https://youtu.be/wkGre_Ff0wM?si=E6diTzHAkFlLLjl2 // Efésios
https://youtu.be/BppeVYViK9g?si=Pztotpbz_1Z4WBA6
//Promessa
MÚSICAS:
https://youtu.be/JR-v5KWTnGQ?si=it1r9T-BoIrNFSRm
//Músicas
https://youtu.be/wkGre_Ff0wM?si=E6diTzHAkFlLLjl2 // Efésios
https://youtu.be/BppeVYViK9g?si=Pztotpbz_1Z4WBA6
//Promessa
MÚSICAS:
https://youtu.be/JR-v5KWTnGQ?si=it1r9T-BoIrNFSRm
//Músicas
https://youtube.com/shorts/drsocyCQeD8?si=Y0TVTvBZXztVLkX6
https://youtu.be/UvKjScuudss?si=TNUrSvDk7LwQmjEB
https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/pedra-preciosa-opala-rara-brasil-que-quase-nao-existe-no-mundo/
Gertrudes
de Jesus, uma mulher negra à frente do movimento abolicionista em Pernambuco.
Texto:
Mariama Correia | Edição: Bruno Fonseca
Quando
anoitecia, as embarcações deslizavam sorrateiramente pelo Rio Capibaribe, no
Recife. Elas estavam abarrotadas de pessoas escravizadas fugidas, escondidas
debaixo de feixes de palha. O destino final era o Cais do Porto, de onde
homens, mulheres e crianças seguiam para outras províncias, principalmente o
Ceará, que já tinham abolido a escravidão em março de 1884.
O
Recife cresceu seguindo o curso das águas do Capibaribe, uma estrada fluvial
que servia para transporte e por onde se escoava mercadorias, principalmente o
açúcar produzido nos engenhos. No final do século 19, o rio tornou-se também
uma rota secreta para as fugas de escravizados. Estima-se que, ao menos, três
mil escravizados teriam fugido pela rota do rio entre 1884 e 1888, com ajuda de
movimentos abolicionistas, sobretudo o Clube do Cupim.
Essa
associação secreta e ilegal, fundada na capital pernambucana, era formada por
ativistas de vários lugares do país. A maioria eram homens brancos abastados,
com grande influência na sociedade, mas havia também mulheres negras libertas,
embora a participação delas nos movimentos abolicionistas tenha sido relegada
pela historiografia oficial. O fato é que, ainda que não sejam apontadas como
protagonistas, as mulheres negras, escravizadas ou libertas, estiveram na linha
de frente da luta contra a escravidão no Brasil. Uma delas foi Gertrudes Maria
de Jesus.
A
trajetória dela foi mapeada pelos pesquisadores da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE) Adriana Santana, Arthur Danillo Castelo Branco e José Bento
Rosa da Silva. Eles apontam que Gertrudes de Jesus era “parte do primeiro
escalão de auxiliares, os chamados ‘internos’ do Clube do Cupim” e “a única
mulher negra reconhecidamente abolicionista a aparecer em uma fotografia no
início do século 20”. O registro é uma edição de 14 de maio de 1910 do Jornal
Pequeno, que circulava no Recife. Ela é a única mulher da foto entre nove
homens, que aparecem atrás de uma miniatura da jangada da organização, um
símbolo de liberdade.
“Na
hierarquia, ela estava acima de mulheres brancas de elite, que eram auxiliares
externas. Era provavelmente tão importante quanto os mais destacados auxiliares
internos, todos os homens, frequentemente mencionados na documentação e nas
fotografias”, explica Santana.
O Clube
do Cupim era uma rede que corroia as estruturas da escravidão por dentro,
organizando fugas, libertações e trabalhos para os ex-escravizados. Os chamados
“cupins” se comportavam como espiões: se comunicavam em linguagem codificada,
adotavam pseudônimos, e conseguiam burlar a polícia e a justiça com agentes
secretos infiltrados em diversas esferas da sociedade, incluindo órgãos
públicos.
A casa
de Gertrudes, que ficava em uma área central da cidade, funcionava como um
entreposto do Clube do Cupim, segundo Santana. Os canoeiros, geralmente homens
negros libertos que ajudavam outros cativos, precisavam conhecer bem o traçado
sinuoso do rio e tomar cuidado porque a polícia montava postos secretos no
curso das águas.
“A casa
dela era uma ‘panela’, ou seja, um local que escondia os escravizados até a
hora do embarque final. Ela fazia parte do coração da organização. Era líder de
um quilombo urbano”, explica. “Por ser negra e não ter tantas condições
materiais como mulheres brancas que participavam do Clube do Cupim, ela corria
muito mais riscos em abrigar escravizados na sua casa”, acrescenta
Santana.
As
fugas realizadas pelo rio eram épicas. O embarque era feito a partir das
“panelas”, esconderijos espalhados pelas cidades, do interior à capital, que
abrigavam os escravizados. Os planos de fuga eram “sussurrados entre os cativos
e os cupins, a conspiração noturna das senzalas”, escreve o pesquisador Felipe
Azevedo e Souza, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal da Bahia (UFBA), que registra as estratégias.
“Existem
registros de que os escravizados custeavam parcialmente as despesas das fugas e
há todo um anedotário sobre os diferentes expedientes utilizados pelos
escravizados para desaparecer. Alguns sumiram na agitação dos dias de carnaval,
uma outra embebedou seu senhor. Os disfarces também eram comuns – Miquelina,
mucama de um casarão na Madalena [bairro da zona norte da cidade], saiu de
sinhá, com vestido à francesa, chapéu, sapatos lustrados e pó de arroz,”
descreve Azevedo e Souza.
