domingo, 30 de novembro de 2025

ESTUDOS...01

 

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https://youtu.be/BppeVYViK9g?si=Pztotpbz_1Z4WBA6 //Promessa

 

 

MÚSICAS:

https://youtu.be/JR-v5KWTnGQ?si=it1r9T-BoIrNFSRm //Músicas

NOTAS...01

 

 

https://youtube.com/shorts/drsocyCQeD8?si=Y0TVTvBZXztVLkX6

 

https://youtu.be/UvKjScuudss?si=TNUrSvDk7LwQmjEB

 

 

https://clickpetroleoegas.com.br/por-que-a-franca-tem-sua-maior-fronteira-com-o-brasil-e-quase-ninguem-fala-disso-mesmo-com-euro-e-passaporte-europeu-do-outro-lado-do-rio-btl96/

 

 

https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/pedra-preciosa-opala-rara-brasil-que-quase-nao-existe-no-mundo/

MUNDO AFRO...06

 

Gertrudes de Jesus, uma mulher negra à frente do movimento abolicionista em Pernambuco.

Texto: Mariama Correia | Edição: Bruno Fonseca

Quando anoitecia, as embarcações deslizavam sorrateiramente pelo Rio Capibaribe, no Recife. Elas estavam abarrotadas de pessoas escravizadas fugidas, escondidas debaixo de feixes de palha. O destino final era o Cais do Porto, de onde homens, mulheres e crianças seguiam para outras províncias, principalmente o Ceará, que já tinham abolido a escravidão em março de 1884.

 

O Recife cresceu seguindo o curso das águas do Capibaribe, uma estrada fluvial que servia para transporte e por onde se escoava mercadorias, principalmente o açúcar produzido nos engenhos. No final do século 19, o rio tornou-se também uma rota secreta para as fugas de escravizados. Estima-se que, ao menos, três mil escravizados teriam fugido pela rota do rio entre 1884 e 1888, com ajuda de movimentos abolicionistas, sobretudo o Clube do Cupim.

 

Essa associação secreta e ilegal, fundada na capital pernambucana, era formada por ativistas de vários lugares do país. A maioria eram homens brancos abastados, com grande influência na sociedade, mas havia também mulheres negras libertas, embora a participação delas nos movimentos abolicionistas tenha sido relegada pela historiografia oficial. O fato é que, ainda que não sejam apontadas como protagonistas, as mulheres negras, escravizadas ou libertas, estiveram na linha de frente da luta contra a escravidão no Brasil. Uma delas foi Gertrudes Maria de Jesus.

 

A trajetória dela foi mapeada pelos pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriana Santana, Arthur Danillo Castelo Branco e José Bento Rosa da Silva. Eles apontam que Gertrudes de Jesus era “parte do primeiro escalão de auxiliares, os chamados ‘internos’ do Clube do Cupim” e “a única mulher negra reconhecidamente abolicionista a aparecer em uma fotografia no início do século 20”. O registro é uma edição de 14 de maio de 1910 do Jornal Pequeno, que circulava no Recife. Ela é a única mulher da foto entre nove homens, que aparecem atrás de uma miniatura da jangada da organização, um símbolo de liberdade.

 

“Na hierarquia, ela estava acima de mulheres brancas de elite, que eram auxiliares externas. Era provavelmente tão importante quanto os mais destacados auxiliares internos, todos os homens, frequentemente mencionados na documentação e nas fotografias”, explica Santana.

 

O Clube do Cupim era uma rede que corroia as estruturas da escravidão por dentro, organizando fugas, libertações e trabalhos para os ex-escravizados. Os chamados “cupins” se comportavam como espiões: se comunicavam em linguagem codificada, adotavam pseudônimos, e conseguiam burlar a polícia e a justiça com agentes secretos infiltrados em diversas esferas da sociedade, incluindo órgãos públicos.

 

A casa de Gertrudes, que ficava em uma área central da cidade, funcionava como um entreposto do Clube do Cupim, segundo Santana. Os canoeiros, geralmente homens negros libertos que ajudavam outros cativos, precisavam conhecer bem o traçado sinuoso do rio e tomar cuidado porque a polícia montava postos secretos no curso das águas.

 

“A casa dela era uma ‘panela’, ou seja, um local que escondia os escravizados até a hora do embarque final. Ela fazia parte do coração da organização. Era líder de um quilombo urbano”, explica. “Por ser negra e não ter tantas condições materiais como mulheres brancas que participavam do Clube do Cupim, ela corria muito mais riscos em abrigar escravizados na sua casa”, acrescenta Santana. 

 

 

As fugas realizadas pelo rio eram épicas. O embarque era feito a partir das “panelas”, esconderijos espalhados pelas cidades, do interior à capital, que abrigavam os escravizados. Os planos de fuga eram “sussurrados entre os cativos e os cupins, a conspiração noturna das senzalas”, escreve o pesquisador Felipe Azevedo e Souza, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que registra as estratégias.

 

“Existem registros de que os escravizados custeavam parcialmente as despesas das fugas e há todo um anedotário sobre os diferentes expedientes utilizados pelos escravizados para desaparecer. Alguns sumiram na agitação dos dias de carnaval, uma outra embebedou seu senhor. Os disfarces também eram comuns – Miquelina, mucama de um casarão na Madalena [bairro da zona norte da cidade], saiu de sinhá, com vestido à francesa, chapéu, sapatos lustrados e pó de arroz,” descreve Azevedo e Souza.

 

No jornal A Província, de 21 de maio de 1918, uma crônica descrevia o dia em que os cocheiros de uma casa funerária precisaram simular um cortejo fúnebre, levando escravizados dentro de caixões e disfarçados em trajes de luto até as embarcações. A “legendária jangada” dos cupins, como citou o Jornal do Recife de 13 de maio de 1890, realizou muitas outras façanhas.

