02
Criador da Literatura de Cordel
O
paraibano Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, foi considerado o criador
da Literatura de Cordel e ficou conhecido, em famosa definição de Carlos
Drummond de Andrade, como o “príncipe dos poetas”. É considerado o primeiro
escritor brasileiro de literatura de cordel contemporânea. O autor mudou-se da
Paraíba para Recife por volta de 1907. Ao migrar para a capital pernambucana,
Gomes de Barros buscou viver exclusivamente de sua poesia. A cidade, constituída por significativo
índice populacional, favoreceu esse projeto pessoal na medida em que Recife
possuía um público leitor de folhetos, tipografias disponíveis para impressão e
linhas de trem que interligava diferentes pontos da região. Essa conjuntura de
fatores favoreceu a venda da literatura popular do autor.
03
Cordel
9
poemas de cordel nordestino importantes (explicados)
O
cordel nordestino é uma expressão popular que se caracteriza pela declamação de
poemas. Esses textos rimados são impressos em folhetos que podem ser pendurados
em cordas - os cordéis! - e são vendidos em feiras livres.
Esse
tipo de arte costuma trazer temas regionais, personagens locais, lendas
folclóricas, além de questões sociais.
Selecionamos
aqui trechos e poemas de cordel pequenos. São 8 obras que representam o Brasil
(principalmente o nordeste), seja por seus personagens, situações ou
questionamentos.
1. O
poeta da roça - Patativa do Assaré
patativa
do assaré
Retrato
de Patativa do Assaré em xilogravura
Sou fio
das mata, cantô da mão grosa
Trabaio
na roça, de inverno e de estio
A minha
chupana é tapada de barro
Só fumo
cigarro de paia de mio
Sou
poeta das brenha, não faço o papé
De
argum menestrê, ou errante cantô
Que
veve vagando, com sua viola
Cantando,
pachola, à percura de amô
Não
tenho sabença, pois nunca estudei
Apenas
eu seio o meu nome assiná
Meu
pai, coitadinho! vivia sem cobre
E o fio
do pobre não pode estudá
Meu
verso rastero, singelo e sem graça
Não
entra na praça, no rico salão
Meu
verso só entra no campo da roça e dos eito
E às
vezes, recordando feliz mocidade
Canto
uma sodade que mora em meu peito
O poema
em questão retrata o trabalhador da roça, o homem simples do campo. O autor,
Antônio Gonçalves da Silva, que ficou conhecido por Patativa do Assaré, nasceu
no sertão do Ceará em 1909.
Filho
de camponeses, Patativa sempre trabalhou na lida do campo e estudou poucos anos
na escola, o suficiente para ser alfabetizado. Começou a fazer poemas de cordel
por volta dos 12 anos e, mesmo com o reconhecimento, nunca deixou de trabalhar
na terra.
Nesse
cordel, Patativa então descreve seu modo de viver, fazendo um paralelo com a
vida de tantos brasileiros, homens e mulheres filhos do sertão e trabalhadores
rurais.
2. Ai
se sesse - Zé da Luz
Se um
dia nós se gostasse
Se um
dia nós se queresse
Se nos
dois se empareasse
Se
juntin nós dois vivesse
Se
juntin nós dois morasse
Se
juntin nós dois durmisse
Se
juntin nós dois morresse
Se pro
céu nos assubisse
Mas
porém acontecesse de São Pedro não abrisse
A porta
do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu
me arriminasse
E tu
com eu insistisse pra que eu me aresolvesse
E a
minha faca puxasse
E o
bucho do céu furasse
Talvez
que nos dois ficasse
Talvez
que nos dois caísse
E o céu
furado arriasse e as virgem todas fugisse
Em Ai
se sesse, o poeta Zé da Luz elabora uma cena fantasiosa e romântica de um casal
de enamorados que passa toda uma vida juntos, sendo companheiros na morte
também.
O autor
imagina que quando chegasse ao céu, o casal teria uma discussão com São Pedro.
O homem, com raiva, puxaria uma faca, "furando" o firmamento e
libertando os seres fantásticos que lá vivem.
É
interessante observar a narrativa desse poema, tão criativo e surpreendente,
combinado com a linguagem regional e considerada "errada" em termos
gramaticais. Poemas assim são exemplos de como o chamado "preconceito
linguístico" não tem razão de existir.
