Uma lição sobre política em Agostinho de Hipona.
Por Anderson Paz
A biografia de Peter Brown sobre Agostinho nos explica que depois de ele ter se tornado bispo em Hipona, passou a se dedicar às atividades pastorais e políticas da época. Em seu momento histórico, um bispo tinha um papel pastoral-político. Agostinho julgava casos, aconselhava políticos, era crítico cultural (criticava a ostentação dos ricos), dirigia um monastério. Ou seja, suas atividades pastorais e políticas se misturavam.
Na época, os católicos não tinham uma presença massiva como tinham os donatistas em Hipona. Os donatistas, grosso modo, defendiam que a Igreja não poderia ser universal, mas sim limitada a uma comunidade de crentes pura e imaculada, e eram contrários à aproximação da Igreja ao poder político para transformação da cultura.
Por sua vez, Agostinho defendia ser necessário o desenvolvimento de uma "cultura cristã" para transformar a sociedade e também entendia ser necessária uma abertura da Igreja para receber quaisquer "pecadores". Agostinho defendia, na primeira década do quinto século (401-10 A.D.), que a Igreja católica estreitasse laços com o aparato político romano.
Não deu outra! Agostinho apoiou perseguições a donatistas (além de grupos pagãos), inflamou a multidão contra os "inimigos da Igreja" e usou o poder político para interferir nos costumes do povo. A ideia era criar uma "cultura cristã" usando o poder político. Agostinho teve êxito com os donatistas e depois os venceu em debates.
Na década seguinte (411-20 A.D.), contudo, Brown observa que - depois do saque dos godos a Roma em 410 - o Império entrou num clima de fim de festa. O Império já estava fraco e dava mostras que não resistiria por muito tempo aos bárbaros.
Nessa época, as lideranças políticas começaram a se tornar arbitrárias contra a própria Igreja. Agostinho começou, então, a escrever "A cidade de Deus" e passou a desconfiar dos benefícios da união entre poder político e Igreja.
Agostinho percebeu que as duas cidades (celestial e terrena) têm "amores" distintos que levavam a uma constante tensão ao longo da história. Nessa época, revela-se um Agostinho mais maduro e um tanto cético quanto às benesses da aproximação entre poder político e Igreja.
Aquele mesmo bispo que inflamava as multidões e queria apoio do poder político na perseguição dos inimigos da Igreja, um pouco mais velho começou a perceber os sérios problemas da estreita relação entre Igreja e poder político. O Agostinho de 411-420 tem muito a nos ensinar.
• Anderson Paz é membro da Igreja do Betel Brasileiro em João Pessoa, PB. Advogado, é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco.
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