No
jornal A Província, de 21 de maio de 1918, uma crônica descrevia o dia em que
os cocheiros de uma casa funerária precisaram simular um cortejo fúnebre,
levando escravizados dentro de caixões e disfarçados em trajes de luto até as
embarcações. A “legendária jangada” dos cupins, como citou o Jornal do Recife
de 13 de maio de 1890, realizou muitas outras façanhas.
Trecho
do Jornal do Recife, edição de 1890
A
última grande fuga protagonizada pela associação secreta aconteceu em 23 de
abril de 1888, quando foram embarcados 119 escravizados de uma só vez. O grupo
saiu à noite, em uma canoa de capim, do bairro do Poço da Panela, zona norte da
cidade, um reduto abolicionista onde ficava a casa do político José Mariano,
que abrigava escravizados fugidos junto com sua esposa Olegária da Costa Gama,
conhecida como dona Olegarinha.
O casal
branco é reverenciado até hoje entre os principais ativistas do abolicionismo
pernambucano, com homenagens pela cidade, como nome de lugares públicos, como o
Cais José Mariano, e exposições em museus. Do Poço da Panela, segundo os
registros históricos, o barco desceu até a Capunga, atualmente a área do bairro
das Graças, que fica próximo ao centro da cidade, sendo rebocados por dois
botes até o cais e, de lá, para a liberdade.
Uma
mulher negra que resistiu à escravidão e ao esquecimento
Os
pesquisadores da UFPE encontraram outros registros da participação de Gertrudes
de Jesus na linha de frente do clube abolicionista. “Ao narrar a passeata de
despedida que o Clube do Cupim fez pelas ruas do Recife logo após a Abolição,
em 23 de maio de 1888, Fernando de Castro Paes Barreto, membro interno do
Clube, citou que após deixarem a casa de Dom Leonor Porto, os abolicionistas
seguiram à casa ‘da mulata Gertrudes’, auxiliar interna do Clube. Iam
agradecê-la pelos serviços prestados à causa”, descreveram em artigo, com base
em documentos da época.
“[Ela]
não apenas resistiu à escravidão, mas também ao esquecimento histórico,
forçando os abolicionistas brancos – responsáveis pela construção das
narrativas e documentos sobre o movimento – a reconhecê-la como uma liderança
fundamental e agente crucial na árdua e prolongada missão de erradicar a
escravidão no Brasil”, dizem os pesquisadores.
O
Brasil, com destaque para a região Nordeste, foi onde mais se registrou
alforria de cativos nas Américas. Depois que o tráfico negreiro foi proibido, a
Lei do Ventre Livre (1971), além de libertar os filhos de escravizadas nascidos
no Brasil, reconheceu o direito dos cativos de juntarem dinheiro, alugar seus
serviços e comprarem sua própria liberdade.
Os
pesquisadores da UFPE destacam a prevalência de mulheres negras na atuação pela
compra de alforrias e na busca por liberdade, seja delas mesmas ou das suas
famílias. Eles citam as mulheres de Feira de Santana, na então Província da
Bahia, que entre os anos de 1850 e 1888 foram maioria entre as cartas de
liberdade. Também uma análise de mais de 150 processos que tramitaram no
Tribunal de Campinas, na Província de São Paulo, onde foi identificada a
predominância feminina nos autos e ações por liberdade.
Em
Pernambuco, os pesquisadores afirmam que “há consistentes provas documentais da
ação direta de mulheres cativas, libertas e livres em processos de alforria e
de coordenação de fugas de escravizados.” Um dos casos que eles descobriram
durante a pesquisa foi o da escravizada Josepha, indicada nos documentos da
Justiça apenas pelo primeiro nome e como “ex-escrava de Luís da Costa Gomes”,
no distrito de São Bento, atualmente a cidade de São Bento do Una, na Zona da
Mata pernambucana.
Josepha
pedia pela libertação de seus dois filhos, identificados apenas como João e
Izidoro. Ela argumentava que, antes de ser alforriada, havia sido matriculada
pelo antigo senhor como “mulher sem filiação”, ou seja, que não teria filhos.
Assim, defendia que sua prole seria automaticamente livre, em função dessa
ausência de informações. Mas, seu pedido foi negado pela Justiça. A sentença
foi publicada na edição de 14 de outubro de 1887 do Diario de Pernambuco.
Nas
buscas documentais, os pesquisadores da UFPE encontraram ainda registros de uma
outra Gertrudes, que também lutava pela liberdade em Pernambuco, nesse caso, da
sua filha. A africana Gertrudes Rosário aparece em um processo judicial de
1890, acusada e presa pelo rapto de uma criança. Contudo, as peças processuais
mostraram que o ato cometido por ela poderia ter sido enquadrado como uma
tentativa de resgate.
No
depoimento, Gertrudes Rosário disse que tinha 21 anos e fazia serviços
domésticos. Segundo o pedido habeas corpus, ela tinha sido escravizada por uma
família e embarcada ao Pará, destino de muitos escravizados fugidos, deixando
uma filha de quatro anos com os antigos senhores. Com a informação de que a
família iria se mudar de Pernambuco para o Ceará, Rosário voltou ao Recife,
mas, ao chegar, a família teria se negado a devolver a criança. Assim, ela
teria encarregado uma conhecida para buscar sua menina, que, por engano, teria
levado a filha dos ex-senhores. Nos documentos resgatados pelos estudiosos,
Gertrudes Rosário confirma que a menina não era sua filha. Ela chegou a ser
julgada e foi absolvida, mas não se sabe se foi capaz de resgatar sua filha
depois disso.
“Esquecimento
seletivo” de mulheres negras na abolição
Além de
Gertrudes de Jesus há, segundo os estudiosos, outras mulheres mencionadas como
sócias auxiliares do Clube do Cupim. Olegária Gama Carneiro da Cunha, esposa de
José Mariano, que era uma auxiliar externa ficou conhecida por entregar suas
joias para financiar a campanha de Joaquim Nabuco, reconhecido como um dos
principais nomes do abolicionismo brasileiro, para deputado.
