Morte
em Dorian Gray
Fábio Blanco, 3 dias atrás 0 291
Morte
em Dorian Gray
Não há
nada mais humano do que temer a morte. Por isso, os homens sempre sonharam com
a possibilidade de vencê-la. A literatura, inclusive, explorou, várias vezes,
esse tema, como em “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.
O
romance retrata a história de um jovem que, ao contemplar sua própria imagem em
um quadro, apaixona-se por ela, de tal maneira, que deseja que sua beleza ali
retratada nunca mais lhe abandone. E, inexplicavelmente, seu pedido é-lhe
concedido. A partir daquele dia, não mais envelhece, mantendo sua formosura
intacta — um encanto inalterável que passa a ser sua dádiva e sua maldição.
Mantendo-se
fisicamente jovem, belo e cheio de energia, deleitava a todos com sua
vivacidade e graça que não se apagavam. Permanecendo sexualmente atraente, após
anos, ainda era capaz de conquistar mesmo gente bem mais jovem. Com sua
mocidade preservada, manteve-se com um fulgor incansável, o que o fez buscar
uma vida de prazeres e dispêndios. Dorian, então, foi acumulando experiências
extremas e, com isso, muitos erros. Amontoou desvios, mentiras e toda sorte de
crimes.
O
acúmulo de transgressões tornou a vida de Dorian insuportável. Sua alma, a despeito
de seu corpo juvenil, corroía-se. Os excessos lhe proporcionavam enfado e
cansaço que, sem a perspectiva da morte, se transformaram numa verdadeira
maldição.
Além
disso, os contemporâneos de Dorian envelheciam e morriam e a nova geração
era-lhe estranha, pois não compartilhava de sua forma de ver o mundo. Tornou-se
então um solitário.
O
romance de Wilde, na verdade, dá-nos uma outra perspectiva da morte. Passamos a
vê-la não mais como um termo, mas como delimitadora do nosso lugar no tempo,
identificando-nos e moldando o nosso caráter; também como solvedora dos nossos
débitos, cessando com o desconforto que nos causa o acúmulo de infrações.
A obra
nos ensina que, sem a morte, viveríamos como zumbis, vagando por aí com o
insuportável peso dos nossos pecados, e nos faz entender que sua chegada, no
tempo certo, está longe de ser uma perda, mas se configura uma solução, no
mínimo, evitando que sejamos corroídos pelos nossos erros, como a vida de
Dorian Gray e seu quadro desnudado no fim do livro nos mostram.
Fábio
Blanco
Fabio
Blanco é professor de Oratória, Retórica e Argumentação, além de instrutor de
escrita argumentativa. Desde 2010 é idealizador do NEC - Núcleo de Ensino e
Cultura, sob o qual encontram-se os seus projetos Liceu de Oratória e Filosofia
Integral.
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