segunda-feira, 20 de julho de 2026

REFLEXÃO...01

 

Desde a Queda, tudo o que podia deu errado. Inclusive a religião

 

Por Paulo Ribeiro

 

Desde a primeira rebelião da humanidade, todas as esferas da civilização foram afetadas pela Queda. Famílias se desfizeram. Governos tornaram-se opressores. Mercados recompensaram a ganância. Universidades, por vezes, trocaram a busca pela verdade pela ideologia.

 

A ciência, ocasionalmente, serve à destruição em vez da sabedoria. A tecnologia amplifica tanto a criatividade quanto a crueldade. A política dividiu o que prometeu unir. E a religião – a própria instituição encarregada de proclamar a santidade de Deus – também foi corrompida.

 

Eventos recentes no Brasil servem como lembretes dolorosos de que até mesmo pastores e líderes religiosos podem se envolver em fraudes, exploração financeira, abuso de poder e outros crimes graves. Tais escândalos naturalmente provocam indignação pública. No entanto, não deveriam surpreender ninguém que compreenda a doutrina bíblica da Queda.

 

O cristianismo jamais ensinou que pessoas religiosas sejam incapazes de praticar o mal. Muito pelo contrário. O próprio Mestre usou a expressão “sepulcros caiados” para denunciar uma religiosidade exteriormente respeitável, mas interiormente corrompida.

 

C. S. Lewis expressou isso com sua franqueza característica: "De todos os homens maus, os homens religiosos maus são os piores". Seu argumento não era que a religião é pior do que a irreligião, mas que, quando o orgulho se reveste de certeza religiosa, a própria consciência se distorce. Uma pessoa que acredita que Deus aprova suas ambições pode justificar quase qualquer coisa. O mal torna-se especialmente perigoso quando se veste com a linguagem da virtude.

 

A lição vai muito além da religião. O mesmo coração caído que corrompe o púlpito também corrompe o parlamento, o tribunal, a universidade, o laboratório, a empresa e o mercado. As instituições não nos salvam, pois são compostas por pessoas como nós. Inevitavelmente, levamos nossas virtudes – e nossos vícios – para tudo o que construímos.

 

Contudo, Lewis insistiria que a corrupção não é uma prova contra as dádivas de Deus. Dinheiro falso comprova a existência de moeda verdadeira. Da mesma forma, a hipocrisia religiosa não refuta a existência de Deus; a ciência corrompida não invalida a verdade; juízes desonestos não anulam a justiça. O abuso de algo bom jamais invalida o seu uso correto. Ele simplesmente nos lembra de que o problema humano mais profundo não é institucional, mas espiritual, e que o remédio definitivo não é meramente a reforma, mas a redenção.

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