Falando mais sobre a morte
Por Clarissa Peres SanchezAntigamente, a morte era algo muito simples, era esperada no leito e ao redor dela acontecia uma cerimônia pública e organizada pela própria pessoa que estava morrendo. O quarto era um lugar público, com parentes, amigos, vizinhos e crianças. Entre 1930 e 1950 há um deslocamento do lugar da morte para o hospital, onde se morre sozinho. A morte torna-se também objeto de comércio e lucro. O luto não é mais um tempo necessário e torna-se um estado mórbido que deve ser tratado, abreviado e apagado. No fundo, sentimo-nos não mortais. Antes, a morte era domada, familiar e próxima. Hoje a morte é selvagem.
Infelizmente o Brasil é um dos piores países para morrer conforme o ranking Índice de Qualidade de Morte que classifica países em relação aos cuidados paliativos oferecidos à sua população, levando em conta critérios como ambiente de saúde e cuidados paliativos, recursos humanos, formação de profissionais, qualidade de cuidado e engajamento da comunidade. Os países com melhor qualidade de morte são os ricos, como Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, que ocupam, respectivamente, os primeiros três lugares do ranking. Esses países compartilham características como políticas nacionais para o aumento de acesso a cuidados paliativos; altos gastos públicos em serviços de saúde; treinamento extensivo para os profissionais envolvidos; grande oferta de opioides, analgésicos e suporte psicológico; e esforços da comunidade para aumentar a conscientização e estimular conversas sobre a morte em fase final de vida.1 O possível aumento da conscientização pode ser um dos motivos para começarmos a querer a falar mais sobre a morte.
Quando encaramos a morte como inimiga a ser derrotada, nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar e mais tolos nos tornamos na arte de viver. A morte pode ser sábia conselheira; para recuperarmos um pouco a sabedoria de viver é preciso que nos tornemos seus discípulos, não inimigos. É necessário, em nossa cultura, um despertar para a educação para a morte.
A morte é realidade e, por isso, somente tem sentido na vida humana. A morte dá sentido à existência, pois nos lembra a preciosidade da vida. É importante percebê-la como dia de nascimento. Nascimento para a vida eterna!
É certo que não se pode conhecer a morte, exceto morrendo. Este é o mistério que repousa sob a pele da vida. Mas, pode-se sentir algo daqueles que estão perto dela, pois a morte não é só para os que morrem; é também para aqueles que sobrevivem. De fato, morrer não é um ato individual. Uma pessoa que está morrendo é, muitas vezes, um ator, num drama comunitário, que pode deixar um legado de como viver a experiência da morte. Essa pessoa pode encontrar a preciosa companhia da verdade, da fé e da entrega. Praticar o morrer é, também, praticar o viver, se puder percebê-lo. Na presença do morrer, chega-se à origem natural do que significa amar e ser amado. Essa é a preciosa oportunidade de encarar esta grande questão, na verdade, a única: a impressionante questão de vida e morte.
• Clarissa Peres Sanchez, fundadora e presidente da OSC Tok de Amor (casa de apoio a pacientes com câncer) em Londrina, PR; teóloga, capelã, doula da morte (atendimento personalizado à pessoa que está morrendo e de seus familiares, cuja atuação busca aliviar o sofrimento, oferecendo conforto, dignidade e ajudando na preparação para a morte). Paliativista espiritual (capelã especialista em cuidados paliativos, cuja intervenção propicia a pessoa a morrer em paz). Terapeuta da dignidade (terapia da dignidade é uma intervenção de cuidados paliativos cuja abordagem terapêutica é baseada no modelo de dignidade em pacientes terminais. É uma terapia breve com protocolo e técnicas específicas que visa a construção de um documento legado). Graduada em teologia e especialista em aconselhamento e cuidado pastoral, Bíblia e capelania (FTSA). Mestra e doutoranda em teologia prática (EST).

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