NOSSOS ANCESTRAIS
Dionê Leony Machado
9ª. Parte
Abril de 2023
NOSSOS ANCESTRAIS:
BANTUS grupo mais numeroso, dividiam-se em dois subgrupos:
angola-congoleses e moçambiques. A origem desse grupo estava ligada ao que hoje
representa Angola, Zaire e Moçambique (correspondestes ao centro-sul do
continente africano) e tinha como destino Maranhão, Pará, Pernambuco, Alagoas,
Rio de Janeiro e São Paulo.
IORUBAS OU NAGÔS -SUDANESES dividiam-se em três subgrupos:
iorubas, jejes e fanti-ashantis, trazidos do sudoeste do continente africano do
que hoje é representado pela Nigéria, Daomei e Costa do Ouro e seu destino
geralmente era a Bahia.
Os IORUBÁS são o principal grupo étnico nos estados de
Ekiti, Kwara, Lagos, Ogun, Ongo, Osun, e Oyo. Um número considerável de iorubas
vive na República do Benin,
Os JEJES são um povo africano que habita o Togo, Gana, Benim
e regiões vizinhas, representado, no contingente de escravos trazidos para o
Brasil, pelos povos denominados fon, éwé, mina, fanti e ashanti.
Os GUINEANOS-SUDANESES MUÇULMANOS dividiam-se em quatro
subgrupos: fula, mandinga, haussas e tapas. Esse grupo tinha a mesma origem e
destino dos sudaneses, a diferença estava no fato de serem convertidos ao
islamismo.
FON – a maior expressão histórica, política e social do povo
se expressou no Benin através do Reino do Dahomey e na Diáspora africana
através do vodun.
Todos esses, falando línguas diferentes e cultuando seus
próprios deuses.
Tráfico Negreiro
O tráfico negreiro ocorrido do século XVI até sua supressão,
na década de 1880, levou mais de onze milhões de africanos para uma vida de
servidão e opressão no Novo Mundo.
A superexploração dessa “mão de obra”, aliada à má
alimentação e aos rigores dos castigos corporais, reduzia em muito a expectativa
de “vida útil” dos escravos, em média 10 anos.
O tráfico de Escravos
O tráfico negreiro na costa africana se dava de várias
maneiras: poderiam ser adquiridos de mercadores muçulmanos ou diretamente de
chefes africanos sempre dispostos a vender seus cativos e, até mesmo, seus
súditos.
Os portugueses também se valiam das desavenças entre grupos
tribais, normalmente terminadas em lutas e, consequentemente, escravos, além da
corrupção dos pais, que não hesitavam em vender seus próprios filhos.
Nas trocas para a aquisição de escravos (escambo), usava-se
como forma de pagamento desde a aguardente, tabaco e armas, até miçangas,
quinquilharias e outras bugigangas.
Ao chegar à costa, os escravos eram geralmente conduzidos
para os cercados ao ar livre, conhecidos como barracões. Antes de colocá-los à
venda, seus captores tentavam fazê-los tão jovens e saudáveis quanto possível,
e eles eram examinados completamente nus pelos compradores. Resolvido o preço,
eram marcados nas nádegas, no seio ou no ombro, com o sinal de seu novo dono, e
levados em canoas para o navio.
Uma vez a bordo, no navio, os cativos eram enfiados nus e
trêmulos, nos porões, para o início de uma viagem que, dependendo das condições
do tempo, podia durar até três meses. Os escravos, acorrentados aos pares, eram
colocados em prateleiras, segundo um traficante inglês, “como livros numa
estante”.
Nas viagens, a bordo dos navios negreiros (tumbeiros).
Perdiam-se aproximadamente 40% do total de “peças” embarcadas. Em alguns casos,
chegavam a mais de 60%.
Já na América, o negro era submetido à violência da
escravidão capitalista, sem precedente na História da Humanidade, uma vez que,
nesta, o trabalhador era simplesmente um objeto, uma peça (coisa ou res), ao
contrário do escravismo praticado na Antiguidade.
A carga humana era vendida na América, onde também compravam
açúcar, tabaco e algodão, que levavam de volta para a Europa.
