Ficção
O
ABRAÇO viera espontâneo, aconchegante, desejoso de entrega. Ambos os
dois, mulher e homem, velhos colegas, despojaram-se de seus melindres e
apertaram-se com emoção.
De
há muito o sentimento era silenciosamente construído, mas, naquele
natal, às 17 horas - quando a campainha indicou o término da jornada e
todos, em alegria espontânea, apressavam o retorno para os seus lares
visando as comemorações natalinas, aconteceu sem palavras o que sempre
existira.
O dia próprio,
a conveniência perfeita para se demonstrarem sem comprometimento ou
confissões, fato que deveria permanecer em silêncio profundo, mascarado
pela existente fraternidade.
O
incontido abraço, fora rápido - a fim de permanecer em segredo - e
surpreendente - viera ao se encontrarem, ele e ela, num corredor de
repartição, em encantamento sem precedentes, denunciando a séria
realidade a vir.
-
Lembro e sinto, ainda hoje, aquele encostar que transmitia afeto,
bem-estar, energia impondo amar, sem expressões ou proclamações - ele o
diz. Seguiu-se – continua - sentimento de fraternidade a tantos que se
achegassem, projeção possível do honesto elo “amorizante”.
Deixaram-se, insatisfeitos, não lhes bastou o acontecido.
Em
casa, alheio, mulher e filhos, a situação o oprimia, os festejos, o
feriado eterno. Com ansiedade esperava o novo dia de trabalho. Não sabia
o inferno que a consciência iria lhe impor.
Em
outro lugar, sem vínculos impeditivos, a fantasia, o certo e o errado
enfrentavam-se. Diziam a ela sobre a impossibilidade de estreitarem
aquele abraço, que desejou apenas fraterno. Reza, sentindo-se em
pecado. Não lhe seria fácil a convivência.
O
tempo escorria. As circunstâncias – várias -, encontros e desencontros -
tantos. Os princípios, as impossibilidades, a ausência de termo para
outro início. Nada disso ocorreu. O sentimento sucumbiu. As estruturas
venceram.
Trinta anos
após, um encontro casual. Os efeitos impostos pelo tempo estavam
vincados, nítidos, severos. O espelho denunciava-o. A beleza e
sensualidade contida negava a ela a formosura de outrora.
Quase
não a reconhecera até que, ao achegar-se, o brilho - antes escondido -
de seus olhos a projetaram e ele a viu, maravilhado, por inteiro. Pouco
falaram. A mesma voz, a mesma doçura educada, a mesma altivez. Logo se
foram. Restou-lhes a penumbra.
Para o pensador, a reflexão:
O
corpo que definha nada diz do olhar que vivifica e que permanece
dizendo o que se é. Talvez pudéssemos viver de olhares vibrantes,
imorredouros. Um talvez que enfrentaria a realidade deste mundo.
SSA 19.05.2021,
EM PLENA E VERGONHOSA CPI/COVID
Geraldo Leony Machado
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