OS NEGROS E OS SEUS DESCENDENTES...
4ª. Parte //Não Esgotamos o Assunto...
Dionê Leony Machado
Fevereiro de 2023
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A outra história de negros na Bíblia
Vivemos um momento em que o povo negro, vítima
histórica e secular de massacres, preconceitos e discriminação, buscam
assegurar os direitos conquistados na Constituição de 1998. Com muita
dificuldade, pequenos passos são dados para que tais direitos não fiquem no
papel.
Na contramão, as elites se esforçam para
deslegitimar nossas lutas e rasgar artigo por artigo das conquistas da chamada
Constituição Cidadã.
O que a Bíblia nos diz a respeito do povo negro?
Os evangelhos sinóticos são unânimes em afirmar que
certo Simão de Cirene ajudou Jesus a carregar a cruz, a caminho do Calvário (Mt
27,32; Mc 15,21; Lc 23,26). Ora, Cirene fica no norte da África. Mas alguma vez
você ouviu em prédica ou sermão, na catequese, na escola dominical ou no ensino
confirmatório, que um africano ajudou Jesus a carregar a cruz? Estudiosos dirão
que se trata de um judeu da diáspora, visto que no norte da África havia várias
colônias judaicas. Mas com que argumentos ou intenções fazem esta escolha na
interpretação?
Por contrariar os interesses da corte de Jerusalém,
pouco antes da destruição da cidade pelas tropas babilônicas, o profeta
Jeremias foi preso e lançado numa cisterna. Um africano, funcionário do rei
(seu nome, Ebed-Melec, significa "ministro do rei"), liderou um
movimento para libertar Jeremias (Jr 38,1-13). Quantas vezes você se lembra de
ter estudado este texto, dando atenção a este "detalhe"?
Moisés, conta-nos Nm 12, casou-se com uma africana,
da região de Cush – Etiópia. Na verdade, quase toda a história do êxodo se passa
na África. Uma simples leitura do Canto de Miriã (Ex 15,19-21), com certeza um
dos textos mais antigos de toda a Bíblia, nos permite notar a proximidade da
cena com a rica cultura dos povos negros: canto e dança ao redor dos tambores.
Você já parou para pensar nisso?
O missionário Filipe, ao "aceitar a
carona" na carruagem do negro e alto funcionário de Candace, rainha da
Etiópia, tem uma grata surpresa: o africano já tem em suas mãos o livro do
profeta Isaías (At 8,26-40). E há quem continue afirmando que foram os europeus
que levaram a Bíblia para a África!
Pois bem, os exemplos acima são suficientes para
nos provocar ao desafio: olhar a Bíblia na perspectiva da negritude!
Em primeiro lugar, porque seguimos acreditando que
o Deus da Bíblia faz opção pelas pessoas e pelos grupos mais marginalizados. Em
nossa sociedade, as mulheres, as pessoas negras e indígenas continuam sendo as
maiores vítimas da gritante exclusão social. Com elas aprendemos a resistir. Em
segundo lugar, porque queremos e podemos descobrir as raízes negras do povo
hebreu e de toda a Bíblia. De fato, antes de ser europeia, a Bíblia é
afro-asiática. Não negamos a contribuição europeia ao nosso continente,
queremos seguir trocando saberes com o chamado "Velho Continente".
Mas denunciamos o cristianismo branco e opressor, com teologias que chegaram ao
absurdo de justificar a escravidão negra (feita pelos brancos) e que continuam,
muitas vezes, negando nossas raízes.
Que aceitemos o desafio de mergulharmos na Bíblia e
na vida com nosso olhar afrodescendente. Afinal, por muitos séculos, fizemos
isso apenas com o olhar europeu. Erramos e acertamos, agora vemos que é preciso
mais. Ou manteremos a opção, muito mais cômoda e bem menos questionadora para
nossa sociedade preconceituosa e racista, de continuar enxergando apenas um
Jesus loiro, de olhos azuis e cabelos cacheados?
Protestantismo, escravidão
e os negros no Brasil.
A Casa da Cultura da América Latina, em Brasília/DF
foi palco para o lançamento do livro “Protestantismo, Escravidão e os Negros no
Brasil” que contou com noite de autógrafos, emoção, música e muitas histórias.
Para o autor, pastor metodista e professor da Faculdade Evangélica de Brasília,
Roberto Loiola, a publicação aconteceu em data importante para o segmento
evangélico mundial, pois coincidiu com o aniversário de 496 anos da Reforma
Protestante, liderada feita pelo monge Martinho Lutero.
Loiola lembrou a data histórica e mencionou que
ainda hoje é preciso reformar e reafirmar a fé nas cinco ideias básicas
defendidas por Lutero: sola fide (somente a fé), sola scriptura (somente a
Escritura), solus Christus (somente Cristo), sola gratia (somente a graça) e
soli Deo gloria (glória somente a Deus).
Realmente uma ótima coincidência de datas. A
reforma iniciada na Alemanha marcou nova visão religiosa para as pessoas da
época. Que o olhar sobre os negros protestantes brasileiros também traga novos
tempos de inclusão, comunhão e liberdade para se professar a fé em Cristo com
respeito e consideração a todos, sejam brancos, negros, amarelos.
Henrique Dias, o primeiro afro-brasileiro letrado.
