quinta-feira, 13 de agosto de 2026

POESIA

 

PÁSSARO  CATIVO

Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão

E, em breve, uma avezinha descuidada,

Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,

Gaiola dourada;

 

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar

O passarinho mudo,

Arrepiado e triste sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.

 

Só gorjeando a sua dor exalam,

Sem que os homens os possam entender;

Se os pássaros falassem,

Talvez os teus ouvidos escutassem

Este cativo pássaro dizer:

 

"Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro

Na mata livre em que voar me viste;

Tenho água fresca num recanto escuro

 

Da selva em que nasci;

Da mata entre os verdores,

Tenho frutos e flores

Sem precisar de ti!

 

Não quero a tua esplêndida gaiola!

Pois nenhuma riqueza me consola,

De haver perdido aquilo que perdi...

Prefiro o ninho humilde construído

 

De folhas secas, plácido, escondido.

Solta-me ao vento e ao sol!

Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pombas do arrebol!

Quero, ao cair da tarde,

Entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me, covarde!

Deus me deu por gaiola a imensidade!

Não me roubes a minha liberdade...

Quero voar! Voar!

 

Estas cousas o pássaro diria,

Se pudesse falar,

E a tua alma, criança, tremeria,

Vendo tanta aflição,

E a tua mão tremendo lhe abriria

A porta da prisão...

 

 

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