MINHA
MÃE
Rio de
Janeiro , 1933
Minha
mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho
medo da vida, minha mãe.
Canta a
doce cantiga que cantavas
Quando
eu corria doido ao teu regaço
Com
medo dos fantasmas do telhado.
Nina o
meu sono cheio de inquietude
Batendo
de levinho no meu braço
Que
estou com muito medo, minha mãe.
Repousa
a luz amiga dos teus olhos
Nos
meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à
dor que me espera eternamente
Para ir
embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu
ser que não quer e que não pode
Dá-me
um beijo na fronte dolorida
Que ela
arde de febre, minha mãe.
Aninha-me
em teu colo como outrora
Dize-me
bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme
em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme.
Os que de há muito te esperavam
Cansados
já se foram para longe.
Perto
de ti está tua mãezinha
Teu
irmão, que o estudo adormeceu
Tuas
irmãs pisando de levinho
Para
não despertar o sono teu.
Dorme,
meu filho, dorme no meu peito
Sonha a
felicidade. Velo eu.
Minha
mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me
apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize
que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta
este espaço que me prende
Afugenta
o infinito que me chama
Que eu
estou com muito medo, minha mãe.
---Vinícius de Moraes
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