“Todos
os relatos indicam que ela fez isso por vontade própria, da mesma forma que
teria empenhado seu anel de noivado para a compra de alforria de um jovem
escravizado que sofria torturas num engenho”, explica a pesquisadora Adriana
Santana.
Além do
Clube do Cupim, operava no Recife a associação Ave Libertas, exclusivamente
feminina, fundada por senhoras da sociedade pernambucana, entre elas Leonor
Porto. Juntos, os “cupins” e as sócias do Ave Libertas promoviam ações
planejadas e sincronizadas de fuga, um sistema coordenado e pulverizado que
dificultava seu mapeamento e consequente repressão.
Olegária
da Cunha se vinculou à Ave Libertas aos 25 anos. Ela morreu aos 38, deixando
vários registros documentais da sua participação tanto em atividades como o
financiamento das libertações quanto no acolhimento de escravizados em casa
quanto no auxílio das fugas por barco.
Santana
observa que, enquanto lutavam pelo fim da escravidão, essas mulheres também se
posicinavam pelos seus direitos. Contudo, se para as mulheres brancas e ricas
que se juntaram à causa já foi negado o protagonismo da luta abolicionista pela
historiografia, no caso das mulheres negras, o “esquecimento é seletivo”.
Os
pesquisadores não encontraram informações sobre o que aconteceu com Gertrudes
de Jesus depois que a escravidão foi abolida. Para Santana, “mulheres negras do
passado, como Gertrudes, tentavam burlar os silenciamentos com ações que só
conseguimos enxergar hoje”. “Elas jogaram uma mensagem ao futuro. Deixaram
rastros em processos judiciais, em ações por liberdade, em atas de clubes
abolicionistas, em menções tímidas nos jornais. Abriram terreno para a luta das
mulheres negras, que, infelizmente, ainda encontram eco nas desigualdades,
injustiças, opressão e omissões.”
O fim
do tráfico negreiro já tinha sido estabelecido em 1850 e, depois, a Lei do
Ventre Livre (1871), além de estabelecer a liberdade para filhos de mulheres
escravizadas, permitiu o direito de juntar dinheiro, de doações ou do próprio
trabalho, para comprar a alforria.
https://youtu.be/ZGuHtjLEuvA?si=MCR1R1mttEfZSMsP
// Músicas Lindas
https://www.instagram.com/reel/DRmkUeTEYUT/?l=1
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As 136
cores da pele brasileira, uma ferida que é também um poema
50 anos
atrás, o IBGE perguntou aos brasileiros a cor da pele. O resultado é um
poema-palavra com as expressões que brasileiros escolheram
Conceição
Freitas
19/11/2025
Reprodução
da obra Operária, de Tarsila do Amaral, 1933, tirado de www.infoescola.com
Os
Operários _Metrópoles
Há um
retrato colorido, criativo, metafórico, bem humorado, por vezes irônico, e
muito revelador do quanto nós, brasileiros, continuamos sem saber lidar com as
muitas cores da nossa pele. Haverá outro país no mundo com tantas variedades de
lápis de cor? Se essa é a ferida aberta da alma brasileira, nela é possível
identificar nosso modo muito criativo de lidar com as nossas dores.
Quase
50 anos atrás, o IBGE pegou lápis e papel e bateu na porta dos brasileiros para
perguntar a cor da pele dos entrevistados. Não deu opções, não deu cola, deixou
que a pessoa se resolvesse sozinha. O resultado é em si mesmo um poema-palavra
feito com as expressões que os brasileiros escolheram, no rompante, para
definir a cor da própria pele.
Os
recenseadores anotaram 136 expressões diferentes – algumas feitas de palavras
compostas, outras de palavras simples, alguns diminutivos, algumas metáforas
regionais. Cada entrevistado deu seu jeito para sair daquela enrascada na porta
de casa. Vale lembrar que a pessoa podia dizer simplesmente preto, branco ou
pardo, mas era uma enrascada, quase uma pegadinha. Naquele tempo (e até hoje),
a pergunta era por demais espinhosa.
A
Pesquisa por Amostra de Domicílio (PNAD) feita pelo IBGE em 1976 resultou em um
retrato feito com 136 cores deste país tão diferente de todos os outros. Uma
paleta pra deixar os grandes das cores fortes, Van Gogh, Paul Klee, Tarsila,
Portinari, Djanira, Adriana Varejão, esses e tantos outros, em surto criativo.
Embora
tenha revelado o racismo escondido em cada uma das expressões usadas, revelou
também a criatividade brasileira para dizer de outro jeito o que é muito
difícil de dizer. De se querer branca nem que fosse “branca queimada”. De não
se querer negro, daí chamar a própria cor da pele de “alva escura”. Um jeito de
se revelar querendo se esconder.
Vale
lembrar que essa pesquisa foi feita há quase meio século e que de lá pra cá
muita coisa mudou, até a metodologia do IBGE, que no censo de 2022 ofereceu ao
entrevistado cinco opções: branca, preta, parda, amarela e indígena.
Ficou
previsível e chato.
O modo
como o Brasil lida com o racismo também não é mais o mesmo, mas a ferida é
profunda demais, segue sangrando. Porém, como nada nesse mundo é uma coisa só,
a riqueza das analogias ditas espontaneamente pelos brasileiros ouvidos na
PNAD/1976 é um pequeno autorretrato colorido desse país continental e complexo.
(Entre
as 136 cores há uma pela qual meu pai me chamava de vez em quando, como quem
faz um carinho. Ele dizia que eu tinha cor de burro quando foge).
