O fenômeno gospel: dos
escravos à popularização 02
O nome,
“GOSPEL” vem de “GOD SPELL” que, ao pé da letra, quer dizer, “Deus soletra”,
mas tem um contexto bíblico que são as “Boas novas”, o evangelho que deve ser
levado a todas as pessoas e também significa levar a boa notícia da vinda de
Cristo ao mundo.
As
canções tradicionais foram deixadas de lado e outras adaptadas quando negros
africanos, escravizados nos Estado Unidos, no século XVIII, passaram a entoar
novos cânticos como forma de aliviar a dor que sofriam por conta do abuso, do
trabalho pesado e da exploração. Essas canções, de início eram feitas a noite,
após o trabalho na plantação, pois eram proibidas, mas com o passar do tempo,
os donos dos escravos perceberam que o trabalho rendia mais, então passaram a
autorizá-los durante as atividades do dia.
Mas, além
da mensagem bíblica, eles se utilizavam da música para se comunicar entre si e
informar aos companheiros que desejavam fugir, quais eram os caminhos e rios
não indicados para se passar, quantos guardas estavam pelo caminho, como era o
caminho pelo qual passariam, etc. Tais mensagens passavam desapercebidas pelos
seus senhores e cada vez ganhavam mais força. Foi a partir destas canções que
veio surgiu o “Spirituals”, que inicialmente era caracterizado por suas canções
melancólicas.
Quando a
escravidão foi abolida, o costume de cantar essas canções continuou e invadiu
as igrejas e os templos afro-americanos por todos os Estados Unidos, nascendo
assim o gênero musical, gospel. A partir de então, foram–se acrescentando
instrumentos às canções. No início, na década de 20, além das palmas passa-se a
usar o violão e o banjo e, na década de 30, o piano. A partir de 1940 houve a
formação e consolidação de muitos grupos que marcaram a década seguinte se
apresentando em programas de televisão. Isso sem contar o crescimento nas
apresentações em casas de show e festivais de jazz.
Esse
estilo musical influenciou negros americanos a criar novos estilos como o
Blues, o Jazz e a Ragtime. Não só estilos musicais que foram surgindo a partir
do gospel, mas também cantores como, Mahalia Jackson, Aretha Franklin, Ray
Charles, Elvis Presley, entre outros, que fizeram muito sucesso e tiveram seu
primeiro contato com a música através do mesmo. Este último, por exemplo,
quando criança, integrou o coral de numa igreja evangélica a qual frequentava
com sua família e lá conheceu o blues. Mesmo tendo sido consagrado como o “rei
do rock”, Elvis, durante sua trajetória, lançou diversos “singles” gospel.
Pode-se
dizer também que a música gospel sofreu fortes influências da música negra
americana, assumindo novas formas, muito diferente daquilo que era encontrado
dentro das igrejas. Nas décadas de 70 e 80, com o uso de sintetizadores e
tecnologia, o rock, o hip hop e a música erudita passam a ser os novos estilos
musicais dentro do gospel. No Brasil, o gênero musical chegou através de
missionários presbiterianos e batistas americanos e foi traduzido, dando origem
a hinários muito conhecidos e cantados nas igrejas até os dias de hoje, como
Cantor Cristão e Harpa Cristã.
A música
gospel tem se adaptado para atrair os diferentes gostos musicais das pessoas e
não é à toa que hoje representa uma fatia considerável do mercado. Nos últimos
anos, o número de bandas que tocam essas canções tem aumentado e os estilos
musicais que eram ouvidos somente nas músicas “seculares”, hoje, passam a fazer
parte desse gênero, como o funk, o pagode, o axé, etc.
Da mesma
maneira que o gospel é influenciado pelo meio secular, o secular, por sua vez,
também sofre influências do meio gospel, como por exemplo o surgimento da
música erudita no Brasil ter sido dentro das igrejas, com o barroco baiano e o
mineiro e depois passou a ser utilizada fora do gospel. Nos últimos anos, a
música gospel, ultrapassou barreiras que têm atraído a atenção do mercado,
movimentando cerca de 1,5 bilhão ao ano e empregando, cerca de 2 milhões de
pessoas no mesmo período. Para se ter uma ideia, só em 2009, o mercado
fonográfico lucrou 359 milhões de reais em vendas de CD’s, DVD’s e mídia
digital e o ECAD, 358 milhões em arrecadações de direitos autorais.
Há pouco
tempo, o gênero passou a ter categoria própria no Grammy Latino, que é o
“Oscar” da música. Em 2012, foi sancionada uma lei, pela presidenta Dilma
Rousseff, que torna a música gospel uma manifestação cultural como também todos
os seus eventos, exceto os promovidos pelas igrejas. Tal lei também, faz com
que os artistas sejam beneficiados pela lei “Rouanet”, que dá o direto de
empresas e pessoas físicas usarem parte do tributo a ser pago no imposto de
renda em ações culturais.
Este segmento do mercado cresce 15% ao ano e prova
que a música gospel tem sido aceita por um parcela significativa da população,
já que hoje está na lista entre as mais pedidas das rádios, entre os CDs mais
vendidos, pois não se trata apenas de “música religiosa”, mas de música que
traz mensagem positiva, que fala de justiça social, repúdio às drogas, harmonia
entre os homens e a valorização da família
tegral
1)Investigar
sobre a música baiana enquanto um fenómeno musical de massa é desafiador. Já
que exige certa habilidade, além de um olhar crítico sobre esse produto
cultural, visto que o seu conteúdo reiterou construções discursivas de um
discurso dominante. Nesse sentido, a atuação de blocos afros na década de 1970
e a disseminação da axé music nos anos 1980, fez com que a música baiana
transcendesse o âmbito do carnaval, materializasse dentro de um projeto
estético-político e estendesse ao trabalho de recuperação, preservação e
valorização da cultura de origem africana.
2A origem
do discurso de afirmação da diferença é antiga e remonta ao final do século
XVIII tendo, portanto, raízes na Revolução Francesa. Nesse período, utilizou-se
o discurso das tradições para defender costumes historicamente construídos e
legitimados como naturais. Tal discurso da natureza da diferença, nós podemos
encontrar nos fins do século XIX e começo do XX, que pautava--se no “dado
biológico” para justificar a legitimidade do racismo, que tratava a diferença
preconceituosamente, respaldado por um pseudo discurso “científico”. O racismo,
tal como concebemos hoje passou por profundas transformações, em decorrência
das mudanças provocadas pela globalização.
3É válido
ressaltar que a natureza e a complexidade da temática aqui proposta exigiriam,
pelo seu rico conteúdo, uma cuidadosa análise. Com esta certeza, o meu
propósito, neste artigo, é tão somente levantar pontos para contribuir para o
debate e contextualização, dando, assim, suporte histórico e metodológico à
análise das letras das músicas.
4Dessa
forma, o presente trabalho analisa discursivamente e historicamente letras de
músicas da banda Reflexu’s, tendo em vista que a Análise de Discurso trabalha
com a língua no mundo, “com maneiras de significar, com homens falando,
considerando a produção de sentidos enquanto parte das suas vidas, seja
enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade”
[Orlandi 2005:16].
5As músicas
da banda Reflexu’s descrevem cenários históricos que caracterizam o racismo na
África e no Brasil, denunciando por meio delas, as diversas formas de
preconceito. É perceptível que os compositores se preocupavam em apontar
momentos de transformação do homem e de sua realidade, analisando criticamente
as relações raciais no Brasil e em África, especialmente, tarefa difícil,
sobretudo, porque nelas, persistiam uma imagem de nações racialmente
democráticas.
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