Panem
et circenses...
Já há
muito tempo, desde quando não vendíamos nossos votos para ninguém, o Povo
abdicou de seus deveres, o Povo que outrora detinha comando militar, altos
cargos civis, legiões – tudo, enfim – hoje se restringe, e aguarda
ansiosamente, a apenas duas coisas: pão e circo
Abriu-se
ontem na Nova Roma Planaltina um dos circos da Praça que contém três, o
Juridicus. Anunciam-se meses de novo Ludus Circensis, Los Mensaleros,que
superarão o já cansativo ludus encenado do outro lado da Praça, o circus
Legisferandis, onde já perde audiência o cansativo Cachoeiras & Cascatas.
As
autoridades da antiga Roma organizavam espetáculos para atrair o favor do
público, como comentava Juvenal no Século I. O desenvolvimento crescente
daqueles grandes espetáculos durante o período Republicano foi intensificado
como veículo propagandístico na época Imperial, principalmente nos momentos de
crise política mais aguda. Unidos à farta distribuição de alimentos para a
plebe se converteram numa das duas mais poderosas ferramentas de controle
social.
Iniciados
como celebrações rituais sagradas, como cita Tito Lívio, o aparecimento dos
ludi theatrici ocorreu em 354 a. C. por ocasião de uma epidemia violenta. Os
eventos com gladiadores começaram um século mais tarde como uma celebração
fúnebre pela morte do pai do Consul Decimus Iunius Brutus Esceva. Os ludi
theatrici, herdeiros das tragédias gregas, foram aos poucos degenerando. Isto
porque os detentores do poder perceberam as enormes vantagens que poderiam
tirar sobre o populacho através de espetáculos menos sofisticados, pois o povo
estava interessado em jogos circenses e competições sanguinolentas. O caráter
sagrado e ritual logo desapareceu e os ludi se tornaram mais profissionais.
Tanto o governo quanto a iniciativa privada os organizavam e sua importância
cresceu a tal ponto que se tornaram, junto com a distribuição de alimentos,
numa prioridade na condução dos negócios públicos.
Os
edis, magistrados com funções de ordem pública passaram a organizá-los para
enganar e conquistar a plebe e, a partir do século II a. C. os magistrados
acrescentaram a seus proventos somas enormes que permitissem celebrações
riquíssimas, pois o público só lembraria o edil que se mostrasse mais generoso.
Como eles disputassem entre si o acesso a magistraturas superiores a competição
se acirrava através de ludi cada vez mais atraentes. Distração popular e
propaganda se tornaram tão complementares que já não se conseguia entender uma
sem a outra.
No que
veio a se conhecer apropriadamente como ‘populismo digestivo’, estava
inextricavelmente ligada aos ludi a farta distribuição gratuita de trigo, pão e
dinheiro vivo e até de sparsiones, vales que podiam ser trocados por peixe,
carne ou pão. Chegou-se mesmo a rifar casas de campo! Durante a espera do
espetáculo a plebe era acalmada com bolsas de doces ou dinheiro jogadas por
sobre suas cabeças.
Na
época Imperial a importância dos espetáculos para o controle social fez com que
se tornassem monopólio do Palácio Imperial. Os Imperadores reservaram para si a
construção e restauração de circos, teatros e anfiteatros, certamente com o
beneplácito da classe artística de então que, como hoje, adora um monopólio que
garanta sua opulenta ‘sobrevivência’. As edificações provisórias ou de madeira,
deram lugar a instalações permanentes e portentosas. Os Césares perceberam
também a importância de sua presença junto ao povo.
As
primeiras vozes que se elevaram acima da gritaria das massas não condenavam o
caráter sangrento e cruel, mas o clientelismo e populismo que lhes eram intrínsecos.
Sêneca, Juvenal, filósofos e membros ilustres da sociedade viam nesta tática de
pão e circo a degeneração da política e da sociedade romana. Apenas com a
chegada dos Cristãos, inicialmente vítimas, posteriormente maioria na Cidade
Eterna, passou a haver uma crítica mais radical, incluindo a reprovação da
crueldade dos ludi. Finalmente, Constantino os aboliu.
