Chamado de louco. Internado em hospícios. Morreu aos 41
anos. Sua obra ensinou o Brasil a dar nome à dor
Revista Bula POR REVISTA BULA
26/08/2025 - 13:45
O dia se abre no balanço metálico da Central do Brasil; o
apito rouco costura o vapor nos vidros. Em 1915, na Primeira República, “Triste
Fim de Policarpo Quaresma” sai em livro e Afonso Henriques de Lima Barreto,
amanuense na Secretaria da Guerra desde 1903, atravessa de trem o corredor das
estações. Um menino de mochila torta divide o banco com um funcionário de terno
gasto; pela janela, o subúrbio passa e afia a memória. Ao lado, um leitor dobra
a capa do romance; o mapa da cidade se dobra junto e as rotas do centro cedem
passagem às paradas longínquas. A cidade entra no expediente com um livro no
bolso e Lima permanece no vaivém, escrevendo dali, longe do verniz dos salões,
com a urgência de relógios que teimam em atrasar nos trilhos.
Antes de caber em planos de aula, Afonso Henriques de Lima
Barreto aprende a cidade pelo trajeto. Morador de Todos os Santos, na Zona
Norte, embarca todas as manhãs nos trens da Estrada de Ferro Central do Brasil
em direção às repartições junto à Praça da República. Na ida e volta, entre
bancos de madeira e pregões de plataforma, recolhe vozes e pequenos atropelos
que voltam com pequenas variações. O subúrbio, fora do cartão-postal, vira
laboratório e contraplano; dessa travessia nascem as escolhas: observar em
movimento, escrever em trânsito, ouvir a sintaxe de quem não dita o passo do
centro. O que muitos chamariam de cenário não é moldura; é o que move a cidade.
Pela janela, a paisagem social se revela em gradações de humilhação e
esperança, fachadas de tinta cansada, um orgulho que prefere o silêncio.
O emprego vem cedo e a literatura vem junto. Antes daquele
amanhecer de 1915, nos primeiros anos do século 20, já na repartição onde
servia, ele passa o dia curvado sobre livros de protocolo, copiadores e papéis
timbrados com o brasão da República; a caneta serve a dois patrões, o sustento
e a ficção. Copiar ofícios, ouvir o arrasto das gavetas, administrar chefes de
mau humor: tudo vira cadência de frase. Sua prosa absorve a fadiga dos carimbos
e a ambiguidade do documento que ordena e justifica. É ali, não num gabinete
acolchoado, que a frase encontra medida: direta sem simplificar, irônica sem
autoencanto, afinada à fala comum que décadas depois parecerá modernista sem
pedir senha a desfile algum. Quando o expediente se apaga no miolo da cidade, a
escrita continua, na volta, em folhas baratas e anotações que guardam o pó do
caminho.
Em 1909, com “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”,
publicado em Lisboa, Lima arrasta a redação para a luz dura: a imprensa aparece
como engrenagem de favores e hierarquias de rebaixamento, um filtro de seleção
racial. A questão não surge como adjetivo moral, mas como critério de acesso.
Lido hoje, o livro ainda corta. Em vida, esse corte cobrou preço: resenhas
atravessadas, silêncios de caderno cultural, fechaduras que não cederam. O
autor tentará por três vezes a cadeira na Academia Brasileira de Letras;
nenhuma candidatura prosperará. Não é desacordo de gosto: é a marca de cor e de
classe incidindo sobre a instituição que dizia zelar pelo idioma.
A sequência não abranda: o que Lima escreve é, antes de
tudo, um homem tentando permanecer inteiro. Em “Triste Fim de Policarpo
Quaresma”, o patriota carrega uma paciência ferida; deseja um país que responda
por sua palavra e encontra repartições que engolem a voz. O nacionalismo chega
como febre que não cede, e o Estado, com léxico reto e dossiês, rubrica
esperanças até que percam o nome. A força do livro não está no excesso, mas na
variação sutil dos gestos: a carta protocolada, a fila que anda, o chefe cortês
que desvia o olhar; quando a roda parece aplainar-se, é a própria correção que
o amassa. Depois, em “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, entra um afeto que
Lima raramente exibia em público: a amizade como abrigo e lâmpada. O veterano
descreve ruas e salas com doçura seca, e o narrador mais moço aprende a
caminhar por salas oficiais, bibliotecas, funerais discretos, esquinas que
lembram datas e esquecem gente. Há ternura e raiva na mesma frase, e é esse
homem, fatigado, curioso, vulnerável, que observa a cidade e a devolve sem
cosmética ao leitor.
Lima Barreto
Internado em hospícios, chamado de louco, morreu aos 41
anos; a voz que ensinou o país a reconhecer a própria ferido.
