Abismos sociais e o evangelho
Pessoas não escolhem nascer onde a água é insalubre, não
optam por ser vítimas do fogo cruzado, tampouco decidem receber uma educação
deficitária
Por Gabrielly C. Cardoso
“Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste
mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os
ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu
lado.” (Eclesiastes 4.1, NTLH)
É impossível ser um cidadão consciente e não se deparar com
os abismos da desigualdade social no Brasil e no mundo. Embora a ética do
esforço individual tenha algum lugar, a realidade expõe o que o sociólogo Johan
Galtung chamou de "violência estrutural": um sistema onde as próprias
engrenagens da sociedade oprimem os mais vulneráveis. Essa opressão invisível
fica evidente justamente na falta de direitos fundamentais. Afinal, as pessoas
não escolhem nascer onde a água é insalubre, não optam por ser vítimas do fogo
cruzado, tampouco decidem receber uma educação deficitária. Como aponta o
filósofo Michael Sandel em sua crítica à "tirania do mérito", a
crença de que o sucesso financeiro é apenas fruto do esforço pessoal ignora
cruelmente o abismo de oportunidades que nos separa. Diante desse cenário, a
comparação entre os que têm mais e os que têm menos torna-se inevitável. Esse
contraste frequentemente nos incomoda, pois nos obriga a avaliar a nossa
própria posição; afinal, mesmo que julguemos não possuir tanto, é muito
provável que tenhamos bem mais do que vários outros.
Mas, afinal, o que a Igreja de Cristo tem a ver com isso?
Este texto é um convite para reconhecermos que o combate à desigualdade não é
uma invenção de ONGs, fóruns econômicos ou pautas políticas contemporâneas; é,
antes de tudo, uma exigência Bíblia. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento
são enfáticos ao denunciar a assimetria de poder e a desigualdade. O teólogo
Walter Brueggemann nos lembra que os profetas bíblicos exerciam uma
"imaginação profética": eles não apenas criticavam o status quo, mas
desmantelavam as estruturas de opressão do seu tempo. Miquéias delatou o
suborno e a exploração promovida pelos líderes (Mq 3.9-12); Elias confrontou o
abuso de poder do Estado na figura do rei Acabe em relação aos pobres (1Rs 21);
e Malaquias defendeu publicamente mulheres vulneráveis e abandonadas (Ml
2.13-16). Através da legislação mosaica – que criava redes de proteção
sistêmicas para viúvas, órfãos e estrangeiros – e do grito desses homens, Deus
se revela como um juiz solidário aos marginalizados.
Os ensinamentos de Jesus não apenas reafirmam, mas
radicalizam esse compromisso. Na contramão da apatia moderna, Cristo inaugura
um Reino materializado em amor e justiça. Em seu discurso inaugural, Ele
declara: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar
boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e
recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos; e proclamar o ano
da graça do Senhor” (Lc 4.18-19). Ser imitador de Cristo exige que abandonemos
o nosso conforto para nos sujarmos nas feridas do mundo, assim como o fez o Bom
Samaritano (Lc 10.25-37), que cruzou barreiras étnicas e econômicas para
socorrer um desconhecido. É essa mesma ética que levou a igreja primitiva a
subverter a lógica do individualismo, repartindo seus bens para que não
houvesse necessitados entre eles (At 4.34).
A desigualdade socioeconômica não é a vontade soberana de
Deus, tampouco um fenômeno natural; ela é o sintoma amargo do pecado
estrutural, da exploração e da corrupção (Pv 30.14-15; Am 5.12; Sl 12.5).
Acomodar-se a esse cenário é trair o Evangelho. Como cristãos, somos agentes do
Shalom. O teólogo Cornelius Plantinga define o Shalom bíblico como "o
entrelaçamento de Deus, dos seres humanos e de toda a criação em justiça e
deleite". Onde há miséria e opressão, o Shalom foi quebrado.
É central na vida do cristão o entendimento de que fomos
convocados a participar do amor e da justiça de Deus. Nossa herança e vocação
apontam para a restauração do ser humano em sua totalidade. Como sintetizou
Timothy Keller: “Deus ama e defende quem tem menos poder econômico e social, e
devemos agir da mesma forma. É esse o significado de ‘fazer justiça’.” Essa é a
missão integral para a qual fomos chamados: resgatar os perdidos, agir no mundo
como filhos de Deus e participar do seu Reino de amor e justiça. Que a nossa
inconformidade com os abismos sociais se transforme em ação prática de justiça,
equidade e erradicação da pobreza, ecoando o antigo e inegociável mandato
divino:
“Ó povo, o SENHOR já lhe declarou o que é bom e o que ele
requer de você: que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente
com seu Deus.” (Miqueias 6.8 – NVT).
Gabrielly C. Cardoso é socióloga e mestranda em Ciências
Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no
Núcleo de Estudos sobre Política Local e membra da Quarta Igreja Presbiteriana
de Juiz de Fora.
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