 

Trecho do Jornal do Recife, edição de 1890

A última grande fuga protagonizada pela associação secreta aconteceu em 23 de abril de 1888, quando foram embarcados 119 escravizados de uma só vez. O grupo saiu à noite, em uma canoa de capim, do bairro do Poço da Panela, zona norte da cidade, um reduto abolicionista onde ficava a casa do político José Mariano, que abrigava escravizados fugidos junto com sua esposa Olegária da Costa Gama, conhecida como dona Olegarinha.

 

O casal branco é reverenciado até hoje entre os principais ativistas do abolicionismo pernambucano, com homenagens pela cidade, como nome de lugares públicos, como o Cais José Mariano, e exposições em museus. Do Poço da Panela, segundo os registros históricos, o barco desceu até a Capunga, atualmente a área do bairro das Graças, que fica próximo ao centro da cidade, sendo rebocados por dois botes até o cais e, de lá, para a liberdade.

 

Uma mulher negra que resistiu à escravidão e ao esquecimento

Os pesquisadores da UFPE encontraram outros registros da participação de Gertrudes de Jesus na linha de frente do clube abolicionista. “Ao narrar a passeata de despedida que o Clube do Cupim fez pelas ruas do Recife logo após a Abolição, em 23 de maio de 1888, Fernando de Castro Paes Barreto, membro interno do Clube, citou que após deixarem a casa de Dom Leonor Porto, os abolicionistas seguiram à casa ‘da mulata Gertrudes’, auxiliar interna do Clube. Iam agradecê-la pelos serviços prestados à causa”, descreveram em artigo, com base em documentos da época.

 

“[Ela] não apenas resistiu à escravidão, mas também ao esquecimento histórico, forçando os abolicionistas brancos – responsáveis pela construção das narrativas e documentos sobre o movimento – a reconhecê-la como uma liderança fundamental e agente crucial na árdua e prolongada missão de erradicar a escravidão no Brasil”, dizem os pesquisadores.

 

O Brasil, com destaque para a região Nordeste, foi onde mais se registrou alforria de cativos nas Américas. Depois que o tráfico negreiro foi proibido, a Lei do Ventre Livre (1971), além de libertar os filhos de escravizadas nascidos no Brasil, reconheceu o direito dos cativos de juntarem dinheiro, alugar seus serviços e comprarem sua própria liberdade.

 

Os pesquisadores da UFPE destacam a prevalência de mulheres negras na atuação pela compra de alforrias e na busca por liberdade, seja delas mesmas ou das suas famílias. Eles citam as mulheres de Feira de Santana, na então Província da Bahia, que entre os anos de 1850 e 1888 foram maioria entre as cartas de liberdade. Também uma análise de mais de 150 processos que tramitaram no Tribunal de Campinas, na Província de São Paulo, onde foi identificada a predominância feminina nos autos e ações por liberdade.

 

 

Em Pernambuco, os pesquisadores afirmam que “há consistentes provas documentais da ação direta de mulheres cativas, libertas e livres em processos de alforria e de coordenação de fugas de escravizados.” Um dos casos que eles descobriram durante a pesquisa foi o da escravizada Josepha, indicada nos documentos da Justiça apenas pelo primeiro nome e como “ex-escrava de Luís da Costa Gomes”, no distrito de São Bento, atualmente a cidade de São Bento do Una, na Zona da Mata pernambucana.

 

Josepha pedia pela libertação de seus dois filhos, identificados apenas como João e Izidoro. Ela argumentava que, antes de ser alforriada, havia sido matriculada pelo antigo senhor como “mulher sem filiação”, ou seja, que não teria filhos. Assim, defendia que sua prole seria automaticamente livre, em função dessa ausência de informações. Mas, seu pedido foi negado pela Justiça. A sentença foi publicada na edição de 14 de outubro de 1887 do Diario de Pernambuco.

 

Nas buscas documentais, os pesquisadores da UFPE encontraram ainda registros de uma outra Gertrudes, que também lutava pela liberdade em Pernambuco, nesse caso, da sua filha. A africana Gertrudes Rosário aparece em um processo judicial de 1890, acusada e presa pelo rapto de uma criança. Contudo, as peças processuais mostraram que o ato cometido por ela poderia ter sido enquadrado como uma tentativa de resgate.

 

No depoimento, Gertrudes Rosário disse que tinha 21 anos e fazia serviços domésticos. Segundo o pedido habeas corpus, ela tinha sido escravizada por uma família e embarcada ao Pará, destino de muitos escravizados fugidos, deixando uma filha de quatro anos com os antigos senhores. Com a informação de que a família iria se mudar de Pernambuco para o Ceará, Rosário voltou ao Recife, mas, ao chegar, a família teria se negado a devolver a criança. Assim, ela teria encarregado uma conhecida para buscar sua menina, que, por engano, teria levado a filha dos ex-senhores. Nos documentos resgatados pelos estudiosos, Gertrudes Rosário confirma que a menina não era sua filha. Ela chegou a ser julgada e foi absolvida, mas não se sabe se foi capaz de resgatar sua filha depois disso.

 

 

“Esquecimento seletivo” de mulheres negras na abolição

Além de Gertrudes de Jesus há, segundo os estudiosos, outras mulheres mencionadas como sócias auxiliares do Clube do Cupim. Olegária Gama Carneiro da Cunha, esposa de José Mariano, que era uma auxiliar externa ficou conhecida por entregar suas joias para financiar a campanha de Joaquim Nabuco, reconhecido como um dos principais nomes do abolicionismo brasileiro, para deputado.