DE
VOLTA AO FUTURO
Na Nova
Roma Brasiliensis temos circos, bolsas as mais diversas, Minha Casa Minha Vida,
PACs mil. Ah!, e se os Césares tivessem os instrumentos modernos, o rádio a TV
e uma mídia amestrada que segue os ditames, às vezes sigilosos, do Circus
Maximus, o Planalto, comandado pela residência Imperial, o Alvoradensis? Esta
imitação grosseira da nobre arte de informar é totalmente regida pelas gordas
verbas publicitárias estatais. Possivelmente o Império Romano não teria se
esboroado, ao menos tão cedo.
Da
mesma forma que os Césares detinham um poder limitado pela pressão do
populacho, os atuais também se vêm limitados pelo ‘clamor popular’, como
sugeriu ao circo atual o Príncipe dos sociólogos hipócritas (FHC).
Quando
vejo a unanimidade que a imprensa vem adotando ‘contra’ o PT, quando leio
Merval Pereira, Demétrio Magnoli, Miriam Leitão, os ‘analistas’ da Folha, do
Estadão, a rede Globo e tutti quanti (imitando o Olavo para fazer jus ao título
de Olavete que nos pespega, entre outros, o Ilustríssimo Senhor Historiador
Gustavo Moreira, apenas o último, por enquanto, de uma série que já se
perpetua), um sinal de alarme toca em minha pobre mente paranoica e dada a
‘teorias conspiratórias’! Quando, ainda, políticos de diversos partidos que já
tiveram sua dose de circo, como os Mensalonis Circensis tucano, do DEM, as
estripulias dos mesmos no ludus Cachoeirensis, o alarme ultrapassa o limiar do
ridículo! Quando, ainda mais, vejo e ouço estes gatos do mesmo saco
pontificando em defesa das instituições democráticas, da derrocada do PT e da
salvação das liberdades, só me resta gargalhar!
O que
me surpreende e entristece é ver analistas políticos sinceramente liberais e
conservadores, alguns até amigos pessoais, se deixarem iludir por esta
pantomima farsesca!
Que
democracia? Quais instituições? Quem será derrotado? Como bem o disse Cláudio
Peixoto: as propostas do marxismo cultural continuarão a todo vapor: incentivo
à promiscuidade, pederastia, pedofilia, descriminalização do aborto,
infanticídio, eutanásia, liberação das drogas, desarmamento, legislação penal
cada vez mais inócua, recusa de investir em segurança pública, fabricar
analfabetos funcionais através do aparato educacional, aparelhamento do Estado,
seja pela criação de cargos de confiança, secretarias e ministérios inúteis,
seja por artimanhas legais (por exemplo, no anteprojeto da Lei Orgânica da
Advocacia Geral da União consta a previsão de nomeação de pessoas fora da
carreira, isto é, apadrinhados políticos, para os cargos de chefia), destruição
da soberania nacional, sucateamento das Forças Armadas, terceiro-mundismo nas
relações externas, como atesta o alinhamento com Cuba e Venezuela, a simpatia
pelo Irã, China (a nova vedete da Rede Globo), Rússia, etc.
Ao que
eu acrescento: continuará a diplomacia da espúria Tríplice Aliança, hoje contra
um Paraguai pacífico e povoado de gente muito mais digna e corajosa. Continuará
o domínio total da economia através de conluios com empresários inescrupulosos
que choram por verbas (panem), dinheiro de nossos impostos fartamente
distribuídos pelo onipresente BNDES para não investir do próprio bolso!
E além
de tudo isto uma lição que aprendi na própria pele, mas que são comentários
repetidos por todos os que estudam as organizações revolucionárias: a causa é
tudo, os militantes nada! Se necessário for para engambelar melhor os ingênuos,
o sacrifício eventual via condenações desses “cumpanhêros” em nada atrapalhará
o andamento da causa.
[As
informações sobre os ludi foram retiradas em certa medida da condensação da
excelente reportagem da revista Historia y Vida, nº 572. A citação de Juvenal
foi traduzida por mim do Inglês. Misturadas com as palavras realmente latinas
existem outras propositadamente inventadas por mim].
Heitor
De Paola
Heitor
De Paola é escritor e comentarista político, membro da International
Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation,
Berkeley, Califórnia, e Membro do Board of Directors da Drug Watch
International. Possui trabalhos publicados no Brasil e exterior. É ex-militante
da organização comunista clandestina, Ação Popular (AP).
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