Como a
fé sobrevive ao consumo – o Labubu e o pão nosso...
Por
Carlos Henrique
Mal
tivemos tempo de comentar a onda dos bebês reborn e ela já ficou para trás,
engolida pela fluidez da cultura contemporânea. Agora é vez do monstrinho
Labubu que toma conta das redes. Depois de causar filas e tumultos mundo afora
como item de luxo vendido pela PopMart, chegou ao Brasil em sua versão
“popularizada” na rua 25 de Março com o nome de Lafufu. O original custa até R$
1600 e aparece nas bolsas de influenciadoras como Virgínia Fonseca e Maya
Massafera. Na 25 de março, o primo humilde custa entre R$ 65 e R$ 250. Mas a
questão não é só o boneco, é o que ele representa: o ciclo do consumo por
pertencimento, que transforma objetos banais em símbolos de status e
identidade.
Apesar
da nossa tendência de associar o consumo apenas a tudo que gira em torno da
compra, da posse, não podemos excluir que ele também abarca a aparência, e o
status quo. Dessa forma o que consumimos, e a forma como consumimos, molda não
apenas nossa economia, mas também nossa identidade, nossos relacionamentos e
por consequência nossa espiritualidade.
Desde
as formas comunitárias de organização até as revoluções industriais, passando
por sistemas escravistas e modelos como o fordismo e o toyotismo, a fé cristã
sempre foi desafiada a discernir como viver o Evangelho diante de cada
realidade econômica e social. Hoje, o desafio da fé é refletir sobre como viver
o Evangelho em meio a uma realidade consumista.
Para
podermos refletir um pouco melhor, me permita fazer algumas inferências sobre o
consumo. Primeiramente vamos diferenciar entre consumo por necessidade e
consumo por pertencimento, eu sei que é comum classificar consumo em pelo menos
quatro tipos, mas creio que esses dois conseguem abarcar todas as
classificações para as reflexões aqui estabelecidas.
O
consumo por necessidade é simples e objetivo. É quando consumimos para viver:
alimento, vestuário, cuidados básicos, moradia. É o consumo que responde às
nossas necessidades mais fundamentais. Já o consumo por pertencimento opera em
outra lógica, é o que fazemos para ser vistos, incluir-se, sentir-se parte.
Compramos não porque precisamos, mas porque queremos nos encaixar, afirmar
status, preencher inseguranças, seguir tendências.
Ambos
os consumos são ensinados, por exemplo: normalmente você é ensinado a comer
alimentos mais saudáveis para ter mais energia e evitar doenças (consumo por
necessidade), normalmente você também é ensinado que ter determinadas marcas no
seu guarda-roupa, ou vestir determinado estilo, te fará ser uma pessoa com mais
amigos (consumo por pertencimento).
No
consumo por necessidade vemos um alinhamento mais próximo, com o que o próprio
Jesus nos ensina quando ora: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11).
Trata-se de reconhecer a provisão de Deus e confiar que Ele cuida das nossas
necessidades. Vale ressaltar que isso não nega o desejo legítimo de melhorar de
vida ou conquistar bens por meio do trabalho honesto, isso é digno e pode
refletir até mesmo a criatividade e o zelo que recebemos de Deus. Mas, nesse
processo, a alma também percebe sua fragilidade e seu pecado, e por isso se
volta a Deus não apenas com gratidão, mas com humildade, pedindo por
misericórdia.
Já no
consumo por pertencimento, consumir se torna um caminho para parecer alguém, e
não para ser alguém. A identidade se esvazia, e a fé corre o risco de ser
substituída por etiquetas, marcas e experiências comercializadas, aos poucos,
deixamos de ser cristãos por seguirmos a Jesus e nutrirmos um relacionamento
profundo com ele, e passamos a construir nossa identidade cristã com base nas
roupas sugeridas pela blogueira evangê ou na aquisição da Bíblia mais trend do
momento.
Essa
lógica de pertencimento se alimenta diretamente de uma das forças motrizes do
consumismo: a escassez. Criar a sensação de que “não há para todos”, seja um
produto exclusivo, um evento limitado, ou mesmo poder morar numa área da cidade
que não alaga, ou ter direito a água potável, viver numa região sem
criminalidade é uma estratégia de manutenção de poder. Quando a escassez é
fabricada ou mantida, ela empurra as pessoas para o consumo compulsivo, para a
corrida desenfreada por “mais”, para a lógica de que quem não tem, não é.
Mais do
que uma falha, isso é um projeto anticristo. A exclusão de pessoas, a
manutenção da pobreza, a valorização do luxo como símbolo de sucesso: tudo isso
sustenta um estilo de vida fora dos valores de Cristo, pois nessa lógica você é
o que você possui, faz ou dizem sobre você, e não o que Cristo diz sobre você.
É nesse ponto que entra o chamado radical de Jesus: "Vocês não podem
servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6.24). A proposta de Cristo não é de fuga
do mundo, mas de sabedoria no mundo. Fica claro que teremos de lidar com o
consumo e é aí que Ele nos convida a repensar nossas práticas, nossos desejos,
nossas prioridades. Não se trata apenas de consumir menos, mas de consumir com
consciência (seja produtos, conteúdos ou vivências), e principalmente, de não
permitir que nosso valor ou pertencimento sejam definidos pelo que temos, mas
por quem somos em Deus.
Consumir
com sabedoria, nesse sentido, é também um ato de fé. É uma declaração
silenciosa, porém poderosa, de que meu valor não está no que eu tenho, no que
eu faço, ou no que dizem ao meu respeito, mas em quem me chamou pelo nome, que
me recebeu em Sua família como filho adotivo (Jo 1.12, Ef 1.5). É afirmar que
minha felicidade não depende de possuir mais, mas de confiar mais: mais em
Deus, mais em Sua graça, mais em quem Ele diz que eu sou.
É sobre
aprender a viver “o pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Não é apenas sobre
pedir o necessário, mas sobre confiar plenamente na suficiência de Deus, é crer
que Ele sabe o que precisamos antes mesmo de pedirmos, entender que nem tudo o
que desejamos é essencial e que o contentamento, em um mundo movido pela
escassez, pelo excesso e pela comparação, é um ato profundo de resistência. Que
o Pai nos ensine a pedir o pão de hoje e não os banquetes do amanhã, a confiar
na provisão e não na posse, a descansar na suficiência e não na ansiedade,
porque quem tem o pão de cada dia, carrega uma riqueza que o mundo não pode
dar... e nem tirar.
Carlos
Henrique é engenheiro florestal, especialista em educação e gestão ambiental e
mestrando em conservação e desenvolvimento sustentável. Congrega na Igreja
Presbiteriana e atua como coordenador de mobilização na Iniciativa
Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI Brasil).
@carloshenrique.ss.

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