A TRAMA
do preconceito contra o Nordeste
Em
1923, o então presidente do Brasil, Artur Bernardes, promoveu uma campanha
contra a realização de investimentos em favor da população nordestina. O
argumento central do mineiro era de que aquela população seria indigna de
receber atenção governamental. Exatamente 100 anos depois, em agosto de 2023, o
governador de Minas Gerais, Romeu Zema, foi a público dizendo que já está na
hora das “vaquinhas que produzem muito” deixarem de alimentar as “vaquinhas que
produzem pouco”, em referência às regiões Sudeste e Nordeste do país. Revela-se
que esse preconceito, que nasce enquanto discurso no início do século 20,
continua ganhando força no Brasil, sobretudo com a ascensão da extrema direita.
Em seu
novo livro, Só sei que foi assim: A trama do
preconceito contra o povo do Nordeste, lançado agora pela Autêntica, o
jornalista Octavio Santiago investiga as origens históricas do preconceito
contra o povo do Nordeste, encontrando-a não só na política, mas na literatura
e no cinema. Em entrevista à Cult, ele fala sobre a forma como o discurso
preconceituoso que nasce na década de 1920, através da imprensa, continua sendo
reproduzido no Brasil contemporâneo.
Durante
minha pesquisa, eu perguntava para as pessoas: “Como isso começou, a questão de
termos tantos estereótipos”? Frequentemente respondiam: “Não sei”. Parecia-me
com o famoso diálogo de Ariano Suassuna, que representa a busca por uma
resposta e a ausência de explicação – “Não sei, só sei que foi assim”. Chegamos
aqui e ninguém sabe muito bem como foi essa caminhada. O conformismo já estava
assentado, sem a existência de um desejo de questioná-lo. E sem questionamento,
não há mudança.
Um
segundo motivo reside na minha vontade de mostrar que houve uma construção.
Emprestando a frase de Suassuna, eu enfatizo que o preconceito parte de uma
construção artística, discursiva, além de política, que ganha força no século
20, que é também a época dos Autos. Destaco ainda que não é somente uma visão
de fora para dentro, mas que, muitas vezes, parte dos próprios conterrâneos nordestinos.
Existe uma parcela nossa nessa construção.
Qual é
a importância de resgatar a origem histórica do preconceito contra os povos do
Nordeste? Como foi o percurso dessa sua pesquisa?
O
Brasil tem buscado se atualizar sobre diversos temas. Se compararmos o Brasil
de hoje com o que era há 100 anos, avançamos muito em pautas importantes como
racismo, igualdade de gênero, homofobia, transfobia – ainda falta muito, mas
existe uma uma certa evolução. Com relação ao tratamento das pessoas do
Nordeste, por outro lado, não consigo visualizar essa atualização. Acessando
artigos publicados em jornais na década de 1920, percebemos que muitas das
declarações daquele tempo estão presentes hoje.
Em
1923, o então presidente do Brasil Artur Bernardes – um mineiro que, dentro da
política do café com leite, sucedeu o paraibano Epitácio Pessoa – promoveu uma
campanha contra a realização de investimentos em favor da população nordestina.
O argumento presente nesses textos é de que essa população é indigna de receber
atenção governamental. Exatamente 100 anos depois, em agosto de 2023, o
governador de Minas Gerais, Romeu Zema, foi a público dizendo que já está na
hora das “vacas gordas”, o Sudeste, deixarem de alimentar as “vacas magras”, o
Nordeste, mostrando a “necessidade” do Brasil parar de olhar para a região
Nordeste. É exatamente o mesmo discurso.
Se você
observar a forma como nós somos retratados na teledramaturgia, ainda é dentro
dessas do limite que se impôs sobre o nordestino de folhetim do século 20: ele
é um só, tem a mesma cara, o mesmo jeito, o mesmo sotaque. É uma série de
falácias que se sobrepõem. Hoje há uma preocupação na maneira como vão ser
retratadas as pessoas pretas na escrita de personagens, o que se deve muito às
noções de Djamila Ribeiro de “Lugar de fala”. Mas, quando se trata do Nordeste,
a coisa vem embalada de tal forma que não vejo sequer uma vontade de reparar
essa representação errada e fatalista.
A tese
que deu origem ao livro nasceu no dia em que eu estava indo para a
universidade, em Portugal, inscrever meu projeto de doutorado. Ao pegar o trem,
vi uma senhora brasileira muito atrapalhada na compra da passagem, então fui
ajudá-la. Ela percebeu que eu era do Brasil e perguntou de que cidade. Quando
falei que era de Natal, ela respondeu: “Mas você não tem cara. Quem olha para
você nem diz que é nordestino. E operando tão bem essa máquina”. Decidi que eu
teria que entender que cara é essa e que limitação existe na cabeça dessa
senhora e de tantos brasileiros de que nós não somos capazes das mesmas coisas
que eles.
