“Todo mundo em Wuhan padece de um trauma”
Os especialistas se preparam para as consequências psicológicas da quarentena no foco original da pandemia
Wuhan (China) - 11 abr 2020 - 12:11 BRT
“Minha
irmã está doente e eu sou a culpada", chorava do outro lado do telefone
uma mulher jovem. Entre soluços, explicou que as duas dividiam um
apartamento alugado em Wuhan.
Sua irmã mais nova queria voltar para sua cidade natal, mas ela não
quis ir. Entre o sim e o não, o bloqueio da cidade imposto
repentinamente em 23 de janeiro para impedir a propagação da epidemia de Covid-19,
deixou as duas presas no foco original do coronavírus. Dias depois, a
mais nova começou a se sentir mal. Tinha febre e os hospitais da cidade,
sobrecarregados, não podiam atendê-la. A ligação para aquela linha
direta de atendimento psicológico era um último recurso.
Liu
Xianlang (pseudônimo), psicóloga veterana, não lembra mais de quantos
casos semelhantes atendeu desde que em 25 de janeiro, dois dias depois
do fechamento de Wuhan, foi designada para responder aos telefonemas
dessa linha, junto com outras 20 pessoas. Naquele dia atendeu mais de 40
pessoas em três horas; recebeu outras 200 consultas. "No começo, as
pessoas estavam muito assustadas. Algumas haviam ficado retidas em
Wuhan. Ou pessoas de Wuhan em outros lugares, que eram rejeitadas por
chegarem de onde chegavam. Estavam aterrorizados”, conta.
Para
a jovem esmagada pela culpa, ela explicou que a doença de sua irmã não
era por sua responsabilidade. Para um banqueiro aterrorizado, o único
habitante que permaneceu em um complexo residencial no qual os demais
haviam saído às pressas, recomendou exercícios respiratórios, ouvir
música suave, distrair-se com alguma série de televisão ou videogame,
conversar por telefone com amigos ou familiares. “No começo, as pessoas
precisavam de explicações sobre o que estava acontecendo, ouvir
mensagens de tranquilidade”, explica Liu. Era uma cidade tomada pelo
pânico, o desconhecimento e a confusão, em um contexto em que as equipes
de saúde não davam conta de atender aos doentes, que se multiplicavam, e
ainda havia os rumores. Ela própria teve que se informar a toda pressa
na Internet sobre o coronavírus e os sintomas que causava, para poder acalmar seus ouvintes.
“Uma
vez atendi um médico. A ligação durou apenas três minutos. Trabalhava
em um hospital onde muitas pessoas haviam morrido e ele estava
assustado. Tinha um filho pequeno em casa. Nós contávamos com uma linha
telefônica especial para o pessoal da saúde, mas muito poucos ligavam.
Falta de tempo, certamente. E um certo sentimento de vergonha também.
Achavam que tinham que ser eles a ajudar as pessoas, e não ficar pedindo
ajuda.”
Após os primeiros dias de pânico, a situação se
estabilizou. O Governo central enviou cerca de 42.000 profissionais de
saúde de outras províncias chinesas, que desafogaram o atendimento aos
moradores locais. O material de proteção, muito escasso a princípio,
começou a chegar. A prorrogação do confinamento estrito aos 11 milhões
de habitantes da cidade transformou os telefonemas iniciais de terror
diante do desconhecido em pedidos de ajuda de pessoas que se declaravam
incapazes de controlar sua raiva ou tristeza. De pessoas com sintomas de
depressão ou com pensamentos suicidas.
Um
estudo da Sociedade Chinesa de Psicologia descobriu em fevereiro que
42,6% dos 18.000 cidadãos chineses testados apresentavam sintomas de
ansiedade relacionada ao coronavírus. E 16,6% dos 14.000 examinados
mostraram sinais de depressão em diferentes níveis de gravidade.
Um
grande desafio para o setor de saúde mental da China, um país onde os
problemas psicológicos ainda são um tabu enorme e que padece da falta de
profissionais qualificados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a China possui apenas 2,2 psiquiatras para cada 100.000 pessoas, bem abaixo dos 9,6 na Espanha ou dos 21 na Argentina.
Embora o bloqueio da cidade tenha sido suspenso nesta quarta-feira,
Liu e seus colegas preveem que a longa quarentena, que continuará
restringindo durante um bom tempo os movimentos em Wuhan, afetará a
saúde mental de seus habitantes. Estudos sobre o principal precedente da
pandemia atual, a epidemia de SARS, em 2003, que matou quase 800
pessoas em todo o mundo, encontraram problemas persistentes de
depressão, ansiedade ou estresse pós-traumático entre os pacientes que
sobreviveram e os médicos que os trataram. Uma revisão de 24 estudos
sobre psicologia das quarentenas, realizada por pesquisadores do King’s
College e publicada na revista The Lancet em fevereiro, constata que mesmo três anos depois do isolamento foram reportados episódios de estresse pós-traumático.
Uma pesquisa de especialistas da Universidade de Pequim, ainda não publicada, mas citada pela prestigiada revista Caixin, constatou que de 311 profissionais de saúde que trabalhavam na linha de frente da epidemia em Wuhan, um terço sofria de algum tipo de problema psicológico.
“Estamos
nos preparando para algum tipo de estresse pós-traumático coletivo.
Muitas organizações e empresas estão procurando psicólogos e ministrando
cursos de treinamento para consultores que possam oferecer algum tipo
de assistência básica... Não temos gente suficiente. Vai haver muito
trabalho. Todo mundo em Wuhan sofre de algum tipo de trauma", diz Liu.
“E mais especialmente, pessoas que perderam um ente querido.” Segundo
dados oficiais, mais de 2.500 pessoas morreram nesta cidade após
infectadas com o coronavírus e 50.000 foram contagiadas. Em toda a
China, os números oscilam em torno de 3.300 e 82.000, respectivamente.
A
linha de apoio da psicóloga ainda recebe “seis ou sete vezes mais
ligações” do que antes do início da crise. Mas não é mais a enxurrada
que multiplicou por 50 ou 60 o número habitual, uma indicação de que a
situação em Wuhan voltou ao normal. Liu detectou o retorno de outro
fenômeno: voltaram as chamadas de pervertidos sexuais. “Tinham
desaparecido durante a quarentena. As pessoas estão recuperando seus
comportamentos de sempre.”


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