Separei
as 136 cores por parágrafos:
Acastanhada,
agalegada, alva, alva escura, alvarenta, alva rosada, alvinha, amarela,
amarelada, amarela queimada, amarelosa, amorenada, avermelhada, azul, azul
marinho.
Baiano,
bem branca, bem clara, bem morena, branca, branca avermelhada, branca melada,
branca pálida, branca queimada, branca sardenta, branca suja, branquiça,
branquinha, bronze, bronzeada, bugrezinha escura, burro quando foge.
Cabocla,
cabo verde, café, café com leite, canela, canelaça, cardão, castanha, castanha
clara, castanha escura, chocolate, clara, clarinha, cobre, corada, cor de café,
cor de canela, cor de cuia, cor de leite, cor de ouro, cor de rosa, crioula.
Encerada,
enxofrada, esbranquicento, escura, escurinha.
Fogoió.
Galega,
galegada.
Jambo.
Laranja,
lilás, loira, loira clara, loura, lourinha.
Mulata,
marinheira, marrom, meio amarela, meio branca, meio morena, meio preta, melada,
mestiça, miscigenação, mista, morena, morena bem chegada, morena bronzeada,
morena canelada, morena castanha, morena clara, morena cor de canela, morena
cor da jambo, morenada, morena escura, morena fechada, morenão, morena parda,
morena roxa, morena ruiva, morena trigueira, moreninha, mulata, mulatinha.
Negra,
negrota.
Pálida,
paraíba, parda, parda clara, polaca, pouco clara, pouco morena, preta,
pretinha, puxa pra branca.
Quase
negra, queimada, queimada de praia, queimada de sol.
Regular,
retinta, rosa, rosada, rosa queimada, roxa, ruiva, russo.
Sapecada,
sarará, saraúba.
Tostada,
trigo, trigueira, turva.
* Este
texto representa as opiniões e ideias do autor.
https://youtu.be/UZVpE_Yibl4?si=EP7b9US97VWFeIQy
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As personalidades históricas cuja origem negra você talvez
não conheça
Imagens de Machado de Assis, Dumas, Nilo Peçanha, Puskin,
Chiquinha Gonzaga e Lima Barrreto em colagem, com fundo manuscrito
20 novembro 2025
Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os
tempos e idealizador da Academia Brasileira de Letras (ABL), não era branco —
como muitas imagens em livros escolares o retratam.
Assim como Chiquinha Gonzaga, um dos pilares mais
importantes da música brasileira, que já foi interpretada por atrizes brancas.
E talvez você não saiba, mas o Brasil já teve um presidente
considerado negro: Nilo Peçanha governou o país de 1909 a 1910.
"Toda pessoa afro que, ao longo da história, foi muito
importante para a humanidade, acabou embranquecida ou neutralizada", diz à
BBC News Brasil o filósofo e teólogo David Santos, frade franciscano e fundador
da organização Educafro Brasil.
Para a pesquisadora em política públicas Roberta Basilio, a
omissão da origem negra de personalidades históricas tem a ver com uma
"necessidade de negar que uma pessoa negra possa ser tão genial".
PUBLICIDADE
"O racismo precisa embranquecer as personalidades
porque assim fica 'mais fácil' reconhecer a genialidade, o talento e a potência
dessas pessoas", diz Basílio, professora na Escola Superior de Propaganda
e Marketing (ESPM).
Especialistas entrevistados pela BBC News Brasil alertam
para os limites de se usar termos e discussões contemporâneas sobre raça ao
falar de histórias de outras épocas, quando muitos desses termos nem existiam.
Mas eles também apontaram para a importância desse tipo de
resgate por movimentos antirracistas atuais — até porque muitas dessas figuras
sofreram racismo em vida.
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se compara ao caso de Lula
Fim do Mais lidas
A seguir, confira histórias de personalidades famosas que
foram "embranquecidas" ou tiveram sua origem negra pouco enfatizada
ao longo do tempo.
Machado de Assis
Retrato de Machado de Assis
CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC
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Quando Machado de Assis (1839-1908) morreu, sua certidão de
óbito afirmava que sua cor era "branca".
E foi com tons clareados que sua imagem povoou contracapas
de suas obras e páginas de apostilas escolares durante todo o século 20.
Sabe-se que ele era filho de pai pardo, alforriado, e mãe
branca.
Em vida, era considerado mulato. Ou "pessoa de
cor", como se dizia comumente na época.
Isso é possível de notar pelas poucas fotografias do
escritor e também por cartas da época.
Em 6 de junho de 1871, por exemplo, o poeta português
Gonçalves Crespo (1846-1883) redigiu uma missiva ao brasileiro na qual afirmou
que nutria "uma certa simpatia" por ele "quando me disseram que
era… de cor como eu".
No obituário publicado no Jornal do Commercio — escrito pelo
jornalista e escritor José Veríssimo (1857-1916), que era seu amigo —, Assis
foi definido como "mulato".
Em conferências proferidas entre 1915 e 1917 sobre o legado
de Machado, o jornalista, advogado e crítico Alfredo Pujol (1865-1930) pontuou
que o escritor era filho "de um casal de gente de cor" e teria
sofrido "agruras" por conta de "preconceitos de cor".
E na biografia escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959),
publicada em 1936, o escritor é chamado de "mulatinho",
"mestiço" e "pardinho" pela autora.
Gradualmente, contudo, Machado de Assis foi
"embranquecido" em imagens reproduzidas em livros, inclusive os
didáticos.
Há, no entanto, esforços para tentar reverter esse processo.
Em 2021, a Universidade Zumbi dos Palmares lançou uma
campanha com um abaixo-assinado pressionando que as editoras deixassem de
imprimir e comercializar livros em que o escritor aparecesse como branco.
Lima Barreto
Retrato de Lima Barreto
CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC
Outro exemplo importante é o escritor Lima Barreto
(1881-1922).
