
ANA PRETA: A HEROÍNA ESQUECIDA DA HISTÓRIA BRASILEIRA
Como Ana Preta, mulher negra no século 19, desafiou a
invisibilidade e carregou os feridos na Guerra do Paraguai, em meio à hedionda
escravidão.
O papel da mulher na história brasileira sempre foi como
coadjuvante. E, se a mulher fosse pobre e negra, vivendo no século 19, época
com a mais hedionda escravidão, no interior do país, essa invisibilidade era
muito maior.
O Visconde de Taunay, que lutou com ela na mesma batalha,
referiu-se: “O nome dessa criatura é Ana. Uma preta muito ‘sacudida’, que
talvez não tenha mais que vinte e cinco anos de idade”. Ana viveu, lutou,
morreu e permanece invisível para os olhos da história oficial.
1865: A concentração da Tríplice Aliança
A guerra do Paraguai, cujas origens ainda hoje não são muito
claras, resultou na formação da República do Uruguai e, por consequência, da
Tríplice Aliança. Dois grandes exércitos, um partindo de Ouro Preto, outro do
Rio de Janeiro, além de um contingente provindo de São Paulo, se juntaram na
cidade interiorana de Uberaba, em julho/agosto de 1865. Um contingente de mais
de quatro mil homens ocupou a cidade que não possuía nem dois mil moradores,
quase todos na zona rural.
Comandados pelo Coronel Manoel Pedro Drago, homens de
Uberaba, escravos cedidos por seus senhores e até a banda de música local foram
arregimentados.
++ A participação dos negros na Guerra do Paraguai
Invasão e desobediência em solo paraguaio
Depois, sob comando do General Camisão a partir de 11 de
janeiro de 1867, a tropa seguiu para a vila de Miranda, ainda em território
brasileiro, porém ocupado por paraguaios. Rumou ao Rio Nioac. Até que
encontraram a vila e o sertanista José Francisco Lopes, cuja família havia sido
sequestrada por paraguaios. O homem se ofereceu como guia, doando também uma
boiada ao exército.
O general resolveu atacar, quando suas ordens eram para
permanecer no posto e guarnecer a fronteira. Incitado pelo guia Lopes e pelos
soldados, que diziam não terem feito aquela viagem só para ficar de guarda. Aos
brados corajosos e animados, seguiram em direção ao Rio Apa-Mi, dispostos a
conquistar sozinhos todo o Paraguai.
O calvário da Coluna na Retirada da Laguna
A cada avanço, os paraguaios se retraíam, parecendo fugir.
De vez em quando atacavam com a cavalaria. Isso incentivou ainda mais os
brasileiros, que adentraram o solo paraguaio. Por não conhecerem o terreno,
acamparam numa planície e, à noite, foram assolados por uma intensa tempestade.
Obrigados a pernoitar na chuva e na lama, molhados e tiritantes, muitos
morreram de frio.
Com o dia claro, homens, mulheres e muitas crianças
caminharam até uma fazenda conhecida como Laguna. O comando do Exército de
Caxias não sabia que eles haviam invadido o Paraguai.
Conhecedores do terreno, os paraguaios atacaram e fugiram.
Numa dessas investidas de surpresa, a cavalaria inimiga roubou o gado, deixando
a tropa com pouca comida. A ordem foi de retirada da Laguna, termo que cunhou a
malfadada expedição. A decisão desagradou a tropa.
O grito de Ana
Enquanto voltavam, os paraguaios os fustigavam com a
cavalaria; rapidamente atacavam e corriam. Mulheres começaram a gritar e rezar.
Ana subiu num carro de bois e falou a todas, silenciando-as e encorajando-as.
Elas olharam com espanto aquela mulher preta e corajosa, acalmando-se. Ana
rasgou a barra dos vestidos e ajudou os feridos como pôde.
