Por que é preciso proibir
que manipulem nosso cérebro antes que isso seja possível
O cientista Rafael Yuste, que comanda projeto de
pesquisa do cérebro, pede que os governos criem novas leis contra os riscos da
neurotecnologia
mgh-ucla human connectome project
Madri - 13
Feb 2020 - 14:28BRT
“Temos
uma responsabilidade histórica. Estamos num momento em que podemos decidir que
tipo de humanidade queremos.” São palavras de peso, tanto quanto o desafio ao qual
se propõe Rafael Yuste. Esse neurocientista espanhol, catedrático da
Universidade Columbia (EUA), escuta sussurrarem em sua consciência os fantasmas
de outros grandes cientistas da
história que abriram a caixa de Pandora. Ele, que impulsionou a iniciativa
BRAIN, a maior aposta já feita na descoberta dos segredos do cérebro, não
foge à sua responsabilidade: “Carrego isso como um dever”, afirma. Yuste sabe
bem o que seu campo, a neurotecnologia, já é capaz de ver e fazer em nossas mentes.
E teme que isso escape de nossas mãos se não for regulado. Por isso reivindica
aos governos de todo o mundo que criem e protejam direitos inéditos: os neurodireitos. O Chile
deverá ser o primeiro país a incluí-los em sua Constituição, e já
há negociações para que esse espírito se reflita na estratégia do Governo
espanhol para a inteligência artificial.
- “O cérebro tem doenças que afetam a alma, te destroem como indivíduo”
- Cientistas criam “máquinas viventes” com células animais
- Viagem ao fundo de um cérebro que não dorme
No ano
passado, Yuste conseguiu manipular o comportamento de ratos.
Fez isso intervindo nos pequenos cérebros desses roedores, adestrados para
sorver suco quando viam listras verticais numa tela. Yuste e sua equipe haviam
observado os neurônios específicos que eram acionados nesse momento e os
estimularam diretamente quando não havia barras aparecendo na tela. Os ratos
sorviam o suco como se tivessem visto aquele gatilho. “Aqui em Columbia meu
colega desenvolveu uma prótese visual sem fio para cegos com um milhão de
eletrodos, que permite conectar uma pessoa à rede. Mas também se pode usar para
criar soldados com supercapacidades”, adverte Yuste. Esse aparelho, financiado
pelo DARPA (a agência de pesquisa científica do Exército dos EUA), poderia
estimular até 100.000 neurônios, propiciando habilidades sobre-humanas.
Quando
Yuste começou a trabalhar na iniciativa dos neurodireitos, há dois anos, era
quase uma colocação abstrata, de ficção científica. “Mas a urgência da situação
aumentou, há problemas bastante sérios que estão vindo com tudo; as empresas
tecnológicas estão se metendo nisto de cabeça porque pensam, acertadamente, que
o novo iPhone vai ser uma interface cérebro-computador
não invasiva”, diz Yuste. O homem que impulsionou um projeto de seis bilhões de
dólares nos EUA para investigar o cérebro enumera com preocupação os movimentos
dos últimos meses. O Facebook investiu um bilhão
de dólares (4,36 bilhões de reais) em uma empresa que trabalha na comunicação
entre cérebros e computadores. E a Microsoft desembolsou outro
bilhão na iniciativa de inteligência artificial de Elon Musk, que investe 100
milhões na Neuralink, uma companhia que implantará fios finíssimos no cérebro
de seus usuários para aumentar suas competências. E Yuste tem informações de
que o Google está sigilosamente fazendo esforços semelhantes.
Chegou a era do neurocapitalismo.
“A privacidade máxima de uma
pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser possível decifrar isso”,
alerta Yuste
“Estas
grandes empresas tecnológicas estão ficando nervosas para não ficarem atrás com
o novo iPhone cerebral. Para evitar abusos, temos que recorrer diretamente à
sociedade e a quem faz as leis”, afirma. A tecnologia impulsionada por Musk
pretende ajudar pacientes com paralisia ou
extremidades amputadas a controlarem sua expressão e movimentos e a
verem e ouvirem sozinhos, apenas com o cérebro. Mas não oculta que o
objetivo final é o de nos conectar diretamente com as máquinas para melhorarmos
graças à inteligência artificial. A iniciativa do Facebook é similar: uma
empresa com um histórico questionável de respeito à privacidade, como a de
Zuckerberg, acessando os pensamentos de seus usuários.
