A natureza é nossa irmã
Por Carlos Nomoto
O
propósito deste texto é promover uma reflexão missiológica sobre a
perspectiva ambiental. Ou uma reflexão ambiental sobre a perspectiva
missiológica, tentando organizar e reorganizar algumas imagens e ideias
que temos sobre o que o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis
espera da relação entre o ser humano e as demais criaturas.
No contexto brasileiro, e mesmo no internacional, não é possível tratar deste tema sem incluir a Amazônia, palco de recente repercussão global devido às queimadas.
A Amazônia não é o pulmão do mundo.
Pesquisas
científicas revelam que a Amazônia é a “grande caixa d´água” do mundo:
bilhões de litros de água evaporam diariamente da maior floresta
tropical do planeta formando um fenômeno chamado “rios voadores”. Outras
duas florestas tropicais contribuem com evaporação de água para tal
fenômeno: a da Bacia do Congo e a do Sudeste Asiático. De forma
magistral, correntes de ar conectam e distribuem esse volume de água
evaporada em formato de gotículas por todo o globo terrestre,
contribuindo diretamente para a regulação do clima e do regime de
chuvas. Um sistema natural fantástico que pode ser observado através de
uma sequência de fotos de satélites da NASA.1
Não é necessário ir muito longe para compreender os impactos de qualquer desequilíbrio nesse sistema natural sobre setores como agricultura, geração de energia, saúde pública e gestão de grandes centros urbanos. A previsibilidade sobre locais e volumes de chuva tem sido cada vez menos acertadas se, para a formularmos, considerarmos apenas os dados históricos. Fica cada vez mais complexo prever o volume de colheitas, volume de água para geração de energia (em particular para países com fontes de energia hídrica, como o Brasil), locais com possíveis epidemias e destruição de infraestrutura em decorrência de enchentes.
Não é necessário ir muito longe para compreender os impactos de qualquer desequilíbrio nesse sistema natural sobre setores como agricultura, geração de energia, saúde pública e gestão de grandes centros urbanos. A previsibilidade sobre locais e volumes de chuva tem sido cada vez menos acertadas se, para a formularmos, considerarmos apenas os dados históricos. Fica cada vez mais complexo prever o volume de colheitas, volume de água para geração de energia (em particular para países com fontes de energia hídrica, como o Brasil), locais com possíveis epidemias e destruição de infraestrutura em decorrência de enchentes.
Esse é um simples extrato contextual das discussões em torno do que se chama hoje de mudanças climáticas.
Nas
discussões mundiais sobre o clima, fala-se sobre como os sistemas
naturais estão sendo alterados por ações antropogênicas, ou seja,
provocadas pelo ser humano. A velocidade com que a humanidade consome os
recursos naturais e gera resíduos é maior do que a velocidade que a
natureza consegue gerar mais recursos e absorver tal volume de resíduos.
A temperatura média do planeta Terra vem alcançando recordes de alta de temperatura.2
Emissões de gases tóxicos e de efeito estufa estão entre os principais
causadores do desequilíbrio dos sistemas naturais. Tais gases: (1)
destroem uma camada gasosa que regula a entrada de raios solares
ultravioleta na crosta terrestre, e (2) impedem que o calor gerado na
crosta terrestre seja dissipado “para o espaço”. Por conta disso, ocorre
o efeito estufa. Dentre outras fontes, esses gases são gerados por
processos industriais, desmatamento, motores de veículos aéreos,
marítimos e terrestres e geração de energia (termoelétricas, queima de
carvão).

A natureza não consegue absorver o crescente volume de emissão de gases de efeito estufa
A
emissão desses gases – bem como a geração e o descarte de outros tipos
de resíduos (sólidos, líquidos e gasosos), a redução de cobertura
vegetal (essencial para a regulagem da umidade e do clima) e o uso
intensivo de insumos químicos sobre o solo e a urbanização – tem
impactado diretamente os sistemas naturais.
Por que se vive assim?
- Porque o fundamento que rege a competitividade entre as nações está construído sobre a premissa de crescer economicamente de forma infinita por meio do aumento do consumo da população. Esse modelo – extrair, produzir, consumir e descartar – vem sendo aperfeiçoado há 200 anos, desde a Revolução Industrial.