De Onde Vinham os Escravos?
Os senhores brancos do Brasil colonial não tinham noção da
origem dos seus escravos; muito menos, das diferenças culturais existentes
entre eles. Expressões, como Nagô, Mina, Angola ou Moçambique eram meras
referências geográficas do continente africano. Para eles, não havia diversos
grupos negros, mas apenas o negro escravo. Contudo, eles vinham de áreas diferentes
e pertenciam a grupos culturais diferentes.
Grosso modo, os escravos africanos que vieram para o Brasil
correspondiam a três grupos distintos:
• Sudaneses – representados pelos povos Yoruba, da Nigéria,
destacando-se entre eles os Nagôs e os Eubá, entre outros; pelos Daomenanos –
Gêges e Efan e outros; pelos Fanti e Ashanti, da Costa do Ouro – os Minas, e
por grupos menores da Serra Leoa, da Libéria, da Costa da Malagueta e da Costa
do Marfim.
• Bantus – representados pelos povos Angola-Congolês, das
regiões de Angola e do Congo e povos da Contra-Costa, de Moçambique.
Destacam-se entre estes, os Angicos, Angolas, Caçanjes e Bengalas, entre
outros.
• Guineano-Sudaneses – povos africanos islamizados do Norte
da Nigéria e do Sudão Oriental, genericamente denominados Malês, mas que se
subdividiam em Fulas, Haussás, Mandingas e outros grupos menores.
5- Jihad à brasileira?
Unidos pela religião islâmica, africanos cativos na cidade
de Salvador lideraram uma das principais rebeliões contra a escravidão no
Brasil.
(Ilustração: Dw Ribatski)
O cheiro de pólvora dominava Salvador nas primeiras horas do
dia 25 de janeiro de 1835. Pelas ruas da capital da Bahia, soldados foram
surpreendidos pelo fogo cerrado de uma rebelião organizada por 600 africanos, a
maior parte deles escravos.
Depois de algumas horas de batalha, os rebeldes foram
massacrados em frente ao quartel da cavalaria da cidade. Chegava ao fim uma das
principais revoltas de escravos da história da América Latina. Não por acaso, a
data marcava os últimos dias do Ramadã, o mês sagrado da religião islâmica:
amuletos muçulmanos e escritos com rezas e passagens do Alcorão foram
encontrados entre os corpos dos insurgentes. As autoridades não tiveram dúvidas
de que os malês — nome dado aos muçulmanos que sabiam ler e escrever em língua
árabe — eram os líderes da rebelião.
Após quase dois séculos da Revolta dos Malês, historiadores
debatem o papel da religião islâmica na organização do episódio. Apesar de
alguns pesquisadores considerarem que o conflito de 1835 não foi propriamente
uma jihad — ação guerreira de um Estado organizado de acordo com as leis
islâmicas —, é certo que a religião foi o principal fator para o estopim do
conflito. Um dos maiores especialistas no assunto, o historiador João José Reis
afirma que, caso a rebelião ganhasse corpo e se tornasse vitoriosa, é provável
que um governo liderado por muçulmanos de fato tomasse a frente do território
baiano. A hipótese é especialmente plausível porque aproximadamente 20% dos
africanos que viviam em Salvador na época eram seguidores do islã — 40% dos quase 65,5 mil habitantes da cidade
eram escravos.
Em 1835, a cidade de Salvador tinha uma população de 65,5
mil pessoas, das quais quase 40% viviam como escravas — e boa parte pertencia à
religião islâmica (Ilustração: Dw Ribatski)
UNIÃO POR ALÁ
Enquanto nações europeias desenvolviam máquinas a vapor e
colocavam de pé as primeiras indústrias do planeta, o Brasil ainda utilizava
majoritariamente a mão de obra de escravos africanos nas suas atividades
econômicas — o país foi um dos últimos do mundo a abolir a escravidão, em 1888.
Como estratégia para evitar revoltas, os homens e mulheres capturados no
interior da África eram levados para os navios com pessoas de diferentes
etnias, o que supostamente dificultava a comunicação. Os captores, no entanto,
não levaram em conta o poder agregador da religião: como um dos fundamentos do
islã é a leitura do Alcorão, a maioria dos muçulmanos era alfabetizada, o que
facilitou a interação entre aqueles que chegavam juntos à cidade de Salvador.