Filho de pais negros e neto de escravizados, ele sofreu
preconceito ao longo da vida e parecia ter consciência racial — demonstrando
isso em sua obra.
O romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha é
considerado de teor autobiográfico por retratar preconceitos raciais e sociais.
Conforme revelado em seu póstumo livro Diário Íntimo, quando
tinha 23 anos, ele anotou que tinha a ideia de escrever um "romance em que
se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda".
Barreto afirmou que pretendia fazer um "Germinal
negro", aludindo ao clássico romance Germinal, do francês Émile Zola
(1840-1902).
Na biografia Lima Barreto: Triste Visionário, a antropóloga
Lilia Moritz Schwarcz destaca que os conflitos de cunho racial estavam sempre
em evidência nos escritos de Barreto, seja nas tramas de seus livros, seja em
suas anotações pessoais.
A pesquisadora relata que quando o escritor, adolescente,
ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e se viu como único afrodescendente
em uma turma formada por brancos, filhos da elite, adquiriu consciência de sua
negritude — e de como o racismo operava.
Livros como o de Schwarcz têm contribuído para dar a devida
contextualização racial a essas personalidades brasileiras.
Chiquinha Gonzaga
Retrato de Chiquinha Gonzaga
CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC
Para a pesquisadora Roberta Basilio, a mídia historicamente
teve um papel nos "embranquecimentos" — como na escolha de atores e
atrizes com peles mais claras que as pessoas reais retratadas nas novelas.
Basílio cita como exemplo a minissérie da Globo que contou a
história de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) em 1999.
Na trama, a musicista foi intepretada por duas atrizes
brancas: Gabriela Duarte, quando jovem, e Regina Duarte, mais velha.
Chiquinha era filha de uma negra liberta com um militar
branco.
Ela não só tinha consciência de sua origem racial como se
envolveu intensamente na luta abolicionista durante a segunda metade do século
20.
A musicista tinha muitos amigos negros e vendia partituras
para comprar cartas de alforria — e, assim, libertar escravizados.
Mas não há registros de que se via como negra. Em sua época,
tinha a pele considerada morena.
Nilo Peçanha
Retrato de Nilo Peçanha
CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL/BBC
Até hoje, o Brasil só teve um presidente considerado negro:
Nilo Peçanha (1867-1924).
Vice de Afonso Pena (1847-1909), assumiu o cargo quando este
morreu por pneumonia e presidiu o país entre 1909 e 1910.
Em sua época ou mesmo hoje, alguns o consideram pardo ou mestiço,
outros como negro.
Fato é que, em seu tempo, oposicionistas classificavam o
presidente como mulato como forma de desaboná-lo.
Traços negros eram enfatizados em charges para atacá-lo.
Na juventude, Nilo Peçanha participou da luta abolicionista
e da campanha republicana.
Senador de 1997 a 1999, o ator e intelectual negro Abdias do
Nascimento (1914-2011), autor de obras como O Genocídio do Negro Brasileiro,
enalteceu políticos afrodescendentes em seu discurso de posse e se lembrou da
omissão da origem negra de Peçanha ao longo da história.
Nascimento contou que, certa vez, chegou a aventar a
possibilidade de escrever ele próprio um livro sobre "os grandes africanos
que ajudaram a construir este país". Para tanto, procurou um descendente
de Peçanha.
"Resultado: fui repreendido por esse membro da família,
que não admitia sequer a mestiçagem [dele], considerando tal versão uma
infâmia", proferiu, em seu discurso.
Na fala, Abdias do Nascimento não se limitou a abordar a
negritude de Nilo Peçanha.
Ele recordou outros políticos que, para ele, seriam
considerados negros. E citou dois também ex-presidentes que, segundo suas
pesquisas, teriam ancestralidade africana: Rodrigues Alves (1848-1919), que
presidiu o país de 1902 a 1906; e Tancredo Neves (1910-1985), o primeiro civil
escolhido para comandar o país após a ditadura, que morreu antes de tomar
posse.
Para Nascimento, os biógrafos de Rodrigues Alves se fixaram
na nacionalidade portuguesa do pai do ex-presidente para ignorar a sua
negritude, origem de sua mãe afro-brasileira, Isabel Perpétua.
Sobre Tancredo Neves, Nascimento disse que não seria
"leviano" afirmar que em suas "veias" corria "também o
nobre sangue africano".
Para tanto, dizia levar "em consideração seus traços
fisionômicos, assim como de muitos de seus familiares".
Abdias do Nascimento conhecia Tancredo Neves pessoalmente.
Ele era deputado federal nos anos 1980 e integrou o colégio eleitoral que
escolheu o mineiro para ser presidente na redemocratização.
Pedro Lessa
Um pouco depois da presidência de Nilo Peçanha, o Supremo
Tribunal Federal (STF) teve seu primeiro membro afrodescendente, o jurista
Pedro Lessa (1859-1921).
Ele se considerava mulato e foi nomeado em 1907.
No entanto, sua ascendência negra era tabu mesmo dentro da
família.
Em reportagem publicada em 2014 pela Folha de S. Paulo, uma
de suas bisnetas, Lúcia Lessa, contou que só na adolescência soube que o
ilustre antepassado tinha essa origem — e que, quando perguntada sobre, a mãe
tentou desconversar.
"Uma vez, minha irmã perguntou à minha mãe se ele era
negro. Minha mãe tentou desconversar. Só com o tempo fomos entendendo
isso", contou a bisneta ao jornal.
Presidente do Brasil de 1919 a 1922, o jurista Epitácio
Pessoa (1865-1942) era um dos muitos que debochavam das raízes africanas de
Lessa com frases e termos racistas.