- Porque assumiu-se que as necessidades humanas são infinitas: estilo de vida baseado no consumo crescente.
- Por conta da educação e dos valores morais. Ao longo de décadas, a natureza não foi incluída na formação educacional. E, quando abordada, foi tratada como uma fonte infinita de recursos que existem apenas para atender às necessidades humanas que, por sua vez, também são infinitas.
É
esse modelo econômico, social, mental e educacional baseado no consumo
crescente de bens e serviços a causa principal de praticamente todo o
desequilíbrio dos sistemas naturais.
Contudo, há grupos que discordam dessas causas e conclusões.
Não
é objetivo deste texto debater a veracidade científica das afirmações
acima apresentadas e confirmadas por mais de mais de 2 mil cientistas
envolvidos há mais de uma década no Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) – sem
mencionar os demais núcleos científicos ao redor do globo. Há material
suficiente e disponível na internet.
Também não é
objetivo deste texto propor soluções para o complexo sistema produtivo
em nível global. Modelos em menor escala estão sendo testados em nível
macro e microeconômico em todo o Planeta, e os resultados estão sendo
animadores! Esforços de entidades multilaterais e de organizações não
governamentais têm ajudado a incluir pautas ambientais nos fóruns de
debate globais. Tecnologia é uma ferramenta indispensável para encontrar
soluções que conciliem o atendimento das necessidades desta geração sem
comprometer a capacidade de as próximas gerações atenderem às suas
necessidades.3 Mas ainda temos uma longa jornada pela frente, afinal, são 200 anos aperfeiçoando esse modelo atual de produção e de vida.
Os sistemas naturais são perfeitos e implacáveis
Perfeitos
porque, sem a intervenção humana, providenciam todo o necessário para o
bom funcionamento do planeta: volume de água correto nos lugares
certos, intensidade luminosa adequada para o desenvolvimento dos
vegetais, clima e ciclo de nutrientes. Aliás, esses sistemas já
funcionavam perfeitamente antes mesmo de o homem e a mulher serem
criados por Deus.
Implacáveis porque beneficiam ou
dificultam a vida dos seres humanos independentemente de posições
políticas, religiosas ou ideológicas. Não reconhecem fronteiras
geográficas, e tampouco fazem distinção entre os “salvos” e “não salvos”
em Cristo Jesus.
Possíveis origens do distanciamento da Igreja Cristã da pauta ambiental global
As
políticas econômicas, conforme mencionadas anteriormente, seguem ainda
sob o modelo da competividade por meio do estímulo ao consumo infinito
da população, modelo esse que está exaurindo os recursos naturais e
provocando alterações nos ciclos hidrológicos e climáticos devido ao
aumento de emissões de gases poluentes na atmosfera.
A
Igreja Cristã, de modo geral, tem ficado distante dos assuntos
relacionados ao meio ambiente, sendo que poderia oferecer perspectivas
valiosas e ainda mobilizar milhares de pessoas dentro de suas paróquias.
Durante
os últimos 200 ou 300 anos, a natureza foi abordada sob diversas formas
que, com poucas exceções, assustaram e afastaram as igrejas, em
particular as evangélicas (incluindo as protestantes), dos temas
ambientais.
Possivelmente, a trajetória que levou a esse
distanciamento é a descrita a seguir e envolve: o pensamento
mecanicista, o deísmo, os hippies, o panteísmo, o racionalismo, o platonismo e a desmaterialização da prática da fé.

Revolução Industrial: pensamento mecanicista distanciou a Igreja das questões ambientais
Antes
mesmo de influenciar a Revolução Industrial há 200 anos, marco
histórico que trouxe a humanidade e os sistemas naturais para a condição
atual, o pensamento mecanicista ajudou a construir perspectivas sobre a
natureza que foram resumidas em frases como –
“A natureza
funciona como um relógio –, ou seja, de forma ordenada, cíclica e
precisa. De fato, esse reconhecimento levou a uma clássica indagação do
cientista Isaac Newton, utilizada sem restrições em debates
apologéticos: “Se há um relógio, quem é o relojoeiro?” 4, construindo uma ponte entre a ciência e a fé.