Henrique Dias é uma figura controvertida. Mas isso
não lhe tira o pioneirismo que, talvez, se estenda ao fato de ele ser o
único negro a aparecer em uma das edições do primeiro Manual de História do
Brasil, escrito por Abreu Lima, em 1843, ao lado dos dois imperadores do
Brasil, do patriarca da Independência e do índio Felipe Camarão.
Henrique Dias: negro forro, capitão-do-mato,
“governador dos crioulos, negros e mulatos”, mestre de campo, guerrilheiro
que se destacou com o seu batalhão de negros descalços no século XVII,
considerado um dos fundadores das Forças Armadas, herói da guerra contra os
holandeses nas Batalhas dos Guararapes.
Sua data e local de nascimento são desconhecidas.
Imagine-se que sua terra natal seja a capital de Pernambuco, Recife. Em sua
vitoriosa história de batalhas, oito ferimentos em combate ao longo de 24 anos.
Pela sua vida de bravura, dedicação, coragem e
liderança, Henrique Dias foi escolhido, no ano de 1992, patrono do então 28º
Batalhão de Infantaria Blindada (28º BIB), atualmente, 28º Batalhão de
Infantaria Leve (28º BIL) localizado em Campinas, no interior de São Paulo.
A Lei nº 12.701, de 6 de agosto de 2012,
reconhecendo a importância de Henrique Dias na história do país, determinou que
seu nome fosse inscrito no Livro de Heróis da Pátria,
depositado no Panteão da Pátria, em Brasília.
A memória de Henrique Dias eternizara-se: seu nome
fora adotado pelos batalhões de Pretos que surgiram em várias capitanias
após sua morte.
Informação histórica: naquele tempo, eram chamados
de “crioulos” os negros nascidos em território nacional; de “pretos”, os negros
nascidos no continente africano, e de “mulatos” ou “pardos”, os miscigenados
nascidos no Brasil. Quer dizer, desde sempre a utilização da estratégia de
controle via discriminação.
Resumindo a história: Dias morreu na pobreza,
no Recife, em 1662, e seus comandados continuaram escravos até o final
do século XIX.
Edméia Williams - Uma
admirável mulher de Deus
Edméia Williams é uma missionária
brasileira, conferencista de renome internacional, que volta ao MIR, depois de
alguns anos, exclusivamente para participar, como preletora, da sexta edição do
Congresso de Mulheres. A ministração dela é sempre um momento muito aguardado e
especial. Quem a ouve tem a certeza de que será edificado pelas palavras que
saem da boca dessa mulher inteligentíssima e, ao mesmo tempo, humilde que tem
sido um instrumento de Deus na Terra e que carrega um testemunho de vida
inspirador, cheio de lutas, superações, coragem e fé.
Edméia não se constrange em dizer
que é fruto de um adultério. O pai dela, um imigrante negro que veio da Guiana
Inglesa, teve um relacionamento extraconjugal coma sua mãe, uma portuguesa
branca, da cidade de Santarém, no Estado do Pará, cidade natal da Missionária.
A infância foi conturbada e ela
se transformou em uma criança vaidosa, soberba, do tipo que queria ser melhor
que todo mundo. Mas, no fundo, esse comportamento escondia uma menina com a
alma amargurada, atormentada pela ideia de que era uma filha bastarda e fruto
do pecado.
Mas, ao contrário do que muitos
poderiam esperar, Edméia encontrou apoio e amor em sua madrasta, uma mulher
santa, enviada por Deus eque serviu de exemplo para ela.
De Santarém, ela se mudou para
Salvador, onde teve muitas oportunidades de estudar. Aprendeu francês, inglês,
latim. Mais tarde, formou-se em Pedagogia, Filosofia, Psicologia e Música.
Também casou, teve uma filha e um filho foi morar no Rio de Janeiro e depois no
Iraque. Mas, duas tragédias mudaram a trajetória de vida dela.
Edméia morou no Iraque onde
conviveu com uma menina que pastoreava um rebanho e que um dia estava triste
porque um de seus cordeiros estava com a pata quebrada. Nessa hora, Edméia
conta que ouviu uma voz que dizia: “Eu também sou teu pastor, também sofro a
tua perna quebrada, me deixa curar a tua dor”. Ela, então, orou a Deus e disse:
“Senhor, se eu ainda sirvo para alguma coisa, me leva de volta pro Brasil”. Ela
sabia que tinha um chamado missionário, mas tinha largado Deus há muito tempo e
vivia longe da Igreja. Ela se achava a mais inteligente, a mais quietinha mais
títulos, quando, na verdade, estava à beira de uma depressão. Edméia voltou pro
Brasil e diz que a partir daí se deu a sua verdadeira conversão. “Eu só
conhecia o Salmo 23, do bom pastor, e passei a conhecer o pastor de que o Salmo
fala”.
Ainda na juventude,Edméia perdeu
a filha e também o esposo, que morreu de
forma repentina, vítima de um ataque cardíaco. Quando soube da notícia, ela
estava em Cingapura. Depois do choque, ela conta que voltou para o Brasil
sabendo exatamente como e o que tinha que fazer. Foi quando decidiu fazer um
voto com Deus de que nunca mais se casaria, pois queria entregar todos os seus dias
para o Reino. “Tirei o casamento da minha vida e até hoje estou muito feliz”,
afirma. Desde, então, Edméia se dedica para a obra de Deus de forma integral.
Em 1990, Edméia criou, no morro
Dona Marta, na época uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, a Casa
Marta e Maria.
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