O que o
autismo tem me ensinado
Por
ocasião do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, em 2 de abril, Davi
Daniel de Oliveira, pai de um menino com autismo, escreveu o artigo a seguir.
Por
Davi Daniel de Oliveira
"Ao
passar, Jesus viu um cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram:
"Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse
cego?"” (João 9.1-2)
Devido
a minha formação teológica, lembro-me de que, ao saber que meu filho mais novo
era uma criança portadora do transtorno do espectro autista (TEA), fui
imediatamente “teologizar o assunto” e buscar ingenuamente explicações sobre
sua condição dentro do paradigma da minha fé. E ainda que seja uma abordagem
que nos confere sentido para as dificuldades que passamos, cometi também o erro
de personalizar muito o caso. O que Deus espera que eu faça? ou Qual o
propósito disso na minha vida? eram perguntas que não saiam da minha cabeça.
Percebi, depois de um tempo, que o diagnóstico não era sobre mim, mas que os
desígnios divinos funcionam em uma esfera muito mais ampla, assim como no caso
do cego, relatado no Evangelho de João. O autismo de meu filho não era sobre
mim, mas sobre ele mesmo, sobre minha família e igreja, sobre a comunidade
autista que luta pelos seus diretos, sobre muito além daquilo que meus olhos
poderiam contemplar naqueles momentos iniciais.
As
dificuldades da vida moldam nosso caráter e são instrumentos de Deus para nosso
aprendizado. E, ainda que o autismo do meu filho não seja exclusivamente sobre
mim, Deus em sua infinita graciosidade, tem ensinado a mim e à minha esposa
lições preciosas que nos sustentam na jornada de uma família atípica.
Aprendemos
que lidar com as emoções é fundamental. Famílias atípicas sofrem preconceito (mesmo
que não intencional, muitas vezes), frustrações, incompreensão e assaltos
constantes à sua sanidade mental. É um constante turbilhão de emoções e medo
que roubam a paz e a esperança muitas vezes. Bons ombros amigos, verbalizar o
que se sente, ser honesto consigo mesmo, admitir a impotência e entregar tudo
aos pés do Jesus, que está sempre pronto para aliviar nossas cargas, são
iniciativas a que temos de recorrer todos os dias. Linhas mais fundamentalistas
do evangelicalismo brasileiro não dão ênfase ao ensino ou mesmo ao
acompanhamento relacionado ao cuidado mental e das emoções, por entender que é
“psicologia humanista”, mas, entendo, que isso é erro e precisamos urgentemente
trazer esse tema aos púlpitos brasileiros.
Aprendemos
que o amor e a cura que Deus tem derramado sobre nossa família têm sido em
nosso benefício, mas que precisamos estender essa mesma doação para outras
famílias em situações semelhantes. Ainda que estejamos em constante, perene e
ainda não finalizada recuperação, entendemos que todo o processo de restauração
caminha e termina em partilha. Deus está fazendo algo em nós para que possamos
fazer algo para os outros através de nós (2Co 1.4). Nossa comunidade tem um
programa multidisciplinar (“Mães que Abraçam”) de apoio mútuo de famílias
atípicas que se ajudam e compartilham de suas dificuldades, necessidades e
vitórias. É sobre ser empático e cuidar de quem cuida.
Aprendemos
que estamos diante de um Deus abundante, cuja provisão não se esgota, e que a
esperança nele é que nos mantém seguros, a despeito das constantes necessidades
concretas que uma família atípica tem. Foram incontáveis as lutas que tivemos
(e ainda temos) com o sistema de saúde de nosso país, com questões burocráticas
infindáveis com os convênios de saúde, interpretações técnicas de laudos,
dificuldade de encontrar terapeutas aderentes com nossa realidade e por aí vai.
A despeito disso tudo e da nossa incapacidade frente à inúmeras dessas
dificuldades, sabemos que o Deus abundante que temos é o Pai Ideal de nosso filho,
que o ama e que não deixará que ele seja atendido naquilo que ele precisa.
Aprendemos
a olhar com graça e compaixão para pessoas que não experienciam nossa
realidade. Essa é a nossa realidade, não a de todos. Devemos sempre trabalhar
pela conscientização e pela inclusão; mas nunca de forma agressiva e sem
imposição. Para o cristão, a compaixão não contradiz a evolução, como quis
Nietzche, sendo ela, a compaixão, ato distintivo do caminhar do cristão,
expressa em todos os atos do Mestre. Se compadecer do outro, ainda que ele não
nos entenda ou mesmo se compadeça de nós, é um ato de coragem e gentileza.
Aprendemos
que a rendição à Deus é a única alternativa que temos. O autismo ainda é um
mistério (veja Perspectivas sobre o autismo) em muitos sentidos, não há duas
pessoas portadoras dessa condição que sejam iguais – cada uma carrega
características específicas dentro do espectro e, portanto, generalizações não
são de muita valia. Seguimos incansavelmente tentando “desvendar” a mente de
nosso filho, entender suas ações e reações, seu relacionamento com o seu irmão
mais velho etc. Porém, sempre buscamos lembrar que não temos todas as peças do
quebra-cabeça, mas Deus já o tem montado e emoldurado dentro de sua provisão e
onisciência. O autista porta a “imagem e semelhança” de Deus, assim como nós
também portamos, porém nenhum de nós a tem por completo e devemos nos render a
Deus para que Ele cumpra seus propósitos na construção de Cristo em nós.
Por
fim, aprendemos que a fé traz consigo a única possibilidade de paz, alegria e
riso. Por muitas vezes nos Evangelhos, o Senhor Jesus reconhece a fé de algum
seguidor e diz que ela a salvou. Por meio da fé contemplamos, no presente, a
realidade de um futuro abundante de paz e descanso. Como família atípica,
experimentamos hoje a possibilidade de sorrirmos em meio ao turbilhão de
emoções que nos cerca; só a fé pode nos salvar.
“Senhor,
embora tenhamos aprendido contigo todas essas coisas, as pressões do dia a dia,
muitas vezes nos fazem esquecê-las. Ajuda-nos a lembrarmos e reaprendermos
todas elas todos os dias, caminhando em restauração plena e constante. Amém.”
Texto
escrito por ocasião do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em
2 de abril, data instituída pela Organização das Nações Unidas e amparada no
Brasil pela Lei nº 13.652, de 2018, para esclarecer a sociedade sobre as
características únicas das pessoas diagnosticadas com o TEA e busca normalizar
a neurodiversidade.
Davi Daniel
de Oliveira, divide com Raquel, sua esposa, a jornada de paternidade de dois
meninos, um neuro-atípico e outro não. A família mora no interior de São Paulo,
serve no ministério infantil da Igreja Batista Memorial Alphaville, em São José
dos Campos, e busca viver um dia de cada vez.
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