Os irmãos Rebouças
Os irmãos André Rebouças (1838-1898) e Antônio Rebouças
(1839-1874) são considerados os primeiros engenheiros negros do país e ganharam
notoriedade profissional em vida.
André Rebouças foi um ativo militante pelo fim do regime
escravocrata, integrando a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a
Confederação Abolicionista.
Também foi um dos criadores dos estatutos da Associação
Central de Emancipação dos Escravos.
Nessa época, viajou aos Estados Unidos — onde, segundo
relatos, sofreu preconceito racial.
Mais tarde, nos anos 1890, trabalhou em Luanda, na Angola,
por 15 meses. Também morou em Moçambique e na atual África do Sul.
Só então passou a entender o continente africano como sua
"terra de origem" e a se declarar como homem negro.
Essa experiência é contada no livro Cartas da África -
Registro de Correspondência 1891-1893, organizado pela historiadora Hebe
Mattos, professora na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Nessas cartas, Rebouças refere-se a si próprio como
"africano" e como "Negro André", como constatou a
historiadora.
Já Antônio especializou-se em construção de portos marítimos
e estradas de ferro na Europa, para onde foi em 1858 — ficaria quatro anos
aprendendo técnicas inovadoras no velho continente.
Voltou ao Brasil e planejou obras importantes, como a
ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá. Mas morreu cedo, aos 35 anos, vítima de
malária — antes, inclusive, do auge da luta abolicionista.
De acordo com Hebe Mattos, a questão racial permeou a
trajetória da família Rebouças — que, apesar de ter circulado na elite da
época, sofria preconceito, com comentários racistas e xingamentos evocando sua
cor da pele.
A mãe dos irmãos Rebouças era branca, mas o pai deles era
filho de um alfaiate com uma mulher que algumas fontes acadêmicas dizem ter
sido uma escravizada alforriada, outras nascida livre.
O político e advogado Antônio Pereira Rebouças (1798-1880)
pisava em ovos ao se posicionar na alta sociedade soteropolitana, que
frequentava.
Defendia medidas que diminuíssem a escravidão do Brasil,
como o fim do tráfico negreiro, mas tomava cuidado em seus posicionamentos
porque temia ser visto como radical.
Ele se definia como "liberal moderado" e afirmava
acreditar na igualdade dos direitos civis para todos os brasileiros — deixando
implícito que a cor da pele não deveria ser empecilho. Mas era contra revoltas
e motins, argumentando que as mudanças deveriam vir pela política.
André Rebouças, que viu o Brasil pós-abolição, teve um fim
de vida melancólico, decepcionado. Ele argumentava que sem a democratização no
acesso a terras e propriedades, o problema racial do país não seria resolvido.
Negros e negras brasileiros que deveriam ser mais estudados
nas escolas
19 novembro 2024
'Creme de branqueamento deixou cicatrizes nos meus filhos':
o uso na África de produtos para clarear a pele
O risco do anacronismo
Retrato de Dumas
O francês Alexandre Dumas tem tido sua
negritude resgatada
Em outras partes do mundo, a origem negra de personalidades
notáveis também vem sendo resgatada.
Autor de O Conde de Monte Cristo e de Os Três Mosqueteiros,
o francês Alexandre Dumas (1802-1870) era neto de uma ex-escravizada e, nos
últimos anos, tem tido sua negritude destacada por movimentos antirracistas.
O poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin
(1799-1837) é outro exemplo.
Seu bisavô materno era um africano que foi sequestrado de
sua terra natal e acabou criado na corte como afilhado da então imperatriz.
Mas faz sentido colocar a questão da negritude olhando para
personagens que talvez não questionassem isso — ou, se o faziam, era com outros
critérios que não os atuais?
Para David Santos, sim.
"Todos eles são vítimas de uma sociedade que nunca
trabalhou o letramento racial como proposta do reino de Deus. Eles não
escolheram negar sua identidade afro", diz o frade franciscano e teólogo.
"A sociedade de seu tempo impôs a eles essa postura.
Resgatá-los, hoje, é nossa missão."
O poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin também tem tido sua origem negra resgatada
O historiador Philippe Arthur dos Reis, professor na
Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), faz uma ressalva: ele considera a
palavra "embranquecimento" inadequada nesta discussão.
"Por causa da própria concepção de negritude e de
branquitude, que se diferencia com o passar do tempo", aponta.
A questão do racismo, lembra ele, é um problema da
modernidade.
A linguista Ana Azevedo Bezerra Felicio, pesquisadora,
ativista e autora do livro O amor não está à venda, ratifica isso. Ela aponta
que "negro" é uma categoria surgida com os movimentos
antiescravagistas.
"É muito importante olharmos para a diversidade no
passado para refletirmos como a nossa sociedade veio a ficar dividida deste
jeito, mesmo que essas divisões [étnicas] não fossem tão relevantes no
passado", diz ela.
Para Roberta Basílio, o resgate da negritude de
personalidades já consagradas, como Machado de Assis, tem um efeito importante
porque as pessoas já reconhecem "o talento e a inteligência" dessas
figuras.
Em outras palavras, parte-se da obra já celebrada para
acrescentar o lembrete: foi uma pessoa negra quem fez.
"Mostramos que somos potência. E eu digo nós porque sou
uma mulher negra. E isso tem um peso muito grande para nós, como
representatividade", frisa ela, lembrando que, em seus tempos de escola,
os protagonistas da história eram sempre brancos e os negros, inferiorizados.
Para Reis, trazer à tona a identidade negra de tais figuras
importantes tem um impacto "simbólico" e "afetivo".
"Mas a simples menção a isso não resolve o problema.
Tem de ter a efetiva transformação dos espaços", cobra o professor.