Antes e depois de 1919, nada disso impede o escuro. Em 1914,
os portões de ferro do Hospício Nacional de Alienados se fecham atrás dele; a
ficha de entrada recolhe nome, idade, ofício e residência, e a caneta que
servia o Estado agora descreve o corpo do escritor. Corredores altos, paredes
caiadas, cheiro de creolina, passos que reverberam no azulejo; no pátio, o
vento chega enfraquecido, sem notícia de rua. Em 1919, ele retorna, agora em
outro pavilhão do sistema manicomial do Rio, um complexo que acende luzes cedo
e recolhe tarde. Dali saem “Diário do Hospício” e “O Cemitério dos Vivos”: não
confissão, mas trabalho de consciência diante da instituição. Os cadernos anotam
a rotina que dobra os dias, a enfermaria onde se partilham remédios e silêncio,
a vigilância que mede gestos, a autoridade satisfeita de si, a vergonha que
visita de madrugada e não pede licença. Lidos com atenção, esses textos pedem
cuidado: falar de saúde mental exige contexto e voz baixa. Ele oferece os dois.
Há ternura seca pelos que dividem a cama estreita e o pão contado, há ironia
contra a ciência do tempo, há coragem de nomear o que fere sem exibir a ferida.
O que poderia afundá-lo vira forma; a experiência busca a frase que sustente a
dignidade e não negocie com o espetáculo. É o momento trágico: um homem cercado
por chaves escreve para não se perder de si.
Se a recepção em vida foi estreita, o tempo não devolve o
que negou; quando muito, deixa a porta entreaberta. Por essa fresta entra o
país, de passo contido, para reler o homem que empurrou para fora de cena.
Francisco de Assis Barbosa recompõe os dias e devolve ao arquivo uma
respiração; em 2017, “Lima Barreto: Triste Visionário”, de Lilia Moritz
Schwarcz, recoloca as peças no pós-Abolição e expõe, com calma firme, a velha
engenharia do veto. Nas mesas de trabalho, abrem-se volumes de lombada refeita,
papel áspero e notas marginais; nas festas de literatura, o burburinho se
aquieta; nas edições recentes, o aparato crítico não lixa a aspereza. Não há
triunfo aqui, há vigília. O reconhecimento tardio não fecha a ferida, mas
impede que se fechem os olhos: ler Lima hoje é vigiar a repetição.
A presença de Lima hoje não é ruído de agenda. Entre 1881 e
1922, atravessou o pós-Abolição com uma ética de olhar que ainda constrange. Em
uma noite de sarau, quando as cadeiras de plástico rangem e a luz amarela
derrama sombra nos rostos, não ecoam apenas citações; entra a figura de um
homem que aprendeu a dizer não sem gritar e a nomear injustiças sem humilhar.
Ele representa quem chegou por fora e, ainda assim, recusou pedir licença; quem
suportou o riso alheio sem transformar a raiva em espetáculo; quem fez da
ironia um modo de pensar, e não um truque. É por isso que sua atualidade
ultrapassa as páginas: leitores de ônibus reconhecem o passo curto e a cabeça
erguida, auditórios de bairro suspendem a conversa quando a lembrança dele
entra, jovens com cadernos no colo descobrem que é possível escrever com ternura
e precisão ao mesmo tempo. A importância desse homem está menos no catálogo e
mais na ética encarnada: o compromisso de olhar de perto, a recusa do brilho
fácil, a coragem de sustentar o próprio lugar no mundo; quem o lê hoje não
procura monumento, procura companhia.
O que parecia palavra gasta reencontra peso no homem e nos
livros. Reunidos, esses livros montam um Brasil urbano em construção, moderno
no discurso e antigo no balcão de sempre, regulado por regras que não estão no
Código e por portas que cedem um palmo e travam. Não há proclamações; há um
rosto que atravessa salas e bondes e, ao fim do dia, aprende a chamar cada
afronta pelo nome.
Na madrugada de 1º de novembro de 1922, em uma casa modesta
de Todos os Santos, o coração falha. Quarenta e um anos. Colapso cardíaco.
Sobre a mesa, cadernos e livros abertos; na vizinhança, passos contidos no
corredor. Dias depois, o pai morre. O caixão desce no São João Batista. No
mesmo ano, em fevereiro, São Paulo celebrou novidade no seu Theatro Municipal; no
fim desse calendário, o Rio perde o homem que vinha escrevendo o país fora do
foco.
E então o fim encontra forma. O apito distante da manhã
parece voltar, e a página, já fechada, continua a mover a cidade. Não há
milagre nem reparo que quite a ausência. Há o subúrbio de respiração curta,
galerias públicas ainda cheias de protocolos de praxe, e a lembrança de um
homem que preferiu lucidez a cerimônia e fez da língua um abrigo contra a
humilhação. A literatura que nasceu em trânsito permanece de pé nas mãos de
quem atravessa a cidade; o trem chega, o leitor guarda o livro, a vida
recomeça. No vão entre uma estação e outra, Lima Barreto continua, não estátua,
mas presença, e a cidade, sem pedir licença, lê seu próprio rosto.
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