3ª.Parte:
Cultura indígena
Cultura indígena brasileira é vasta e diversificada, e os
povos indígenas foram grandes influenciadores da formação da identidade
cultural brasileira.
A cultura indígena brasileira é vasta e diversificada, ao
contrário do que pensa o senso comum. Os historiadores estimam que, no início
do século XVI, havia quatro agrupamentos linguísticos principais: tupi-guarani,
jê, caribe e aruaque. Essas famílias linguísticas compartilhavam o mesmo idioma
e culturas semelhantes.
Antes da colonização, os índios que habitavam o território
(hoje denominado Brasil) tinham uma cultura similar em alguns pontos, tais
eram: organização social baseada no coletivismo; ausência de política, Estado e
governo; ausência de moeda e de trocas mercantis; religiões politeístas
baseadas em elementos da natureza; e ausência da escrita.
Apesar de vasta, a cultura indígena tem elementos comuns
entre as tribos.
A visão europeia sobre os povos indígenas foi, desde a
colonização, etnocêntrica, a qual considera o modo de vida indígena inferior
por não conter elementos considerados, pelos europeus, símbolos de civilização
e progresso. No entanto, a antropologia e a sociologia contemporâneas já
desmistificaram essas análises preconceituosas, estabelecendo que as diferenças
culturais entre os povos não são motivos para estabelecer-se uma hierarquia
cultural.
Saiba mais: Escravidão indígena no Brasil colonial – início
e fim
Tópicos deste artigo
• 1 - Como
era a cultura indígena
• 2 -
Características da cultura indígena
• 3 -
Costumes indígenas
• 4 -
Alimentação indígena
• 5 - Dança
indígena
• 6 -
Influências da cultura indígena no Brasil
• 7 - Como
e com quem se aprende a cultura indígena no Brasil
• 8 -
Curiosidades
Como era a cultura indígena
Os povos indígenas, apesar de terem pertencido a vários
grupos diferentes com pontuais diferenças de comportamento e cultura, tinham
elementos comuns que consolidavam uma cultura indígena como um todo. Eles
tinham religião, hábitos, costumes e comportamentos similares, a divisão do trabalho
também era parecida entre todos os povos, e o modo de vida deles era baseado na
caça, na pesca e na coleta, acrescida da agricultura de algumas plantas, como a
mandioca.
A religião indígena, baseada em conjuntos de mitos sobre
seres espirituais, era variada, entretanto era comum a crença em entidades
espirituais que habitavam o mundo material. Também se acreditava em potências
espirituais encarnadas por animais e na existência de pessoas que poderiam
estabelecer contato com o mundo espiritual (pajés), sendo homem ou mulher.
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Tupã era o ser sobrenatural supremo que controlava a
natureza e, como é comum nas religiões a identificação dos seus deuses com os
seus povos, era representado pela figura de um índio poderoso. Além desse deus,
existia a figura mística do Abaçaí, que, para alguns povos, tratava-se um
espírito maléfico que perturbava a vida dos índios.
Os povos Tupinambá desenvolveram mitos de criação do mundo e
acreditavam em sua possível destruição futura, por meio de dilúvios que
matariam todos. Eles também acreditavam em entidades como Maire-Monan, que
teria ensinado a agricultura à humanidade para que esta pudesse alimentar-se
melhor.
Os pajés, que são as pessoas que podem entrar em contato com
as entidades espirituais, utilizam a sabedoria aprendida com os espíritos para
aconselhar as pessoas e fazer rituais de cura. Os rituais, chamados pajelanças,
poderiam ser feitos em festividades, como forma de agradecimento e de pedido, e
para efetuar curas medicinais. Eles envolviam, em alguns casos, música e dança.
Era comum o pajé utilizar-se da inalação de grandes quantidades de fumaça de
tabaco para que, em transe narcótico, pudesse fazer contato com os espíritos.
Os índios utilizam adornos corporais e pinturas com
materiais extraídos da natureza, como a tintura de urucum, os colares de peças
naturais, e os botoques e adornos feitos com base na arte plumária (que utiliza
plumas e penas de aves). Há uma importante simbologia por trás dos adornos e
das pinturas corporais, que podem identificar o sexo, a idade, a aldeia e a
posição social do índio, estabelecendo uma espécie de identidade cultural dos
povos indígenas.
Pinturas feitas em pernas de índios de tribo amazônica
próxima da cidade de Manaus.
Também é comum a produção de artesanatos para ornamento, de
utensílios, como cestas de palha e cuias, e, nas tribos antigas, de arcos,
flechas e lanças utilizadas para a caça e para a guerra.