Arte por Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo visual da
BBC News Brasil
https://youtu.be/ST7OqKgmmy8?si=gLbzB9mIKNWgev5w
https://youtu.be/X8jFyMRjQzs?si=Sf_juebXv6HUZSPT
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CINE
ROMA
Entre
marés e memórias: a trajetória da Cidade Baixa
Ocupação
da Cidade Baixa foi tímida até o século XVIII, quando um marco religioso mudou
tudo
Divo
Araújo
Cine
Roma
Se há
algo que define a história do lugar que hoje conhecemos como Cidade Baixa é o
fato de ser banhada pelas águas da Baía de Todos-os-Santos. Não por acaso, como
explica o historiador Milton Moura, a presença das águas salgadas da baía e dos
rios que nela desembocam permanece visível até hoje nos topônimos de grande
parte dos bairros da região.
“Todos
os nomes dessa parte da antiga Salvador estão relacionados às águas — sejam
salgadas ou doces. Ribeira, Monte Serrat, que faz referência a um rochedo na
Catalunha; Bonfim, que significa o ‘bom fim’ da navegação, aquilo que todos desejavam;
Boa Viagem, Mares. Há também Água Brusca, que quer dizer ‘água brotando’, o
Porto dos Tainheiros, Água de Meninos”, exemplifica o professor.
Essa
relação dos habitantes com a região remonta a muito antes da chegada dos
portugueses.
“Toda a
faixa costeira da Cidade Baixa, especialmente a voltada para o interior da Baía
de Todos-os-Santos, era utilizada com finalidades ritualísticas por comunidades
indígenas, incluindo a presença de sambaquis (sítios arqueológicos
pré-coloniais formados pelo acúmulo de sedimentos, principalmente conchas)”,
explica o historiador Rafael Dantas, citando as regiões de Itapagipe, Ribeira
e, mais adiante, Plataforma.
Com a
chegada dos colonizadores, a região em torno de Itapagipe chegou a ser
considerada como possível local para a criação de uma cidade-fortaleza, mas a
ideia não avançou devido à vulnerabilidade geográfica.
“Por se
tratar de um terreno muito plano, a área ficava vulnerável do ponto de vista
defensivo, ao contrário da Cidade Alta, erguida sobre um monte com mais de 60
metros de altura, ideal para a construção de uma fortaleza”, explica Dantas.
Durante
muito tempo, a região permaneceu dedicada tanto à atividade pesqueira quanto à
construção e ao reparo de embarcações.
“Por
conta de suas águas calmas e rasas, a Ribeira era o local ideal para que barcos
e saveiros fossem mantidos, recarregados, pintados e seguissem viagem para o
Porto de Salvador, para o interior da Baía de Todos-os-Santos e,
posteriormente, cruzassem o Atlântico”, acrescenta o historiador.
Apesar
das atividades ligadas ao mar, a ocupação da região ainda era tímida até o
século XVIII, quando um marco religioso passou a impulsionar o crescimento da
Península de Itapagipe: a Igreja do Bonfim.
“Quando
a Igreja do Bonfim foi construída, a região ainda não apresentava nenhum tipo
de adensamento populacional — exceto na faixa costeira, onde ficava a Igreja de
Nossa Senhora da Penha e algumas poucas casas de pessoas envolvidas em
atividades ligadas ao mar”, explica Dantas.
Com a
construção do templo na Colina Sagrada, acrescenta ele, houve um aumento
significativo da presença de pessoas na península.
“Vieram
os romeiros, as pessoas vinculadas à Irmandade, aqueles que trabalhavam na
própria igreja, além das reformas urbanas realizadas no caminho do Bonfim, que
passaram a impulsionar a ocupação da região”, observa o historiador.
Indústrias
e linha férrea
Na
segunda metade do século XIX, surgem outros marcos na Cidade Baixa: as
indústrias e a linha de ferro da Bahia de São Francisco Railway — a primeira
ferrovia do estado, construída entre 1857 e 1863 por engenheiros britânicos,
inicialmente ligando Salvador a Alagoinhas e, posteriormente, chegando a
Juazeiro, com saída da Calçada.
Essa
combinação de fatores resultou em um aumento significativo da população na
região.
“Chegaram
indústrias têxteis e de outros setores ligados à economia do século XIX, além
de armazéns e galpões relacionados a Tarquínio, posteriormente Catarino e
Almeida Brandão”, explica Rafael Dantas, destacando que todas essas instalações
ficavam próximas das linhas férreas.
Para
abrigar esses trabalhadores, o empresário Luiz Tarquínio, após fundar a
Companhia Empório Industrial do Norte (Cein) em 1891, criou a primeira vila
operária do Brasil.
“Luiz
Tarquínio tinha muito dinheiro e achava que era um bom investimento, digamos
assim, fidelizar um operariado que gostasse dele e que não se atrasasse; nada
mais prático”, pontuou o professor Milton Moura. “Já pensou sair de casa e, em
poucos minutos, chegar ao trabalho?”
Inaugurada
um ano após a Cein, a Vila Operária era composta por 258 casas residenciais de
dois pavimentos. Logo em seus primeiros anos a vila já contava com água
canalizada, esgoto, luz elétrica e gasogênio. Gradativamente também foram
implantados serviços como escola, gabinete médico, farmácia, loja, creche,
campo de futebol, armazém, entre outros. A infraestrutura da vila operária e as
condições de moradia eram, assim, bastante superiores às dos demais
trabalhadores pobres da cidade.
Luiz Tarquínio
criou a primeira Vila Operária em 1891
Depois,
outras indústrias se instalaram na Cidade Baixa, entre elas a Fratelli Vita e a
Fábrica Chadler, nos Mares, que espalhava pelas redondezas um marcante cheiro
de chocolate.