 

“Todos os relatos indicam que ela fez isso por vontade própria, da mesma forma que teria empenhado seu anel de noivado para a compra de alforria de um jovem escravizado que sofria torturas num engenho”, explica a pesquisadora Adriana Santana.

 

Além do Clube do Cupim, operava no Recife a associação Ave Libertas, exclusivamente feminina, fundada por senhoras da sociedade pernambucana, entre elas Leonor Porto. Juntos, os “cupins” e as sócias do Ave Libertas promoviam ações planejadas e sincronizadas de fuga, um sistema coordenado e pulverizado que dificultava seu mapeamento e consequente repressão.

 

Olegária da Cunha se vinculou à Ave Libertas aos 25 anos. Ela morreu aos 38, deixando vários registros documentais da sua participação tanto em atividades como o financiamento das libertações quanto no acolhimento de escravizados em casa quanto no auxílio das fugas por barco.

 

Santana observa que, enquanto lutavam pelo fim da escravidão, essas mulheres também se posicinavam pelos seus direitos. Contudo, se para as mulheres brancas e ricas que se juntaram à causa já foi negado o protagonismo da luta abolicionista pela historiografia, no caso das mulheres negras, o “esquecimento é seletivo”.

 

Os pesquisadores não encontraram informações sobre o que aconteceu com Gertrudes de Jesus depois que a escravidão foi abolida. Para Santana, “mulheres negras do passado, como Gertrudes, tentavam burlar os silenciamentos com ações que só conseguimos enxergar hoje”. “Elas jogaram uma mensagem ao futuro. Deixaram rastros em processos judiciais, em ações por liberdade, em atas de clubes abolicionistas, em menções tímidas nos jornais. Abriram terreno para a luta das mulheres negras, que, infelizmente, ainda encontram eco nas desigualdades, injustiças, opressão e omissões.”

 

O fim do tráfico negreiro já tinha sido estabelecido em 1850 e, depois, a Lei do Ventre Livre (1871), além de estabelecer a liberdade para filhos de mulheres escravizadas, permitiu o direito de juntar dinheiro, de doações ou do próprio trabalho, para comprar a alforria.

NOTAS...01





 

VÍDEOS...+03




 

sábado, 29 de novembro de 2025

NOTÍCIAS...03






 

NOTÍCIAS...02

 

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FATOS...01

 

 

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VÍDEOS...+03




 

CORES DO BRASIL

 



 

As 136 cores da pele brasileira, uma ferida que é também um poema

50 anos atrás, o IBGE perguntou aos brasileiros a cor da pele. O resultado é um poema-palavra com as expressões que brasileiros escolheram

Conceição Freitas

19/11/2025

 

Reprodução da obra Operária, de Tarsila do Amaral, 1933, tirado de www.infoescola.com

Os Operários _Metrópoles

Há um retrato colorido, criativo, metafórico, bem humorado, por vezes irônico, e muito revelador do quanto nós, brasileiros, continuamos sem saber lidar com as muitas cores da nossa pele. Haverá outro país no mundo com tantas variedades de lápis de cor? Se essa é a ferida aberta da alma brasileira, nela é possível identificar nosso modo muito criativo de lidar com as nossas dores.

 

Quase 50 anos atrás, o IBGE pegou lápis e papel e bateu na porta dos brasileiros para perguntar a cor da pele dos entrevistados. Não deu opções, não deu cola, deixou que a pessoa se resolvesse sozinha. O resultado é em si mesmo um poema-palavra feito com as expressões que os brasileiros escolheram, no rompante, para definir a cor da própria pele.

 

Os recenseadores anotaram 136 expressões diferentes – algumas feitas de palavras compostas, outras de palavras simples, alguns diminutivos, algumas metáforas regionais. Cada entrevistado deu seu jeito para sair daquela enrascada na porta de casa. Vale lembrar que a pessoa podia dizer simplesmente preto, branco ou pardo, mas era uma enrascada, quase uma pegadinha. Naquele tempo (e até hoje), a pergunta era por demais espinhosa.

 

A Pesquisa por Amostra de Domicílio (PNAD) feita pelo IBGE em 1976 resultou em um retrato feito com 136 cores deste país tão diferente de todos os outros. Uma paleta pra deixar os grandes das cores fortes, Van Gogh, Paul Klee, Tarsila, Portinari, Djanira, Adriana Varejão, esses e tantos outros, em surto criativo.

 

Embora tenha revelado o racismo escondido em cada uma das expressões usadas, revelou também a criatividade brasileira para dizer de outro jeito o que é muito difícil de dizer. De se querer branca nem que fosse “branca queimada”. De não se querer negro, daí chamar a própria cor da pele de “alva escura”. Um jeito de se revelar querendo se esconder.

 

 

Vale lembrar que essa pesquisa foi feita há quase meio século e que de lá pra cá muita coisa mudou, até a metodologia do IBGE, que no censo de 2022 ofereceu ao entrevistado cinco opções: branca, preta, parda, amarela e indígena.

 

Ficou previsível e chato.

 

O modo como o Brasil lida com o racismo também não é mais o mesmo, mas a ferida é profunda demais, segue sangrando. Porém, como nada nesse mundo é uma coisa só, a riqueza das analogias ditas espontaneamente pelos brasileiros ouvidos na PNAD/1976 é um pequeno autorretrato colorido desse país continental e complexo.

 

 

(Entre as 136 cores há uma pela qual meu pai me chamava de vez em quando, como quem faz um carinho. Ele dizia que eu tinha cor de burro quando foge).

 

Separei as 136 cores por parágrafos:



 

 

Acastanhada, agalegada, alva, alva escura, alvarenta, alva rosada, alvinha, amarela, amarelada, amarela queimada, amarelosa, amorenada, avermelhada, azul, azul marinho.