Essas
pretensões parecem de ficção científica, mas uma simples olhada em alguns feitos da neurociência nos
últimos tempos revela que elas estão ao alcance da mão. Em 2014, cientistas
espanhóis conseguiram transmitir “oi” diretamente do cérebro de um indivíduo ao
de outro, situado a 7.700 quilômetros de distância, por meio de impulsos
elétricos. Em vários laboratórios foi possível recriar uma imagem mais ou menos
nítida do que uma pessoa está vendo apenas analisando as ondas cerebrais que
ela produz. Graças à eletroencefalografia, cientistas puderam ler diretamente do cérebro
palavras como “colher” e “telefone” quando alguém pensava nelas. Também serviu
para identificar estados de ânimo. Na Universidade de Berkeley, foram capazes
de identificar a cena que os voluntários estavam vendo graças à nuvem de
palavras que seu cérebro gerava ao vê-las: cachorro, céu, mulher, falar... Uma
tecnologia que poderia servir para descobrir sentimentos, dependendo das
palavras que surjam ao ver uma imagem: por exemplo, seria possível ler “ódio”
ao ver a imagem de um ditador.
Alguns
desses marcos já completaram uma década, e desde então bilhões de dólares foram
investidos em monumentais projetos privados e governamentais, do Facebook à
DARPA, passando pela Academia de Ciências da China. “Pense que o projeto chinês
é três vezes maior que o norte-americano, e vai diretamente ao assunto, ao
fundir as duas vertentes: inteligência artificial e neurotecnologia”, adverte
Yuste, que se diz otimista quanto aos benefícios da neurotecnologia, daí seu
desejo de regulá-la.
O
neurocientista espanhol Rafael Yuste.
“Em curto
prazo, o perigo mais iminente é a perda de privacidade mental”, adverte Yuste,
que lançou sua iniciativa pelos neurodireitos após debater o assunto em
Columbia com uma equipe de 25 especialistas em neurociência, direito e ética, denominado Grupo
Morningside. Várias empresas já desenvolveram aparelhos, geralmente em forma de
tiara, para registrar a atividade cerebral de usuários que queiram controlar
mentalmente drones e carros, ou medir o nível de concentração e estresse dos trabalhadores,
como acontece com motoristas de ônibus na China. Lá também existem aplicações
nas escolas: a tiara lê as ondas cerebrais dos alunos e uma luzinha mostra ao
professor seu nível de concentração. O
problema é que a companhia que os vende, a BrainCo, pretende conseguir assim a
maior base de dados desse tipo de atividade cerebral. Quanto mais dados ela
tiver, melhores e mais valiosas serão suas leituras, claro. Como a indústria
tecnológica está há uma década extraindo todos os dados
que possam obter do uso de aplicações e dispositivos, a possibilidade de
espremer cada neurônio é um filão irresistível.
Potencial de desastre
A
regulação proposta pelo grupo de Yuste tem dois enfoques. Um de autorregulação,
com um juramento tecnocrático que submeta deontologicamente engenheiros,
programadores e outros especialistas dedicados à neurotecnologia. Neste
sentido, há uma negociação com as autoridades espanholas para levar o espírito
desse juramento à Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, atualmente em
preparação pelo Governo. Por outro lado, Yuste aspira a que os neurodireitos
sejam incorporados à Declaração de Direitos Humanos,
e que os governos estabeleçam um marco jurídico que evite os abusos. O pioneiro
será o Chile, com cujo Governo o grupo tem quase fechada uma legislação
específica e sua inclusão na nova Constituição.