O
pensamento mecanicista sobre a natureza evoluiu em algumas frentes e
uma delas foi o Deísmo. Essa linha de pensamento afirma que a natureza,
de fato, fora criada e funcionava de forma tão perfeita que tornou Deus
desnecessário. Ela se autossustentava de forma autônoma.5
A Revolução Industrial foi uma das expressões óbvias do pensamento mecanicista.
Em
seguida, veio a Revolução dos Combustíveis Fósseis. Em especial, o
petróleo, que teve um de seus apogeus durante a década de 70, quando o
preço do barril saltou de 23,93 dólares americanos em dezembro de 1973
para 55,67 em janeiro de 1974.
Um pouco antes dessa década, surgia um grupo de contracultura no Ocidente, os hippies
e, dentre as suas pautas, estavam a poluição atmosférica, a preservação
de espécies em extinção e o fim da guerra do Vietnã. Nas palavras de
Francis Schaeffer:
Os hippies de 1960 entenderam
alguma coisa. Eles estavam certos ao lutar contra a cultura plástica (da
época) e a igreja deveria estar lutando também, há muito, muito tempo
atrás, antes mesmo desta contracultura entrar em cena. Mais do que isso,
eles estavam certos sobre o fato de que aquela cultura plástica – o
homem moderno, a visão mecanicista sobre o mundo presente nos livros
ensinados nas universidades e posta em prática, a ameaça real das
máquinas, a imposição da tecnologia, a burguesia da classe média alta – é
sensitivamente pobre em relação à natureza. Isso tudo estava totalmente
correto. Este grupo utópico de contracultura compreendeu muito bem a
realidade, tanto o aspecto cultural como também o raso conceito que o
homem moderno tem sobre a natureza e a forma como a mecanização está
engolindo a natureza por todo lado.6
Para complicar e afastar ainda mais a Igreja Cristã das questões ambientais, na década de 70 outra afirmação bastante difundida entre ambientalistas e simpatizantes foi: “A Natureza é a nossa mãe”. Tal afirmação foi reforçada pela teoria da Hipótese de Gaia, desenvolvida por James Lovelock, e teve grande utilidade ao chamar a atenção da sociedade – juntamente com outras publicações –, invertendo a lógica de que a natureza dependia da humanidade. A humanidade é quem dependia totalmente da natureza e estava caminhando, sem perceber, para uma catástrofe de proporções imprevisíveis. A ideia de tratar a Terra com adjetivos femininos, como uma mãe provedora de todos os frutos e protetora dos seres viventes, venerada por defensores da natureza modernos chamando-a de Gaia, é encontrada já na época medieval.7
Os limiares dessa discussão sobre quem depende mais de quem, a natureza do ser humano ou vice-versa, são bastante interessantes. Em alguns momentos, lembram o panteísmo ao igualar o ser humano às demais criaturas em essência. Nesse processo argumentativo de unificação, não há espaço para particularidades, o que é totalmente oposto à visão judaico-cristã sobre o homem como imagem e semelhança do Criador, e tampouco há espaço para um Deus presente que sustenta o Universo.
Embora corretos em sua luta pela natureza, a proposta ambiental dos hippies baseada no panteísmo apresentava lacunas existenciais. Segundo Schaeffer:
O
Panteísmo oferece uma resposta através da unidade (de todas as coisas),
mas retira todo o significado da diversidade. Qualquer perspectiva
apresentada pelo panteísmo é obtida através da projeção dos sentimentos
do homem sobre e na natureza. (…) Ao olhar para uma galinha, assumimos
que ela ama sua própria vida através de qualidades humanas. Mas seguir
nesta linha significa invadir a “realidade” da galinha. O panteísmo
sempre levará o homem a uma posição inferior ao invés de elevá-lo. Neste
pensamento, não é a natureza que é elevada, mas o homem é rebaixado.8
Na
década de 90, algumas igrejas evangélicas no Brasil, influenciadas por
movimentos dos Estados Unidos, começaram a travar uma guerra espiritual
contra um complô de proporções globais chamado Nova Era.
