Gafanhotos despidos
Para um viver, outro deve morrer. Para um continuar, outro
deve ficar. Para um crescer, outro deve doar
Por Julia Gomes
Dia claro, sol nada tímido, calor fumegante no campus de uma
universidade do interior paulista. Como uma boa bióloga, eu estava a caçar
gafanhotos para meu insetário para a disciplina de invertebrados. Enquanto
caminhava vasculhando cantos entre touceiras de matos, o Espírito Santo falava
comigo e me trouxe à memória um diálogo que tive com a professora Maria
Virgínia.
Metamorfose. A maioria dos insetos passa por este processo
para chegar à vida adulta, para tornar-se maduro. Alguns, mais de uma vez. São
trocas e trocas de mudas (como chamamos o tecido que o inseto troca) para que
ele possa crescer. A cada vez que seu corpo pede para crescer, o inseto se
despe a fim de revestir-se do novo. Mas quando, enfim, o inseto torna-se
maduro, reveste-se de sua última muda e pode ser chamado de indivíduo adulto,
ele morre, pois é efêmero. Ora, insetos adultos duram, em geral, semanas.
Alguns, apenas dias.
Soou-me cruel essa perspectiva de vida. Qual o propósito
destes seres de três pares de pernas? Questionei minha professora: “Qual,
então, o papel maior destes animais no ecossistema e por que morrerem no auge
não causa danos ao ambiente?”. Virgínia refletiu como quem recobra os anos de
experiência acadêmica, sorriu e disse: “Julia, eles servem de comida para
outros seres vivos”.
Agachada, abrindo o mato com as mãos, pensei: estou buscando
um animal cujo propósito final, após todo o processo de metamorfose, é ser
entregue para que outro possa sobreviver. Ironicamente eu, mamífera que sou,
primata ostentando cérebro desenvolvido com a capacidade de abstrair, estava
tendo aulas com os pequeninos gafanhotos que procurava.
A verdade é que por detrás de todo o equilíbrio que tece a
história natural da vida na Terra existe uma lei para a qual pouco atentamos,
mas que nos mantém vivos e cuja delicada harmonia depende e reside: para um
sobreviver, outro precisa ser entregue e morrer. C. S Lewis, grande pensador do
século 20 nos explica que a realidade natural expõe o que ele chamou de
Princípio da Vicariedade:
“A autossuficiência, que é viver com os próprios recursos, é
algo impossível em seu reino. Todas as coisas estão em dívida com todas as
outras, são sacrificadas a todas as outras, são dependentes de todas as outras.
E também aquidevemos reconhecer que o princípio em si mesmo não é nem bom nem
ruim. O gato vive com o rato de uma maneira que acho ruim; as abelhas com as
flores convivem de uma maneira mais agradável. O parasita vive em seu
hospedeiro, mas também o feto em sua mãe”. 1
Irei além. Isso é expresso nas estações do ano, na morte do
inverno ao renascimento da primavera, na juventude inebriante do verão aos
frutos maduros de outono, nas relações de teias alimentares, toda vez que
estamos a mesa com pratos fartos. Animais precisam comer, mesmo que sejam
plantas (ora, plantas são seres vivos!). Para um viver, outro deve morrer. Para
um continuar, outro deve ficar. Para um crescer, outro deve doar.
Aqueles gafanhotos que passei o dia procurando estavam
entregando suas vidas. Não a mim, pois eu sofri para os encontrar. Mas talvez a
outro animal mais sortudo e que estivesse precisando daquelas criaturas.
Pergunto-me: estamos vivendo para doar ou para receber? Para nutrir ou consumir
outros? Aprendemos que devemos amadurecer e, segundo estes insetos, nos despir
para colocar vestes que nos servem a fim de crescer.
Contudo, a diferença da finalidade do amadurecimento de um
ser humano e de inseto é marcada pelo benefício próprio. Nossa espécie quer
crescer a qualquer custo, não para doar, mas para sugar ainda mais. Não para
ser entregue, mas para receber. Não para morrer, mas para sobreviver. Quando
foi que, como células cancerígenas, esquecemos de morrer?
Entenda, não quero comparar nosso Cristo Vicário de igual
para igual com um gafanhoto. Mas permita-me esta abstração. O Princípio da
Vicariedade na natureza conta a narrativa divina. Nosso Criador se esvaziou ao
tornar-se criatura; porém, ao crescer num corpo de criança, nosso Deus
tornou-se homem maduro não como esperavam, o vingador hebreu, o rei
político-militar dos judeus. Não. Ele foi despido de sua muda divina, estando
mortalmente vulnerável e cravado no madeiro para sua última metamorfose, a
morte para o benefício de muitos.
Cristo, na última ceia com os seus discípulos, expressou a
Vicariedade como um memorial: “Enquanto comiam, Jesus pegou o pão, deu graças,
partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Peguem e comam; isto é o meu corpo’”
(Mt 26.26). Peguemos e comamos. Maturidade não é autossuficiência, dependemos
daqueles que nos nutrem até aqui e certamente dependeremos uns dos outros para
viver até o fim. Todavia, não podemos cair no outro erro de pensar que, porque
Ele se esvaziou e encarou a morte, nós não teremos de fazê-lo. Ele preparou o
caminho. Ele nos chama a carregar um madeiro e a morrermos (Lc 9.23). Somos
chamados a nos despir, nos vulnerabilizarmos, passar pela metamorfose, porque
somente quem morre experimenta ressurreição e será revestido de vestes novas
(2Co 5.2).
A vicariedade estampada em gafanhotos despidos que serão
devorados logo após sua maturidade se aplica a nós, exortando-nos à entrega
total. Ensina que nenhuma vida é tão pequena que não possa ser útil e
nutritiva. Assim, nossa vida deve ser nutriente para o próximo; e a maturidade
não deve ser um fim em si mesma, mas um meio para estar pronto para doar-se em
benefício de outrem, para saciar. Pois aquele que se doa imaturo ainda não tem
muito a oferecer, muito custa entregar quem muito tem a dar. Esse é o exemplo
do Criador, que no ápice de seu terreno viver, tudo entregou.
Nota
1 LEWIS, C. S. Milagres. Rio de Janeiro: Thomas Nelson
Brasil, 2021. p. 175.
Julia Gomes, 22 anos, é graduanda em ciências biológicas
pela UFSCar. Ama C. S. Lewis, café e a criação. @prosasprosaicas
Versão ampliada do artigo Gafanhotos despidos, publicado na
edição 415 de Ultimato.
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