 

Baiano, bem branca, bem clara, bem morena, branca, branca avermelhada, branca melada, branca pálida, branca queimada, branca sardenta, branca suja, branquiça, branquinha, bronze, bronzeada, bugrezinha escura, burro quando foge.

 

Cabocla, cabo verde, café, café com leite, canela, canelaça, cardão, castanha, castanha clara, castanha escura, chocolate, clara, clarinha, cobre, corada, cor de café, cor de canela, cor de cuia, cor de leite, cor de ouro, cor de rosa, crioula.

 

Encerada, enxofrada, esbranquicento, escura, escurinha.

Fogoió.

Galega, galegada.

Jambo.

Laranja, lilás, loira, loira clara, loura, lourinha.

Mulata, marinheira, marrom, meio amarela, meio branca, meio morena, meio preta, melada, mestiça, miscigenação, mista, morena, morena bem chegada, morena bronzeada, morena canelada, morena castanha, morena clara, morena cor de canela, morena cor da jambo, morenada, morena escura, morena fechada, morenão, morena parda, morena roxa, morena ruiva, morena trigueira, moreninha, mulata, mulatinha.

Negra, negrota.

Pálida, paraíba, parda, parda clara, polaca, pouco clara, pouco morena, preta, pretinha, puxa pra branca.

Quase negra, queimada, queimada de praia, queimada de sol.

Regular, retinta, rosa, rosada, rosa queimada, roxa, ruiva, russo.

Sapecada, sarará, saraúba.

Tostada, trigo, trigueira, turva.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

NOTÍCIAS...01

 

 

https://youtu.be/UZVpE_Yibl4?si=EP7b9US97VWFeIQy

 

 

https://youtube.com/shorts/fbjlCEhoEj0?si=y9d9hlhl8uTjR-Dz

 

 

https://www.instagram.com/reel/DREmbOODoDX/?igsh=MWVwNnBwdW95NHVoaQ==

 

 

https://m.facebook.com/reel/700572142766831/?referral_source=external_deeplink

 

 

https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/76249/cavalos-teriam-sido-retirados-para-que-mulheres-negras-fossem-alojadas-em-estabulos-em-evento-do-governo-do-amor-veja-o-video

CORDEL



 

MUNDO AFRO...05

 

As personalidades históricas cuja origem negra você talvez não conheça

Imagens de Machado de Assis, Dumas, Nilo Peçanha, Puskin, Chiquinha Gonzaga e Lima Barrreto em colagem, com fundo manuscrito

20 novembro 2025

Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos e idealizador da Academia Brasileira de Letras (ABL), não era branco — como muitas imagens em livros escolares o retratam.

 

Assim como Chiquinha Gonzaga, um dos pilares mais importantes da música brasileira, que já foi interpretada por atrizes brancas.

 

E talvez você não saiba, mas o Brasil já teve um presidente considerado negro: Nilo Peçanha governou o país de 1909 a 1910.

 

"Toda pessoa afro que, ao longo da história, foi muito importante para a humanidade, acabou embranquecida ou neutralizada", diz à BBC News Brasil o filósofo e teólogo David Santos, frade franciscano e fundador da organização Educafro Brasil.

 

Para a pesquisadora em política públicas Roberta Basilio, a omissão da origem negra de personalidades históricas tem a ver com uma "necessidade de negar que uma pessoa negra possa ser tão genial".

 

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"O racismo precisa embranquecer as personalidades porque assim fica 'mais fácil' reconhecer a genialidade, o talento e a potência dessas pessoas", diz Basílio, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

 

Especialistas entrevistados pela BBC News Brasil alertam para os limites de se usar termos e discussões contemporâneas sobre raça ao falar de histórias de outras épocas, quando muitos desses termos nem existiam.

 

Mas eles também apontaram para a importância desse tipo de resgate por movimentos antirracistas atuais — até porque muitas dessas figuras sofreram racismo em vida.

 

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A seguir, confira histórias de personalidades famosas que foram "embranquecidas" ou tiveram sua origem negra pouco enfatizada ao longo do tempo.

 

Machado de Assis

Retrato de Machado de Assis

CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC

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Quando Machado de Assis (1839-1908) morreu, sua certidão de óbito afirmava que sua cor era "branca".

 

E foi com tons clareados que sua imagem povoou contracapas de suas obras e páginas de apostilas escolares durante todo o século 20.

 

Sabe-se que ele era filho de pai pardo, alforriado, e mãe branca.

 

Em vida, era considerado mulato. Ou "pessoa de cor", como se dizia comumente na época.

 

Isso é possível de notar pelas poucas fotografias do escritor e também por cartas da época.

 

Em 6 de junho de 1871, por exemplo, o poeta português Gonçalves Crespo (1846-1883) redigiu uma missiva ao brasileiro na qual afirmou que nutria "uma certa simpatia" por ele "quando me disseram que era… de cor como eu".

 

No obituário publicado no Jornal do Commercio — escrito pelo jornalista e escritor José Veríssimo (1857-1916), que era seu amigo —, Assis foi definido como "mulato".

 

Em conferências proferidas entre 1915 e 1917 sobre o legado de Machado, o jornalista, advogado e crítico Alfredo Pujol (1865-1930) pontuou que o escritor era filho "de um casal de gente de cor" e teria sofrido "agruras" por conta de "preconceitos de cor".

 

E na biografia escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada em 1936, o escritor é chamado de "mulatinho", "mestiço" e "pardinho" pela autora.

 

Gradualmente, contudo, Machado de Assis foi "embranquecido" em imagens reproduzidas em livros, inclusive os didáticos.