Parecia
uma mistura de panteísmo com movimento hippie, mas melhor vestidos,
menos ativistas e com uma agenda sofisticada e alinhada com algumas
pautas da ONU, dentre elas o rápido crescimento populacional replicando
os hábitos de consumo dos países ricos e contribuindo para a destruição
do Planeta. O plano deles era considerado diabólico e já prenunciava o
anticristo: dominar o mundo ocupando posições de influência na
sociedade, valorizando práticas místicas orientais, promovendo a redução
da população através de uniões homoafetivas e estimulando o
vegetarianismo. A veneração a Gaia, a mãe Terra, era uma das expressões
desse movimento, seja defendendo-a ou adorando-a.
Durante
os últimos 50 anos, na tentativa de se proteger dos valores imorais
praticados pelos místicos ambientalistas que evocavam Gaia andando nus
pelas florestas, praticando sexo livre, erguendo um círculo com uma cruz
quebrada de ponta cabeça (símbolo de paz e amor) e financiando ONGs que
atacavam barcos baleeiros, grande parte das igrejas encontrou refúgio
nos partidos políticos conservadores de suas jurisdições. Até porque
governantes, empresários e industriais que representavam o próprio status quo da época faziam – e continuam fazendo – parte do rol de membros dessas igrejas.
O ambientalismo passa, então, a ser coisa dos liberais, não dos conservadores.
Entre
os católicos, também houve algumas diferenças. O ambientalismo foi
bastante associado ao movimento da Teologia da Libertação, o que é
coerente uma vez que, ao se aproximar de questões sociais, dentre elas
as que envolvem a propriedade da terra, é inevitável incluir a dimensão
ambiental.
Atualmente, tanto conservadores quanto
liberais, de direita ou esquerda, não se arriscam a desprezar as
questões ambientais. No mínimo devem dizer algo sobre isso em público,
ainda que de forma errática. A pauta ambiental avançou nas agendas
políticas em nível global e, como nenhum grupo social pode ser
considerado um bloco único, os próprios conservadores contam com grupos
que incluem propostas ambientais em suas plataformas.
Testemunhamos
o discurso de líderes conservadores atualmente no poder fazendo
afirmações como: “As mudanças climáticas são invenção dos chineses”, “O
Brasil é alvo de uma psicose ambientalista” e “O Brasil é uma virgem que
todo tarado de fora quer”.9
Não são afirmações que expressam a opinião de todos os conservadores de todos os países.
Em entrevista ao jornal Financial Times
em março de 2019, Sir Roger Scruton, arquiteto, filósofo e conservador
influente do Reino Unido, chama a atenção para o fato de que, se as
mudanças climáticas são um problema de nível global, as soluções também
devem ser elaboradas no mesmo nível, de forma transnacional. Em nível
local, Sir Roger concentra suas intenções políticas ambientais em uma
palavra: oikophilia (amigos da casa, ou do lar), enfatizando
tanto a importância de cuidar do nosso lar comum, o Planeta Terra, como o
direito de todo cidadão britânico residir em casas e bairros
agradáveis, seguros e funcionais.10
Outra
possível origem do distanciamento da Igreja Cristã de debates e de
movimentos em favor da natureza é a desmaterialização da prática da fé
cristã. Ao longo das últimas décadas, os evangélicos passaram a
demonstrar mais interesse “naquilo que é do alto”, nas coisas
espirituais, do que nas coisas materiais. São diversos os fatores que
podem ter levado a esse fenômeno, dentre eles uma mistura esquisita de
racionalismo com platonismo.
