6ª. Parte //Europa sempre foi povoada por diversas
etnias, ao contrário do que pensam supremacistas brancos
Obra-prima de Bosch mostra negros 'representados
entre dezenas de outros indivíduos nus, sem nenhuma desonra aparente'
A Europa vive momentos de tensão xenófoba. Mas,
conforme indicam pesquisadores, diferentemente do que os supremacistas brancos
costumam repetir, o continente não era um reduto exclusivo de caucasianos que
só passou a receber imigrantes de outras etnias nas últimas décadas.
"Mas é importante ter em mente que 'raça' é
uma construção social e com um contexto histórico específico", disse à BBC
News Brasil a pesquisadora Molly Bassett, professora da Universidade do Estado
da Georgia e autora do livro The Fate of Earthly Things.
Como a Suécia se tornou o centro da extrema-direita
e do supremacismo branco na Europa
O Brasil tem 190 línguas indígenas em perigo de
extinção
O historiador português Francisco Bethencourt,
professor do King's College de Londres e autor de Racismos: das Cruzadas ao
século 20, defende que sempre houve múltiplos povos convivendo no continente.
"A variedade de etnias existia na Europa desde
a pré-história, com intensas migrações da Ásia, mas também do Oriente Médio no
período clássico, grego e romano. O tráfico de escravos da África era dirigido
ao Oriente Médio mas também para a Europa", afirmou à reportagem. Segundo
ele, havia preconceito étnico difundido, mas a ação discriminatória era
esporádica. "Na minha perspectiva, é a combinação desses dois elementos
que define racismo."
"A expansão europeia trouxe consigo projetos
políticos de conquista e controle de mercados que tornaram o racismo mais
visível, embora a colonização interna europeia (no Norte e nas periferias,
nomeadamente na Irlanda, na Península Ibérica e na Península Itálica) tenha
mostrado tendências discriminatórias semelhantes", comenta o historiador.
Pesquisadores estimam que, no auge econômico de
Lisboa, no século 16, um décimo da população da capital portuguesa era composta
por negros. E eles estavam inseridos na sociedade, ocupando diversos papéis.
Havia escravos? Provavelmente, sim.
Mas também havia negros que atuavam como
respeitados cavaleiros e, principalmente, com funções comuns da sociedade -
pequenos comerciantes, carregadores etc.
No livro O Mito das Nações: A Invenção do
Nacionalismo, o historiador Patrick Geary, professor da Universidade da
Califórnia, deixa claro como é extremamente difícil considerar qualquer grupo
medieval como etnicamente consistente.
A historiadora Pamela Patton, da Universidade
Princeton, faz uma observação importante: é preciso considerar também a maneira
como os europeus medievais definiam a raça.
Pesquisadores calculam que, no século 16, um décimo
da população de Lisboa era negra
"Exceto quando se deparou com pessoas com
aparências muito diversas das deles, como os africanos subsaarianos, os
europeus tendiam a olhar mais para as práticas culturais, como religião e
linguagem, do que para características biológicas ou físicas."
Na Rússia, também havia negros muitos anos antes da
globalização contemporânea. "O escritor russo Alexandre Pushkin, que viveu
entre 1799 e 1837, era descendente de um negro da corte de Pedro, o Grande,
Abram Petrovich Gannibal", disse o historiador e escritor Paulo Rezzutti à
BBC News Brasil, citando o czar Pedro 1º, que governou a Rússia entre 1682 e
1721.
Gannibal, que viveu entre 1696 e 1781, é
considerado um dos primeiros intelectuais negros da Europa. Chegou como escravo
e se tornou governador.
"Ele chegou lá como escravo e virou governador
e uma das mentes mais respeitadas da Europa", conta Rezzutti.
“Pensadores gregos antigos como Heródoto e romanos,
como Plínio, o Velho, já escreviam sobre diferenças de aparência, linguagem e
costumes entre os povos do mundo”, explica Patton, de Princeton.