“O que me
preocupa com mais urgência é a decodificação dos dados neurológicos: a
privacidade máxima de uma pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser
possível decifrar isso”, avisa Yuste. “Estamos fazendo isso diariamente nos
laboratórios com ratos, e quando as empresas privadas tivessem acesso a esta
informação você vai rir dos problemas de privacidade que tivemos
com celulares até agora. Por isso precisamos de neurodireitos,
porque é um problema de direitos humanos”, resume. O neurocientista quer
alertar à população que “não há nada de regulação, e isso afeta os direitos
humanos básicos”.
“Existe um potencial para o
desastre se deixarmos que continue escapando das nossas mãos, porque há uma
total falta de regulação”, avisa Martínez-Conde
A
neurobióloga Mara Dierssen, que não está envolvida na iniciativa de Yuste,
destaca os problemas bioéticos decorrentes das possibilidades de melhora do ser
humano pela neurotecnologia. Embora afirme haver muito sensacionalismo e
arrogância em torno de empresas como a de Musk, Dierssen ressalta que “em longo
prazo se pretende que os implantes possam entrar no campo da cirurgia eletiva
para quem quiser ‘potencializar seu cérebro com o poder de um computador’”.
“Que consequências pode ter a neuromelhoria em um mundo globalizado, biotecnificado e
socioeconomicamente desigual? Inevitavelmente surge a grande
pergunta de em que medida essas técnicas seriam acessíveis a todos”, questiona
Dierssen, pesquisadora do Centro de Regulação Genômica e ex-presidenta da
Sociedade Espanhola de Neurociência.
Para a
neurocientista Susana Martínez-Conde, trata-se de uma iniciativa “não só
positiva como também necessária”. “Estamos dando conta como sociedade de que os
avanços tecnológicos vão muito além do que estamos preparados filosófica e
legalmente. Enfrentamos situações sem experiência prévia na história”,
afirma Martínez-Conde, diretora do laboratório de Neurociência Integrada da
Universidade do Estado de Nova York. “É necessário que prestemos atenção,
porque a neurotecnologia tem repercussões diretas sobre o que significa ser
humano. Existe um potencial para o desastre se deixarmos que continue escapando
das nossas mãos, porque há uma total falta de regulação. É hora de agir antes
de um desastre em escala global”, avisa.
Este
desastre tem ressonâncias históricas. Enquanto conversa de seu escritório de
Columbia, Yuste observa o edifício onde foi lançado o projeto Manhattan, que
desembocou no lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e
Nagasaki. “Esses mesmos cientistas foram depois os primeiros na
linha de batalha para que se regulasse a energia nuclear. A mesma gente que fez
a bomba atômica. Nós estamos ao lado, impulsionando uma revolução
neurocientífica, mas também somos os primeiros que temos que alertar a
sociedade.”
Os novos neurodireitos
O grupo
impulsionado por Rafael Yuste desenvolve suas preocupações em torno de cinco
neurodireitos:
1 -
Direito à identidade pessoal. Esses especialistas temem que ao conectar os
cérebros aos computadores a identidade das pessoas se dilua. Quando os
algoritmos ajudarem a tomar decisões, o eu dos indivíduos pode se
esfumar.
2 -
Direito ao livre-arbítrio. Este neurodireito está muito ligado ao da identidade pessoal. Quando
contarmos com ferramentas externas que interfiram em nossas decisões, a
capacidade humana de decidir seu futuro poderá ser posta em xeque.
3 -
Direito à privacidade mental. As ferramentas de neurotecnologia que interagem com
os cérebros terão capacidade para reunir todo tipo de informação sobre os
indivíduos no âmbito mais privado que possamos imaginar: seus pensamentos. Os
especialistas consideram essencial preservar a inviolabilidade dos neurodados
gerados pelos cérebros humanos.
4 -
Direito ao acesso equitativo às tecnologias de ampliação. Yuste acredita que as
neurotecnologias trarão inumeráveis benefícios para os humanos, mas teme que se
multipliquem as desigualdades e privilégios de alguns poucos que terão acesso a
estas novas capacidades humanas.
5 -
Direito à proteção contra vieses e discriminação. Nos últimos anos, vieram à tona
vários casos em que os programas e algoritmos multiplicam os preconceitos e
vieses. Este direito pretende que essas falhas sejam buscadas antes de sua
implantação.
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