Merda (do latim merda[1]) é um substantivo da língua
portuguesa moderna que em seu significado primário, indica fezes humanas ou
animais. É usado principalmente no contexto coloquial e é considerado um termo
vulgar.
Nas
línguas modernas não só em português, mas também em italiano, galego e catalão, é geralmente considerada um
palavrão e seu uso fora da linguagem coloquial é hoje depreciativo como
ofensivo, ou como uma expressão vulgar para expressar as ideias sobre as
diferentes situações que podem ser desconfortáveis ou negativas. É usado de
maneira vulgar para insultar uma pessoa ou um objeto.[2]
O termo
já era usado no século
I em sentido
figurativo pelo
poeta Marcial: "Sed nemo potuit
tangere: merda fuit" ("Mas ninguém pôde tocar: foi uma merda").[3]
Merda como boa sorte
No teatro antigo (e este uso estende-se
ainda nos dias de hoje), merda era utilizada na linguagem entre artistas de teatro para desejar boa-sorte antes da
entrada em cena.[4] A expressão nasceu da língua
francesa, merde,
provavelmente no século
XIX ou século XX, pelo fato de o público ter
acesso à casa teatral por meio de carruagens a cavalos que, muitas vezes, amontoavam
fezes em suas entradas; com ironia, a expressão correlacionava o
fato de haver "muita merda" na entrada do teatro ao desejo de se ter
também "muita sorte" em cena.[5]
Sinônimo de merda
38
sinônimos de merda para 5
sentidos da palavra merda:
Excremento:
Sujeira:
Coisa sem
qualidade e utilidade:
Pessoa
imprestável:
Má
condição financeira:
·
Merda não
é um palavrão. Na
verdade, é uma palavra clássica, do latim, que viajou intacta até nós desde a Roma
Antiga. Sempre
significou excremento: as sobras de nutrientes que o corpo não consegue
processar, diluídos em 75% de água. Não tem nada de feio na palavra, ela é
praticamente feita de mármore. Feio é o significado dela. Não gostamos de ouvir
a palavra “merda” pelo mesmo motivo que não gostamos de sentir o cheiro dela,
ou de avistar na calçada um encaracolado toroço marrom: a ideia nos causa
repulsa. Graças a essa repulsa estamos vivos. Se nossos ancestrais não se
incomodassem com cocô espalhado pela caverna, as bactérias teriam chacinado
todos eles. Mas, agora, esse velho hábito de negar a merda está matando o
Brasil. Merda não é ofensa, é uma realidade da vida. O papa Francisco caga, assim como Gisele
Bündchen. Lula e FHC cagam. Cago eu e – por
favor me perdoe a indiscrição – você também. Certeza. Cada humano dá à luz 55
quilos de malcheiroso barro por ano.
Por
sorte, nascemos num planeta que veio com sistema autolimpante. O nome desse
sistema é ciclo da água. Como se fosse uma gigantesca lava-louças esférica,
nossa atmosfera fica cheia d’água, que é esguichada para lá e para cá por jatos
de calor. Água gasosa, flutuando pelos céus, água sólida, escorregando de
geleiras e, principalmente, água líquida, rolando em rios e enchendo a imensa
piscina oceânica que dá cor à Terra. Água é uma tecnologia
incrível. Tem a
propriedade de dissolver as coisas: é o tal “solvente universal”. Por isso vai
carregando tudo enquanto a lava-louças funcionam. Graças a ela, os quase 400
milhões de toneladas de cocô que a humanidade produz ao ano não ficam
empilhados na frente da sua casa.
É não
falo só de fezes. Não são só as pessoas que excretam – as máquinas, as casas,
as fábricas, as cidades também soltam seus mal digeridos excedentes para a água
levar embora, solvente universal que é. É a merda industrial.
Nós no
Brasil somos
muito limpos e educados. Segundo pesquisa do Euro monitor que a SUPER publicou
mês passado, lideramos fácil o ranking mundial de banhos: tomamos
impressionantes 12 por semana, mais que o dobro de ingleses, japoneses e
franceses. E evitamos falar a palavra “merda” – que grosseria. Mas, enquanto
não falamos, tampouco lidamos com ela.