Esse
poema foi musicado em 2001 pela banda nordestina Cordel do Fogo Encantado.
Confira abaixo um vídeo com o áudio do cantor Lirinha recitando-o.
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3. As
Misérias da Época - Leandro Gomes de Barros
poeta
de cordel
Xilogravura
representando o poeta Leandro Gomes de Barros
Se eu
soubesse que esse mundo
Estava
tão corrompido
Eu
tinha feito uma greve
Porém
não tinha nascido
Minha
mãe não me dizia
A queda
da monarquia
Eu
nasci, fui enganado
Pra
viver neste mundo
Magro,
trapilho, corcundo,
Além de
tudo selado.
Assim
mesmo meu avô
Quando
eu pegava a chorar,
Ele
dizia não chore
O tempo
vai melhorar.
Eu de
tolo acreditava
Por
inocente esperava
Ainda
me sentar num trono
Vovó
para me distrair
Dizia
tempo há de vir
Que
dinheiro não tem dono.
Leandro
Gomes de Barros nasceu em 1860 na Paraíba e começou a viver da escrita por
volta dos 30 anos, até então, trabalhou em diversas funções.
Leandro
foi um homem crítico, denunciando abusos de poder, abordando temas como
política, religião, e acontecimentos importantes na época como a Guerra de
Canudos e o cometa Halley.
Nesse
poema As misérias da época, o autor exibe um descontentamento com a difícil
condição humana frente às injustiças dos poderosos. Ao mesmo tempo, relata a
esperança de dias melhores, combinada com uma certa frustração.
4. Ser
nordestino - Bráulio Bessa
Sou o
gibão do vaqueiro, sou cuscuz sou rapadura
Sou
vida difícil e dura
Sou
nordeste brasileiro
Sou
cantador violeiro, sou alegria ao chover
Sou
doutor sem saber ler, sou rico sem ser granfino
Quanto
mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser
Da
minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado
Do
nosso solo rachado, dessa gente maltratada
Quase sempre
injustiçada, acostumada a sofrer
Mais
mesmo nesse padecer eu sou feliz desde menino
Quanto
mais sou nordestino, mais orgulho tenho de ser
Terra
de cultura viva, Chico Anísio, Gonzagão de Renato Aragão
Ariano
e Patativa. Gente boa, criativa
Isso só
me dá prazer e hoje mais uma vez eu quero dizer
Muito
obrigado ao destino, quanto mais sou nordestino
Mais
tenho orgulho de ser.
O poeta
cearense Bráulio Bessa, nascido em 1985, vem fazendo muito sucesso ultimamente.
Usando vídeos na internet, Bráulio conseguiu chegar a milhares de pessoas e
difundir a arte da literatura e declamação de cordéis e da chamada poesia
matuta.
Nesse
texto, ele discorre sobre a honra de ser nordestino e também sobre as
dificuldades e preconceito que esse povo sofre. O autor cita personalidades
importantes nascidas nessa região do Brasil, inclusive Patativa do Assaré, que
é para ele uma referência.
5. A
greve dos bichos - Severino Milanês da Silva
Muito
antes do Dilúvio
era o
mundo diferente,
os
bichos todos falavam
melhor
do que muita gente
e
passavam boa vida,
trabalhando
honestamente.
O
diretor dos Correios
era o
doutor Jaboty;
o
fiscal do litoral
era o
matreiro Siry,
que
tinha como ajudante
o
malandro Quaty.
O rato
foi nomeado
para
chefe aduaneiro,
fazendo
muita "moamba"
ganhando
muito dinheiro,
com
Camundongo ordenança,
vestido
de marinheiro.
O
Cachorro era cantor,
gostava
de serenata,
andava
muito cintado,
de
colete e de gravata,
passava
a noite na rua
mais o
Besouro e a Barata.
O autor
desse poema é Severino Milanês da Silva, pernambucano que nasceu em 1906. Ficou
conhecido como repentista, rimador e escritor popular.
Severino
construiu uma obra em que mesclava referências históricas com um universo de
criaturas oníricas e fantasiosas.
