A mesa do perdão
Quem foi recebido por Deus não pode permanecer eternamente
sob suspeita entre os irmãos
Por Christian Gillis
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus talvez seja
também a mais cotidiana: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos
perdoado os nossos devedores”. Nela a oração deixa de ser apenas súplica e
torna-se espelho. Pedimos a Deus aquilo que somos chamados a oferecer.
Recebemos perdão e, imediatamente, somos convocados a praticá-lo. Por isso, o
perdão não é um tema periférico da fé cristã. Ele está no centro da relação com
Deus, da obra de Cristo, da missão da igreja e da possibilidade de uma nova
vida em comunidade.
Uma das histórias mais marcantes de reconciliação entre
povos no Novo Testamento é a narrativa da conversão de Cornélio, um centurião
do Império Romano, e a entrada dos gentios na comunhão cristã (At 10–11). Mas,
olhando mais de perto, percebemos que algo ainda mais profundo está sendo
contado: Deus está ensinando sua igreja a reconhecer como irmãos aqueles que os
cristãos judeus ainda tratavam como estranhos. O perdão não aparece aqui apenas
como alívio da culpa individual. Ele aparece como uma força capaz de derrubar
fronteiras religiosas, curar distâncias históricas e criar uma mesa comum.
A história começa em Cesareia, com Cornélio. Ele é piedoso,
temente a Deus, generoso e perseverante em oração. Mas ainda precisa ouvir o
evangelho de Jesus. Deus envia um anjo e manda que Cornélio chame Pedro, que
está em Jope (atual Jafa). Enquanto isso, Pedro também ora. E, em oração,
recebe uma visão desconcertante: um grande lençol desce do céu com animais
considerados impuros segundo as leis de pureza dos judeus. A voz lhe diz:
“Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Pedro resiste: “De modo nenhum, Senhor”. A
resposta divina é a chave da narrativa: “Ao que Deus purificou não chames
impuro”.
Pedro ainda está tentando entender o significado da visão
quando os mensageiros de Cornélio chegam. O Espírito lhe ordena que vá com eles
sem hesitar. Então, o apóstolo atravessa uma fronteira que sua formação
religiosa evitava: entrar na casa de um gentio. Antes de pregar com os lábios,
Pedro já comunica algo com os pés formosos dos que anunciam boas novas. Ele
cruza o portão e a soleira da casa. Aceita estar onde não estaria. E ali
compreende o sentido da visão: “Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse
comum ou impuro”.
Essa frase é decisiva para uma teologia do perdão. Porque,
quando Deus perdoa, ele não apenas cancela uma dívida: ele restaura a
dignidade. Quem foi recebido por Deus não pode permanecer eternamente sob
suspeita entre os irmãos. Quem foi purificado por Deus não pode continuar sendo
tratado como impuro pela igreja. O perdão divino não é uma absolvição privada
que deixa intactas as barreiras sociais. Ele cria uma nova relação com Deus e,
inevitavelmente, uma nova relação com o próximo.
Pedro, então, anuncia o evangelho: Jesus é o Senhor de
todos; foi ungido por Deus; andou fazendo o bem em toda parte e libertando os
oprimidos; foi morto no madeiro; Deus o ressuscitou; ele é juiz dos vivos e dos
mortos; e “todo o que nele crê recebe remissão dos pecados por meio do seu
nome”. No coração do primeiro sermão pregado oficialmente numa casa gentílica
está a remissão dos pecados. A porta se abre não porque Cornélio é romano
respeitável, religioso sincero ou homem moralmente admirável, mas porque Jesus
é Senhor de todos e oferece perdão a todos os que creem.
Então acontece o inesperado: enquanto Pedro ainda fala, o
Espírito Santo desce sobre os gentios. A igreja ainda não havia deliberado em
assembleia. Jerusalém ainda não havia votado a aceitação dos gentios. Pedro
ainda não havia terminado o sermão. Mas Deus já havia concedido a dádiva do
perdão e o dom do Espírito. Os gentios, assim como em Pentecostes (At 2), falam
em línguas e engrandecem a Deus. Pedro entende: se Deus lhes deu o Espírito, quem
poderia negar-lhes a água do batismo?
A missão vira comunhão. A pregação vira mesa. O estranho se
torna irmão.
Mas a história não termina em Cesareia. Quando Pedro chega a
Jerusalém, algum tempo depois, é questionado: “Entraste em casa de homens
incircuncisos e comeste com eles”. A crítica não é apenas à pregação; é à mesa.
A pergunta escondida é: “Eles podem ser perdoados por Deus, mas precisam mesmo comer
conosco?”. Essa tensão permanece atual. Muitas famílias, igrejas e comunidades
aceitam a ideia abstrata do perdão, mas resistem à sua consequência concreta:
reabrir conversas, reconstruir vínculos, desarmar caricaturas, escutar o outro
sem reduzi-lo ao pior momento de sua história.
Quem são nossos “devedores” hoje? Podem ser irmãos de sangue
separados por disputas, ressentimentos antigos ou diferenças políticas. Podem
ser membros da igreja que feriram e foram feridos. Podem ser grupos que
aprendemos a temer, a desprezar ou a transformar em categoria impura. Podem ser
pessoas que admitimos como alvo de evangelização, mas não como companhia de
mesa. O perdão cristão não ignora justiça, verdade e responsabilidade; mas
também não permite que a dívida se torne a identidade final do outro.
Pedro responde às críticas contando a história com a
expectativa que a igreja em Jerusalém se converta de sua compreensão judaizante
restrita para uma nova mentalidade permeada pela graça do evangelho com todas
as implicações de acolhimento social demonstradas por Jesus.
Ele, então, narra a visão, a ordem do Espírito, a descida do
dom sobre os gentios e conclui: “Ǫuem era eu para que pudesse resistir a
Deus?”. Essa talvez seja uma das perguntas mais necessárias para a igreja em
tempos de polarização, famílias partidas e comunidades cansadas de conflito.
Quem somos nós para resistir ao perdão que Deus oferece a todos? Quem somos nós
para chamar comum ou impuro aquilo que Deus purificou? Quem somos nós para
manter longe da mesa aqueles que Cristo aproximou pela cruz?
Ao ouvir Pedro, a igreja se cala, reflete. Depois glorifica
a Deus: “Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para
vida”. O perdão termina em adoração. Não porque tudo ficou simples, mas porque
Deus foi reconhecido como o autor de uma graça maior que as fronteiras humanas.
Atos 10–11 nos ensina que o perdão não é apenas uma doutrina
para aliviar consciências culpadas. É uma prática missionária, comunitária e
profundamente pública. Deus perdoa para formar um povo reconciliado. E toda vez
que oramos “perdoa-nos como nós perdoamos”, colocamos nossa mesa, nossa memória
e nossos relacionamentos diante do Deus que, em Cristo, transformou devedores
em filhos e estranhos em irmãos.
Christian Gillis é pastor na Igreja Batista da Redenção em
Belo Horizonte, MG
Artigo publicado originalmente na edição 420 de Ultimato.
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