Veja o
caso de São Paulo, orgulhosa metrópole cosmopolita, que no entanto julgou ser
boa ideia erguer seu distrito empresarial às margens de um grande lago de
merda. Sim, lago de merda – é o que o Rio Pinheiros é. Deixou de ser um rio nos
anos 1990, quando parou de correr, para evitar que o cocô se espalhasse pelo
mundo (nem os moradores da Represa Billings nem as cidades do vale do Tietê
queriam lidar com o esgoto que escorria viscoso da megalópole). Hoje um
megaprojeto hidráulico mantém a água suja quase parada, movendo-a só um
tiquinho para cá, um tiquinho para lá, para reduzir o risco de enchente.
São Paulo
não é caso isolado. Quase todos os brasileiros, literalmente do Oiapoque ao
Chuí, estabeleceram uma relação doentia com as águas de sua cidade. As matas
que cercam as margens são arrancadas, o fundo se enche de areia, resíduos
industriais são despejados. Paramos de nadar nos rios, negando a nós mesmos um
dos maiores prazeres que a evolução nos legou, e paramos de navegá-los,
atravancando a economia. Pântanos e manguezais, os sistemas naturais de limpar
água, são destruídos. Em seguida vem o esgoto, muito esgoto – inclusive
provavelmente o seu (já que só um terço é tratado no Brasil). Aí, como não
gostamos de ver merda, a cidade vira as costas para seus rios – e tentamos
parar de pensar neles.
Isso é
grave. Ainda mais se lembrarmos de que o Brasil depende de água. Quer dizer,
todo mundo depende, mas o Brasil mais que os outros. Somos a maior potência
global em termos de água doce – uma a cada oito gotas do mundo pinga aqui. Por
causa disso, o Brasil vive de água. A Unesco estima que exportamos todos os
anos 112 trilhões de litros de água doce para o exterior – água que escoa para
fora do País embutida na carne, na soja, no alumínio, no café. São 3,5 milhões
de litros d’água exportados a cada segundo – para comparar: a população do
Brasil consome 2,4 milhões de litros por segundo.
Enfim,
para resumir: nosso sistema autolimpante está entupido de cocô e vazando a
cântaros. O resultado é fácil de perceber: o Brasil está imundo. É uma máquina
emperrada, que fica pingando uma nojenta água marrom. Não é de se estranhar que
as coisas aqui estejam cheirando tão mal.
O Brasil
está na merda, como
sabemos. A economia parou, o emprego evapora, a infraestrutura esfarela, as
cidades travaram, o custo de tudo alto demais, a crise hídrica ameaçando todos.
A política virou luta de vale-tudo, com grupos rivais que não concordam em nada
chafurdando na corrupção financiada pelas construtoras. Uma “crise de tudo” vai
nos devorando.
Pois
talvez haja resposta para cada um desses problemas onde menos se espera: na
merda. Se o País se engajasse de verdade num imenso projeto coletivo de limpar
a merda da água, veríamos os efeitos em todos os lados. É simples: basta usar o
nutriente, tirar a merda industrial e deixar a água fluir limpa, movendo tudo.
Teríamos que reflorestar as margens, refazer pântanos e manguezais, em todos os
leitos de todos os rios de todas as cidades.
Com isso,
nossa lava-louças funcionaria, o que aqueceria a economia e refrescaria o
clima. Nosso nó logístico desataria e as cidades destravariam, com rios fazendo
o trabalho de estradas e avenidas de maneira muito mais rápida, barata e
segura. A terra valorizaria, enriquecendo todos. Teríamos mais para beber e
mais para exportar. As crianças teriam onde nadar. Seria o tipo de projeto
capaz de dar agenda comum para correntes políticas rivais, ocupação a milhares
de brasileiros e uma obra útil para as construtoras realizarem em troca do dinheiro
que já tomam de nós.
Mas,
primeiro, precisamos ter coragem de falar sobre merda. E a palavra é essa
mesma. Não é cocô – termo infantil, indigno das possibilidades escondidas nele.
Não é fezes – palavra técnica, que soa como se nada tivesse a ver conosco. A
merda é de cada um de nós. Chegou a hora de arregaçar as mangas e meter as mãos
nela.
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