Características da cultura indígena
Se considerarmos apenas as culturas desenvolvidas por povos
indígenas brasileiros, já temos uma grande gama cultural. É característica
comum das várias etnias indígenas brasileiras a valorização e o contato com a
natureza, sendo que o modo de vida tribal, antes da ocupação violenta do homem
branco no território brasileiro, permitia a caça, a coleta e a agricultura
familiar como modos de subsistência dos povos indígenas.
As religiões animistas (aquelas que colocam como seres
sobrenaturais e divinos elementos da natureza, como o Sol, a Lua e as
florestas) compunham o imaginário religiosos dos povos indígenas. Antes da
chegada dos portugueses, a maioria das tribos indígenas era guerreira, e essas
disputavam os territórios entre si quando uma tribo migrava de um lugar para
outro já habitado.
Outra característica comum das diversas tribos indígenas era
a fabricação de utensílios religiosos e de decoração com base em argila,
madeira, bambu e penas de aves, além da confecção de pinturas corporais
utilizadas em processos de caça e de guerra ou em festivais religiosos.
Crianças indígenas com pinturas tradicionais no rosto e
colares típicos.
Costumes indígenas
As sociedades indígenas prezam muito por duas coisas:
respeito e ligação com a natureza e respeito à sabedoria dos anciãos. É ainda
comum nas tribos indígenas o pensamento de uma vivência sustentável — retirando
da natureza somente aquilo que é necessário para a manutenção da vida. As
pessoas mais velhas são consideradas mais sábias, o que garante a elas certa autoridade
dentro da tribo.
Os povos falantes do tupi estabeleciam uma divisão do
trabalho baseada no gênero e na idade. Idosos e crianças não trabalhavam,
exceto espantando pássaros e outros animais das plantações. As meninas
adolescentes ajudavam no cuidado das crianças mais novas. Homens adultos
fabricavam utensílios de caça, pesca e guerra, também fabricavam canoas,
guerreavam, caçavam e preparavam a terra para o cultivo. Já as mulheres adultas
eram as responsáveis pelas atividades agrícolas, pela coleta, pela fabricação
de utensílios domésticos, pela preparação de alimentos e pelo cuidado das
crianças.
Os índios, antes da colonização, viviam de maneira autônoma,
sem a presença de elementos políticos e governamentais e de Estado. A gestão
era coletivista, baseada na cooperação entre os membros de uma mesma tribo e em
alianças e guerras entre tribos diferentes.
Alimentação indígena
A alimentação indígena costumava ser baseada no consumo de
frutas, legumes, verduras, raízes, caules, peixes e carnes de caça. Frutos como
o caju e o açaí eram comuns na alimentação de povos de algumas localidades,
como o Norte e o Nordeste brasileiros. Os índios do Norte também consumiam
muito o guaraná como fonte de energia para as atividades diárias e para a
guerra. A mandioca era a principal fonte de carboidrato deles, por isso era
amplamente cultivada. A tapioca e a farinha de mandioca eram maneiras de
estocar a mandioca para a utilização posterior.
Hoje em dia, apesar de manterem muitos hábitos alimentares,
os indígenas que permaneceram tiveram que se adaptar aos hábitos alimentares da
sociedade brasileira contemporânea. A caça, a pesca e a coleta, que eram
possíveis quando as florestas eram preservadas, já não são mais suficientes
para alimentar a pequena população indígena, devido ao desmatamento.
A introdução forçada dos indígenas no modo de vida urbano e
rural (desenvolvido pelos brasileiros pós-colonização) modificou drasticamente
a vida indígena dentro e fora das aldeias, entre 1500 e os dias atuais.
Dança indígena
A dança e a música tiveram e ainda têm um papel religioso
dentro da cultura indígena. Geralmente a dança é realizada em rituais e
festividades religiosos entoados em agradecimento ou como forma de pedidos às
divindades.
Podendo ser realizada individualmente ou em grupo,
geralmente a dança indígena possui uma execução de passos que requer a formação
de duplas ao menos em algum momento dela. Geralmente, as danças são realizadas
por pessoas com o corpo pintado, pois a pintura corporal também é um elemento
da simbologia religiosa indígena.
Algumas danças de rituais xamânicos (liderados pelos xamãs,
pessoas capazes de fazer uma ponte entre o mundano e o sagrado, como os pajés)
entoadas por índios de tribos amazônicas utilizam também máscaras.
Podemos destacar como principais danças indígenas as
listadas a seguir:
• Acyigua:
feita pelo pajé e pelo melhor caçador da tribo para resgatar a alma de um
guerreiro indígena morto. Ela advém da tradição indígena Guarani.
• Atiaru:
praticada por homens e mulheres da tribo, ela objetiva afastar os maus
espíritos do local.
