Nossas
reivindicações políticas
Ecce
Homo (1896) de Mihály Munkácsy
Publicado
originalmente em “O Legionário”, N.º 74, 8 de fevereiro de 1931
Pilatos
passou à História, indelevelmente marcado pelo ferro em brasa da censura dos
Evangelistas, como o tipo característico do homem que não é cruel por medo da
crueldade, não é assassino por indolência, e não é feroz por inércia. Escravo
da preguiça e do medo, cede a todas as infâmias, submete-se a todas as
baixezas, pela força de inércia que é como que a base de sua mentalidade. E a
mesma indolência que o preserva dos acessos coléricos de um Nero, atira-o às
traições vis de um Judas, ou às transigências abomináveis de um ser indigno do
nome de homem, de uma alma indigna da própria carne que ela vivifica.
Qual foi
o crime de Pilatos? Foi o de ter sido fraco. Não foi ele autor de uma
condenação categórica, como a de Herodes (*). Mas sua culpa nem por isso foi
menor. Porque o pecado não está somente em não atacar a Jesus. Está também em
não O defender. Está também em não ter a coragem de O preservar, de O
resguardar contra o ódio das multidões. Está na covardia de não lutar.
Descendo
agora ao terreno de nossas consciências, este terreno onde somente dois olhares
penetram, o de Deus e o nosso, perguntemo-nos desassombradamente: não seremos
nós outros tantos Pilatos?
Confessar,
comungar, pedir a Deus inúmeras graças, na sua maioria temporais, dinheiro,
saúde, felicidade, e também um pouco de virtude, como uma gorjeta que se faz a
Deus, isto tudo não é possuir na sua plenitude o espírito cristão, todo feito
de luta e de sacrifício.
Ser
cristão não é só ser um crente, é ser também um soldado. É saber descer à arena
da luta de opiniões, ostentando com firmeza nossos princípios. É não ter medo
de adquirir inimizades, se for necessário. É não ter medo de atrair sobre si
antipatias. É, em suma, sacrificar-se.
A
Igreja reivindica, no atual momento, diversas garantias que lhe facilitarão o
desempenho de sua divina missão. Todos os católicos têm a obrigação de lutar incessantemente
por estas reivindicações. E o católico que se mergulhar na deliciosa inércia de
quem, muito humildemente, pergunta “quem sou eu, que posso eu fazer, se sou um
mero particular, sem posição de destaque que me permita exercer uma ação
eficiente?”, que se lembre de que, se todos os católicos brasileiros, em suas
conversas, em suas discussões, em toda a sua vida, enfim, soubessem reivindicar
os direitos da Igreja, nunca teria nossa Constituição (pesado jugo de quarenta
anos de República) sido deformada por um positivismo ridículo, obsoleto, como
aquele com que pretendeu fazer de nós a caricatura cruel de um povo civilizado.
Combatamos.
A Igreja espera que cada um cumpra o seu dever.
Nota:
(*) O
rei Herodes, buscando matar o Menino Jesus, ordenou a matança dos Santos
Inocentes (cfr. Mt. 2, 1-18).
Plinio
Corrêa de Oliveira
Nasceu
em 1908 na cidade de Paulo. Fez os seus estudos secundários no Colégio São Luiz
e diplomou-se em 1930 em ciências jurídicas e sociais na Faculdade de Direito
de São Paulo.
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