Alexandre Garcia: "Mesmo confinados, temos que nos mexer, como o país"
Nasci em 1940; sou, portanto, um coroa entrando no
nível mais alto do grupo de risco, no ano do meu 80º aniversário. Já
estou em casa há duas semanas, e muito feliz, porque a casa da gente é o
melhor lugar do mundo. Ligo-me ao mundo exterior pelas modernidades
digitais de informação e pelo jornal impresso que me chega pela manhã. Pelo
telefone, recebo as preocupações dos amigos, que me parecem muito
assustados. Queixam-se de suores, taquicardia, falta de apetite; pensam
que o mundo vai acabar, que todos vamos morrer da Covid-19. Parece que
estão num mundo diferente do meu.
Concluo que
estão permitindo que os assustem. A TV pode ser boa ou má companhia.
Hoje não sei o que é, porque faz muitos anos que não vejo TV. Nada
contra; passei 40 anos trabalhando nela. É apenas falta de tempo para
ficar sentado diante de uma tela. Tenho trabalhado muito em casa e,
quando me sobra tempo, é hora do prazer da leitura, pois ainda há muito
livro por ler. A obrigação de estar bem informado não afasta a
necessidade de ter tempo de prazer e tempo de manter a forma física. E o
apocalipse viral não consegue varar meus filtros.
Além
disso, meus caros companheiros de cabeças coroadas por cabelos brancos,
ficar parado enferruja. Ainda que estejamos confinados, sempre há
espaço para nos mexer. Assim é o país; parado, enferruja e vai para o
ferro-velho. Mesmo
confinados, temos que nos mexer, como o país. Então, não nos esqueçamos
de valorizar os que estão trabalhando por nós e para nós; graças a
eles, podemos ficar em casa protegidos. São os que plantam e colhem, que
produzem nossa carne, leite e pão, os que transportam e põem à venda;
os que trazem nossa comida e nossos remédios até nossa casa; que operam e
fazem manutenção de nosso mundo digital; que cuidam da entrada de
nossos condomínios, que estão de plantão para cuidar de idosos como nós.
Se os obrigássemos a parar, morreríamos de fome e de isolamento.
Sem comentários:
Enviar um comentário