Teólogos atuais do Oriente
observam a influência dessas duas correntes de pensamento sobre a
teologia formulada no Ocidente, o que, segundo eles, tem levado a uma
prática de fé estritamente intelectualizada, sentimentalista e
moralista, distante da salvação terapêutica da alma (nous), da
purificação aperfeiçoada através da disciplina dos desejos (asceticismo)
e condicionamento da alma e do corpo para adoração (hesychia).11
O
racionalismo contribuiu para levar a prática da fé cristã ao nível
daquilo que podemos compreender, o que trouxe avanços significativos no
lado ocidental do mundo em, pelo menos, duas frentes interessantes: a
academia e a população. Ao comprovar que a fé cristã pode ser explicada e
defendida por métodos de análise científica, o pensamento cristão
conquistou espaços importantes na academia. Outro resultado positivo, e
talvez não planejado, foi abrir a possibilidade para qualquer pessoa
compreender e ensinar a Bíblia, retirando a exclusividade do ensino
bíblico concedida corporativamente somente aos clérigos ou teólogos. Ou
seja, entender a Bíblia não era um processo limitado a uma iluminação
divina randomicamente predestinada a alguns poucos notáveis da
sociedade.

Sentidos foram amortecidos na prática da fé cristã no Ocidente: base abstrata
Entretanto,
um dos efeitos paradoxais da influência do racionalismo na formação do
pensamento cristão ocidental foi tornar a prática da fé cristã abstrata,
imaterial. Isso porque o pensamento humano é, em essência, abstrato e
imaterial.
Rituais praticados durante séculos pelos
cristãos antigos foram abandonados, seja pelo suposto caráter idólatra
ou pela simples desnecessidade de tais rotinas dado que compreender a fé
cristã em dimensões diametralmente opostas – racionalidade e êxtase
emocional – tornou-se a grande evidência de transformação, de conversão.
Ao
desconectar o intenso envolvimento do corpo humano na prática da fé, em
especial durante as celebrações comunitárias, criou-se entre os
evangélicos ocidentais uma espiritualidade manca, incompleta.
Os
sentidos, concedidos graciosamente pelo Criador, que criam memórias
olfativas, visuais e auditivas, foram amortecidos por mensagens
dominicais construídas apenas sobre bases lógicas e um conjunto de
canções cujas letras são ainda mais abstratas, ambos executados
geralmente em ambientes opacos e estéreis. Os incensos, utilizados desde
o Antigo Testamento, desapareceram entre os protestantes evangélicos,
assim como as iconografias. Às vezes, o olfato é ativado durante as
santas ceias, celebradas com suco de uva e pães de fôrma
industrializados.
Uma vez desestimulados a utilizar o
corpo como expressão da fé em Cristo, como abordar o tema da natureza
criada se é através do corpo que compreendemos nossa relação com ela e
não somente com o pensamento? A beleza de uma paisagem, os aromas mais
intensos e diversos de uma floresta, o sabor de uma refeição produzida
com ingredientes de todo tipo, a temperatura refrescante de um rio, a
sombra proveniente de um conjunto de grandes árvores…
Uma
vez que o corpo é tratado como elemento secundário na prática da fé, o
que esperar do entendimento e envolvimento dos cristãos e cristãs
protestantes evangélicos com a biodiversidade?
Além do
racionalismo, o platonismo também tem sua parcela de influência nessa
trajetória de desmaterialização da prática da fé, que possivelmente
contribuiu para o distanciamento da Igreja Cristã dos temas ambientais.
Schaeffer afirma:
Qualquer tipo de Cristianismo que
tenha a influência de algum conceito platônico não apresentará uma
resposta (convincente) para a natureza; e temos que admitir que muito do
Cristianismo evangélico tem suas raízes no pensamento platônico. Neste
tipo de Cristianismo, há interesse somente “nas coisas do alto”, nas
coisas celestiais que são a “salvação da alma” e ir para o céu. Este é
um conceito platônico aonde há pouco ou nenhum interesse nos prazeres do
corpo ou mesmo no uso do intelecto. Neste tipo de Cristianismo, há uma
forte tendência de ver na natureza nada mais do que uma prova clássica
da existência de Deus. “Olhe para natureza”, “olhe para as montanhas”:
“elas foram criadas por Deus”. E paramos por aí. A natureza se tornou
uma prova meramente acadêmica da existência do Criador, com pouco valor
em si mesma. Cristãos com esta perspectiva não mostram interesse na
natureza em si. Eles a usam simplesmente como uma arma apologética ao
invés de pensar e falar sobre o valor intrínseco da natureza.12
É
interessante refletir sobre como e por que os evangélicos chegaram a
esse ponto dado que a compreensão bíblica sobre aquilo que é material é
muito clara e, para o propósito deste texto, essa compreensão é
fundamental.
