A
Amazônia é um santuário cobiçado por muitos países
Até a
carta de Caminha é respeitosa e elogiosa com esses brasileiros que, 500 anos
depois, são tratados como massa de manobra
Alexandre
Garcia
Lula
faz discursos diferentes sobre a Amazônia dependendo do público
(foto:
RICARDO STUCKHERT/PR)
Antes
de ir a Belém, para a Cúpula da Amazônia o presidente Lula afirmou em Santarém
que a Amazônia não pode se tornar um santuário; antes, pensar nos amazônidas.
Falava para uma multidão. Meses antes, entrevistado para ser ouvido na Europa,
falava em abrir a Amazônia para a ciência do mundo aproveitar sua
biodiversidade, e criticava a derrubada de árvores: “A árvore é de quem mora no
planeta Terra”. Por mais de uma vez, Lula disse que a Amazônia não é só nossa.
Duas plateias diferentes, dois Lulas. E a Amazônia brasileira onde é que fica?
Agora, na cúpula, é hora de defender a soberania e o aproveitamento por quem é
dono. Suponho que cada um dos chefes de estado - inclusive o Nicolás Maduro -
haverá de defender o bem-estar de suas populações amazônicas e depois defender
as riquezas naturais da cobiça estrangeira, principalmente de países que já
esgotaram suas matas e estão de olho no que está acima e abaixo do chão
amazônico. Pergunto se os representantes dos governos da região percebem que as
campanhas estranhas ao continente sul-americano querem dizer exatamente que não
devemos usar o que é nosso, porque eles haverão de precisar um dia.
A CPI
das ONGs tem revelado que esses interesses já estão estabelecidos firmemente no
nosso território amazônico. Semana passada um depoimento mostrou ONG impedindo
comunidade indígena de ter eletricidade e internet. Será que pretendem
conservar essa parte do povo brasileiro para mostrar na Europa, como em outros
tempos? Até a carta de Caminha é respeitosa e elogiosa com esses brasileiros
que, 500 anos depois, são tratados como massa de manobra. Impedir a integração
é facilitar a entregação. À exceção de uns poucos brasileiros indígenas que
ainda vivem isolados, todos os demais querem compartilhar dos mesmos serviços
que atendem aos brasileiros.
O
contrário é um apartheid étnico. A integração pode muito bem manter os
costumes, as comidas, as tradições, dando saúde, ensino e oportunidades de
autonomia econômica e renda. A Amazônia brasileira, como o país inteiro, é uma
mistura de sangues. Domingo fez 121 anos que o gaúcho Plácido de Castro pegou
em armas para que o Acre deixasse do Bolivian Syndicate para ser brasileiro; os
soldados da borracha vieram do Nordeste no esforço de guerra e hoje integram a
genética dos ribeirinhos; os paulistas vieram com a Zona Franca; o Exército
misturou ainda mais o sangue original no leque genético nacional. A Amazônia é
Brasil. Há 400 anos, Pedro Teixeira subiu o rio para tirar os espanhóis da
nossa amazônia; no Império, Mauá, com sua Companhia de Navegação, afastou o
conceito da US Navy de que o Rio Amazonas seria parte do sistema
Mississipi-Missouri. E hoje, o que nacionalistas como Monteiro Lobato, Arthur
Reis, Osny Duarte Pereira, Leonel Brizola diriam dos políticos atuais, que
recebem com ingenuidade a evidente cobiça mundial sobre a amazônia que é
Brasil?
Convidados
para a reunião em Belém, estrangeiros da Alemanha, Noruega e França, “que
tradicionalmente apoiam projetos e iniciativas na Amazônia” - como explica nota
do Itamaraty. O governo explica que foram convidados “organismos multilaterais
e entidades financeiras internacionais, com o objetivo de buscar novas parcerias
nesta nova etapa da cooperação amazônica”. Em 2013, o rei da Noruega estava
hospedado numa aldeia Yanomami, a convite da Fundação da Noruega para a
Floresta Tropical. O comandante militar da Amazônia só soube por informação do
pelotão que estava fora da reserva. Territórios indígenas podem ter relações
diretas com outros países? Seria por isso que não querem que brasileiros de
sangue indígena se integrem à Pátria? E por que não há esse interesse
estrangeiro“ambiental e social” em relação ao Nordeste, onde vive muita gente
na pobreza e com carência de investimentos?
Sem comentários:
Enviar um comentário