular e coordenação de colheita
de órgãos e transplantes de doador cadáver. Na minha dissertação de
mestrado em bioética investiguei o conceito de morte encefálica e suas
implicações médicas, éticas e legais. Porém, as respostas mais
relevantes que encontrei sobre o problema da morte não foram obtidas a
partir de filósofos, teólogos, sociólogos ou profissionais de saúde.
Foram o resultado da minha fé em Jesus Cristo, o único que pode declarar
com toda a autoridade que está vivo e tem poder sobre a morte e sobre o
mundo dos mortos (Apocalipse 1:17b-18).
Martin
Luther King Jr., ativista pelos direitos civis dos negros e pastor
batista, escreveu: “Foi através de Cristo que Deus nos libertou do
aguilhão da morte. A nossa vida terrestre é o prelúdio de um novo
despertar, e a morte é a porta que se abre para a nossa entrada na vida
eterna”.
A morte é considerada uma realidade
dramática da existência humana e o principal tabu dos tempos modernos. É
um acontecimento único, irreversível e irrepetível para cada pessoa. A
verificação da morte é um ato médico e o seu diagnóstico resulta quase
sempre de uma parada cardiorrespiratória irreversível, sendo utilizados
os seguintes critérios: ausência de batimentos cardíacos e de movimentos
respiratórios; ausência de resposta a estímulos; presença de pupilas
fixas e dilatadas e um traçado isoelétrico no monitor cardíaco.
O
rei Davi recorda-nos no Salmo 49.21 o caráter universal e inevitável da
morte – “Juntar-te-ás na morte aos antepassados, que não voltarão mais a
ver a luz” (A Bíblia Para Todos). O escritor inglês C. S. Lewis
constatou que, num certo sentido, a guerra não aumenta a morte, pois a
morte é total em cada geração. A morte é também o acontecimento mais
igualitário da existência humana, pois não faz discriminação entre
homens e mulheres, entre ricos e pobres, ou entre celebridades e gente
comum. Na hora da morte, somos todos iguais.
A
morte é também imprevisível, embora possamos condicionar a nossa
longevidade pela forma como vivemos. A maioria das doenças, como as
cardiovasculares e oncológicas (as duas principais causas de morte no
mundo) são influenciadas por fatores de risco comportamentais
relacionados com o estilo de vida. Estudos recentes revelaram que a
adoção de comportamentos saudáveis como não fumar, controlar o peso,
fazer exercício físico diariamente, evitar bebidas alcoólicas e fazer
uma alimentação saudável, rica em vegetais, podem contribuir para uma
menor incidência de doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, e um
aumento da esperança de vida.
Os enormes
progressos médicos e tecnológicos alcançados nas últimas décadas, na
área da saúde, levaram a um aumento considerável da esperança média de
vida. No Brasil, passou de 57,6 anos em 1970 para 76,6 anos em 2019.
Para este aumento da longevidade contribuiu mais a prevenção do que a
possibilidade de tratamento de muitas doenças, através da melhoria das
condições higiênico-sanitárias e alimentares, vacinação eficaz e acesso
generalizado aos serviços de saúde. É uma história de sucesso uma vez
que, ao longo da história da humanidade, a maioria das pessoas não
ultrapassava os 35 anos. Mas apesar de todos os êxitos no combate à
doença, mais cedo ou mais tarde chega sempre o momento da morte.
Porém,
a morte não é o fim do ser humano, pois cada um de nós é uma entidade
biopsicossocial e espiritual, constituída por um corpo e uma alma e/ou
espírito. A dimensão espiritual do ser humano é eterna e, por isso, não
desaparece nem é aniquilada pela morte corporal.
O Dr. Pablo Martinez, psiquiatra espanhol, chama “aspirinas existenciais” às formas que as pessoas encontram para não pensarem na morte nem no sentido da vida, como por exemplo o jogo, a televisão e outras formas de entretenimento, porque isso iria levá-las certamente a modificar comportamentos e atitudes.
O Dr. Pablo Martinez, psiquiatra espanhol, chama “aspirinas existenciais” às formas que as pessoas encontram para não pensarem na morte nem no sentido da vida, como por exemplo o jogo, a televisão e outras formas de entretenimento, porque isso iria levá-las certamente a modificar comportamentos e atitudes.
É minha convicção
pessoal, baseada na Palavra de Deus, que em Jesus Cristo, Deus feito
Homem, encontramos a resposta para o problema existencial da morte,
considerada um inimigo que não fazia parte dos planos originais do
Criador. A morte sacrificial e voluntária de Jesus, na cruz do calvário,
confere sentido à vida de todos aqueles que, ao longo dos séculos, O
aceitam e seguem como o Messias prometido e o único caminho para Deus.
Jesus morreu para libertar “os que ao longo de toda a vida estiveram
escravizados pelo medo da morte” (Hebreus 2:15). Assim, podemos encarar a
morte e o futuro com esperança. O apóstolo Paulo, pouco tempo antes de
ser morto por ordem do imperador romano, manifestou essa mesma confiança
inabalável nas promessas de Deus (2 Timóteo 4:6-8).
Aprecio
muito a história de vida de Bonhoeffer, pastor e teólogo cristão, que
permaneceu firme na sua fé em Cristo, na Alemanha nazi, e foi morto por
enforcamento. Quando estava a subir para o cadafalso, disse-lhe o
carrasco: “Este é o fim”. Respondeu Bonhoeffer: “Para mim é o princípio
da vida”!
A maioria de nós não sabe em que momento
fará a última viagem e irá, finalmente, ter a oportunidade de “olhar a
morte nos olhos”. Pode ser daqui a muitos anos ou nos próximos minutos.
Uma coisa é certa: as decisões que tomamos hoje, enquanto vivemos neste
mundo, limitados pelo tempo e pelo espaço, terão consequências eternas.
Após a morte, não haverá outra oportunidade de arrependimento e de
termos paz com Deus, conforme lemos na Carta aos Hebreus 9:27: “está
determinado que os homens morram uma só vez e que depois sejam julgados
por Deus”.
Eu encontrei a paz com Deus e a certeza
da salvação e da vida eterna quando entreguei a minha vida a Jesus
Cristo, arrependendo-me dos meus pecados e crendo que Ele morreu na cruz
em meu lugar. A partir desse momento nunca mais tive medo da morte,
pois sei para onde vou quando morrer. E você?

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