domingo, 2 de novembro de 2025

LITERATURA DE CORDEL 02

 

02 Criador da Literatura de Cordel

O paraibano Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, foi considerado o criador da Literatura de Cordel e ficou conhecido, em famosa definição de Carlos Drummond de Andrade, como o “príncipe dos poetas”. É considerado o primeiro escritor brasileiro de literatura de cordel contemporânea. O autor mudou-se da Paraíba para Recife por volta de 1907. Ao migrar para a capital pernambucana, Gomes de Barros buscou viver exclusivamente de sua poesia.  A cidade, constituída por significativo índice populacional, favoreceu esse projeto pessoal na medida em que Recife possuía um público leitor de folhetos, tipografias disponíveis para impressão e linhas de trem que interligava diferentes pontos da região. Essa conjuntura de fatores favoreceu a venda da literatura popular do autor.

 

 

03 Cordel

9 poemas de cordel nordestino importantes (explicados)

 

O cordel nordestino é uma expressão popular que se caracteriza pela declamação de poemas. Esses textos rimados são impressos em folhetos que podem ser pendurados em cordas - os cordéis! - e são vendidos em feiras livres.

 

Esse tipo de arte costuma trazer temas regionais, personagens locais, lendas folclóricas, além de questões sociais.

 

Selecionamos aqui trechos e poemas de cordel pequenos. São 8 obras que representam o Brasil (principalmente o nordeste), seja por seus personagens, situações ou questionamentos.

 

1. O poeta da roça - Patativa do Assaré

patativa do assaré

Retrato de Patativa do Assaré em xilogravura

Sou fio das mata, cantô da mão grosa

Trabaio na roça, de inverno e de estio

A minha chupana é tapada de barro

Só fumo cigarro de paia de mio

 

Sou poeta das brenha, não faço o papé

De argum menestrê, ou errante cantô

Que veve vagando, com sua viola

Cantando, pachola, à percura de amô

 

Não tenho sabença, pois nunca estudei

Apenas eu seio o meu nome assiná

Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre

E o fio do pobre não pode estudá

 

Meu verso rastero, singelo e sem graça

Não entra na praça, no rico salão

Meu verso só entra no campo da roça e dos eito

E às vezes, recordando feliz mocidade

Canto uma sodade que mora em meu peito

 

O poema em questão retrata o trabalhador da roça, o homem simples do campo. O autor, Antônio Gonçalves da Silva, que ficou conhecido por Patativa do Assaré, nasceu no sertão do Ceará em 1909.

 

Filho de camponeses, Patativa sempre trabalhou na lida do campo e estudou poucos anos na escola, o suficiente para ser alfabetizado. Começou a fazer poemas de cordel por volta dos 12 anos e, mesmo com o reconhecimento, nunca deixou de trabalhar na terra.

 

Nesse cordel, Patativa então descreve seu modo de viver, fazendo um paralelo com a vida de tantos brasileiros, homens e mulheres filhos do sertão e trabalhadores rurais.

 

2. Ai se sesse - Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse

Se um dia nós se queresse

Se nos dois se empareasse

Se juntin nós dois vivesse

Se juntin nós dois morasse

Se juntin nós dois durmisse

Se juntin nós dois morresse

Se pro céu nos assubisse

 

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice

E se eu me arriminasse

E tu com eu insistisse pra que eu me aresolvesse

E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Talvez que nos dois ficasse

Talvez que nos dois caísse

E o céu furado arriasse e as virgem todas fugisse

 

Em Ai se sesse, o poeta Zé da Luz elabora uma cena fantasiosa e romântica de um casal de enamorados que passa toda uma vida juntos, sendo companheiros na morte também.

 

O autor imagina que quando chegasse ao céu, o casal teria uma discussão com São Pedro. O homem, com raiva, puxaria uma faca, "furando" o firmamento e libertando os seres fantásticos que lá vivem.

 

É interessante observar a narrativa desse poema, tão criativo e surpreendente, combinado com a linguagem regional e considerada "errada" em termos gramaticais. Poemas assim são exemplos de como o chamado "preconceito linguístico" não tem razão de existir.