 

Há, no entanto, esforços para tentar reverter esse processo.

 

Em 2021, a Universidade Zumbi dos Palmares lançou uma campanha com um abaixo-assinado pressionando que as editoras deixassem de imprimir e comercializar livros em que o escritor aparecesse como branco.

 

Lima Barreto

Retrato de Lima Barreto

CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC

Outro exemplo importante é o escritor Lima Barreto (1881-1922).

 

Filho de pais negros e neto de escravizados, ele sofreu preconceito ao longo da vida e parecia ter consciência racial — demonstrando isso em sua obra.

 

O romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha é considerado de teor autobiográfico por retratar preconceitos raciais e sociais.

 

Conforme revelado em seu póstumo livro Diário Íntimo, quando tinha 23 anos, ele anotou que tinha a ideia de escrever um "romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda".

 

Barreto afirmou que pretendia fazer um "Germinal negro", aludindo ao clássico romance Germinal, do francês Émile Zola (1840-1902).

 

Na biografia Lima Barreto: Triste Visionário, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz destaca que os conflitos de cunho racial estavam sempre em evidência nos escritos de Barreto, seja nas tramas de seus livros, seja em suas anotações pessoais.

 

A pesquisadora relata que quando o escritor, adolescente, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e se viu como único afrodescendente em uma turma formada por brancos, filhos da elite, adquiriu consciência de sua negritude — e de como o racismo operava.

 

Livros como o de Schwarcz têm contribuído para dar a devida contextualização racial a essas personalidades brasileiras.

 

Chiquinha Gonzaga

Retrato de Chiquinha Gonzaga

CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC

Para a pesquisadora Roberta Basilio, a mídia historicamente teve um papel nos "embranquecimentos" — como na escolha de atores e atrizes com peles mais claras que as pessoas reais retratadas nas novelas.

 

Basílio cita como exemplo a minissérie da Globo que contou a história de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) em 1999.

 

Na trama, a musicista foi intepretada por duas atrizes brancas: Gabriela Duarte, quando jovem, e Regina Duarte, mais velha.

 

Chiquinha era filha de uma negra liberta com um militar branco.

 

Ela não só tinha consciência de sua origem racial como se envolveu intensamente na luta abolicionista durante a segunda metade do século 20.

 

A musicista tinha muitos amigos negros e vendia partituras para comprar cartas de alforria — e, assim, libertar escravizados.

 

Mas não há registros de que se via como negra. Em sua época, tinha a pele considerada morena.

 

Nilo Peçanha

Retrato de Nilo Peçanha

CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC

Até hoje, o Brasil só teve um presidente considerado negro: Nilo Peçanha (1867-1924).

 

Vice de Afonso Pena (1847-1909), assumiu o cargo quando este morreu por pneumonia e presidiu o país entre 1909 e 1910.

 

Em sua época ou mesmo hoje, alguns o consideram pardo ou mestiço, outros como negro.

 

Fato é que, em seu tempo, oposicionistas classificavam o presidente como mulato como forma de desaboná-lo.

 

Traços negros eram enfatizados em charges para atacá-lo.

 

Na juventude, Nilo Peçanha participou da luta abolicionista e da campanha republicana.

 

Senador de 1997 a 1999, o ator e intelectual negro Abdias do Nascimento (1914-2011), autor de obras como O Genocídio do Negro Brasileiro, enalteceu políticos afrodescendentes em seu discurso de posse e se lembrou da omissão da origem negra de Peçanha ao longo da história.

 

Nascimento contou que, certa vez, chegou a aventar a possibilidade de escrever ele próprio um livro sobre "os grandes africanos que ajudaram a construir este país". Para tanto, procurou um descendente de Peçanha.

 

"Resultado: fui repreendido por esse membro da família, que não admitia sequer a mestiçagem [dele], considerando tal versão uma infâmia", proferiu, em seu discurso.

 

Na fala, Abdias do Nascimento não se limitou a abordar a negritude de Nilo Peçanha.

 

Ele recordou outros políticos que, para ele, seriam considerados negros. E citou dois também ex-presidentes que, segundo suas pesquisas, teriam ancestralidade africana: Rodrigues Alves (1848-1919), que presidiu o país de 1902 a 1906; e Tancredo Neves (1910-1985), o primeiro civil escolhido para comandar o país após a ditadura, que morreu antes de tomar posse.

 

Para Nascimento, os biógrafos de Rodrigues Alves se fixaram na nacionalidade portuguesa do pai do ex-presidente para ignorar a sua negritude, origem de sua mãe afro-brasileira, Isabel Perpétua.

 

Sobre Tancredo Neves, Nascimento disse que não seria "leviano" afirmar que em suas "veias" corria "também o nobre sangue africano".

 

Para tanto, dizia levar "em consideração seus traços fisionômicos, assim como de muitos de seus familiares".

 

Abdias do Nascimento conhecia Tancredo Neves pessoalmente. Ele era deputado federal nos anos 1980 e integrou o colégio eleitoral que escolheu o mineiro para ser presidente na redemocratização.

 

Pedro Lessa

Um pouco depois da presidência de Nilo Peçanha, o Supremo Tribunal Federal (STF) teve seu primeiro membro afrodescendente, o jurista Pedro Lessa (1859-1921).

 

Ele se considerava mulato e foi nomeado em 1907.

 

No entanto, sua ascendência negra era tabu mesmo dentro da família.

 

Em reportagem publicada em 2014 pela Folha de S. Paulo, uma de suas bisnetas, Lúcia Lessa, contou que só na adolescência soube que o ilustre antepassado tinha essa origem — e que, quando perguntada sobre, a mãe tentou desconversar.

