Não sou mais evangélico. Um verbicídio aconteceu: a palavra foi assassinada
Por Paulo Ribeiro
Decidi
não mais usar a palavra “evangélico” para descrever minha posição
religiosa. Retorno a um termo mais antigo: “cristão protestante
reformado”.Podemos compreender uma palavra muito
melhor se a encontramos viva, em sua língua materna, seu contexto e
habitat nativo. Tanto quanto possível, nosso conhecimento deve ser
verificado e alimentado, não derivado do dicionário. Mas, a língua é uma
entidade viva – assim como as palavras. E, como algo vivo – palavras –
podem ser mortas por transformações naturais e culturais, ou pior,
assassinadas.
C.S. Lewis chamou a isto de “verbicídio”, e pode acontecer de várias formas:
O
exagero ou inflação é a forma mais comum; aqueles que nos ensinaram a
dizer “tremendo”, para se referir a ‘ótimo’, e “sadismo”, para
‘crueldade’, são verbicídas. Outra forma é a verborragia, quando uso uma
ou muitas palavras que prometem o que não conseguem cumprir. Alguns
cometem verbicídio porque usam uma palavra como bandeira, para
apropriar-se da "possibilidade de venda". No entanto, a maior causa de
verbicídio é o fato de que a maioria das pessoas está muito mais ansiosa
para expressar sua aprovação ou desaprovação das coisas do que
descrevê-las. Daí a tendência das palavras se tornarem menos descritivas
e mais avaliativas. Assim, embora ainda retenham alguma sugestão do
tipo de bondade ou maldade implícita, temos sinônimos inúteis para bom
ou para ruim simplesmente avaliativos.
Depois de
viver 30 anos fora do Brasil, encontrei muitas palavras, gírias novas,
de uso limitado no passado, e precisei voltar ao Aurélio. Mas isto faz
parte da natureza de uma língua viva – as palavras também ganham novos
significados. A palavra “evangélico” foi uma que me surpreendeu pela sua
popularidade, que também já estava bastante manchada por ser usada por
corruptos, cafajestes, canalhas, para práticas inimagináveis e, o pior,
em nome de Deus.
É verdade que raramente alguém
chama de corrupção, adultério, etc, o ato que estava prestes a cometer
e, quando ouve algo semelhante sobre os outros, fica chocado e surpreso –
mas não inocente. Aliás, muitas vezes, aqueles que mais desprezam e
discriminam o grupo social de onde as prostitutas são recrutadas, não
são necessariamente aqueles que se abstém da fornicação.
Os
últimos escândalos de pastores, governadores, presidente da Câmara,
deputados federais, juízes e procuradores, que se dizem evangélicos, e
que agem de forma completamente contrária aos princípios fundamentais do
evangelho, é algo de uma perversão inimaginável. A palavra – evangélico
– já convalescia há muito tempo; respirando com ajuda de aparelhos, mas
agora a morte encefálica foi declarada.
Tentei
por certo tempo defender a palavra “evangélico” como um movimento que
representava os valores do evangelho de Cristo de forma direta e menos
institucional. Mas, após tantos escândalos no Brasil e no exterior,
cansei. Quando a maioria dos evangélicos apoia essas ações, mentiras e
injustiças, verbicídio foi consumado. E poderíamos até dizer que
aconteceu um “verbi-suicídio”.
Com relação à
infinidade de denominações que encontramos, qual será a palavra correta?
É importante lembrar que na Bíblia não existe a palavra “denominação”
nem o termo “evangélico”; encontramos “cristãos”. O evangelho na Bíblia
se refere às boas novas vividas e não meramente faladas. A
institucionalização do cristianismo veio a partir de Constantino, por
decreto. Hoje, temos mais evangélicos que cristãos.
Embora
o novo termo que vou usar não garante a correção das distorções e a
pureza dos seus membros, “cristão protestante reformado” contém dois
adjetivos importantes que garantem que “protestos” serão bem-vindos
quando erros e injustiças forem cometidos; e que reformas serão
necessárias, de tempos em tempos, devido à nossa natureza caída – para
garantir o retorno aos princípios fundamentais do cristianismo
histórico. Antes que Cristo chegue e expulse a todos:
“Tendo
Jesus entrado no pátio do templo, expulsou todos os que ali estavam
comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras
dos comerciantes de pombas” (Mat. 21:12).
Finalmente, que todos possamos dizer como o salmista:
“Não sejam envergonhados por minha causa aqueles que esperam em ti, ó Senhor” (Sl 69.6).
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