Cristo nossa Páscoa foi imolado, ressuscitou como disse, aleluia!
“Não
tenham medo”, disse ele. “Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que
foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o
haviam posto” (Mc 16.6).O título desta pastoral (Pascha nostrum immolatus est Christus. Resurrexit sicut dixit, Alleluia!)
é a junção de duas belíssimas antífonas da antiquíssima tradição
litúrgica da igreja cristã. Traduzidas livremente, dizem algo assim: Cristo nossa Páscoa foi imolado, ressuscitou como disse, aleluia!
É o mais perfeito sumário das celebrações pascais, pois de fato,
Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Como nosso substituto e
dando pleno e verdadeiro sentido e eficácia aos sacrifícios da antiga
dispensação, Cristo se oferece como oferta pelos nossos pecados e essa
oferta ele faz por nós, em nosso favor, mas não para aí. Ele também nos
substitui no madeiro.
A
cruz não foi preparada para ele, pensada nele, mas para nós, pensada em
nós, malfeitores, cruéis e pecadores inveterados. Abraçando livremente a
paixão, ele o faz em nosso lugar e carrega sobre si as nossas
enfermidades e iniquidades e recebe em seu corpo o castigo que deveria
ser descarregado sobre nós. Na liturgia de sua crucifixão, a um só
tempo, Jesus é sacerdote, altar e cordeiro. É o ofertante, sobre ele a
oferta e sacrificada e ele mesmo é o sacrifício. O Pai aceita nos céus o
holocausto do Cordeiro amado e desvia de nós a sua ira e assim, nos
recebe de volta em seu seio.
Mas,
o sacrifício de sua vida física, sua morte real não conta toda a
história. Ele ressuscitou ao terceiro dia, como havia dito, sua
ressurreição física, histórica é real, aconteceu de fato. A ressurreição
de Cristo é a primícia e ao mesmo tempo, o penhor da nossa
ressurreição. O seu corpo agora glorificado é uma prova antecipada do
que acontecerá também com esse nosso pobre corpo mortal. Um dia, seremos
como ele é agora e o contemplaremos face a face. Muitas outras
mensagens podem derivar das festas pascais, como o desejo de que todas
as coisas sejam renovadas, que as marcas da cultura a morte desapareçam
da sociedade, que os homens se reconciliem, que as guerras cessem de uma
vez, que o perdão seja estendido a todos de maneira incondicional, como
o da cruz. Entretanto, a igreja nunca poderá deixar de confessar e
professar na liturgia, à luz das Escrituras, esse mistério que é o
centro estruturante da nossa fé: Cristo Ressuscitou! Sem que esta
verdade seja proclamada e ensinada, crida, vivida e celebrada, não há
cristianismo autêntico, não há evangelho poderoso, não há esperança que
se imponha ao caos do mundo.
A
ressurreição de Cristo é o centro do universo criado e o eixo central
da história dos homens e o ponto culminante da revelação bíblica.
Vivemos dias estranhos na igreja. Os males do mundo são agravados quando
a igreja muda ou perde o foco da sua mensagem.
O
‘evangelho’ da prosperidade, do bem-estar, do ‘coach’ não é mais
perigoso do que o ‘evangelho’ das causas sociais, do engajamento
político, da teologia inclusiva. Infelizmente não há lugar nessa
pastoral para dizer que há espaço, em certa e equilibrada medida, de
levarmos os homens a considerarem que a vida na Aliança acarreta toda
sorte de bênçãos, materiais e psicológicas, inclusive. Há também espaço
para uma teologia encarnada e comprometida com a justiça e a
transformação da sociedade e a luta em favor dos marginalizados. Mas,
essas são mensagens, ensinamentos derivados da mensagem central,
irredutível e inegociável da ressurreição de Cristo. Essa proclamação
está esculpida nas Escrituras de Gênesis a Apocalipse e é dramatizada
nos sacramentos, de maneira que no batismo participamos da morte e
ressurreição de Jesus e na Ceia, recordamos a sua paixão, anunciamos a
sua morte, proclamamos a sua ressurreição e juntos, ceamos, aguardando a
sua volta gloriosa.
A
Igreja, em si mesma, é um poderoso sinal da ressurreição de Cristo em
meio as mortes do mundo. Ela é o sinal sacramental da humanidade
redimida e que desde agora, já vive as primícias da ressurreição
enquanto aguarda a transfiguração do seu corpo.
Que
as celebrações destes dias pascais nos encorajem a um retorno e a um
apego mais deliberado de fazermos da mensagem da cruz e do túmulo vazio o
centro da nossa pregação, a verdade mais desconcertante que um homem
possa ouvir e a maior bênção que a igreja possa comunicar ao mundo. Como
ensina o apóstolo: “...se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa
pregação, como também é inútil a fé que vocês têm. E, se Cristo não
ressuscitou, inútil é a fé que vocês têm, e ainda estão em seus pecados”
(1Co 15.14,17). Feliz e santa Páscoa da ressurreição de Jesus Cristo
para todos!
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