 

Esse poema foi musicado em 2001 pela banda nordestina Cordel do Fogo Encantado. Confira abaixo um vídeo com o áudio do cantor Lirinha recitando-o.

 

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3. As Misérias da Época - Leandro Gomes de Barros

poeta de cordel

Xilogravura representando o poeta Leandro Gomes de Barros

Se eu soubesse que esse mundo

Estava tão corrompido

Eu tinha feito uma greve

Porém não tinha nascido

Minha mãe não me dizia

A queda da monarquia

Eu nasci, fui enganado

Pra viver neste mundo

Magro, trapilho, corcundo,

Além de tudo selado.

 

Assim mesmo meu avô

Quando eu pegava a chorar,

Ele dizia não chore

O tempo vai melhorar.

Eu de tolo acreditava

Por inocente esperava

Ainda me sentar num trono

Vovó para me distrair

Dizia tempo há de vir

Que dinheiro não tem dono.

 

 

Leandro Gomes de Barros nasceu em 1860 na Paraíba e começou a viver da escrita por volta dos 30 anos, até então, trabalhou em diversas funções.

 

Leandro foi um homem crítico, denunciando abusos de poder, abordando temas como política, religião, e acontecimentos importantes na época como a Guerra de Canudos e o cometa Halley.

 

Nesse poema As misérias da época, o autor exibe um descontentamento com a difícil condição humana frente às injustiças dos poderosos. Ao mesmo tempo, relata a esperança de dias melhores, combinada com uma certa frustração.

 

4. Ser nordestino - Bráulio Bessa

Sou o gibão do vaqueiro, sou cuscuz sou rapadura

Sou vida difícil e dura

Sou nordeste brasileiro

Sou cantador violeiro, sou alegria ao chover

Sou doutor sem saber ler, sou rico sem ser granfino

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser

Da minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado

Do nosso solo rachado, dessa gente maltratada

Quase sempre injustiçada, acostumada a sofrer

Mais mesmo nesse padecer eu sou feliz desde menino

Quanto mais sou nordestino, mais orgulho tenho de ser

 

Terra de cultura viva, Chico Anísio, Gonzagão de Renato Aragão

Ariano e Patativa. Gente boa, criativa

Isso só me dá prazer e hoje mais uma vez eu quero dizer

Muito obrigado ao destino, quanto mais sou nordestino

Mais tenho orgulho de ser.

 

O poeta cearense Bráulio Bessa, nascido em 1985, vem fazendo muito sucesso ultimamente. Usando vídeos na internet, Bráulio conseguiu chegar a milhares de pessoas e difundir a arte da literatura e declamação de cordéis e da chamada poesia matuta.

 

Nesse texto, ele discorre sobre a honra de ser nordestino e também sobre as dificuldades e preconceito que esse povo sofre. O autor cita personalidades importantes nascidas nessa região do Brasil, inclusive Patativa do Assaré, que é para ele uma referência.

 

5. A greve dos bichos - Severino Milanês da Silva

Muito antes do Dilúvio

era o mundo diferente,

os bichos todos falavam

melhor do que muita gente

e passavam boa vida,

trabalhando honestamente.

 

O diretor dos Correios

era o doutor Jaboty;

o fiscal do litoral

era o matreiro Siry,

que tinha como ajudante

o malandro Quaty.

 

O rato foi nomeado

para chefe aduaneiro,

fazendo muita "moamba"

ganhando muito dinheiro,

com Camundongo ordenança,

vestido de marinheiro.

 

O Cachorro era cantor,

gostava de serenata,

andava muito cintado,

de colete e de gravata,

passava a noite na rua

mais o Besouro e a Barata.

 

O autor desse poema é Severino Milanês da Silva, pernambucano que nasceu em 1906. Ficou conhecido como repentista, rimador e escritor popular.

 

Severino construiu uma obra em que mesclava referências históricas com um universo de criaturas oníricas e fantasiosas.