• Toré:
entoada por várias tribos e com diferentes variações. Geralmente é feita em
círculos por todos da tribo, ao ar livre, com passos definidos pela batida de
um chocalho feito de cabaça e pedras.
• Kuarup:
dança típica de povos do alto Xingu, o kuarup, que é dançado por todos os
membros da tribo, visa fazer uma homenagem aos membros que já morreram.
Índios brasileiros da etnia Pataxó durante ritual de dança.
Influências da cultura indígena no Brasil
Historiadores apontam que, em 1500, existiam cerca de quatro
milhões de indígenas habitando as terras brasileiras. Hoje, a Funai estima que
um milhão de indígenas vive no país, espalhados em 250 etnias, que, em suas
aldeias, ocupam cerca de 13% do território |1|. Essa pequena parcela ocupada
somente se mantém devido à demarcação de terras indígenas.
Apesar do genocídio praticado contra os índios desde 1500
(em especial no período das bandeiras, durante a Ditadura Militar e em
conflitos de terras atuais em estados, como Mato Grosso, Amazonas e Pará) e da
desvalorização dos povos indígenas, o nosso país herdou inúmeros elementos da
cultura indígena.
O Brasil é um país extremamente miscigenado e pluricultural.
Além da influência de povos africanos, orientais e europeus, os povos indígenas
deixaram elementos importantes para a nossa cultura, sobretudo em relação aos
hábitos alimentares. A culinária nortista, por exemplo, é rica em elementos da
cultura indígena, como a maniçoba e a utilização do tucupi em pratos típicos.
Frutos como o caju e a acerola eram consumidos pelos indígenas, e os seus
respectivos nomes tiveram origem nas línguas tupi. O açaí, o guaraná e a
tapioca, que consumimos amplamente nos dia de hoje e são, inclusive, explorados
pela indústria alimentícia, são oriundos dos hábitos alimentares indígenas.
Como e com quem se aprende a cultura indígena no Brasil
A melhor maneira de aprender a cultura indígena é pelo
contato direto com povos indígenas ou por meio de estudos antropológicos
desenvolvidos por indigenistas (pesquisadores que se dedicam a entender a
cultura indígena).
Podemos destacar como fundamentais os trabalhos
desenvolvidos por Darcy Ribeiro, antropólogo a indigenista brasileiro que atuou
por quase 10 anos no Serviço de Proteção ao Índio, atual Fundação de Amparo ao
Índio (Funai); e por Claude Lévi-Strauss, antropólogo belga que desenvolveu
trabalhos de observação da cultura indígena brasileira por décadas e lecionou
Antropologia na Universidade de São Paulo (USP).
Darcy Ribeiro ajudou a fundar o Museu do Índio, que é uma
instituição sediada no Rio de Janeiro e com polos em Cuiabá (Centro Cultural
Ikuiapá) e em Goiânia (Centro Audiovisual do Museu do Índio). O Museu do Índio
contém o maior acervo de artefatos indígenas do Brasil.
Curiosidades
• O caoim
era uma bebida típica feita pelos tupi-guarani à base de mandioca. Em um
ritual, vários membros da tribo mascavam a mandioca crua e cuspiam o bolo de
mandioca misturada com saliva em uma moringa de barro que era enterrada. A
fermentação da mistura resultava em uma bebida alcoólica apreciada em festas.
• Os índios
brasileiros não conheciam a metalurgia antes da chegada dos europeus ao
território brasileiro.
• Antes da
chegada dos portugueses, havia tribos indígenas canibais no Brasil. Alguns
relatos dão conta de que tais tribos sobreviveram até o início do século XX na
Amazônia.
• Várias
palavras comuns no nosso cotidiano são de origem indígena. São exemplos:
maracujá, guaraná, mandioca, caju, acerola, moringa, tambaqui, pirarucu e oca.
• O consumo
de mandioca, de peixes típicos de rios brasileiros, como o pirarucu, o cará e a
caranha, e de frutas brasileiras, como a acerola, o maracujá e o guaraná, está
em nossas mesas hoje graças à presença marcante da cultura indígena na formação
cultural do Brasil.
Notas
|1| Dados obtidos na matéria: GOUSSINSKY, E. Brasil é líder
disparado no genocídio de índios na América Latina. Disponível em:
https://noticias.r7.com/prisma/nosso-mundo/brasil-e-lider-disparado-no-genocidio-de-indios-na-america-latina-24042018.
Acesso em: 13/04/2019.
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Qual o filho que o pai não corrige?
E qual é o filho a quem o pai não corrige? Mas, se estão sem
essa correção, da qual todos se tornaram participantes, então vocês são
bastardos e não filhos.
.
Provérbios 3:12 Porque o SENHOR corrige quem ele ama....
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Dionê Leony Machado
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