Além do fato de que Deus criou um planeta
material, não é algo etéreo, Ele próprio veio a este mundo em formato
material: Jesus Cristo, o Filho de Deus. O Divino tornou-se “matéria”.
Foi morto e ressuscitou materialmente, corporalmente.
O
processo todo, do nascimento à ressurreição do Senhor Jesus Cristo,
deu-se através da matéria, do corpo. Tomé tocou o corpo de Cristo.
Cristo comeu peixe com os apóstolos após ressuscitar. E mais de 500
pessoas viram o Senhor após a sua ressurreição (1Coríntios 15.6).
Quanto
aos cristãos e cristãs, seus corpos serão ressuscitados. E isso era tão
real para os cristãos antigos que não permitiam que seus corpos fossem
cremados por dois motivos: era uma prática idólatra e ressuscitariam um
dia, em seus corpos para viver com Cristo.13
Por
fim, a vida após a morte é descrita de forma absolutamente material. Na
casa do Pai há muitas moradas. A Nova Jerusalém é uma cidade com medidas
e projeto arquitetônico descritos em detalhes. Haverá um rio
atravessando essa cidade.
O distanciamento dos formadores
de opinião, teólogos e pastores das questões ambientais tem causas
sérias, possivelmente geradas pela entrada sutil de ideias e pensamentos
dominantes no Ocidente, alguns deles abordados brevemente nos
parágrafos anteriores.
E consequências ainda mais sérias,
dentre elas a ineficácia na luta em favor dos mais fracos, dos mais
pobres, do órfão e da viúva, pois são esses os que mais sofrem e
sofrerão com os desequilíbrios dos sistemas naturais.
Mudanças climáticas: a nova face da injustiça social
Grande
parte das profissões de fé cristãs concordam em um ponto: combater as
injustiças sociais é uma das tarefas centrais da Igreja. E onde há uma
crise ambiental, há desigualdade social e violência. Países do
continente africano, receptores de grande número de missionários de
países americanos e europeus ao longo de décadas, apresentam o já
conhecido histórico de guerras movidas por ideologias, financiadas pela
extração e venda de recursos naturais minerais por vias comerciais
ilícitas.14
Temos a ideia de
que é somente o ouro, mas atualmente os minerais valiosos extraídos do
solo africano são os “3T1G”, letras iniciais em inglês para estanho,
tungstênio, tântalo e ouro, os quais são transformados em componentes de
celulares e computadores vendidos em todo o mundo. As condições de
trabalho são degradantes, assim como a poluição do solo e dos rios
devido ao manejo inadequado do processo de extração. A exigência de
comprovações auditáveis sobre a origem desses e de outros minérios já é
uma realidade em setores produtivos que os utilizam.
Da
perspectiva ambiental, houve duas grandes transições na história que
impactaram o uso dos recursos naturais e contribuíram para o aumento da
desigualdade: a invenção da agricultura e a exploração dos combustíveis
fósseis.15
O impacto da agricultura
A
agricultura está sendo desenvolvida pela humanidade há milhares de
anos. Ao deixar seu estilo de vida como caçador-coletor, portanto
nômade, o ser humano passou a cultivar seus próprios alimentos vegetais e
animais. Com poucas exceções, grupos de pessoas instalaram-se em
assentamentos permanentes.
Os primeiros efeitos foram na
alimentação. Como nômades, alimentavam-se com o que encontravam pelo
caminho, o que forçava uma dieta variada e, por isso, saudável. Como
sedentários, a diversificação alimentar reduziu-se drasticamente.16
O
segundo efeito foi a estratificação social: o superávit agrícola,
produzir alimento além do necessário para as necessidades do grupo,
levou algumas tribos a se transformarem em grandes nações. O excedente
de alimento armazenado em grandes estoques ofereceu tempo disponível
para uma camada da população desenvolver outras habilidades e
conhecimentos além da agricultura. Essa camada, naturalmente, passou a
dominar os demais agricultores. Além disso, a comercialização do
excedente de alimentos com outros grupos menos afortunados permitiu o
enriquecimento de determinado grupo, tendo como moeda de troca a
submissão política.