Nesse
poema (exibido apenas um trecho da obra), o autor apresenta um devaneio
criativo em que os animais assumem posições humanas.
Assim,
cada espécie de bicho tinha uma função na sociedade, permitindo uma narrativa
interessante sobre a condição das pessoas no mundo do trabalho.
6. O romance
do pavão misterioso - José Camelo de Melo Resende
pavão
misterioso cordel
Eu vou
contar uma história
De um
pavão misterioso
Que
levantou vôo na Grécia
Com um
rapaz corajoso
Raptando
uma condessa
Filha
de um conde orgulhoso.
Residia
na Turquia
Um viúvo
capitalista
Pai de
dois filhos solteiros
O mais
velho João Batista
Então o
filho mais novo
Se
chamava Evangelista.
O velho
turco era dono
Duma
fábrica de tecidos
Com
largas propriedades
Dinheiro
e bens possuídos
Deu de
herança a seus filhos
Porque
eram bem unidos (...)
José
Camelo de Melo Resende é considerado um dos grandes cordelistas brasileiros.
Nascido em 1885 em Pernambuco, foi o autor de um dos maiores sucessos do
cordel, o folheto O romance do pavão misterioso.
A obra
foi por muito tempo atribuída a João Melquíades, que se apossou da autoria.
Depois descobriu-se que, na realidade, era de José Camelo.
Essa
obra, que mostramos as três primeiras estrofes, conta sobre a história de amor
entre o jovem chamado Evangelista e a condessa Creusa.
Em
1974, o cantor e compositor Ednardo lança a música Pavão misterioso, baseada
nesse famoso romance de cordel.
7.
Cartilha do povo - Raimundo Santa Helena
raimundo
santa helena cordel
(...)
Contestação não é crime
Onde há
democracia
Só ao
cidadão pertence
A sua
soberania
No
poder coercitivo
Jesus
foi subversivo
Na
versão da tirania.
Eu sou
dono do meu passe
Faço
arte sem patrão
Só quem
tem capacidade
Deve
ser oposição
Porque
lutar pelos fracos
É
tatear nos buracos
Na
densa escuridão.
Raimundo
Santa Helena pertence à chamada segunda geração de cordelistas nordestinos. O
poeta veio ao mundo em 1926, no estado da Paraíba.
A
produção literária de Raimundo é muito voltada para os questionamentos sociais
e denúncias das mazelas do povo, sobretudo o nordestino.
Aqui, o
autor questiona a democracia e defende o poder popular, citando como exemplo de
rebeldia Jesus Cristo. Raimundo se coloca ainda como dono de sua arte e avesso
aos desmandos de patrões. O poeta também convoca, de certa forma, outras pessoas
a unirem-se a ele na luta contra as opressões.
8. A
peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho - Firmino Teixeira do Amaral
cordel
cego aderaldo
Capa do
cordel A peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho
Apreciem,
meus leitores,
Uma
forte discussão,
Que
tive com Zé Pretinho,
Um
cantador do sertão,
O qual,
no tanger do verso,
Vencia
qualquer questão.
Um dia,
determinei
A sair
do Quixadá
Uma das
belas cidades
Do
estado do Ceará.
Fui até
o Piauí,
Ver os
cantores de lá.
Me
hospedei na Pimenteira
Depois
em Alagoinha;
Cantei
no Campo Maior,
No
Angico e na Baixinha.
De lá
eu tive um convite
Para
cantar na Varzinha.
[…]”
Firmino
Teixeira do Amaral, nascido no Piauí em 1896, é o autor desse famoso cordel.
Nessa história (que exibimos apenas um trecho), Firmino coloca Cego Aderaldo
(outro importante cordelista nordestino) como personagem.
Na
história, é narrada uma discussão entre Cego Aderaldo e Zé Pretinho. O fato é
colocado em questão por muitas pessoas, restando a dúvida se tal
"peleja" aconteceu. Entretanto, é bastante provável que tenha sido
uma invenção do autor.
Esse
texto foi musicado em 1964 por Nara Leão e João do Vale, gravado no disco
Opinião.