Desconhecendo o caminho, o exército enveredou por um
capinzal alto, chamado macega. Abriram passagem à picada de facão, empurrando
os canhões em solo lamacento. De repente, ouviram um grito de desespero: os
paraguaios atearam fogo no capim seco, que ardia em gigantesca fogueira. Os
bravos soldados abriram às pressas uma clareira, protegendo as mulheres e o que
sobrou de comida e munição. Salvaram o pouco que restou, a custo de muitas
vidas. O corpo carbonizado de Tião Arlindo e os de muitos soldados foram
sepultados após o incêndio.
Resgate sob fogo
Outro corpo inimigo surpreendeu a tropa brasileira com sua
cavalaria ágil, isolando um grupo de batedores. Quando o tenente Monteiro foi
ferido à lança, Zé Mulato tentou puxá-lo com uma mão e defender-se com a espada
na outra. Mas um paraguaio, vindo pelo flanco, golpeou o soldado Mulato com uma
lança que trespassou seu peito.
Um grito fez com que Ana se voltasse para trás. Alguém avisou
que seu marido morreu. Por isso, ela entrou no campo de tiro para resgatá-lo.
Viu ainda o soldado paraguaio com sua lança cravada no peito de Zé Mulato. Não
pensou, não hesitou. Saltou e retirou seu marido enquanto o soldado paraguaio
fugia.
A noite chegou sem que os soldados armassem o acampamento.
Exaustos, dormiram ali mesmo, famintos e tiritantes. Ana deitou-se ao lado do
corpo do marido, porque os feridos e os mortos tinham que esperar pelo dia.
Pela manhã, fizeram os preparativos para seguir a marcha.
A ordem era prosseguir em direção a Miranda, onde estariam
seguros, mas deixariam os mortos e feridos para trás. Ana se revoltou, gritou a
plenos pulmões que não podiam deixar os feridos sem cuidados. Os soldados não a
ouviram e partiram, abandonando-os.
Não querendo enterrar seu marido em terras paraguaias,
embora já estivesse no Brasil e não soubesse, Ana tomou seu corpo frio nos
braços e o carregou por uns quatrocentos metros. Parava e descansava um pouco.
Voltava e pegava o tenente ferido nos braços, levando-o até onde deixara seu
marido. Fez esse trajeto três vezes naquele dia.
À noite, exausta, chegou ao acampamento dos soldados e
implorou por comida para o tenente, que ainda estava vivo. Conseguiu uma cuia
de mingau de fubá de milho e o alimentou. Mais tarde, tentou dormir e
descansar.
Quando amanheceu, tomou o tenente e o levou por mais
quatrocentos ou quinhentos metros. Depositou-o no solo e voltou para buscar o
corpo de seu marido. Ninguém a ajudava. Pediram a ela que os abandonasse para
se salvar. Mas, Ana respondeu: “nada vale um soldado sem o seu comandante”.
O dia amanheceu entre sede, fome, dor e determinação. Ela
carregava o corpo do marido até onde conseguia, buscando em seguida o tenente
ferido. Cansada, sentindo ela mesma os efeitos da cólera, resolveu enterrar seu
amado ao pé de uma árvore. Pedro Barroso o ajudou. Depois, ainda com auxílio do
amigo, colocou o tenente num carro de bois. Sentou-se à sombra de uma árvore e
esperou sozinha; já não tinha mais forças e Ana fechou os olhos.
Vidas ceifadas e promessas não cumpridas
A guerra ceifou 130.000 vidas brasileiras e foi quase um
genocídio para o Paraguai. Obcecado, quando Caxias desistiu alegando que já não
havia mais com quem lutar, Dom Pedro II nomeou seu genro, o conde d’Eu,
Comandante-Chefe do Exército Imperial. A guerra se estendeu até que Solano
Lopes foi morto por um soldado brasileiro.
O custo da guerra foi exorbitante, e nenhuma promessa de
doação de terras foi cumprida por parte do Império do Brasil. As consequências políticas
também foram enormes, desde a pressão em prol da abolição da escravatura até a
culminância com a Proclamação da República e a consequente expulsão da família
real do Brasil. Este continuou agrário, oligárquico, analfabeto e desigual.
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