Racismo
no Brasil, que vai além do branco e do preto, precisa ser mais bem compreendido...
O livro
Cinquenta Tons de Racismo: mestiçagem e polarização racial no Brasil aborda a
complexidade da mestiçagem na questão do racismo em nosso País
Publicado: 08/08/2023
Texto: Antônio
Carlos Quinto
Arte:
Joyce Tenório*
A
Redenção de Cam, Modesto Brocos (1895) -
Após
estudar as complexidades do racismo no Brasil em sua tese de doutorado,
defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP, foram necessários mais dois
anos para que a educadora e pesquisadora Janaína Bastos transpusesse suas
análises para o livro Cinquenta Tons de Racismo: mestiçagem e polarização
racial no Brasil, que acaba de ser lançado pela Matrix Editora. “Trata-se de
uma ‘reorganização’ da tese para o grande público, contendo a síntese dos dados da minha pesquisa”, como
descreve Janaína ao Jornal da USP. Na tese intitulada Na trama da branquitude
mestiça: a formação de professores à luz do letramento racial e os meandros da
branquitude brasileira, defendida em 2021, a pesquisadora teve a orientação da
professora Mônica Guimarães Teixeira do Amaral, da FE.
O
livro, de acordo com Janaína, também é uma atualização da pesquisa, visto que
ela consultou fontes históricas e mais autores sobre o tema. Concluída em março
e lançada em julho deste 2023, a obra traz dados de interesse público e
pretende explicar o fenômeno da mestiçagem. “Trata-se de um lugar conflituoso
em nosso imaginário racial. Afinal, a questão racial no Brasil não se resolve com
explicações binárias ou simplistas”, reflete a pesquisadora.
Um dos
principais objetivos do livro, segundo a autora, é que as pessoas tenham acesso
a esse conhecimento para que consigam, de alguma forma, desconstruir essa
hierarquia social partindo da realidade, e sem uma perspectiva negacionista ou
reducionista.
Não
podemos negar o problema nem tão pouco reduzi-lo. O racismo em nosso país é
complexo e se organiza de diferentes formas e situações
Janaína
Bastos
E
partindo do princípio que o racismo é um problema no Brasil, Janaína acredita
que seja possível resolver a questão. “Enquanto se negava que o coronavírus
existia, não se encaminhou uma solução. Vejo que o racismo não é visto em toda
a sua complexidade. É preciso olhar a diversidade dos casos para se pensar numa
solução”, acredita. É o que traz a obra, que também aborda a violência de
gênero. “Falamos desse tema no começo do livro e como o colonialismo teve a
marca da violência contra a mulher, sobretudo indígena ou negra. É fundamental
olharmos para a nossa realidade”, recomenda Janaína.
A
Redenção de Cam
A capa
do livro, escolhida pelo editor Paulo Tadeu, traz a obra A Redenção de Cam, do
pintor espanhol Modesto Brocos, de 1895. Janaína aponta como a tela retrata a
mestiçagem das famílias brasileiras e o ideal de embranquecimento disseminado
na época, fenômenos que perduram até os dias de hoje e impactam diretamente o
racismo brasileiro.
A obra
aborda as teorias raciais controversas do fim do século 19 e o fenômeno da
busca pelo “embranquecimento” gradual das gerações de uma mesma família por
meio da miscigenação. A cena mostra uma família que passa por um
“embranquecimento” de geração em geração, abordando a controversa teoria racial
da eugenia.
A
pesquisa
Ao
olhar para essa realidade, Janaína vai às raízes de um “racismo à brasileira”
para explicar o fenômeno da mestiçagem. Para tanto, no seu estudo, levando-se
em conta dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em que
mais de 50% da população brasileira se autodeclara negra, Janaína destaca que
nessa maioria há pessoas mestiças, de pele nem tão preta. “São aquelas que se
autodeclaram pardas, nas quais a mestiçagem se mostra mais evidente”, descreveu
a educadora na reportagem publicada no Jornal da USP sobre a sua tese de doutorado,
em que ela investigou a branquitude brasileira e os lugares de privilégios que
as pessoas não negras – brancas e “mestiças”, estas últimas por vezes
percebidas como brancas − acabam ocupando.
“O que
denomino privilégios são algumas concessões dadas às pessoas percebidas como
brancas, ou como quase brancas, de pele nem tão preta, mesmo que de forma
implícita. Posso citar como exemplo algumas situações em que o preconceito e
discriminação no tratamento aos negros deixam de existir para essas pessoas”,
descreve. “Se uma ou mais pessoas negras, passeando num shopping luxuoso, podem
chamar a atenção de forma negativa, isso pode não ocorrer com as pessoas não
negras, aquelas de pele mais clara, mas que não chegam a ser, de fato, sempre
percebidas como brancas”, exemplificou na época.
“Existe
uma pressão implícita para que o indivíduo se autodeclare branco ou negro.
Contudo, um mesmo sujeito pode ser percebido como branco em um lugar, e como
negro em outro. E, claro, se o mesmo for percebido como branco, poderá ter
alguns privilégios. E o embranquecimento permite isso.”
Em sua
tese, Janaína destacou a importância do letramento racial de educadores, que
pode ajudar no combate à discriminação. Utilizando em seu estudo o método da
pesquisa-ação, a educadora desenvolveu um projeto de formação de professores na
área das relações raciais. Durante dois anos, os docentes foram acompanhados
por Janaína, por meio de reuniões semanais nas quais essa temática era
discutida.
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Ideologias
de branqueamento que envolve a mestiçagem podem incentivar a manutenção do
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Racismo
e suas formas de existência na sociedade brasileira
Como
resultado, os professores que desenvolveram o letramento racial passaram a
melhor perceber como a questão da discriminação racial ocorre no dia a dia. Na
opinião de Janaína, esse letramento é importante para todas as raças e os
docentes puderam transmitir aos alunos referências negras positivas. “Os
estudantes passaram a perceber que não precisariam ‘embranquecer’ para ter
dignidade”, destacou na reportagem a educadora.
Por
meio de oficinas e filmes, foi possível perceber mudanças nos professores.
Inclusive, nas formas de discurso. “No início, eles tinham dificuldade até em
falar a palavra ‘negro’.” Houve até o caso de um professor que se autodeclarava
branco e que, tempos depois, já se dizia pardo. Enfim, os docentes passaram a
ter o hábito de falar sobre o assunto. Até mesmo os professores autodeclarados
brancos perderam o medo de abordar a questão”, lembra Janaína.
A
pesquisadora explica que o letramento racial é a habilidade de perceber e
compreender como a questão do imaginário que existe em torno da raça afeta a
nossa experiência, sendo que, para isso, o diálogo é fundamental. “O que não é
um trabalho fácil. Apesar da busca do letramento, por si só, já romper com o
negacionismo em torno do racismo, temos que tomar cuidado para não cair em uma
abordagem reducionista da questão. É preciso considerar as diferentes
experiências, para que as pessoas possam se sentir validadas e assim falar
sobre o assunto, a fim de que possamos chegar a uma solução real do problema.”
*Estagiária
sob supervisão de Moisés Dorado.
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