Excedente
de alimento: tempo disponível para uma camada da população desenvolver
outras habilidades e conhecimentos além da agricultura
Conflitos
entre grupos foram inevitáveis à medida em que ficavam conhecidos os
locais mais férteis; simultaneamente, aumentaram as concentrações de
pessoas vivendo juntas, demandando maior área para produção e habitação.
Foi necessário formar grupos armados para defender seus respectivos
territórios. Crescia a noção sobre propriedade da terra e soberania
nacional.
E o terceiro efeito foi sobre o uso da terra.
Os caçadores-coletores não manipulavam a terra. Já os agricultores
desenvolveram técnicas para o manejo de grandes áreas de cultivo,
desviando o curso comum de rios para irrigação, selecionando as melhores
sementes, pavimentando estradas para o transporte da colheita. O
desmatamento foi uma necessidade óbvia.
Clive Ponting,
historiador britânico, exemplifica o ciclo destruidor por meio do qual
grandes nações da Mesopotâmia foram extintas. A diversidade vegetal foi
substituída pela monocultura, diminuindo a cobertura vegetal natural
durante o ano todo. O solo, durante o período em que a monocultura não
está produzindo, fica exposto ao vento e à chuva, levando ao aumento da
erosão. O ciclo dos nutrientes é afetado, demandando fertilização
adicional, o que pode alterar os níveis de acidez e alcalinidade do
solo. Sistemas de irrigação pioram ainda mais a qualidade do solo,
inclusive pelo excesso de água, que drena os poucos nutrientes
disponíveis.17
De acordo com o
historiador britânico, foi esse processo que extinguiu, por exemplo, o
império sumério, na conhecida região bíblica de Ur dos Caldeus, assim
como outras grandes civilizações.18
O
solo é um dos indicadores que revelam a conexão ou desconexão do ser
humano com o Criador. Quando o ser humano se desconecta de Deus, o solo é
o primeiro a sofrer, assim como, quando ele é redimido dos seus
pecados, o solo volta a ser fértil.19
Se
vocês seguirem os meus decretos e obedecerem aos meus mandamentos, e os
colocarem em prática, eu lhes mandarei chuva na estação certa, e a
terra dará a sua colheita e as árvores do campo darão o seu fruto. A
debulha prosseguirá até a época da plantação, e vocês comerão até
ficarem satisfeitos e viverão em segurança em sua terra. (…) Se depois
disso tudo vocês não me ouvirem, eu os castigarei sete vezes mais pelos
seus pecados. Eu lhes quebrarei o orgulho rebelde e farei que o céu
sobre vocês fique como bronze. A força de vocês será gasta em vão,
porque a terra não lhes dará colheita, nem as árvores da terra lhe darão
fruto. (Levíticos 26.2-5 e 18-19)
Esse trecho de
Levíticos revela elementos centrais para a compreensão dos sistemas
naturais e da necessidade de o ser humano ser redimido pelo Criador.
Caso contrário, é o próprio ser humano que viverá de forma miserável. O
solo pode ser deteriorado pela intervenção divina ou pelo manejo
inadequado do ser humano. Na primeira situação, o Criador é soberano e
proprietário de toda a Criação, atuando conforme a sua vontade, como o
fez em diversas ocasiões descritas na Bíblia (o dilúvio, as pragas no
Egito, os três anos sem chuvas na época do profeta Elias). Na segunda
situação, ainda assim, permanece a atuação e soberania do Criador porque
foi Ele quem criou os sistemas naturais, os ciclos hídricos, os
fenômenos físicos e químicos em funcionamento diariamente. O manejo
inadequado do solo afeta esses sistemas, e suas consequências deterioram
tanto o solo quanto a qualidade de vida do ser humano.
