O jornalista cristão: realidade e esperança
Por Lissânder Dias
“Devemos nos reeducar sobre o jornalismo como um sacramento de tudo o que valorizamos, se quisermos aproveitar esta oportunidade para resgatá-lo, e para a formação do mundo.”
– Jenny Taylor, no artigo “A Sagrada Responsabilidade do jornalismo”
Da relevância ao escárnio; do lugar de destaque nas prateleiras das bancas à material para embrulhar peixe; da manchete viral ao ostracismo dos algoritmos. O jornalismo tem suas faces e suas (in)utilidades cotidianas. Numa era da hipercomunicação, ele gravita entre “essencial” e “descartável”, entre “porta-voz” e “mentiroso”, entre “neutro” e “partidário”.
A despeito das palavras escolhidas para tal ofício milenar, sua força não está apenas no que é publicado, mas também em quem escreve. Não se faz jornalismo sem jornalistas. A frase é óbvia, mas precisa ser dita e lembrada para que possamos refletir sobre a construção da Esperança por meio de profissionais de comunicação que transmitem não apenas dados, mas também valores e percepções da vida. Em um mundo fluido e em constante mutação, a partir de um jornalismo igualmente em metamorfose, parece difícil dedicar tempo, emoções e convicções a um tipo de expectativa fiel no futuro. Na maioria das vezes, parece que o peso do presente conspira contra o porvir.
Quando o foco é direcionado para os jornalistas cristãos, é ainda mais válido refletir sobre o poder da Esperança na tarefa diária de relatar fatos e questionar realidades. A fé seria uma fuga de tão necessário realismo? A esperança cristã é uma aliada do engajamento responsável diante do mundo ou seria tão somente uma abstração terapêutica para a dureza da vida?
No dia 06 de setembro tive o privilégio de participar de um bate-papo sobre o assunto com a jornalista Susana Berbert, moderado por Claudia Moreira, diretora nacional da Tearfund Brasil. A live, promovida pelo projeto “Diálogos de Esperança”, trouxe ainda a participação (em vídeo) de nove jornalistas: Cézar Feitoza, Erica Neves, André Ricardo, Ana Braun, Maurício Zágari, Ana Staut, Carlos Fernandes, Cássia de Oliveira e do renomado Laurentino Gomes. Ao longo da conversa e dos depoimentos, traçamos alguns princípios interessantes que relacionam jornalismo, espiritualidade e esperança. Vou pontuá-los a seguir.
- A prática da espiritualidade é a sustentação. Susana destacou que, diante de dias tão tensos, a prática da espiritualidade não é uma, mas a única coisa que a mantém em pé para trabalhar todos os dias. “Se não fosse essa convicção, essa fé, essa certeza racional da existência de Jesus Cristo de Nazaré, eu não conseguiria fazer jornalismo”. Ela pontuou três pilares para a prática da espiritualidade: 1) Oração 2) Leitura da Palavra de Deus 3) Vivência comunitária no Corpo de Cristo. Susana tem razão, e eu acrescentei: a espiritualidade perpassa toda a existência humana, porque ela é a gente sendo gente, de acordo com o que Deus deseja, em plenitude de vida. Ela tem o poder de nos preencher com afeto e confiança num Deus que nunca abandonou sua criação. Cremos que o Cristo encarnado, com os pés no chão, é a “esperança da glória” (Cl 1.27). E a partir dele, somos conduzidos a percepções da vida que não seria possível tê-las por outro caminho.
- A prática da espiritualidade é confrontação. A espiritualidade tem o papel de nos confrontar diante do que deveria ser, mas não é. Como jornalistas, temos acesso a espaços de poder (e também de não poder), a pessoas e discursos manipulatórios, e então a espiritualidade nos ajuda a ter menos ingenuidade com a vida. Ao nos enviar “como ovelhas entre os lobos”, Jesus falou que deveríamos ser “prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10.16). A espiritualidade tem esse papel de nos trazer prudência para entendermos o coração humano como ele é. No jornalismo, essa qualidade é fundamental, porque o nosso ofício tem a ver não somente com registros, mas também com compreensão de fatos. Para isso, a prudência é essencial. Nesse sentido, o Espírito Santo trabalha junto com o jornalismo. O jornalismo ajuda a desvendar a camada ilusória da realidade, enquanto o Espírito Santo age confirmando para nós muito dessa realidade e nos sensibilizando para ela. Portanto, a espiritualidade tem o papel tanto de dar sentido quanto de nos confrontar sobre a falta de sentido.
- Para cada desesperança nesse mundo, Cristo aponta uma esperança. Susana lembra que o Sermão do Monte é uma âncora da esperança. “Diante de um mundo bélico e agressivo, Cristo diz que bem-aventurados são os mansos porque herdarão a terra, bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia, bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus. Diante de um mundo tão cheio de desigualdades e injustiças, esse Cristo também diz que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. E é nessa certeza que devemos seguir os nossos dias, sabendo que o reino de Deus virá e será instaurado. Enquanto isso, devemos ser “flechas” em nossas funções, desempenhando o que somos chamados para desempenhar. Não existe uma função mais importante que a outra, desde que façamos o nosso papel, onde estamos, com excelência, servindo a Deus e sendo testemunha dele no dia a dia.
- O jornalista cristão tem um mandato cultural. Para Cézar Feitoza, “um dos principais papéis do jornalista cristão é continuar o mandato cultural que Deus deu ainda no Jardim do Éden para Adão e Eva: de nomear a vida. Isso, em síntese, significa colocar ordem no caos. Lançar luz sobre assuntos delicados, como casos de corrupção e o trabalho dos governos em causas sociais, acho que é uma forma de ajudar a colocar ordem no caos. Por outro lado, as fakenews são a instalação do caos”.
- Ao exercer o jornalismo, nos encontramos com a esperança nos lugares mais inesperados. O jornalismo nos leva para fora da igreja, e então nos encontramos com a esperança no encontro com pessoas que, mesmo diante da escassez, sorriem; em crianças que descobrem o poder da educação; em comunidades que perseveram em contextos de injustiça. Quando estamos dentro da igreja, recebemos mensagens bem-preparadas para cultivar a nossa esperança. O desafio, no entanto, é encontrar essas palavras nos guetos, nas palafitas e nas ruas empoeiradas. O jornalismo nos proporciona essa oportunidade e fortalece então a nossa esperança em Jesus. Como disse Susana, “eu encontro Jesus várias vezes ao dia”.
>> Surpreendido pela Esperança, de N. T. Wright <<

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