 

"Uma vez, minha irmã perguntou à minha mãe se ele era negro. Minha mãe tentou desconversar. Só com o tempo fomos entendendo isso", contou a bisneta ao jornal.

 

Presidente do Brasil de 1919 a 1922, o jurista Epitácio Pessoa (1865-1942) era um dos muitos que debochavam das raízes africanas de Lessa com frases e termos racistas.

 

Os irmãos Rebouças

Os irmãos André Rebouças (1838-1898) e Antônio Rebouças (1839-1874) são considerados os primeiros engenheiros negros do país e ganharam notoriedade profissional em vida.

 

André Rebouças foi um ativo militante pelo fim do regime escravocrata, integrando a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista.

 

Também foi um dos criadores dos estatutos da Associação Central de Emancipação dos Escravos.

 

Nessa época, viajou aos Estados Unidos — onde, segundo relatos, sofreu preconceito racial.

 

Mais tarde, nos anos 1890, trabalhou em Luanda, na Angola, por 15 meses. Também morou em Moçambique e na atual África do Sul.

 

Só então passou a entender o continente africano como sua "terra de origem" e a se declarar como homem negro.

 

Essa experiência é contada no livro Cartas da África - Registro de Correspondência 1891-1893, organizado pela historiadora Hebe Mattos, professora na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

 

Nessas cartas, Rebouças refere-se a si próprio como "africano" e como "Negro André", como constatou a historiadora.

 

Já Antônio especializou-se em construção de portos marítimos e estradas de ferro na Europa, para onde foi em 1858 — ficaria quatro anos aprendendo técnicas inovadoras no velho continente.

 

Voltou ao Brasil e planejou obras importantes, como a ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá. Mas morreu cedo, aos 35 anos, vítima de malária — antes, inclusive, do auge da luta abolicionista.

 

De acordo com Hebe Mattos, a questão racial permeou a trajetória da família Rebouças — que, apesar de ter circulado na elite da época, sofria preconceito, com comentários racistas e xingamentos evocando sua cor da pele.

 

A mãe dos irmãos Rebouças era branca, mas o pai deles era filho de um alfaiate com uma mulher que algumas fontes acadêmicas dizem ter sido uma escravizada alforriada, outras nascida livre.

 

O político e advogado Antônio Pereira Rebouças (1798-1880) pisava em ovos ao se posicionar na alta sociedade soteropolitana, que frequentava.

 

Defendia medidas que diminuíssem a escravidão do Brasil, como o fim do tráfico negreiro, mas tomava cuidado em seus posicionamentos porque temia ser visto como radical.

 

Ele se definia como "liberal moderado" e afirmava acreditar na igualdade dos direitos civis para todos os brasileiros — deixando implícito que a cor da pele não deveria ser empecilho. Mas era contra revoltas e motins, argumentando que as mudanças deveriam vir pela política.

 

André Rebouças, que viu o Brasil pós-abolição, teve um fim de vida melancólico, decepcionado. Ele argumentava que sem a democratização no acesso a terras e propriedades, o problema racial do país não seria resolvido.

 

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O risco do anacronismo

Retrato de Dumas


O francês Alexandre Dumas tem tido sua negritude resgatada

Em outras partes do mundo, a origem negra de personalidades notáveis também vem sendo resgatada.

 

Autor de O Conde de Monte Cristo e de Os Três Mosqueteiros, o francês Alexandre Dumas (1802-1870) era neto de uma ex-escravizada e, nos últimos anos, tem tido sua negritude destacada por movimentos antirracistas.

 

O poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin (1799-1837) é outro exemplo.

 

Seu bisavô materno era um africano que foi sequestrado de sua terra natal e acabou criado na corte como afilhado da então imperatriz.

 

Mas faz sentido colocar a questão da negritude olhando para personagens que talvez não questionassem isso — ou, se o faziam, era com outros critérios que não os atuais?

 

Para David Santos, sim.

 

"Todos eles são vítimas de uma sociedade que nunca trabalhou o letramento racial como proposta do reino de Deus. Eles não escolheram negar sua identidade afro", diz o frade franciscano e teólogo.

 

"A sociedade de seu tempo impôs a eles essa postura. Resgatá-los, hoje, é nossa missão."

 


O poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin também tem tido sua origem negra resgatada

O historiador Philippe Arthur dos Reis, professor na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), faz uma ressalva: ele considera a palavra "embranquecimento" inadequada nesta discussão.

 

"Por causa da própria concepção de negritude e de branquitude, que se diferencia com o passar do tempo", aponta.

 

A questão do racismo, lembra ele, é um problema da modernidade.

 

A linguista Ana Azevedo Bezerra Felicio, pesquisadora, ativista e autora do livro O amor não está à venda, ratifica isso. Ela aponta que "negro" é uma categoria surgida com os movimentos antiescravagistas.

 

"É muito importante olharmos para a diversidade no passado para refletirmos como a nossa sociedade veio a ficar dividida deste jeito, mesmo que essas divisões [étnicas] não fossem tão relevantes no passado", diz ela.

 

Para Roberta Basílio, o resgate da negritude de personalidades já consagradas, como Machado de Assis, tem um efeito importante porque as pessoas já reconhecem "o talento e a inteligência" dessas figuras.

 

Em outras palavras, parte-se da obra já celebrada para acrescentar o lembrete: foi uma pessoa negra quem fez.

 

"Mostramos que somos potência. E eu digo nós porque sou uma mulher negra. E isso tem um peso muito grande para nós, como representatividade", frisa ela, lembrando que, em seus tempos de escola, os protagonistas da história eram sempre brancos e os negros, inferiorizados.