9. A
Chegada de Lampião No Inferno - José Pacheco
Um
cabra de Lampião
De nome
Pilão Deitado
Que
morreu numa trincheira
Num
certo tempo passado
Agora
pelo sertão Anda correndo visão
Fazendo
mal-assombrado
E foi
quem trouxe a notícia
Que viu
Lampião chegar
O
inferno nesse dia
Faltou
pouco pra virar
Incendiou-se
o mercado
Morreu
tanto cão queimado
Que faz
gosto inté contar
Morreram
cem negro velho
Que não
trabalhavam mais
Três
netos de Parafuso
E um
cão chamado Cá-traz
Morreu
também Bigodeira
E um
cão chamado Buteira
Cunhado
de Satanás
Vamos
tratar da chegada
Quando
lampião bateu
Um
moleque ainda moço
No
portão apareceu
Quem é
você, cavalheiro?
Moleque,
eu sou cangaceiro
Lampião
lhe respondeu
Moleque,
não! Sou vigia
E não
sou seu pairceiro
Hoje
aqui o senhor não entra
Sem
dixé quem é primeiro
Moleque,
abra o portão
Saiba
que sou Lampião
O
assombro do mundo inteiro
Então
esse vigia
Que
trabalha no portão
Dá pisa
que voa cinza
Sem
fazer distinção
O cabra
escreveu não leu
A
macaiba comeu
Ali não
se faz perdão
O vigia
foi e disse
Fique
fora que eu entro
E eu
vou falar com o chefe
No
gabinete do centro
Por
certo ele não lhe quer
Mas
conforme eu lhe disser
Eu levo
o senhor pra dentro
Lampião
disse: Vá logo
Quem
conversa perde hora
Vá
depressa e volte logo
E eu
quero pouca demora
Se não
me derem ingresso
Eu viro
tudo aos avesso
Taco
fogo e vou embora
O vigia
foi e disse
A
satanás no salão
Saiba,
vossa senhoria
Aí
chegou Lampião
Dizendo
que quer entrar
E eu
vim lhe perguntar
Se lhe
dou o ingresso ou não
Não
senhor, satanás disse
Diga a
ele que vá simbora
Só me
chega gente ruim
Eu ando
muito caipora
Eu já
to inté com vontade
De
botar mais da metade
Dos que
têm aqui pra fora
Não
senhor satanás disse
Vá
dizer que vá embora
Só me
chega gente ruim
Eu ando
meio caipora
Eu já
estou com vontade
De
botar mais da metade
Dos que
têm aqui pra fora
Disse o
vigia
Patrão
A coisa vai piorar
E eu
sei que ele se dana
Quando
não puder entrar
Satanás
disse isso é nada
Reúna
aí a negrada
E leve
o que precisar
Quando
Lampião deu fé
Da
tropa negra encostada
Disse
só na Abissínia
Ô tropa
preta danada
E uma
voz que ecoou
Satanás
foi quem mandou
Taca-lhe
fogo negrada
Lampião
pôde pegar
Uma
caveira de boi
Sapecou
na testa dum
E o
cabra só fez dizer oi
Houve
grande prejuízo
No
inferno nesse dia
Queimou-se
vinte mil conto
Que
Satanás possuía
Queimou-se
o livro do pont
Perderam
seiscentos contos
Somente
em mercadoria
Reclamava
Lucifer
Crise
maior não precisa
Os anos
ruim de safra
E agora
mais esta pisa
Se não
houver bom inverno
Aqui
dentro dos inferno
Ninguém
compra uma camisa
Quem
duvidar desta historia
Pensar
que não foi assim
Duvidando
de meu verso
Não
acreditando em mim
Vá
comprar papel moderno
E
escreva para os inferno
Mande
saber de Caim
José
Pacheco da Rocha foi um importante cordelista nordestino do início do século
XX. Especula-se que tenha nascido em Alagoas ou Pernambuco.
Um de
seus cordéis de maior sucesso é A chegada de Lampião no Inferno, texto
humorístico que carrega bastante influência do teatro de mamulengo, outra
expressão popular da região.
Nesse
cordel, o autor inventa a chegada do famoso cangaceiro Lampião ao inferno. Com
bom humor e espirituosidade, ele trazia temas cotidianos, religiosos e
personagens do sertão nordestino, como os cangaceiros para sua obra.
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