“Gradualmente,
a partir de meados do século XX, essas indústrias foram deixando a região em
razão das mudanças no vetor econômico. O polo industrial de Salvador — e da
Bahia como um todo — acabou se deslocando para o Recôncavo e para a Região
Metropolitana da capital”, explica Rafael Dantas.
Fratelli
Vita: região da Cidade era polo industrial
Memórias
do Hidroporto.
Além
das boas condições de moradia, os operários e suas famílias tinham acesso a
“espetáculos” que não podiam ser vistos em outras partes da cidade, como os
hidroaviões pousando nas águas da Baía de Todos-os-Santos — uma história
resgatada pelo escritor e publicitário Nelson Cadena em seu livro “A Cidade da
Bahia”.
Cadena
conta que o hidroporto foi inaugurado oficialmente em 1935, quando o governador
Antônio Muniz Sodré de Aragão veio do Rio de Janeiro e “amerrissou” em
Itapagipe.
Fábrica
da Chadler
No
entanto, antes mesmo de existir qualquer estrutura mais elaborada, o local já
havia sido palco de um feito histórico. “Em 1922”, relata Cadena, “após
realizar a primeira travessia aérea do Atlântico, os pilotos portugueses Gago
Coutinho e Sacadura Cabral pousaram nas águas da Ribeira”.
Quatro
anos após a inauguração do hidroporto, construído inteiramente em estilo artdéco,
o equipamento recebeu a visita de um passageiro que chamou a atenção não apenas
da cidade, mas de todo o país.
“O
presidente Getúlio Vargas desembarcou ali em 1939, durante as comemorações da
descoberta do petróleo em Lobato”, relata o pesquisador.
Vila
Operária
Na
década de 1940, o hidroporto passou a operar exclusivamente com cargas, e,
algum tempo depois, foi desativado. Ainda hoje, é possível encontrar suas
ruínas na Península de Itapagipe.
“Infelizmente,
o hidroporto está destruído. Estive lá recentemente para dar algumas
entrevistas e fiquei impressionado — está tudo corroído”, relata Cadena,
lembrando que um restaurante chegou a funcionar no local. “Uma recuperação não
seria barata. Além disso, é preciso identificar a quem pertence o imóvel”,
acrescenta, ao comentar as dificuldades para uma eventual restauração.
Rock no
Cine Roma
Mas, se
os moradores da Cidade Baixa perderam o atrativo do hidroporto, ganharam uma
nova fonte de entretenimento em 1948, quando Irmã Dulce e o frei Hildebrando
Kruthaup inauguraram o Cine Roma — onde hoje funciona o santuário dedicado à
Santa Dulce dos Pobres.
Construído
a partir de doações, o cinema tornou-se um dos pilares de sustentação do
Círculo Operário da Bahia, que, junto com outras duas salas de exibição, revertiam
às bilheterias em ações de caridade, segurança alimentar e atendimento médico
para os trabalhadores da região.
Além da
exibição de filmes, o Cine Roma transformou-se no epicentro do rock em Salvador
entre as décadas de 1960 e início de 1970, tornando-se um contraponto ao
movimento da Bossa Nova, que ganhava força em outros círculos intelectuais da
cidade, especialmente no Teatro Vila Velha.
“O Cine
Roma tornou-se o reduto do iê-iê-iê baiano depois que Waldir Serrão convenceu
Irmã Dulce e o frei Hildebrando a alugar o espaço nos dias em que não havia
exibições de filmes. Por lá se apresentaram Roberto Carlos, Wanderléa e Jerry
Adriani. Mas a banda mais requisitada era Raulzito e os Panteras, que
geralmente encerrava os shows e acompanhava as estrelas da Jovem Guarda em suas
passagens por Salvador”, relata o jornalista Zezão Castro, autor do livro ‘A
Jovem Guarda na Bahia’.
Cine
Roma surgiu em 1948 e se tornou epicentro do rock feito na Bahia
Segundo
ele, o auge do Cine Roma como palco do rock ocorreu entre 1965 e o início dos
anos 1970, período em que atraiu a juventude de Salvador.
“Os
shows lotavam. Os filhos de operários da região compareciam em peso, mas muita
gente da Cidade Alta também descia para assistir”, lembra Zezão. “Pepeu Gomes
tocou lá, Armandinho, com sua banda Hells Angels, também. Havia outros espaços
com rock em Salvador, como o Cine Nazaré, mas o Cine Roma era o principal
reduto.”
Raulzito
fez história
A
principal estrela do rock baiano, Raul Seixas, tinha uma ligação com a Cidade
Baixa que ia muito além de suas apresentações no Cine Roma. Foi no bairro de
Monte Serrat, mais precisamente na Rua Rio Itapicuru, que ele viveu a infância
e parte da adolescência. Ali também começou sua parceria com Waldir Serrão e
sua trajetória rumo a se tornar ídolo de várias gerações.
“As
famílias materna e paterna de Raul Seixas eram da Cidade Baixa, moravam ali na
Baixa do Bonfim”, conta o jornalista Pacheco Maia, fã e estudioso da vida do
pai do rock. “O avô dele, o velho Raul Seixas, tinha uma empresa de reparo de
embarcações e também uma loja de importados. No início do século XX, o Brasil
praticamente não fabricava nada”, acrescenta Pacheco.
Já o
pai, que também se chamava Raul Varela Seixas, era responsável pelo telégrafo
da linha férrea da Bahia de São Francisco Railway. Ele e a mãe do futuro astro
do rock, dona Maria Eugênia, casaram-se na Igreja do Bonfim. Seu parceiro
musical, Waldir Serrão, morava na Vila Operária. E Raul? Quando menino, ele e o
irmão Plínio deixavam a mãe de cabelo em pé ao fugir à noite para tomar banho
de mar na Praia da Boa Viagem. Como se vê, a história da Cidade Baixa parece
estar toda entrelaçad
a.
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