 

Para Reis, trazer à tona a identidade negra de tais figuras importantes tem um impacto "simbólico" e "afetivo".

 

"Mas a simples menção a isso não resolve o problema. Tem de ter a efetiva transformação dos espaços", cobra o professor.

 

Arte por Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo visual da BBC News Brasil

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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

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CINE ROMA

 



CINE ROMA

Entre marés e memórias: a trajetória da Cidade Baixa

Ocupação da Cidade Baixa foi tímida até o século XVIII, quando um marco religioso mudou tudo

Divo Araújo

Cine Roma

Se há algo que define a história do lugar que hoje conhecemos como Cidade Baixa é o fato de ser banhada pelas águas da Baía de Todos-os-Santos. Não por acaso, como explica o historiador Milton Moura, a presença das águas salgadas da baía e dos rios que nela desembocam permanece visível até hoje nos topônimos de grande parte dos bairros da região.

 

“Todos os nomes dessa parte da antiga Salvador estão relacionados às águas — sejam salgadas ou doces. Ribeira, Monte Serrat, que faz referência a um rochedo na Catalunha; Bonfim, que significa o ‘bom fim’ da navegação, aquilo que todos desejavam; Boa Viagem, Mares. Há também Água Brusca, que quer dizer ‘água brotando’, o Porto dos Tainheiros, Água de Meninos”, exemplifica o professor.

Essa relação dos habitantes com a região remonta a muito antes da chegada dos portugueses.

 

“Toda a faixa costeira da Cidade Baixa, especialmente a voltada para o interior da Baía de Todos-os-Santos, era utilizada com finalidades ritualísticas por comunidades indígenas, incluindo a presença de sambaquis (sítios arqueológicos pré-coloniais formados pelo acúmulo de sedimentos, principalmente conchas)”, explica o historiador Rafael Dantas, citando as regiões de Itapagipe, Ribeira e, mais adiante, Plataforma.

 

Com a chegada dos colonizadores, a região em torno de Itapagipe chegou a ser considerada como possível local para a criação de uma cidade-fortaleza, mas a ideia não avançou devido à vulnerabilidade geográfica.

 

“Por se tratar de um terreno muito plano, a área ficava vulnerável do ponto de vista defensivo, ao contrário da Cidade Alta, erguida sobre um monte com mais de 60 metros de altura, ideal para a construção de uma fortaleza”, explica Dantas.

 

Durante muito tempo, a região permaneceu dedicada tanto à atividade pesqueira quanto à construção e ao reparo de embarcações.

“Por conta de suas águas calmas e rasas, a Ribeira era o local ideal para que barcos e saveiros fossem mantidos, recarregados, pintados e seguissem viagem para o Porto de Salvador, para o interior da Baía de Todos-os-Santos e, posteriormente, cruzassem o Atlântico”, acrescenta o historiador.

 

Apesar das atividades ligadas ao mar, a ocupação da região ainda era tímida até o século XVIII, quando um marco religioso passou a impulsionar o crescimento da Península de Itapagipe: a Igreja do Bonfim.

“Quando a Igreja do Bonfim foi construída, a região ainda não apresentava nenhum tipo de adensamento populacional — exceto na faixa costeira, onde ficava a Igreja de Nossa Senhora da Penha e algumas poucas casas de pessoas envolvidas em atividades ligadas ao mar”, explica Dantas.

 

Com a construção do templo na Colina Sagrada, acrescenta ele, houve um aumento significativo da presença de pessoas na península.

 

“Vieram os romeiros, as pessoas vinculadas à Irmandade, aqueles que trabalhavam na própria igreja, além das reformas urbanas realizadas no caminho do Bonfim, que passaram a impulsionar a ocupação da região”, observa o historiador.

Indústrias e linha férrea

Na segunda metade do século XIX, surgem outros marcos na Cidade Baixa: as indústrias e a linha de ferro da Bahia de São Francisco Railway — a primeira ferrovia do estado, construída entre 1857 e 1863 por engenheiros britânicos, inicialmente ligando Salvador a Alagoinhas e, posteriormente, chegando a Juazeiro, com saída da Calçada.

Essa combinação de fatores resultou em um aumento significativo da população na região.

 

“Chegaram indústrias têxteis e de outros setores ligados à economia do século XIX, além de armazéns e galpões relacionados a Tarquínio, posteriormente Catarino e Almeida Brandão”, explica Rafael Dantas, destacando que todas essas instalações ficavam próximas das linhas férreas.

Para abrigar esses trabalhadores, o empresário Luiz Tarquínio, após fundar a Companhia Empório Industrial do Norte (Cein) em 1891, criou a primeira vila operária do Brasil.

 

“Luiz Tarquínio tinha muito dinheiro e achava que era um bom investimento, digamos assim, fidelizar um operariado que gostasse dele e que não se atrasasse; nada mais prático”, pontuou o professor Milton Moura. “Já pensou sair de casa e, em poucos minutos, chegar ao trabalho?”

Inaugurada um ano após a Cein, a Vila Operária era composta por 258 casas residenciais de dois pavimentos. Logo em seus primeiros anos a vila já contava com água canalizada, esgoto, luz elétrica e gasogênio. Gradativamente também foram implantados serviços como escola, gabinete médico, farmácia, loja, creche, campo de futebol, armazém, entre outros. A infraestrutura da vila operária e as condições de moradia eram, assim, bastante superiores às dos demais trabalhadores pobres da cidade.

 

Luiz Tarquínio criou a primeira Vila Operária em 1891

Depois, outras indústrias se instalaram na Cidade Baixa, entre elas a Fratelli Vita e a Fábrica Chadler, nos Mares, que espalhava pelas redondezas um marcante cheiro de chocolate.

