segunda-feira, 24 de agosto de 2026

OS NEGROS E OS SEUS DESCENDENTES...

 

OS NEGROS E OS SEUS DESCENDENTES...

4ª. Parte //Não Esgotamos o Assunto...

Dionê Leony Machado

Fevereiro de 2023

 

 

 

A outra história de negros na Bíblia

Vivemos um momento em que o povo negro, vítima histórica e secular de massacres, preconceitos e discriminação, buscam assegurar os direitos conquistados na Constituição de 1998. Com muita dificuldade, pequenos passos são dados para que tais direitos não fiquem no papel.

Na contramão, as elites se esforçam para deslegitimar nossas lutas e rasgar artigo por artigo das conquistas da chamada Constituição Cidadã.

O que a Bíblia nos diz a respeito do povo negro?

Os evangelhos sinóticos são unânimes em afirmar que certo Simão de Cirene ajudou Jesus a carregar a cruz, a caminho do Calvário (Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26). Ora, Cirene fica no norte da África. Mas alguma vez você ouviu em prédica ou sermão, na catequese, na escola dominical ou no ensino confirmatório, que um africano ajudou Jesus a carregar a cruz? Estudiosos dirão que se trata de um judeu da diáspora, visto que no norte da África havia várias colônias judaicas. Mas com que argumentos ou intenções fazem esta escolha na interpretação?

Por contrariar os interesses da corte de Jerusalém, pouco antes da destruição da cidade pelas tropas babilônicas, o profeta Jeremias foi preso e lançado numa cisterna. Um africano, funcionário do rei (seu nome, Ebed-Melec, significa "ministro do rei"), liderou um movimento para libertar Jeremias (Jr 38,1-13). Quantas vezes você se lembra de ter estudado este texto, dando atenção a este "detalhe"?

Moisés, conta-nos Nm 12, casou-se com uma africana, da região de Cush – Etiópia. Na verdade, quase toda a história do êxodo se passa na África. Uma simples leitura do Canto de Miriã (Ex 15,19-21), com certeza um dos textos mais antigos de toda a Bíblia, nos permite notar a proximidade da cena com a rica cultura dos povos negros: canto e dança ao redor dos tambores. Você já parou para pensar nisso?

O missionário Filipe, ao "aceitar a carona" na carruagem do negro e alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, tem uma grata surpresa: o africano já tem em suas mãos o livro do profeta Isaías (At 8,26-40). E há quem continue afirmando que foram os europeus que levaram a Bíblia para a África!

Pois bem, os exemplos acima são suficientes para nos provocar ao desafio: olhar a Bíblia na perspectiva da negritude!

Em primeiro lugar, porque seguimos acreditando que o Deus da Bíblia faz opção pelas pessoas e pelos grupos mais marginalizados. Em nossa sociedade, as mulheres, as pessoas negras e indígenas continuam sendo as maiores vítimas da gritante exclusão social. Com elas aprendemos a resistir. Em segundo lugar, porque queremos e podemos descobrir as raízes negras do povo hebreu e de toda a Bíblia. De fato, antes de ser europeia, a Bíblia é afro-asiática. Não negamos a contribuição europeia ao nosso continente, queremos seguir trocando saberes com o chamado "Velho Continente". Mas denunciamos o cristianismo branco e opressor, com teologias que chegaram ao absurdo de justificar a escravidão negra (feita pelos brancos) e que continuam, muitas vezes, negando nossas raízes.

Que aceitemos o desafio de mergulharmos na Bíblia e na vida com nosso olhar afrodescendente. Afinal, por muitos séculos, fizemos isso apenas com o olhar europeu. Erramos e acertamos, agora vemos que é preciso mais. Ou manteremos a opção, muito mais cômoda e bem menos questionadora para nossa sociedade preconceituosa e racista, de continuar enxergando apenas um Jesus loiro, de olhos azuis e cabelos cacheados?

Protestantismo, escravidão e os negros no Brasil.

A Casa da Cultura da América Latina, em Brasília/DF foi palco para o lançamento do livro “Protestantismo, Escravidão e os Negros no Brasil” que contou com noite de autógrafos, emoção, música e muitas histórias. Para o autor, pastor metodista e professor da Faculdade Evangélica de Brasília, Roberto Loiola, a publicação aconteceu em data importante para o segmento evangélico mundial, pois coincidiu com o aniversário de 496 anos da Reforma Protestante, liderada feita pelo monge Martinho Lutero.

 

Loiola lembrou a data histórica e mencionou que ainda hoje é preciso reformar e reafirmar a fé nas cinco ideias básicas defendidas por Lutero: sola fide (somente a fé), sola scriptura (somente a Escritura), solus Christus (somente Cristo), sola gratia (somente a graça) e soli Deo gloria (glória somente a Deus).

 

Realmente uma ótima coincidência de datas. A reforma iniciada na Alemanha marcou nova visão religiosa para as pessoas da época. Que o olhar sobre os negros protestantes brasileiros também traga novos tempos de inclusão, comunhão e liberdade para se professar a fé em Cristo com respeito e consideração a todos, sejam brancos, negros, amarelos.

 

Henrique Dias, o primeiro afro-brasileiro letrado.

