Mães, babás, amas de leite: escravidão e maternidade
artigos, História do Brasil
A historiadora Tania Quintaneiro informa que uma vez o
rebento chegado, a maternidade não parecia interessar muito às classes
dominantes brasileiras. O principal papel das senhoras se reduzia a parir um
grande número de filhos e, em seguida, entregá-los para que uma ama de bom
leite os amamentasse e criasse e, “assim que as crianças se tornam incomodas ao
conforto da senhora, são despachadas para a escola” contaram Kidder e Fletcher.
Fragilidade psicológica das mães muito jovens? Saúde precária da mãe, depressão
pós-parto, desnutrição? Faltam respostas.
As amas negras,
ao contrário, eram tidas como notáveis no cuidado dos pequenos além de
possuidoras de físico robusto e rico leite. Elas levavam nos braços e
amamentavam seus pequenos, e mesmo os filhos dos senhores eram “por vezes carregados
dessa maneira, e é extraordinário ver como se encarinham rapidamente das pretas
que parecem ter uma verdadeira aptidão para cuidar das crianças”, registrou
James Wetherell, morador de Salvador entre 1842 a 1857. Ele não parecia
perceber a competição que havia entre bebes negros e brancos, pelo acesso aos
alimentos. Reduzidas, muitas vezes, a anúncios de compra e venda nos jornais,
as amas eram uma substituta afetuosa, ainda que inferiorizada, responsabilizada
pela educação de crianças brancas, dos seus filhos e dos bastardos de seu
senhor. As sessões de anúncios nos grandes periódicos da capital do Império,
como o Jornal do Comércio, em 14 de abril de 1835, exibiam propostas:
“Compra-se uma boa
ama de leite parda, do primeiro ou segundo parto, mucama recolhida, que saiba
coser e engomar perfeitamente, sem vícios, nem manchas nem moléstias. ”
Em famílias de
poucas posses não era incomum que as mulheres livres se oferecessem para
amamentar ou “vender” seu leite. Era uma forma de aumentar a renda, como se vê
no anúncio do mesmo Jornal do Commércio de 04 de setembro de 1864: “Uma família
moradora num arrabalde desta cidade, tendo uma parda com muito e bom leite,
toma uma criança para criar”. Ou, nesse de 1º. de março de 1857: “Uma senhora
branca, parida há vinte e tantos dias, com muito e bom leite, recebe uma
criança para criar, na Rua da Carioca 103”. Mulheres pobres, forras ou brancas
presas às suas obrigações domésticas, se ofereciam para amamentar ou criar
crianças em domicílio.
Na metade do século
XIX, a opinião dos viajantes estrangeiros sobre tal prática era divergente.
Houve quem, como o escritor francês Charles Expilly, destacasse o fato de que
tais cativas recebiam roupas novas, alimentação suplementar e mesmo ostentavam
“luxo insolente”, pois exprimiam a “prosperidade da casa”. Ou o viajante W.
Heine que sublinhava que tais amas sofriam em amamentar seus filhos e os filhos
de outrem. Dramas não faltaram. Amas sob cujos cuidados perdiam-se crianças,
eram acusadas, julgadas e muitas vezes presas e condenadas.
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Por vezes, os
menores tinham cada qual a sua babá, enquanto os mais crescidos contavam com
amas secas, mas, também, com a companhia de “crias”, ou seja, crianças, filhos
de escravos da casa e outros criados domésticos – diz Quintaneiro. Mini
acompanhantes também podiam ser alugados como se vê num anúncio do mesmo Jornal
do Commércio, em 21 de janeiro de 1835: “precisa-se de uma negrinha para andar
com uma criança, que esta seja carinhosa, e não exceda o seu aluguel de 6$rs.
Mensais”.
No final do
século, a situação mudou. Médicos condenavam a presença da escrava no ambiente
do lar, fustigando a vaidade e a futilidade das mães que não queriam estragar
os seios, aleitando. Em 1867, surgiu na Europa a primeira fórmula
industrializada de amamentação de recém-nascidos. A novidade logo bateu aqui.
Discutia-se também o emprego de leite de jumenta ou de vaca, fervido ou não,
servido em “vasos” para nutrir o bebe. A ama de leite passou a ser indesejada e
signo de atraso aos olhos dos estudos “científicos”.
Os filhos
ilegítimos recebiam, no mais das vezes, o mesmo tratamento afetivo que os
legítimos. E não raras vezes, os filhos de uma ama-de-leite a quem se
alforriara, eram criticados por se comportar como filhos mimados, sentindo-se
ofendidos se não recebiam as mesmas atenções, como, por exemplo, passear de
carruagem com suas senhoras. Muitos viajantes os viram metidos na privacidade
dos cômodos internos, exigentes de carinho e atenção.
As crianças brasileiras eram consideradas
atrevidas por observadores europeus. Maria Graham relatou uma conversa com
certa senhora, num baile onde se agitavam crianças pequenas. Ao adverti-la de
que na Inglaterra tal comportamento seria considerado “maléfico para elas, sob
todos os pontos de vista”, a interlocutora perguntou: e o que faziam os
ingleses com as suas? Resposta britânica: estariam na cama, dormindo, ou com
suas amas e governantas. Contra resposta: os ingleses seriam felizes neste
ponto; mas, no Brasil não havia tais pessoas e as crianças ficavam entregues ao
cuidado e exemplo dos escravos. Depois era preciso separar-se dos próprios
filhos para educá-los longe dos cativos!
Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira:
Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.
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Dionê Leony Machado
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