 

“Gradualmente, a partir de meados do século XX, essas indústrias foram deixando a região em razão das mudanças no vetor econômico. O polo industrial de Salvador — e da Bahia como um todo — acabou se deslocando para o Recôncavo e para a Região Metropolitana da capital”, explica Rafael Dantas.

 

Fratelli Vita: região da Cidade era polo industrial

Memórias do Hidroporto.

Além das boas condições de moradia, os operários e suas famílias tinham acesso a “espetáculos” que não podiam ser vistos em outras partes da cidade, como os hidroaviões pousando nas águas da Baía de Todos-os-Santos — uma história resgatada pelo escritor e publicitário Nelson Cadena em seu livro “A Cidade da Bahia”.

 

Cadena conta que o hidroporto foi inaugurado oficialmente em 1935, quando o governador Antônio Muniz Sodré de Aragão veio do Rio de Janeiro e “amerrissou” em Itapagipe.

 

Fábrica da Chadler

No entanto, antes mesmo de existir qualquer estrutura mais elaborada, o local já havia sido palco de um feito histórico. “Em 1922”, relata Cadena, “após realizar a primeira travessia aérea do Atlântico, os pilotos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral pousaram nas águas da Ribeira”.

 

Quatro anos após a inauguração do hidroporto, construído inteiramente em estilo artdéco, o equipamento recebeu a visita de um passageiro que chamou a atenção não apenas da cidade, mas de todo o país.

 

“O presidente Getúlio Vargas desembarcou ali em 1939, durante as comemorações da descoberta do petróleo em Lobato”, relata o pesquisador.

 

Vila Operária

Na década de 1940, o hidroporto passou a operar exclusivamente com cargas, e, algum tempo depois, foi desativado. Ainda hoje, é possível encontrar suas ruínas na Península de Itapagipe.

 

“Infelizmente, o hidroporto está destruído. Estive lá recentemente para dar algumas entrevistas e fiquei impressionado — está tudo corroído”, relata Cadena, lembrando que um restaurante chegou a funcionar no local. “Uma recuperação não seria barata. Além disso, é preciso identificar a quem pertence o imóvel”, acrescenta, ao comentar as dificuldades para uma eventual restauração.

 

Rock no Cine Roma

Mas, se os moradores da Cidade Baixa perderam o atrativo do hidroporto, ganharam uma nova fonte de entretenimento em 1948, quando Irmã Dulce e o frei Hildebrando Kruthaup inauguraram o Cine Roma — onde hoje funciona o santuário dedicado à Santa Dulce dos Pobres.

 

Construído a partir de doações, o cinema tornou-se um dos pilares de sustentação do Círculo Operário da Bahia, que, junto com outras duas salas de exibição, revertiam às bilheterias em ações de caridade, segurança alimentar e atendimento médico para os trabalhadores da região.

 

Além da exibição de filmes, o Cine Roma transformou-se no epicentro do rock em Salvador entre as décadas de 1960 e início de 1970, tornando-se um contraponto ao movimento da Bossa Nova, que ganhava força em outros círculos intelectuais da cidade, especialmente no Teatro Vila Velha.

 

“O Cine Roma tornou-se o reduto do iê-iê-iê baiano depois que Waldir Serrão convenceu Irmã Dulce e o frei Hildebrando a alugar o espaço nos dias em que não havia exibições de filmes. Por lá se apresentaram Roberto Carlos, Wanderléa e Jerry Adriani. Mas a banda mais requisitada era Raulzito e os Panteras, que geralmente encerrava os shows e acompanhava as estrelas da Jovem Guarda em suas passagens por Salvador”, relata o jornalista Zezão Castro, autor do livro ‘A Jovem Guarda na Bahia’.

Cine Roma surgiu em 1948 e se tornou epicentro do rock feito na Bahia

Segundo ele, o auge do Cine Roma como palco do rock ocorreu entre 1965 e o início dos anos 1970, período em que atraiu a juventude de Salvador.

“Os shows lotavam. Os filhos de operários da região compareciam em peso, mas muita gente da Cidade Alta também descia para assistir”, lembra Zezão. “Pepeu Gomes tocou lá, Armandinho, com sua banda Hells Angels, também. Havia outros espaços com rock em Salvador, como o Cine Nazaré, mas o Cine Roma era o principal reduto.”

 

Raulzito fez história

A principal estrela do rock baiano, Raul Seixas, tinha uma ligação com a Cidade Baixa que ia muito além de suas apresentações no Cine Roma. Foi no bairro de Monte Serrat, mais precisamente na Rua Rio Itapicuru, que ele viveu a infância e parte da adolescência. Ali também começou sua parceria com Waldir Serrão e sua trajetória rumo a se tornar ídolo de várias gerações.

 

“As famílias materna e paterna de Raul Seixas eram da Cidade Baixa, moravam ali na Baixa do Bonfim”, conta o jornalista Pacheco Maia, fã e estudioso da vida do pai do rock. “O avô dele, o velho Raul Seixas, tinha uma empresa de reparo de embarcações e também uma loja de importados. No início do século XX, o Brasil praticamente não fabricava nada”, acrescenta Pacheco.

Já o pai, que também se chamava Raul Varela Seixas, era responsável pelo telégrafo da linha férrea da Bahia de São Francisco Railway. Ele e a mãe do futuro astro do rock, dona Maria Eugênia, casaram-se na Igreja do Bonfim. Seu parceiro musical, Waldir Serrão, morava na Vila Operária. E Raul? Quando menino, ele e o irmão Plínio deixavam a mãe de cabelo em pé ao fugir à noite para tomar banho de mar na Praia da Boa Viagem. Como se vê, a história da Cidade Baixa parece estar toda entrelaçada.

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