Ao
longo do livro, você tece a relação entre Os sertões e a discriminação contra o
nordestino. Qual a responsabilidade do jornalismo e da literatura nessa
construção? É o caso de “cancelar” clássico como esse?
Não de
“cancelar”, mas de entender essa perspectiva. Temos a mania de olhar para nossa
literatura e considerar apenas o que está na página. É preciso entender o que
fez o autor levar aquilo para a página e o que aquilo diz sobre o Brasil
daquele momento. Se partirmos para uma perspectiva nesse sentido, ampliaremos
ainda mais o valor literário dessas obras de valor estético indiscutível.
Euclides é um grande observador de seu tempo, mas é preciso entender o que está
por trás de suas palavras e, principalmente, as consequências delas. Assusto-me muito quando políticos do Nordeste
iniciam discursos dizendo “o sertanejo é um forte”, citando Euclides.
Claramente nunca leram Os sertões, pois na sequência o autor diz que o
sertanejo é uma raça inferior, uma mistura entre europeus, indígenas e
africanos que “deu errado”. É o que o Euclides diz, com todas as letras.
Ele
teve um papel fundamental, porque 1877 é um ano de virada de chave: o Nordeste
deixa de ser a terra do açúcar para ser a terra dos algodoais, acontece a maior
seca da história da região que tem como consequência o aparecimento do cangaço
e, finalmente, a Guerra de Canudos. Naquele momento, vemos uma espécie de
derrota do Norte, fragilizado, em relação ao Sul, em ascensão. A seca e Canudos
ganham cobertura imensa da imprensa no Sul, que se vê diante de um Norte
ajoelhado, inferiorizado. O Brasil não tinha integração por estradas ou
comunicação, então aquilo que se dizia sobre o Norte, num jornal, era tomado
como verdade. O papel foi a primeira possibilidade de se imaginar o recorte
“Nordeste”, enquanto região separada do Norte. Ele nasce dessa fragilidade, que
é a seca.
Qual é
o papel do racismo nessa trama?
Ele
está muito ligado à concepção de que a suposta raça branca era superior, que
deveria prevalecer na nação, e que a mestiçagem deveria ser apagada. Quando
Euclides entrega seu diagnóstico do que é o sertanejo, ele o descreve como um
brasileiro de raça inferior, que condena o país ao fracasso. Muito do que se
ouve até hoje é uma reprodução dessas primeiras linhas. Essa ideia coincide com a tentativa de
depreciar a mão de obra negra que ocorria na imprensa, porque os primeiros
migrantes nordestinos que foram para o Sudeste eram majoritariamente negros num
momento em que São Paulo, movida pelos eugenistas, estava importando mão de
obra branca europeia.
O
nordestino preto que chegava a São Paulo colocava no meio da sala aquilo que o
Brasil tentava enfiar para debaixo do tapete, representando uma ameaça a um
projeto de substituição genética. Relatos na imprensa sobre os “negros maus”
que vinham do Norte funcionavam como uma espécie de propaganda para que os
fazendeiros não empregassem essa população. O nordestino não merecia ser
ajudado na sua terra natal, mas também não deveria ser empregado aqui. Que
destino tem um povo que não pode ser assistido na sua casa, mas não tem o
direito de sair dela?
Você
escreve que a discriminação “encontra linhas escritas há mais de cem anos”. Se
a origem foi na escrita, hoje, qual é o vetor desse preconceito?
Eu falo
de um lugar de privilégio nesse aspecto, porque moro em Natal, estou dentro do
Nordeste, protegido pela barreira que nos deram. Convivendo com pessoas que são
vítimas dessa dessa discriminação, percebi que não é apenas algo manifestado na
fala, mas ao perder oportunidades profissionais e acadêmicas em razão dessa
origem. O preconceito tem que ser levado a sério para que tentemos buscar uma
atualização. O STJ já leva, mas a própria sociedade ainda não.
Quando
houver consciência do peso dessas palavras e entendermos as motivações que
estão por trás delas, não haverá mais espaço para a desinformação. Para sair
desse lugar de representação limitante, é preciso entender que ele não vem da
falta de repertório, mas de uma indução cultural. É sobre você acompanhar uma
dança que sabemos muito bem quem conduz a valsa, quem vai sair como bom
dançarino e quem vão sair com o pé pisado.
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