quinta-feira, 27 de novembro de 2025

MUNDO AFRO...04

 

A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão no Brasil

Há 137 anos, o domingo de 13 de maio de 1888 amanheceu ensolarado no Rio de Janeiro, a capital do Império do Brasil.

Era um dia de festa. A escravidão chegava ao fim por meio de uma lei votada no Senado e assinada pela princesa Isabel.

 

O Brasil era o último país da América a acabar com a escravidão. Ao longo de mais de três séculos, foi o maior destino de tráfico de africanos no mundo, quase cinco milhões de pessoas. Grande parte dos descendentes daqueles que chegaram também fora escravizada.

 

"Todos saíram à rua. Todos respiravam felicidade, tudo era delírio. Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra de ter visto", recordou cinco anos depois o escritor Machado de Assis, que participou das comemorações do fim da escravidão, no Rio.

 

Outro escritor afrodescendente, Lima Barreto, completava 7 anos naquele 13 de maio e celebrou o aniversário no meio da multidão.

 

Décadas depois, se lembraria: "Jamais na minha vida vi tanta alegria. Era geral, era total. E os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente (de) festa e harmonia".

 

Na festa, Isabel foi exaltada pelo povo. Mas a abolição não foi uma ação benevolente da princesa e do Senado. Tampouco derivava apenas da exaustão do modelo econômico baseado no trabalho escravo, que precisava ser substituído pelo trabalho livre.

 

O fim da escravidão no Brasil foi impulsionado por diversos fatores, entre eles, uma importante participação popular.

Cada vez mais escravos, negros livres e brancos se juntaram aos ideais abolicionistas. Sobretudo, na década de 1880.

 

As principais táticas eram a reunião em diferentes associações abolicionistas, a realização de eventos artísticos para angariar apoio, o ingresso de processos na Justiça e até o apoio a revoltas e fugas de escravos.

 

Várias pessoas reunidas na rua carregando bandeiras

Missa realizada em 17 de maio de 1888, no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, para celebrar o fim da escravidão no Brasil.

Na segunda metade da década de 1880, o abolicionismo pôs o Brasil em polvorosa.

Ceará, Amazonas e algumas cidades isoladas já tinham se declarado livres da escravidão.

 

Fugas e revoltas de escravos eram cada vez mais frequentes. Depois de fugir, eles tentavam chegar até quilombos e territórios já libertos.

 

A polícia era convocada para reprimir, mas também passou a se rebelar. O chefe do Exército chegou a escrever para a princesa exaltando a liberdade e dizendo que não iria mais caçar escravos fugidos.

 

No Parlamento, os debates pela abolição pegavam fogo. Na Justiça, havia um número cada vez maior de ações para reivindicar a liberdade.

 

Nas cidades, espetáculos artísticos eram seguidos de libertações massivas de escravos — no final, flores costumavam ser atiradas ao palco e o público saía aos gritos de "Viva a liberdade, viva a abolição".

 

"Depois da abolição, aconteceram várias celebrações em torno da princesa Isabel. Parte dos abolicionistas, inclusive, associou a abolição à Coroa. Mas (a princesa) teve uma importância bem lateral", fala a socióloga Angela Alonso, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro Flores, Votos e Balas, sobre o movimento abolicionista.

 

"Há vários líderes negros que foram muito importantes."

Ricardo Tadeu Caires Silva, professor da Universidade Estadual do Paraná, explica que durante muito tempo o estudo da história tratou a abolição como uma dádiva da princesa Isabel, "ignorando a agência dos principais interessados na abolição: os escravos".

 

Somente mais tarde, os escravos passaram a ser considerados protagonistas do processo.

 

"Aqueles que vencem a batalha é que fazem a narrativa. Nós historiadores temos que reconstituir o processo da batalha, para recuperar as vozes daqueles que não foram ouvidas", complementa Maria Helena Machado, também da USP, especialista em escravidão.

 

A lei assinada pela princesa — e apelidada de Lei Áurea — vinha tarde. Todos os países da América já tinham abolido a escravidão. O primeiro, foi o Haiti, 95 anos antes, em 1793.

 

A maioria demorou para seguir o pioneiro, e fez suas abolições entre os anos 1830 e 1860. Os Estados Unidos, em 1865. Cuba, a penúltima a abolir a escravidão, o fez dois anos antes do Brasil.

 

Em nenhum outro país, contudo, a escravidão teve a dimensão brasileira.

 

Enquanto 389 mil africanos desembarcaram nos Estados Unidos, no Brasil foram 4,9 milhões — 45% de toda a população que deixou a África como escrava.

 

No caminho, cerca de 670 mil morreram. O gigantismo da escravidão no Brasil dificultou o seu fim — ela estava impregnada na vida nacional.

 

MAPA - Origem e quantidade de escravos levados da África

A lei também vinha curta e seca.

 

"Artigo 1: É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brazil.

 

Artigo 2: Revogam-se as disposições em contrário".

 

Nada mais. Nenhuma indenização ou compensação para os recém-libertos, estimados em 1,5 milhão de pessoas naquela época, nenhuma política de emprego ou de acesso à terra. Isso dificultou a integração dos ex-escravos.

 

"(A alegria trazida pela lei da abolição) havia de ser geral pelo país, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão. Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!", ponderou Lima Barreto, ao se recordar da festa da abolição.

 

O movimento abolicionista

Em 1886, a célebre cantora lírica russa Nadina Bulicioff veio ao Brasil para fazer uma série de espetáculos, a convite do imperador Pedro II. Estava em cartaz com a peça Aida — nome da personagem principal, filha do rei da Etiópia, escravizada no Egito.

 

A temporada teve grande sucesso, especialmente, a última apresentação. Em certa altura da história, Aida foge do cativeiro, ainda com algemas.

 

Nesse momento, o abolicionista José do Patrocínio interrompeu a cena e subiu ao palco com seis mulheres escravizadas.

 

Então, a russa rompeu as algemas do figurino e, por um momento, trocou a ficção pela realidade: entregou cartas de liberdade verdadeiras para as seis escravas, que se tornaram livres naquele momento, como Aida.

 

"Sete Aidas. Choraram elas e o público, em delírio. Houve palmas e vivas, lançaram-se flores, soltaram-se pombos", relata Angela Alonso no livro "Flores, Votos e Balas".

 

Página de um jornal antigo onde se lê anúncio para matinê abolicionista

Era um evento abolicionista, já pré-combinado.

 

Na passagem pelo Brasil, Nadina ficou horrorizada com a escravidão. Recebeu uma joia de presente de admiradores e resolveu doá-la para comprar cartas de liberdade. O jornalista e escritor José do Patrocínio, negro e livre, ajudou a colocar a ideia em prática.

 

Patrocínio já estava acostumado a organizar eventos artísticos em prol da libertação dos escravos. Essa era uma das principais táticas do movimento abolicionista, do qual o jornalista fazia parte.

 

As apresentações de música e teatro angariavam recursos para comprar cartas de liberdade, estimulavam as pessoas a libertarem seus próprios escravos e, principalmente, ajudavam a persuadir a opinião pública.

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