Se o hebraico não tem “J”, por que chamamos o Salvador de Jesus?

Nomes próprios não podem ser traduzidos, ou melhor, não há tradução para eles. Por causa disso, quando um nome próprio passa de uma língua para outra, a língua que recebe o nome faz uma adaptação deste às regras fonéticas da nova língua onde o nome será usado. 1
Não é uma questão de tradução de nome, mas de adaptação à fonética da língua que recebe o nome estrangeiro. Esta adaptação leva o nome de transliteração.
O nome João, por exemplo, em hebraico é יוחנן (Yochanan), em grego é Ἰωάννης (Ioánnes), em alemão é Johann ou até Johannes; em francês, Jean; em espanhol, Juan; em italiano, Giovanni; em inglês, John, e assim por diante. Não são traduções do nome, mas adaptações às regras linguísticas de cada uma destas línguas. Assim o nome é soletrado (ou pronunciado), às vezes, de forma tão distinta, que uma língua pode não reconhecer a soletração da outra, como parece ser o caso do alemão e do italiano, por exemplo.
Este mesmo caso de soletração em várias línguas ocorre com o nome “Jesus”. Com a complexa história linguística do povo judeu, os nomes próprios sofreram esta adaptação a cada novo idioma utilizado pelos judeus. Como o nosso interesse aqui é sobre o nome de Jesus, vamos nos concentrar nele.
A história da soletração do nome “Jesus” em português começa com o hebraico יהושע (Yehôshua), que em português é adaptado como Josué; passa pelo aramaico ישׁוּעָ, (Yeshua), que em português é adaptado como Jesua; passa pelo grego Ἰησοῦς (Iesoûs); passa pelo latim – Iesus; e, finalmente, chega ao português Jesus. O importante é notar que estas diferentes soletrações não são traduções do nome, mas adaptações fonéticas que cada língua fez para poder pronunciar o nome dentro da fonologia própria de cada língua. O nome Josué, Jesua ou Jesus é o mesmo nome em hebraico, aramaico, grego, latim ou português, e tem o mesmo significado: “Yahweh é salvação”. A questão é de soletração, não de tradução.2
“Jesus. Do gr. Iésous, equivalente ao heb. Yehoshua, “Josué” (ver Atos 7:45; Hebreus 4:8, em que Lucas e Paulo se referem a Josué como Iésous, “Jesus”). Em geral, se entende que este nome significa “Yahweh é salvação” (ver Mateus 1:21) (…)
O nome original de Josué, Oséias, foi mudado para Jehoshua (Números 13:16). Josué é Jehoshua. Quando o aramaico substituiu o hebraico como idioma comum dos judeus, após o cativeiro babilônico, o nome se tornou ‘Yeshua’, forma transliterada para o grego como Iésous. ‘Yeshua’, era um nome comum entre os judeus da época do NT (ver Atos 13:6; Colossenses 4:11), em harmonia com o costume hebraico de escolher nomes com significado religioso.
Hoje os nomes servem apenas como identificação, mas nos tempos bíblicos o nome de um filho era escolhido com todo cuidado porque representava a fé e a esperança dos pais, as circunstâncias do nascimento da criança, suas características pessoais ou estava relacionado à sua missão na vida: principalmente quando o nome era designado por Deus.
O nome Jesus está repleto de lembranças históricas e vislumbres proféticos. Assim como Josué tinha conduzido Israel à vitória na terra prometida, assim também Jesus, o capitão de nossa salvação, veio para abrir os portões da Canaã celestial. Contudo, Jesus não é só o autor de nossa salvação (Hebreus 2:10), Ele também é “Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão” (Hebreus 3:1). O sumo sacerdote que voltou do cativeiro babilônico (Esdras 2:2) se chamava Josué (Zacarias 3:8; 6:11-15). Assim como Oséias (nome idêntico no hebraico ao Oséias de Números 13:16) que amou a esposa indigna e buscou em vão ganhar suas afeições e finalmente a comprou de volta no mercado de escravos (Oseias 1:2; 3:1,2), Jesus veio para libertar a raça humana da escravidão do pecado (Lucas 4:18; João 8:36).” 3
Notas de rodapé:
1 Este é um processo muito comum quando o nome que está sendo importado da língua estrangeira será largamente usado no novo ambiente linguístico. Por exemplo, isto acontece com todos os nomes de nações e com a maioria das grandes cidades do mundo. Por exemplo, os nativos norte-americanos chamam de “United States of America” ao país deles, e nós adaptamos o nome como “Estados Unidos da América”; eles chamam de “New York” a sua cidade e nós de “Nova Iorque”. Outro exemplo, o nativo alemão chama o seu país de “Deutschland” e nós de “Alemanha”. Poderíamos multiplicar quase infinitamente os exemplos, mas não é necessário. Isto ocorre também com nomes de pessoas famosas, como o alemão “Martin Luther”, que é chamado em português de “Martinho Lutero”; o romano “Carolus Magnus” é chamado de “Carlos Magno”, em português; de “Charlemagne”, em francês e de “Karl der Grosse”, em alemão. De novo, este processo quanto a nomes próprios de pessoas famosas é bastante comum. Em nenhum caso isto é considerado tradução, mas transliteração, ou seja, é simplesmente adaptação do nome às regras fonéticas da nova língua. Este processo é muito comum na Bíblia, com referência a locais e nomes próprios. A antiga versão em inglês King James Version verteu os nomes do hebraico e grego sem fazer tais adaptações à língua inglesa. Sugiro consultar esta versão para o leitor ter uma compreensão real do assunto.
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