Quando a raiva atrai
“Provocar para viralizar”. Os cristãos estão cedendo ao rage
bait?
Por Norma Braga
A língua inglesa é conhecida por cunhar expressões que fazem
sínteses interessantes. Uma delas é rage bait, literalmente “isca de raiva”:
conteúdo on-line intencionalmente provocativo para atrair cliques. Rage baits
podem ser frases que indignam por generalização ou exagero, vídeos com
interações absurdas e até mesmo receitas de bolo inventadas para dar errado,
gerando tudo o que o criador de conteúdo mais quer: comentários,
compartilhamentos e alcance.
Já estávamos familiarizados com o clickbait, que fomenta
curiosidade (“o segredo que ninguém conta”), promete exageros (“o método
definitivo”), choca (“estão enganando você”), mostra autoridade (“especialista
revela”), finge escassez (“esta é sua última chance”). Com a expansão, desde a
pandemia, dos negócios on-line – e consequentemente do marketing digital –,
esses truques verbais se popularizaram, e tornou-se fácil perceber que a raiva
atrai. Porém, cabe-nos a indagação urgente: cristãos estão cedendo ao rage
bait? E se estão, o que isso significa para a santificação pessoal e para a
igreja como um todo?
No X norteamericano, em 14/01/26, Trevor West (@TrevorWest
28) comenta o comportamento de um pastor: “Quando eu trabalhava para ele, uma
vez ele me disse que quer provocar para viralizar. E aí, quando o que ele posta
viraliza, ele explica melhor o que quis dizer, para depois escrever um artigo
esclarecendo. Não vai parar, porque deseja relevância”.
“Provocar para viralizar” poderia ser um lema de muitos
cristãos hoje. A teologia é um campo propício para discussões acaloradas, em
que muitos se dão licença para críticas generalizantes e insultos que, mesmo
sem qualificativos, soam como advertência piedosa: “herege”, “fundamentalista”,
“reacionário”, “fariseu”, “woke”, “liberal”, “feminista”… Seja no X, seja no
YouTube, o foco é derrubar o pensamento do outro, algo que facilmente se torna
uma convocação para uma espécie de ritual desmoralizante – à qual os seguidores
respondem com prazer.
Esse convite para a vergonha pública costuma vir acompanhado
de mais força emocional que argumentativa. Nos vídeos, a raiva se torna
evidente. O rosto se crispa, o semblante se acarranca e palavras condenatórias
vêm aos borbotões; até a fala é rápida. O outro é reduzido a uma caricatura,
preparado para o expurgo moral. Veem-se não tanto exegese séria, definições e
distinções finas, mas um panorama genérico de uma realidade não desejada,
criada e mantida por esse outro que se precisa expulsar, junto com seus livros
e suas ideologias. Ao identificar o inimigo, o público o rebaixa como ímpio e
se sente mais elevado, mais puro, agradecendo ao criador de conteúdo, que dobra
a aposta no vídeo seguinte – e o ciclo se reproduz.
Captar e manter seguidores por meio da raiva se prova um
procedimento tão bem recompensado que tem feito muitos cristãos esquecerem a
advertência bíblica: “Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos
prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do
homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.19-20). Penso que esse texto, bem
digerido, pode nos ajudar a escapar da isca raivosa. Estar pronto para ouvir,
em primeiro lugar, significa compreender que aquele pingo de informação – o
título do vídeo, os vinte minutos a que assistimos, o fio do X, os comentários
etc – não nos provê do necessário para condenar o trabalho de alguém, sobretudo
quando é um irmão. É preciso ler mais, aprofundar-se, refletir, e se possível
conversar com a própria pessoa. Isso é “estar pronto para ouvir”: saber segurar
a capacidade da reação e da indignação até ter certeza de que aquele pequeno
trecho na internet corresponde a toda a verdade. Isso vale tanto para os
criadores quanto para os consumidores – e é um procedimento totalmente
contracultural no mundo em alta velocidade de hoje.
Conectar-se para passar raiva pode se tornar uma verdadeira
mania. Se o cristão se sente mais vivo, mais piedoso, quando se indigna com o
pecado do outro, será que não está faltando olhar para si próprio? Jesus nos
adverte: “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se
dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu
irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu?
Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para
tirar o cisco do olho do seu irmão” (Mt 7.3-5). É muito comum enxergarmos no
outro aquilo que não queremos ver em nós mesmos. Achamos mais fácil empunhar o
martelo condenatório em vez de, primeiro, ancorar-se em uma análise mais sólida
das próprias motivações e desejos ocultos.
Mas então, deixamos de criticar? Claro que não: a igreja
precisa de direção, e isso inclui apontar o mal. Porém, a crítica de cristãos
maduros, experimentados no autoexame, é muito diferente do rage bait. É um
alerta sóbrio, que se vale não tanto de palavras de efeito, mas sobretudo de
uma preocupação legítima com as pessoas a quem se quer alertar. O objetivo é
chamar, não para a execração, mas para o arrependimento. Vem de uma alma que
conhece bem seus próprios pecados, por isso, em vez de deixar os outros cegos
de raiva, ensina a enxergar e ponderar. Seu alvo não é atiçar a ira, mas
inspirar cuidado e compaixão. Esse é o ideal que precisamos nos esforçar para
alçançar.
Oro para que possamos fazer a diferença. Que na internet,
como na vida, sejamos conhecidos não pela raiva, mas pelo amor (Jo 13.35).
Norma Braga, teóloga e escritora.
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