 

Nesse poema (exibido apenas um trecho da obra), o autor apresenta um devaneio criativo em que os animais assumem posições humanas.

 

Assim, cada espécie de bicho tinha uma função na sociedade, permitindo uma narrativa interessante sobre a condição das pessoas no mundo do trabalho.

 

6. O romance do pavão misterioso - José Camelo de Melo Resende

pavão misterioso cordel

 

Eu vou contar uma história

De um pavão misterioso

Que levantou vôo na Grécia

Com um rapaz corajoso

Raptando uma condessa

Filha de um conde orgulhoso.

 

Residia na Turquia

Um viúvo capitalista

Pai de dois filhos solteiros

O mais velho João Batista

Então o filho mais novo

Se chamava Evangelista.

 

O velho turco era dono

Duma fábrica de tecidos

Com largas propriedades

Dinheiro e bens possuídos

Deu de herança a seus filhos

Porque eram bem unidos (...)

 

 

José Camelo de Melo Resende é considerado um dos grandes cordelistas brasileiros. Nascido em 1885 em Pernambuco, foi o autor de um dos maiores sucessos do cordel, o folheto O romance do pavão misterioso.

 

A obra foi por muito tempo atribuída a João Melquíades, que se apossou da autoria. Depois descobriu-se que, na realidade, era de José Camelo.

 

Essa obra, que mostramos as três primeiras estrofes, conta sobre a história de amor entre o jovem chamado Evangelista e a condessa Creusa.

 

Em 1974, o cantor e compositor Ednardo lança a música Pavão misterioso, baseada nesse famoso romance de cordel.

 

7. Cartilha do povo - Raimundo Santa Helena

raimundo santa helena cordel

 

(...) Contestação não é crime

Onde há democracia

Só ao cidadão pertence

A sua soberania

No poder coercitivo

Jesus foi subversivo

Na versão da tirania.

 

Eu sou dono do meu passe

Faço arte sem patrão

Só quem tem capacidade

Deve ser oposição

Porque lutar pelos fracos

É tatear nos buracos

Na densa escuridão.

 

Raimundo Santa Helena pertence à chamada segunda geração de cordelistas nordestinos. O poeta veio ao mundo em 1926, no estado da Paraíba.

 

A produção literária de Raimundo é muito voltada para os questionamentos sociais e denúncias das mazelas do povo, sobretudo o nordestino.

 

Aqui, o autor questiona a democracia e defende o poder popular, citando como exemplo de rebeldia Jesus Cristo. Raimundo se coloca ainda como dono de sua arte e avesso aos desmandos de patrões. O poeta também convoca, de certa forma, outras pessoas a unirem-se a ele na luta contra as opressões.

 

8. A peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho - Firmino Teixeira do Amaral

cordel cego aderaldo

Capa do cordel A peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho

Apreciem, meus leitores,

Uma forte discussão,

Que tive com Zé Pretinho,

Um cantador do sertão,

O qual, no tanger do verso,

Vencia qualquer questão.

Um dia, determinei

A sair do Quixadá

Uma das belas cidades

Do estado do Ceará.

Fui até o Piauí,

Ver os cantores de lá.

Me hospedei na Pimenteira

Depois em Alagoinha;

Cantei no Campo Maior,

No Angico e na Baixinha.

De lá eu tive um convite

Para cantar na Varzinha.

[…]”

 

 

Firmino Teixeira do Amaral, nascido no Piauí em 1896, é o autor desse famoso cordel. Nessa história (que exibimos apenas um trecho), Firmino coloca Cego Aderaldo (outro importante cordelista nordestino) como personagem.

 

Na história, é narrada uma discussão entre Cego Aderaldo e Zé Pretinho. O fato é colocado em questão por muitas pessoas, restando a dúvida se tal "peleja" aconteceu. Entretanto, é bastante provável que tenha sido uma invenção do autor.

 

Esse texto foi musicado em 1964 por Nara Leão e João do Vale, gravado no disco Opinião.

