A igreja e as estruturas de poder
Por Pedro Dulci

Até
o terceiro século, a Igreja de Jesus enxergava-se como peregrina e
forasteira nessa terra. A perseguição que sofria não a permitia
desenvolver outra imagem de si. Eles sabiam que não tinham poder e que
nunca deveriam vincular as esperanças do Reino de Jesus com as
estruturas imperiais.
Entretanto, com o imperador
Constantino a relação entre Igreja e Estado mudou e, com isso, toda a
sua teologia pública. Quem nos lembra disso é o historiador evangélico
Mark Noll deixando claro como que essa mudança alterou a história do
cristianismo.
É claro que o auxilio do Império
fortaleceu a igreja e lhe deu paz para crescer. Contudo, as relações não
eram unilaterais e o Império também colocaria cada vez mais suas mãos
em assuntos da esfera eclesiástica. Os concílios ecumênicos, tão
importantes para a doutrina saudável que temos, foram convocados pelos
imperadores e não pelos bispos — visando a unidade política do império
através da unidade doutrinária.
Nessa história, a
Igreja precisou avaliar constantemente os limites dessas relações. Um
dos episódios que eu mais gosto nessa história é o do bispo Ambrósio
expulsando do interior da igreja o imperador Teodósio — representado
acima na pintura de Anthony van Dyck. Claramente era o pastor da igreja
protegendo o rebanho da hipertrofia totalitária que o império sentia-se
confortável em dar lugar.
Em tudo isso, aprendo
que a Igreja de Jesus precisa de muita sabedoria para expurgar de seu
meio antigos desvios teológicos. Nossa teologia política precisa
continuar sendo da igreja peregrina e forasteira que, assim como Abraão,
espera a cidade de Deus descer do céu até aqui — cidade que foi
arquiteta e será construída por Deus, e não por nenhuma força humana.
Isso
não nos livrará das relações com as estruturas de poder, mas nos
permitirá nunca colocar nossas confianças nelas. A quebra de
expectativas de muitos membros da igreja com seus candidatos e partidos
políticos têm suas raízes em trocar a confiança do Criador pela
criatura, não lhe rendendo glória, mas vangloriando-se dos impérios
humanos, demasiado humanos.
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