Ainda
em Levíticos, a prática do ano sabático deveria ser aplicada também ao
uso do solo, que deve descansar, assim como os servos e senhores,
revelando a coerência sobre o cuidado com toda a criação.
Milhares
de anos depois, a agricultura cresceu em volume graças aos avanços
tecnológicos. O lema é alimentar o mundo todo. Entretanto, o desafio
atual não é alimentar mais pessoas, mas alimentá-las melhor. Em 2010,
fome e subnutrição mataram cerca de 1 milhão de pessoas, enquanto a
obesidade matou 3 milhões.20 Preço versus valor nutritivo
(não somente quantidade de calorias) é a nova equação a ser resolvida, e
deve estar no escopo da redução da desigualdade social.
Na
dimensão ambiental, o uso do solo continua sendo um grande desafio para
o agronegócio, não tão distante do apresentado logo acima, e existe uma
pressão para que se equilibre o cultivo em larga escala com a
conservação dos biomas.
Exploração dos combustíveis fósseis
A
segunda transição na história é marcada pela exploração dos
combustíveis fósseis. Os últimos 200 anos apresentam como característica
marcante o uso dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás
natural) e o crescente consumo de energia.
Antes desse
período, as alternativas de fonte de energia eram basicamente
provenientes do ser humano, dos animais, vento e água. Até o século 19,
cerca de 3/4 da energia mecânica gerada no mundo era proveniente de
seres humanos, e praticamente todo o restante, de animais. Energia
eólica e hídrica eram apenas fontes marginais de energia.21
É
no século 17 que surge o uso do carvão, cujo consumo vem caindo ao
longo das décadas, mas ainda é uma fonte relevante dentro da matriz
energética de diversos países. Aumento do desmatamento, contaminação do
solo e condições de trabalho precárias continuam sendo aspectos críticos
derivados do consumo de energia proveniente do carvão (termoelétricas).
Entre
o final de 1800 e início de 1900, foi descoberto o uso do petróleo, e é
desnecessário listar suas contribuições para o formato de consumo,
indústria, distribuição de renda e estilo de vida a que chegamos hoje. A
queima do petróleo e de seus derivados, juntamente com os gases tóxicos
emitidos por fontes de energia poluentes, pelos processos industriais e
pelo desmatamento, está impactando o funcionamento dos sistemas
naturais e, consequentemente, desequilibrando o clima do Planeta Terra,
conforme abordado anteriormente.
As mudanças climáticas
como a nova face da injustiça social exigirão recursos financeiros dos
países mais ricos para garantir a resiliência das comunidades e países
mais pobres. E é exatamente nesse tema que é muito difícil obter avanços
nas negociações multilaterais e transnacionais: a criação de um fundo
global para combate às mudanças climáticas.
A Igreja está,
mais uma vez na história, diante de uma enorme janela de oportunidade, e
deve atuar de forma transversal em todos os níveis de influência e
setores da sociedade.
- Teólogos podem influenciar o pensamento acadêmico.
- Pastores podem inspirar suas ovelhas a adotar um modo de vida menos consumista, sendo, eles próprios, um exemplo.
- Empreendedores cristãos podem criar soluções que conectem a escassez iminente de recursos naturais com geração de renda para comunidades.
- Políticos cristãos podem incluir temas críticos da agenda ambiental em suas plataformas.
Mas, para isso, é necessário resgatar algumas perspectivas bíblicas fundamentais a respeito da criação.
Cristãos são criaturas antes mesmo de serem cristãos
Preocupado
com essa nova face da injustiça social provocada pelas mudanças
climáticas, em maio de 2015, o Papa Francisco publicou a primeira
Encíclica que trata exclusivamente do meio ambiente: Laudato si – Sobre o Cuidado da Casa Comum.
Ainda
que contemple algumas desatualizações científicas (por exemplo, afirmar
que a Amazônia é o pulmão do mundo), a Encíclica contribuiu enormemente
ao apresentar fundamentos e diretrizes para uma das profissões de fé
com maior número de seguidores no planeta – os católicos – sobre a
natureza, reforçando a necessidade de inclusão da pauta ambiental na
agenda política, econômica e social em nível global.
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