Henrique Dias é uma figura controvertida. Mas isso não lhe tira o pioneirismo que, talvez, se estenda ao fato de ele ser o único negro a aparecer em uma das edições do primeiro Manual de História do Brasil, escrito por Abreu Lima, em 1843, ao lado dos dois imperadores do Brasil, do patriarca da Independência e do índio Felipe Camarão.

Henrique Dias: negro forro, capitão-do-mato, “governador dos crioulos, negros e mulatos”, mestre de campo, guerrilheiro que se destacou com o seu batalhão de negros descalços no século XVII, considerado um dos fundadores das Forças Armadas, herói da guerra contra os holandeses nas Batalhas dos Guararapes.  

Sua data e local de nascimento são desconhecidas. Imagine-se que sua terra natal seja a capital de Pernambuco, Recife. Em sua vitoriosa história de batalhas, oito ferimentos em combate ao longo de 24 anos.

Pela sua vida de bravura, dedicação, coragem e liderança, Henrique Dias foi escolhido, no ano de 1992, patrono do então 28º Batalhão de Infantaria Blindada (28º BIB), atualmente, 28º Batalhão de Infantaria Leve (28º BIL) localizado em Campinas, no interior de São Paulo.

A  Lei nº 12.701, de 6 de agosto de 2012, reconhecendo a importância de Henrique Dias na história do país, determinou que seu nome fosse inscrito no Livro de Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria,  em Brasília.

A memória de Henrique Dias eternizara-se: seu nome fora adotado pelos batalhões de Pretos que surgiram em várias capitanias após sua morte.

Informação histórica: naquele tempo, eram chamados de “crioulos” os negros nascidos em território nacional; de “pretos”, os negros nascidos no continente africano, e de “mulatos” ou “pardos”, os miscigenados nascidos no Brasil. Quer dizer, desde sempre a utilização da estratégia de controle via discriminação.

Resumindo a história: Dias morreu na pobreza, no Recife, em 1662, e seus comandados continuaram escravos até o final do século XIX.

Edméia Williams - Uma admirável mulher de Deus

Edméia Williams é uma missionária brasileira, conferencista de renome internacional, que volta ao MIR, depois de alguns anos, exclusivamente para participar, como preletora, da sexta edição do Congresso de Mulheres. A ministração dela é sempre um momento muito aguardado e especial. Quem a ouve tem a certeza de que será edificado pelas palavras que saem da boca dessa mulher inteligentíssima e, ao mesmo tempo, humilde que tem sido um instrumento de Deus na Terra e que carrega um testemunho de vida inspirador, cheio de lutas, superações, coragem e fé. 

Edméia não se constrange em dizer que é fruto de um adultério. O pai dela, um imigrante negro que veio da Guiana Inglesa, teve um relacionamento extraconjugal coma sua mãe, uma portuguesa branca, da cidade de Santarém, no Estado do Pará, cidade natal da Missionária.

A infância foi conturbada e ela se transformou em uma criança vaidosa, soberba, do tipo que queria ser melhor que todo mundo. Mas, no fundo, esse comportamento escondia uma menina com a alma amargurada, atormentada pela ideia de que era uma filha bastarda e fruto do pecado.

Mas, ao contrário do que muitos poderiam esperar, Edméia encontrou apoio e amor em sua madrasta, uma mulher santa, enviada por Deus eque serviu de exemplo para ela.

De Santarém, ela se mudou para Salvador, onde teve muitas oportunidades de estudar. Aprendeu francês, inglês, latim. Mais tarde, formou-se em Pedagogia, Filosofia, Psicologia e Música. Também casou, teve uma filha e um filho foi morar no Rio de Janeiro e depois no Iraque. Mas, duas tragédias mudaram a trajetória de vida dela. 

Edméia morou no Iraque onde conviveu com uma menina que pastoreava um rebanho e que um dia estava triste porque um de seus cordeiros estava com a pata quebrada. Nessa hora, Edméia conta que ouviu uma voz que dizia: “Eu também sou teu pastor, também sofro a tua perna quebrada, me deixa curar a tua dor”. Ela, então, orou a Deus e disse: “Senhor, se eu ainda sirvo para alguma coisa, me leva de volta pro Brasil”. Ela sabia que tinha um chamado missionário, mas tinha largado Deus há muito tempo e vivia longe da Igreja. Ela se achava a mais inteligente, a mais quietinha mais títulos, quando, na verdade, estava à beira de uma depressão. Edméia voltou pro Brasil e diz que a partir daí se deu a sua verdadeira conversão. “Eu só conhecia o Salmo 23, do bom pastor, e passei a conhecer o pastor de que o Salmo fala”.

Ainda na juventude,Edméia perdeu a  filha e também o esposo, que morreu de forma repentina, vítima de um ataque cardíaco. Quando soube da notícia, ela estava em Cingapura. Depois do choque, ela conta que voltou para o Brasil sabendo exatamente como e o que tinha que fazer. Foi quando decidiu fazer um voto com Deus de que nunca mais se casaria, pois queria entregar todos os seus dias para o Reino. “Tirei o casamento da minha vida e até hoje estou muito feliz”, afirma. Desde, então, Edméia se dedica para a obra de Deus de forma integral. 

Em 1990, Edméia criou, no morro Dona Marta, na época uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, a Casa Marta e Maria.

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