Apesar de ser a rebelião mais conhecida do período, a
Revolta dos Malês não foi o único episódio em que escravos muçulmanos se
levantaram contra seus captores. Entre 1807 e 1821, ocorreu na Bahia uma série
de revoltas lideradas pelos haussás, etnia que vivia na porção norte do
território que atualmente compreende a Nigéria. Em uma rebelião de 1814, os
sublevados — alguns montados a cavalo — enfrentaram as armas de fogo das tropas
do governo com flechas, foices e machados. “Os revoltosos da Bahia tentaram
adotar táticas semelhantes àquelas das guerras de sua terra natal”, afirma João
José Reis, que é professor de História da Universidade Federal da Bahia e autor
do livro Rebelião Escrava no Brasil — A História do Levante dos Malês de 1835.
De acordo com os pesquisadores, o fracasso desses levantes
não se deu apenas pelo uso de estratégias inadequadas para a realidade baiana
(os soldados brasileiros já usavam armas de fogo), mas também porque muitos
muçulmanos envolvidos nos conflitos não eram guerreiros treinados. “Os
prisioneiros de guerra vendidos como escravos para a Bahia foram vítimas dos
dois lados. Nem todos eram combatentes, e o mais provável é que a maioria — os
perdedores, no caso — não o fosse”, avalia Reis.
A existência de grupos fundamentalistas islâmicos, como o
Boko Haram, é reflexo do período em que a África foi invadida por nações
europeias (Ilustração: Dw Ribatski)
GUERRA TIPO EXPORTAÇÃO
Se a religião islâmica foi responsável por inspirar
rebeliões, a jihad tem relação direta com a captura dos homens e mulheres que
desembarcaram no Brasil como cativo. Entre 1804 e 1808, o líder religioso
islâmico Usman dan Fodio, da etnia fulani, iniciou uma guerra santa no
território que hoje é a Nigéria para “corrigir” as práticas dos membros da
etnia haussá: é que, apesar de serem fiéis à religião muçulmana desde o século
15, os haussás ainda conservavam alguns ritos de suas crenças ancestrais.
A guerra teve vitória esmagadora dos fulanis e resultou na
criação de um império conhecido como Califado de Sokoto. A partir dele, as
cidades-estados da região da Haussalândia foram unificadas e os reis,
substituídos por califas fiéis a dan Fodio. Com a jihad, os povos derrotados se
tornaram escravos dos vitoriosos, o que gerou um grande contingente de pessoas
vendidas aos mercadores e enviadas para o exterior. O principal destino desses
cativos era o Brasil.
Durante os séculos 19 e 20, a dominação imposta por países
da Europa ao território africano intensificou as tensões étnicas e religiosas
pelo continente. As potências europeias não levavam em conta as
particularidades das regiões conquistadas e com frequência reuniam antigos
inimigos em um mesmo país. Em parte, isso explica por que, após a Segunda
Guerra Mundial, o processo de independência das nações africanas foi
acompanhado de guerras e disputas internas de poder.
Hoje, apesar do desenvolvimento econômico em alguns países
do continente, a situação ainda não está completamente estabilizada. Em 2002, o
grupo Boko Haram foi fundado no norte da Nigéria e se inspira nos ideais do
califa Usman dan Fodio para combater a influência ocidental e implantar um
Estado muçulmano, que governaria de acordo com a interpretação fundamentalista
do Alcorão. “O estilo de jihad que tomou a região no início do século 19 não
tinha esse caráter de violência extrema e indiscriminada que se vê no Boko
Haram. Havia a guerra de conquista, mas também havia mais tolerância em relação
aos que abraçavam outras formas de religiosidade, como os adeptos do bori
[inspiração do candomblé]”, afirma João José Reis. A história mostra, afinal,
que a religião nem sempre é um instrumento para a libertação dos povos.
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Dionê Leony Machado
Salvador/Bahia/Brasil

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