quarta-feira, 13 de março de 2024

CECÍLIA MEIRELES...

 

Cecília Meireles. Nascida no Rio de Janeiro, ela se destacou como jornalista, escritora, professora, cronista e pintora. 

Um dos maiores nomes da literatura nacional, Cecília Meireles publicou mais de 50 obras e foi contemplada com o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Machado de Assis. A escritora perdeu o pai antes de nascer e a mãe aos 3 anos de idade. Por isso, foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides.  

Em 1917, Cecília se formou como professora na Escola Normal do Rio de Janeiro. Em 1919, aos 18 anos, ela lançou sua primeira obra chamada Espectros, que contava com 17 sonetos.

Cecília Meireles foi um dos grandes nomes da literatura brasileira. | Foto: Montagem Reprodução.

A escritora também atuou como jornalista e colaborou com a imprensa carioca escrevendo textos sobre o folclore. Em 1934, ela fundou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.

Cecília Meireles também atuou como professora em universidades como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade do Texas. Em suas aulas, ela lecionava sobre a Literatura Luso-Brasileira.

Grande nome da literatura brasileira, Cecília não estava filiada a nenhum movimento literário específico, mas seus poemas, de maneira geral, se encaixam nas características da lírica luso-brasileira. A seguir, veja 10 poemas da escritora para relembrar nesta data tão especial!

Confira 10 poemas de Cecília Meireles para relembrar no seu aniversário de 121 anos

Cecília Meireles morreu aos 63 anos em 1964, vítima de um câncer. Mas, mesmo anos depois, seu legado ainda é perpetuado na literatura nacional. Por isso, veja 10 poemas da escritora neste dia 07 de novembro.

1. Motivo 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

2. Cenário 

Passei por essas plácidas colinas

e vi das nuvens, silencioso, o gado

pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado

dormiam sobre a tarde, imensamente,

— e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,

uma angústia de amor estremecia

a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravia

saudade me arrastava a esse deserto,

me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto

dos arroios fanados, do cascalho

cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho

onde a face brilhou de homens antigos,

iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos

vivendo as mesmas dores e esperanças,

a voz ouvi de amigos e inimigos

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,

conversei com doçura as mesmas fontes,

e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,

do quebrado almocafre aos anjos de ouro

que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro

arrancado a estas Minas enganosas,

com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas

e os girassóis destes jardins, que um dia

foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;

por onde se arrastava, esquartejado,

o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado

tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas

de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas cantam-me divinas

fábulas. Torres, santos e cruzeiros

apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta

desolação de ermas, estéreis serras

que o sol frequenta e a ventania gasta!

Armado pó que finge eternidade,

lavra imagens de santos e profetas

cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:

figuras inocentes, vis, atrozes,

vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes

que ultramarinos árcades pastores

falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores

quando por esses prados florescentes

se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;

pisaram por ali tristes cavalos.

E enamorados olhos refulgentes

— parado o coração por escutá-los

prantearam nesse pânico de auroras

densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Heliodoras,

ao longo desses vales, desses rios,

viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios

vacilar como em caules de altas velas

cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas

vagas sombras da triste madrugada,

fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:

Nise, Anarda, Marília… — quem procuro?

Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?

Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?

Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Quem soube cada santo em cada igreja?

A memória é também pálida e morta

sobre a qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta

e não pode entender a nossa pena.

Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forma no ar subir serena:

vaga forma, do tempo desprendida.

É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloquência da simples despedida:

“Adeus! que trabalhar vou para todos!…”

(Esse adeus estremece a minha vida.)

3. Lua Adversa 

Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua…)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu…

4. Retrato 

Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

5. Nadador 

O que me encanta é a linha alada

das tuas espáduas, e a curva

que descreves, pássaro da água!

É a tua fina, ágil cintura,

e esse adeus da tua garganta

para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,

quando te desprendes ao vento,

fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,

longe, na eternidade da água,

sobreviver teu movimento…

6. Recado aos amigos distantes 

Meus companheiros amados,

não vos espero nem chamo:

porque vou para outros lados.

Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto

fazem melhor companhia.

Mesmo com sol encoberto,

todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,

vou cortando meus atalhos.

Por vosso amor é que penso

e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,

minha rebelde maneira.

Para libertar-me tanto,

fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,

ides na minha lembrança,

ides na minha cabeça,

valeis a minha Esperança.

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