 

9. A Chegada de Lampião No Inferno - José Pacheco

Um cabra de Lampião

De nome Pilão Deitado

Que morreu numa trincheira

Num certo tempo passado

Agora pelo sertão Anda correndo visão

Fazendo mal-assombrado

 

E foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar

O inferno nesse dia

Faltou pouco pra virar

Incendiou-se o mercado

Morreu tanto cão queimado

Que faz gosto inté contar

 

Morreram cem negro velho

Que não trabalhavam mais

Três netos de Parafuso

E um cão chamado Cá-traz

Morreu também Bigodeira

E um cão chamado Buteira

Cunhado de Satanás

 

Vamos tratar da chegada

Quando lampião bateu

Um moleque ainda moço

No portão apareceu

Quem é você, cavalheiro?

Moleque, eu sou cangaceiro

Lampião lhe respondeu

 

Moleque, não! Sou vigia

E não sou seu pairceiro

Hoje aqui o senhor não entra

Sem dixé quem é primeiro

Moleque, abra o portão

Saiba que sou Lampião

O assombro do mundo inteiro

 

Então esse vigia

Que trabalha no portão

Dá pisa que voa cinza

Sem fazer distinção

O cabra escreveu não leu

A macaiba comeu

Ali não se faz perdão

 

O vigia foi e disse

Fique fora que eu entro

E eu vou falar com o chefe

No gabinete do centro

Por certo ele não lhe quer

Mas conforme eu lhe disser

Eu levo o senhor pra dentro

 

Lampião disse: Vá logo

Quem conversa perde hora

Vá depressa e volte logo

E eu quero pouca demora

Se não me derem ingresso

Eu viro tudo aos avesso

Taco fogo e vou embora

 

O vigia foi e disse

A satanás no salão

Saiba, vossa senhoria

Aí chegou Lampião

Dizendo que quer entrar

E eu vim lhe perguntar

Se lhe dou o ingresso ou não

 

Não senhor, satanás disse

Diga a ele que vá simbora

Só me chega gente ruim

Eu ando muito caipora

Eu já to inté com vontade

De botar mais da metade

Dos que têm aqui pra fora

 

Não senhor satanás disse

Vá dizer que vá embora

Só me chega gente ruim

Eu ando meio caipora

Eu já estou com vontade

De botar mais da metade

Dos que têm aqui pra fora

 

Disse o vigia

Patrão A coisa vai piorar

E eu sei que ele se dana

Quando não puder entrar

Satanás disse isso é nada

Reúna aí a negrada

E leve o que precisar

 

Quando Lampião deu fé

Da tropa negra encostada

Disse só na Abissínia

Ô tropa preta danada

E uma voz que ecoou

Satanás foi quem mandou

Taca-lhe fogo negrada

 

Lampião pôde pegar

Uma caveira de boi

Sapecou na testa dum

E o cabra só fez dizer oi

 

Houve grande prejuízo

No inferno nesse dia

Queimou-se vinte mil conto

Que Satanás possuía

Queimou-se o livro do pont

Perderam seiscentos contos

Somente em mercadoria

 

Reclamava Lucifer

Crise maior não precisa

Os anos ruim de safra

E agora mais esta pisa

Se não houver bom inverno

Aqui dentro dos inferno

Ninguém compra uma camisa

 

Quem duvidar desta historia

Pensar que não foi assim

Duvidando de meu verso

Não acreditando em mim

Vá comprar papel moderno

E escreva para os inferno

Mande saber de Caim

 

 

José Pacheco da Rocha foi um importante cordelista nordestino do início do século XX. Especula-se que tenha nascido em Alagoas ou Pernambuco.

 

Um de seus cordéis de maior sucesso é A chegada de Lampião no Inferno, texto humorístico que carrega bastante influência do teatro de mamulengo, outra expressão popular da região.

 

Nesse cordel, o autor inventa a chegada do famoso cangaceiro Lampião ao inferno. Com bom humor e espirituosidade, ele trazia temas cotidianos, religiosos e personagens do sertão nordestino, como os cangaceiros para sua obra.

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