No império romano, o preconceito estava ligado à
linhagem e ascendência. Até havia uma ideia pejorativa do negro, considerado um
povo "queimado pelo sol".
"Porém, não existem provas de uma
discriminação sistemática contra etnias especificas", afirmam Bethencourt,
em seu livro sobre o assunto. "Pelo contrário, os romanos eram
relativamente generosos na atribuição de cidadania".
Por outro lado, o nomadismo já era malvisto. Os
antigos gregos e romanos tinham uma teoria ambiental: projetavam nos outros
povos a discussão sobre a autoctonia. Os atenienses, por exemplo,
"defendiam ter ocupado desde sempre o mesmo território, sendo, por isso
mesmo , de ascendência pura", diz o livro Racismos.
O conceito de ascendência trazia uma carga
semântica importante: a ligação entre sangue e solo, a identidade baseada na
aparência, na língua e nos costumes, uma definição própria de povo.
"Isso queria dizer que os descendentes dos
sírios, por exemplo, teriam em si as características física e mental básicas
dos antepassados, mesmo nascendo no estrangeiro", afirma o livro.
A Idade Média, com a expansão islâmica até a
Península Ibérica, entre os anos 632 e 732, trouxe consigo a noção do outro.
"A aparência física, como a cor da pele
(branca, preta, castanha ou vermelha), a forma dos olhos (redondos os
amendoados) ou do nariz (comprido, largo ou achatado), o tipo de cabelo e a
escassez ou abundância de pilosidades faciais, era usada para identificar os
povos, definindo os principais estereótipos desenvolvidos mais tarde",
aponta o autor.
"Já se contrastavam os africanos negros com o
resto da humanidade, classificando-os como selvagens, supostamente indolentes e
possuidores de uma inteligência inferior."
Diferenças étnicas
O geógrafo iraquiano Jahiz de Baçorá (776-869) foi
uma voz dissonante sob um prisma invertido. Para ele, havia uma superioridade
dos negros em relação aos brancos.
A ideia de ver o etnicamente diferente como inimigo
se acentuou entre os séculos 11 e 13, justamente no auge das Cruzadas. Foi um
momento de contato intenso entre Europa Ocidental e Oriente Médio - com
emigração de 200 mil pessoas do Ocidente para o Oriente.
"A identificação religiosa e étnica tornou-se
essencial para a sobrevivência diária", pontua o livro Racismos.
"Tipos físicos, modos de vestir e/ou penteados associados a crenças
religiosas tornaram-se os critérios óbvios para a identificação, o primeiro
passo na avaliação dos diferentes povos. Num mundo em perigo e em constante
mudança, os estereótipos visuais serviam para identificar ameaças e para ajudar
os indivíduos a se sentirem seguros."
No século 12, a noção de que etnias diferentes
habitavam lugares diferentes da Terra estava clara. Foi quando as figuras
bíblicas dos três reis magos começaram a ganhar os contornos atuais, sendo cada
qual deles o "representante" de um dos povos. Melchior é identificado
como um europeu. Gaspar passa a ser retratado como um asiático. E Baltazar,
aludindo à África, atravessa um processo de escurecimento - primeiro aparece
com a pele trigueira e, a partir do século 13, torna-se negro.
O racismo, com as características semelhantes ao
que existe hoje, surgiu com expansão europeia, justamente, conforme frisa
Bethancourt, com a combinação de preconceitos étnicos e ações discriminatórias.
"Tratava-se, então, de monopolizar recursos
econômicos, sociais e políticos", diz, acerca do processo acentuado pela
religião.
"A luta pela hegemonia religiosa teve seu
papel na criação de 'inimigos étnicos'. Enquanto a religião judaica fornecia a
base de uma comunidade nacional através de fronteiras ainda mal definidas, a
religião muçulmana tinha uma enorme variedade étnica que foi de certa forma
racializada pela comunidade cristã", afirma Bethencourt.
Nazismo
Mas certamente em nenhuma outra época do mundo as
diferenças raciais foram tão violentamente abordadas quanto durante o regime
nazista de Adolf Hitler (1889-1945). O historiador e filósofo Yuval Noah Harari
aborda o tema em seu livro Sapiens - Uma Breve História da Humanidade.
"O Homo sapiens já havia se dividido em várias
raças distintas, cada uma com suas qualidades únicas. Uma dessas raças, a raça
ariana, tinha as melhores qualidades - racionalismo, beleza, integridade,
diligência. A raça ariana, portanto, tinha o potencial de transformar o homem
em super-homem", afirma o autor sobre a ideologia nazista.
Segundo ele, os arianos afirmavam que a procriação
entre raças condenaria o Homo sapiens à extinção. Mas a ciência refutou esse
pensamento a partir da Segunda Guerra Mundial, mostrando que as diferenças
entre as várias linhagens humanas são muito menores do que os nazistas
argumentavam.
"Mas essas conclusões são relativamente novas.
Dado o estado do conhecimento científicos de 1933, as crenças nazistas
dificilmente estavam em dissonância com o pensamento da época. A existência de
raças humanas diferentes, a superioridade da raça branca e a necessidade de
proteger e cultivar essa raça superior foram crenças amplamente aceitas pela
maior parte das elites ocidentais", ressalta o historiador.
Acadêmicos de universidades ocidentais das mais
prestigiosas usaram, inclusive, métodos científicos ortodoxos da época em
estudos que supostamente comprovavam que "membros da raça branca eram mais
inteligentes, mais éticos e mais habilidosos que africanos ou indianos".
História da arte
Segundo o livro Racismos, "a elevação do
africano negro ao status de santo e de rei mago abriu caminho à observação e à
representação na Europa dos africanos subsaarianos como pessoais reais nas suas
funções comuns de escravos, servos ou soldados".
"Mas o auge dessa nova tendência para a
representação relativamente neutra dos negros terá sido atingido com Hieronymus
Bosch, por volta de 1510, no quadro mais tarde intitulado A Variedade do Mundo
ou O Jardim das Delícias Terrenas, em que negros surgiam representados entre
dezenas de outros indivíduos nus, sem nenhuma desonra aparente."
De acordo com Bethencourt, "essa nova visão
não desafiava os grandes estereótipos alimentados pelo tradicional significado
simbólico dado na Europa ao preto como cor, usado para expressar pecado, mal,
trevas, imundície, infidelidade, luto, penitência, infortúnio ou
fealdade".
Pamelal Patton, historiadora de Princeton, defende
a utilidade das representações artísticas para mostrar como a sociedade
medieval se via e se compreendia. "É importante lembrar que também aqui a
maneira como as imagens transmitiam suas mensagens dependia muito das atitudes
que predominavam no tempo e no lugar em que eram feitos."
"Assim, uma figura de pele escura retratada em
um manuscrito medieval poderia ter sido entendida por seus espectadores como um
servo, um muçulmano ou um rei; um judeu pode ser retratado como fisicamente
idêntico às figuras cristãs ao lado dele ou como uma dura caricatura; um mongol
pode ser descrito como um cortesão sofisticado ou um canibal sedento de
sangue."
Para ela, a análise das obras em seus contextos
específicos dão diversos indicativos das atitudes das pessoas em relação às
diferenças humanas. Essa é a essência do projeto MedievalPOC - People of Color
in European Art History (pessoas de cor na história da arte europeia),
disponível no Twitter e no Tumblr.
"Durante toda a história da Europa, pessoas de
cor estiveram presentes em vários lugares, em vários momentos - alguns como visitantes
alguns como residentes, e obras de arte de suas épocas fornecem evidências
disso", pontua o autor anônimo do projeto.
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